sábado , 23 de setembro de 2017
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“Uma renúncia de Temer acalmaria o país?”

Análise política do jornal EL PAÍS

13.06.17

Juan Arias

Juan Arias

Talvez o presidente Michel Temer se arraste legalmente até 2018, mas seu mandato e seu governo estão mortos.

Estão sendo sepultados pelas investigações da Lava Jato e pelo esforço de todos para fazê-la naufragar.

O que fazer?

A renúncia de Temer acalmaria os ânimos de uma sociedade cada dia mais perplexa e que começa a desconfiar até da justiça, que parecia o último baluarte de esperança para regenerar o sistema?

Dizem que alguns partidos e políticos importantes prefeririam que Temer chegasse sangrando a 2018.

Isso interessa ao país?

Existe, sem dúvida, o problema pessoal do presidente, que só ele pode resolver segundo sua consciência, e existe o que seria melhor para o país, para sua economia e para sua estabilidade democrática.

O dilema não é fácil e, apesar de faltar pouco mais de um ano para as novas eleições presidenciais, pode se tratar de um tempo infinito que acabe minando ainda mais instituições já cambaleantes.

Hoje, até seguidores de Dilma duvidam se não teria sido melhor, para ela e para o país, ter renunciado antes de se submeter ao duro, polêmico e lento ritual de impeachment.

Teria sido um gesto que a teria enaltecido.

E diante do que hoje vive o país, uma decisão que tivesse economizado na época, com eleições diretas, o embaraço por que passa não só a presidência de Temer mas quase toda a classe política.

Se Temer renunciasse, assegurando uma sucessão tranquila por parte do Congresso, que respeitasse a atual equipe econômica e preparasse sem sobressaltos as eleições presidenciais de 2018, talvez o país pudesse deixar de sangrar.

Já é grave a possibilidade de que a crise econômica se aprofunde, arrastada pela incerteza da guerra aberta entre Poderes do Estado, e uma nova saída forçada do presidente da República, desta vez por motivos de corrupção, poderia criar uma crise sem precedentes desde os tempos obscuros da ditadura.

A quem serviria um desenlace traumático com os três Poderes do Estado em guerra e com uma sociedade inclinada a substituições de cunho autoritário ou populista?

O mundo tem os olhos postos no Brasil e com não com pouca apreensão.

Não é uma alegria para ninguém, dentro ou fora do país, ver um gigante econômico, no qual tantas esperanças foram depositadas, cambalear agitado por uma crise interna plena de incertezas lúgubres.

Temos ao lado a Venezuela, o rico país vizinho que se desgarra e se desfia todo dia atormentado pela teimosia de políticos que preferem o caos, e até a miséria das pessoas, a apear de um poder que se sustenta à força, contra a vontade da maioria.

Os analistas mais serenos concordam que o Brasil ainda está em tempo de dar marcha ré da loucura que o agita e oferecer à sociedade a possibilidade de decidir em paz sobre seu destino em eleições livres em 2018.

Se o grau de responsabilidade depende da força do poder de quem preside as instituições, neste momento cabe a Temer, que está no fim de seu longo caminho político, até ontem sem máculas, oferecer ao país uma saída o menos dolorosa e perigosa possível, por mais difícil que lhe seja pessoalmente.

Li que, depois de se conhecer as fatídicas conversas que hoje o incriminam, Temer chorou pensando no que dizer amanhã a seu filho.

A seu filho e a todo um país, cansado de uma classe política que parece ter se esquecido da dor das pessoas, preocupada e absorta como está em como acabar com a Lava Jato para salvar a própria pele.

Os brasileiros comuns, os que continuam sustentando o país com seu trabalho duro e honrado para que não se afunde ainda mais, sabem o que querem e estão à espera.

E todos sabemos, pela História antiga e recente, onde pode desembocar a ira dos que se sentem traídos.