sábado , 25 de novembro de 2017
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Thadeu Brandão – O Facebook e a vigilância contemporânea

Em excelente artigo na Revista Piauí número 132, John Lanchester resume bem os perigos e as intenções da rede social de internet mais usada no mundo. Com atuais 2 bilhões de usuários e com 66% de frequência de uso diário, está à frente do YouTube e do WhatsApp, ambos de propriedade do próprio Facebook. O autor mostra que a intenção do Facebook é “capturar e revender a atenção dos usuários”, monetarizando como nunca antes, esse processo.
Como Marx já havia apontado no “O Capital”, acerca do fetichismo da mercadoria, o Facebook leva esse processo ao extremo e às suas últimas consequências. Se hoje, na internet, as empresas operam em um ambiente cujo campo ainda é mal compreendido, tanto pelos clientes como pelas autoridades reguladoras, temos um vácuo imenso que possibilita a veiculação de “conteúdo extremista e terrorista, material roubado, violação de direitos autorais” e, mais do que nunca, violação de direitos civis e humanos. É o espaço privilegiado da debacle do Estado de Direito Moderno.
Hoje, conforme mostra a matéria, capturar e revender atenção vêm constituindo a base de grande número de negócios na contemporaneidade. O Facebook apenas se filia a uma extensa linhagem de empreendimentos desse tipo, embora seja o tipo mais “puro” de uma empresa voltada unicamente para isso.
Sua serventia? Liga-se à dinâmica social da popularidade e do status. Conforme aponta Lanchester, “a ideia era que o usuário satisfizesse a curiosidade quanto ao que os outros como ele faziam, compartilhar suas conexões sociais, permitir a comparação, o autoelogio e o exibicionismo, dando plena vazão à ânsia e à inveja, mantendo o nariz pressionado contra a vitrine da loja de doces da vida alheia” (p. 54).
Afinal, fazemos todo o possível para que nos vejam como queremos ser vistos, e o Facebook é a ferramenta mais popular que a humanidade já criou com essa finalidade. Mas, como ele faz isso? Ele tende a separar e a atomizar seus usuários em grupos de pensamento semelhante, as chamadas “bolhas”. Estreita-se cada vez mais o “nós”, circundando em grupos que pensam, agem e consomem as mesas coisas. Não é à toa que o Facebook interfere cada vez mais na política, seja através dos “fake news” (notícias falsas e forjadas) e criando um ambiente agora chamado de “pós-verdade” (nada mais que a velha “ideologia” de Marx).
Temos aqui exatamente o oposto da noção de Política esboçada por Hannah Arendt: se retrocede do espaço público e se isola em verdadeiras casamatas ideológicas isoladas. Ninguém mais tem interesse em debater. Ninguém mais quer a verdade. A verdade está fatalmente morta (e com ela, o velho jornalismo e as formas de noticias anteriores ao advento do Facebook e do smartphone).
Com o uso de robôs virtuais e de outros mecanismos para difundir mentiras e falsas notícias, a hipocrisia reina no Facebook: nus, qualquer tipo, são proibidos e logo censurados. Mas a violência, misoginia, racismo e outras formas simbólicas de agressão se perpetuam com a conivência cínica da empresa.
Se boa parte do conteúdo é falsa, o que prende-nos ao Facebook e seus similares?
A questão é que, na estrutura social e cultural de reprodução da realidade, o Facebook nada mais é do que uma empresa de publicidade onde, longe de sermos os clientes (achamos que sim), na verdade temos nossos perfis, gostos, manias, enquadramentos, etc., vendidos a empresas com um simples clique. Os seus feeds de noticias nos encaminham para “produtos” que, invariavelmente (e devido a algoritmos de pesquisa e correlações complexos) estaríamos “precisando”. Essa montanha de informações, vendidas às empresas, dizem muito sobre nós.
Somos rastreados não apenas quando fazemos notificação de nossas posições, mas pelo próprio uso do Facebook em nossos celulares. A empresa conhece o identificador dos celulares de TODOS os seus usuários. Nenhuma instituição de vigilância do mundo (pense em qualquer uma) é tão poderosa. O Facebook é o verdadeiro Big Brother da vigilância: hoje em nome da monetarização e do lucro. Amanhã (no caso da eleição de Donnald Trump, já hoje), em nome do poder. Nunca na história da humanidade uma empresa ou instituição soube tanto a nosso respeito quanto o Facebook.
Mas, o mais notável é a infelicidade absurda que o Facebook nos traz, apesar de pensarmos o contrário. Segundo o artigo “O uso do Facebook e o compromisso do bem-estar: um estudo longitudinal”, publicado no American Journal of Epidemiology, quanto mais as pessoas usam o Facebook, mais elas são infelizes. Outros estudos corroboram os dados e, até agora, a tendência é que seja unânime entre psiquiatras e psicólogos, a visão de correlação entre Facebook e aumento de infelicidade e depressão.
As pessoas estão trocando relações “reais” (off line) por relações on-line. Laços fortes por laços fracos, no dizer da Nova Sociologia Econômica. Como expressou o autor do artigo da Piauí: “o Facebook fazem as pessoas se sentirem uma merda”.
Não há nada de meritório nisto. Necessário séria reflexão, na medida em que a automação e a inteligência artificial levarão essas tecnologias a novos patamares e a novos controles. Uma nova forma de vigilância que poderá ajudar a levar a uma nova forma de totalitarismo que, nem Hitler ou Stálin, poderiam ter sonhado antes.
Ainda é tempo de se desconectar. Ou não.