HOMENS DE TRÊS METROS

Nilo Emerenciano - Arquiteto e escritor.

Eu era só um garoto quando, atraído pelo título, fui ver um filme intitulado “Um homem tem três metros de altura” (Edge of the City, 1957). Ao contrário do que pensei não era ficção cientifica, com gigantes e homenzinhos de Marte, mas um drama denso e violento, tratando de relações sociais entre os estivadores das docas de Nova York. O personagem de Sidney Poitier desenvolve uma amizade com um branco e a coisa vai terminar em tragédia. Os gestos de grandeza naquele ambiente pesado fazem pensar sobre os três metros de altura de alguns homens.

Essa introdução é para falar sobre a sensação que às vezes a gente sente de viver entre anões morais. Pessoas que se deixam dominar por mesquinharias, maldades, ambições. O caso mais recente da operadora de saúde Prevent Sênior, em que mortes foram ocultadas, diagnósticos sofreram alterações criminosas e medicamentos foram testados em pacientes como cobaias, é um exemplo dolorido disso. Mas a existência dessas grandes almas, gente de estatura superior, nos encoraja e acende a luz da confiança no homem. Conheci várias no decorrer da vida e tenho certeza que todos, em um momento ou outro, tiveram contato com alguém assim, um tio, uma avó, um professor ou mesmo um estranho que foi uma luz na vida de pessoas. Não que fossem perfeitos, pois ninguém o é. Mas aí reside a grandeza, em não permitir que os defeitos nos paralisem ou sirvam de pretexto para a inação.

E há aquelas pessoas que se tornam anjos para um grupo, uma comunidade, uma cidade. O padre Júlio Lancellotti, com certeza, é uma dessas. Sua atividade junto aos desvalidos da cidade de São Paulo é notória. Padre Júlio leva marmitas para os usuários da Cracolândia, mesmo enfrentando às vezes a polícia e a opinião dos que acham que viciados não são gente e não merecem solidariedade. Além de ameaças à sua vida. Mas ele não para. Nas noites frias distribui cobertores e barracos com os moradores de rua.  “- Humanizar a vida significa entender que existe conflito. E você não humaniza a vida numa sociedade como a nossa sem conflito”, diz, de forma corajosa.  Qual o tamanho do padre Júlio?

Ocorre-me uma personalidade quase anônima: Benedita Fernandes (1883-1947), de Campos Novos, São Paulo. Pobre, filha de escravos, com problemas mentais, perambulando pelas ruas de Penápolis, SP, foi colocada na cadeia como se fosse louca. Teve a sorte de receber cuidados de seu carcereiro e de tarefeiros espíritas que lhe assistiram. Foi o início de um belo trabalho, pois a gratidão pelo benefício recebido impulsionou Benedita para iniciar um trabalho de construção de casinhas de madeira para socorrer os pobres da periferia de Araçatuba para onde havia se mudado. Fundou, junto com outras senhoras, a Associação das Senhoras Cristãs (1932) para ações sociais, depois desdobrada em duas outras instituições, a Casa da Criança, para crianças órfãs desamparadas e o Asilo Dr. Jaime de Oliveira, voltado para doentes mentais. São inúmeros os relatos de suas ações pelas crianças, mendigos e doentes de todo o tipo.

Assim mãe Dita, como era chamada, pobre, semianalfabeta, teve uma vida plena de serviço para o próximo.  Alguma dúvida para a estatura dessa mulher? Daqui, de onde observo, acho que ela cresceu muito mais que três metros.

Temos também o nosso gigante moral. O padre João Maria Cavalcanti de Brito (1848- 1905) foi (e é) o anjo da cidade. Seu lema de vida, “omnia omnibus” (tudo para todos) já evidencia o seu pensamento. Desprovido de ambições pessoais, o padre João Maria viveu para os necessitados, os deserdados da sorte, os fugitivos da seca que chegavam aos montes em Natal, aos contaminados pela varíola que assolou a cidade e todos que o procuravam. Foi tudo para todos, na verdade. Vigário, médico, enfermeiro, assistente social, guia espiritual, abolicionista, jornalista (fundou o jornal Oito de Setembro). Contam que doava até o tecido destinado às suas próprias batinas. Seu esforço em cuidar dos doentes fez com comprometesse a própria saúde. Morreu no Alto do Juruá, ali onde hoje há a igreja Nossa Senhora de Lourdes, em Petrópolis. Dom Nivaldo Monte deixou dito sobre ele: “No despojamento da pobreza mais absoluta e no serviço de sua incansável caridade, ele cumpriu o mandamento do Senhor: amar a Deus de todo o coração e servir ao próximo até a morte. Por isso ele é chamado o Anjo da Cidade”.

Nem sei se ele gostaria de ser canonizado. Essas grandes almas prezam pela simplicidade e modéstia. E essas virtudes as elevam a um patamar bem mais alto que o nosso. No meu coração o Padre João Maria ocupa um lugar muito especial assim como o padre Júlio Lancellotti e Benedita Fernandes e por isso, respeitosamente, cumprimento todos eles: – A sua bênção, padre Júlio; a benção, Mãe Dita; a benção, padre João!

 

NATAL/RN.

 

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