sábado, 31 de janeiro de 2026
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Pílulas para o Silêncio (Parte CCLXVII)

                                                                  Clauder Arcanjo*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(“Sonho de uma meretriz”, de Cícero Dias)

 

Entre risos, silêncios e conchambranças

 

Se eu não tomar cuidado, a Burguesia e os poderosos do mundo me lascam mais ainda! Até hoje, à custa de quengadas, conchambranças e picardias, tenho conseguido forçar a Burguesia a me pagar, inclusive para falar mal dela. Assim, enquanto o Reino-de-Deus não chega, com sua Justiça, vou conseguindo furar, abrir caminho e sobreviver, ora me fingindo de leso, ora de doido, ora de Palhaço. 

(Ariano Suassuna, em As Conchambranças de Quaderna)

 

Explicação e dedicatória

Este texto nasceu em uma manhã ensolarada. Nela, o meu amigo Valter Silva Júnior, que venera (e se extasia com) o belo, me levou a refletir, com o seu “riso a cavalo”, acerca das coisas verdadeiras, simples, limpas e puras. Ele lera, recentemente, Ariano, instigado pelo jovem cavalheiro Pedro Siqueira. Quando menos percebi, estava em “galope de sonho”, a unir meus personagens com os de Ariano Suassuna. E as minhas dores se escafederam, e a vertente cômica tomou conta do dia. Por obra e graça do Senhor do Bonfim e de Nossa Senhora da Penha, Valter e Pedro devolveram-me “a alegria e a coragem para enfrentar a dura mas fascinante e bela tarefa de viver.” 

 

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Primeiro Ato

 

Mal pus os pés no reino de Licânia, reencontro com o Companheiro Acácio. Coloca a mão no meu ombro, faz um chamego no gato Nabuco, fiel companheiro. Em seguida, Acácio conduz-nos à beira do rio e nos apresenta a um homem que observava, absorto, a enchente de maio. De repente, espalhafatoso, o senhor exclamou: 

— Este rio não é do reino de Deus! — exaltando-se, de braços abertos para o nascente. 

Eu, calado estava, calado fiquei; mas Acácio, a roer uns cavacos de silêncio, resolveu informá-lo: 

— Este aguaceiro, amigo Quaderna, nasce no cocuruto de uma serra, onde as mariposas se encantam com o luar e põem seus ovos de riso nas correntes do Rio das Garças. 

Quaderna, “autodeclarado herdeiro do trono do Brasil e aspirante ao título de gênio da raça brasileira”, com seu traje cáqui singular, de Rei e de Palhaço, circulou em torno de nós e, versejando, decantou: 

— Se este rio é das garças, o meu paletó é de chita. / Se Chiquita fosse viva, amigos, eu por ela morreria. 

Nabuco miou com o rabo eriçado, Dom Pedro Dinis Quaderna, o decifrador armorial, suspirou na sua bonomia régia, onomântica e transcendental. 

E Acácio, companheiro de longas picardias e conchambranças, caiu no pote fundo do riso. Sem delongas, nem milongas, tirou a roupa e, tchibum!, deu uma cambalhota, caindo nas águas, para se lavar (e se rebatizar) naquele rio heráldico, maravilhoso e brejeiro. 

 

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Segundo Ato

 

Entramos na igreja, Companheiro Acácio, Nabuco, Quaderna e eu. 

Na frente do altar, Quaderna ajoelhou-se e mastigou uma prece para os desvalidos. Pouco depois, incomodado, pediu silêncio a dois bêbados que o ladearam. E, em seguida, puxou um terço em honra de todos os condenados. Não sem antes professar: 

— “Nobres Senhores e belas Damas que me ouvem! Dirijo-me aos Africanos, aos Índios, Ibéricos, Mestiços, Árabes, Asiáticos e Latino-americanos, isto é, a todos os Brasileiros do mundo!” Somos herdeiros de Conselheiro, afilhados de Lampião, parentes próximos do Bendito, primo-irmão da Virgem Maria, a Divina Conceição. Rezemos para os que se foram, sem direito a missa de corpo presente, nem extrema-unção, em especial aos que partiram e desapareceram no esquecimento da Nação, nos porões da ditadura. 

Um dos bêbados, à sua direita, resolveu aparteá-lo: 

— Falou bonito, seu Zé! Tal qual um romanceiro. 

Quaderna arrepiou os beiços, subiu o cós da calça, coçou o cocuruto, já deveras arreliado, e soltou-lhe, entre uma ave-maria e outra: 

— Não sou nem Zé, nem Chico. Apesar de respeitar todos os Beneditos. Sou Quaderna, Conde da Pedra do Reino, e disso não abro mão, nem despisto. “Vocês estão diante de um Imperador e Rei, Dom Pedro Dinis Quaderna, o Decifrador-armorial, Gênio da Raça…” 

— Muito bem! 

O bafo quente e azedo do bêbado que o aparteara mexeu com a paciência do nosso visitante. Antes que a coisa campeasse para um chafurdo na Casa de Cristo, o Raimundo sacristão chamou pelos dois bebuns, prometendo-lhes alguns cálices de vinho nos fundos da sacristia. 

— Miau… Shifz… futz… 

— Não pronuncie más palavras, Nabuco, estamos na Casa do Pai. E vamos acabar logo com essa putaria. Opa!, me desculpe Senhora Sant’Anna, acabei esporeando demais a língua. Cala-te, boca! 

 

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Terceiro Ato

 

— Tudo aqui termina, quer seja pobre, quer seja rico. Quer nasça homem, quer nasça dama. Tudo ao pó retorna! 

Entramos no cemitério, e já ouvimos tal ladainha de mais um cachaceiro de Licânia. Este perdido nos eflúvios do álcool, a sofrer de uma ressaca tão condenada, que a morte lhe seria augusto prêmio. 

— “Nobres Senhores… que me ouvem! O grande problema do Espetáculo do Mundo é que o Autor que o criou é um só, mas o Encenador que o dirige são dois! E vivem brigados, cada um querendo levar a Peça para seu lado! Os caminhos dos dois são opostos: um é da Vida, outro é da Morte!…” — declarou Quaderna. 

— Bravo! Bravo! — saudou o pinguço. 

Ocorreu então uma bagunça ou função religiosa. Nabuco lhe arranhou a canela fina; Acácio simulou seu ataque à coice de burro mulo, Dom Quaderna conteve seu cocorote daqueles de afundar juízo aprumado e eu, a vontade de empurrar o desgramado ladeira abaixo. Dizem as más línguas que o tal biriteiro, assustado, desembestou léguas mil e ainda não foi para o Céu nem para o Inferno, porque ainda não parou de descer a ladeira da vida; pois, só então, poderá fazer a sua viagem final. 

 

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Cai o pano em silêncio, porém o espetáculo cá fora continua. Isso se o riso permanecer na comissura dos seus lábios, caro leitor, ou na memória mágica e jubilosa de quem permanece criança, quer no reino do claro ou do escuro. Se não, puff!, “nem mel nem cabaça.” 

 

Toquem e cantem, porque eu quero sair daqui num Cortejo real! 

(Ariano Suassuna, em As Conchambranças de Quaderna)

 

*Clauder Arcanjo é escritor e editor, membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras. 

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