quinta-feira , 19 de outubro de 2017
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Wyllo Marques – O ciclismo e seus riscos, aprendendo com o perigo e as tragédia

Hoje em dia ser “fitness” e praticar atividade física está na moda. Na esteira disso temos o crescente número de pessoas que aderiram à bicicleta como prática na vida cotidiana, seja por necessidade, prazer ou por alguma causa nobre como reduzir a poluição. Pedalo há três anos apenas (há dois participo de competições de estrada) e sei de muitas estórias de acidentes envolvendo ciclistas, a mais recente delas a que vitimou fatalmente um amigo enquanto treinava no mesmo local que utilizo quase todos os dias.

Cabem aqui alguns esclarecimentos quanto aos riscos da atividade ciclística que variam de acordo com o uso que se faz da bike, local onde pedala, objetivo, equipamentos utilizados etc… Para isso vamos tentar explicar um pouco cada um dos tipos em ordem crescente de risco na opinião de quem os escreve, apesar de acidentes fatais serem passíveis de acontecer com todos que pedalam.

1-     O ciclista que usa a bicicleta como meio de transporte urbano. Normalmente anda em baixa velocidade, não usa nenhum equipamento de segurança e tem pouquíssima percepção de risco, andando na contramão, por cima de calçadas etc. Muitos se aventuram a tomar sua “cerevejinha” do fim de semana e voltam para casa correndo muito mais riscos por essa condição. Normalmente os acidentes envolvendo estes ciclistas são simples, levando a pequenas escoriações pois andam em baixíssima velocidade junto com os carros do trânsito em geral que param em semáforos, pegam engarrafamentos e por isso também estão normalmente em velocidade reduzida. Muito comum serem “fechados” em esquinas sem maiores prejuízos para a saúde.

2-     O ciclista que passeia de bicicleta. Faz uso da bike nos fins de semana ou ocasionalmente, anda com a família ou amigos (quase sempre em grupo, o que aumenta a visibilidade dos veículos) muitas vezes em trilhas tranqüilas e também anda em baixa velocidade. Muitas vezes anda em BRs e pista mais movimentadas o que torna a atividade um pouco mais perigosa. Andam numa bicicleta chamada de “Moutain Bike” (MTB) própria para trilhas o que facilita passar por buracos e pedras que eventualmente apareçam no caminho. A condição da bicicleta, com pneus grossos e amortecedor, dá condição de andar pelo acostamento sem nenhum problema, se mantendo assim um pouco mais longe do rolamento da pista. Classifico essa atividade com um pouco mais de risco que a anterior pois a condição de poder andar nas trilhas e de rodar nas rodovias, principalmente esta última, eleva significativamente a probabilidade de um acidente mais grave. Muitas vezes não utilizam capacetes e luvas e normalmente não utilizam sapatilhas de ciclismo (que prendem os pés nos pedais).

3-     O ciclista de MTB que treina e compete. Esse já tem um nível significativo de risco. A condição de treino eleva a velocidade da pedalada e os coloca em condições extremas de descidas íngremes além das estradas de barro, que só tem espaço para um automóvel e se este vier no sentido contrário, somada  à velocidade, o frio na barriga e inevitável. Por estarem em condição de treino o desgaste físico é grande levando a perda parcial da capacidade sensorial. O instinto competitivo os faz se arriscar muito mais que os da categoria anterior estes já sofrem acidentes constantemente porém pouco se tem conhecimento pois normalmente não são fatais. Acontecem muitas quedas com arranhões, quebra de ossos mas por terem pouco contato com rodovias os atropelamentos (principal causa de mortes entre ciclistas) é menos comum.

4-     O ciclista que anda de bikes de competição (speed ou triatlon), as chamadas “finas”. Esse está em risco constante, os acidentes fatais são muito comuns e estão cada vez mais presentes dado o aumento do número de adeptos da modalidade. Só há um lugar para praticar: as estradas. Sujeitos a carros em alta velocidade e motoristas bêbados todos os dias. A velocidade atingida é muito alta e a bicicleta tem um pneu muito fino, sendo inflado a alta pressão parecendo até que são maciços como um pedaço de madeira. Por essa condição qualquer pequena pedra no caminho pode levar a um acidente grave. Não conseguem andar pelo acostamento pois o asfalto normalmente é ruim com pequenas ranhuras ou pedras soltas o que torna a pedalada desconfortável além de mais perigosa. Assim andam na rolagem dos carros, normalmente em grupos e muito próximos uns dos outros para aproveitar o “vácuo” deixado pelo ciclista que vai na frente – o que gera uma vantagem considerável para quem anda atrás. O problema da proximidade é que qualquer movimento em falso de um colega leva ao efeito dominó, não se consegue frear para evitar a batida no outro por causa da velocidade e proximidade. Se participar de competições aí o negócio piora. Muitas vezes em descidas chega-se a 70-80Km/h o que dificulta muito o controle da bicicleta. As rajadas laterais de vento são outro perigo que exigem atenção. Uma queda pode facilmente jogar o ciclista no meio da via e com um pouco de azar ser atropelado. Quedas em grupo são comuns, muito mesmo. Para estes ciclovias são inúteis pois precisam de muito espaço com pedaladas longas (normalmente mais de 50km , podendo chegar a 200-300km em um fim de semana), é o mundo do ciclismo de estrada de competição. Ainda há os andam com bikes de triatlon que por causa da posição aerodinâmica – pasmem – não tem acesso aos freios, precisam se levantar e pegar em outra parte do guidão para frear, esse tempo pode ser precioso para evitar um choque. Os dessa categoria normalmente tem uma estória pessoal de acidente para contar.

Resolvi escrever pois muitas pessoas questionam atitudes do poder público para incentivar o esporte, a mobilidade urbana, a educação no trânsito… Porém, como visto acima, as situações são as mais diversas e suas soluções também. Sinceramente não sei como fazer ciclismo seguro com ações simples, todas passam por trabalhos complexos demandam educação, obras e estruturas para garantir segurança para atletas. Por enquanto ficamos chorando as mortes e deixando parentes aflitos sempre que saímos em cima de uma bicicleta, o que era brincadeira de criança virou assunto nacional!

Wyllo Marques Ferreira Júnior é funcionário público e atleta amador de ciclismo de estrada desde 2013.

Mossoró/RN 09/05/2016