domingo , 19 de janeiro de 2020
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Audiência no Paraná debate leis para tornar cidades livres de agrotóxicos

O anúncio do presidente Donald Trump de aumentar a taxação sobre o aço brasileiro, feito na semana passada pelas redes sociais, terá impactos nas cifras e no discurso do governo Bolsonaro. No ano passado, o Brasil exportou 13,9 milhões de toneladas de aço, das quais 42,2% foram para os Estados Unidos. As transações com o país norte-americano renderam US$ 4,3 bilhões ao Brasil em 2018. Economistas apontam que a taxação escancara a fragilidade da ideia propagandeada pelo presidente Bolsonaro de que os países manteriam uma relação solidária.

De janeiro a outubro deste ano, segundo o Ministério da Economia, o mercado brasileiro exportou US$ 3,4 bilhões em aço aos Estados Unidos. A cadeia produtiva no Brasil envolve ao menos 100 mil trabalhadores.

O líder estadunidense justificou o anúncio, ainda não oficial, dizendo que Brasil e Argentina desvalorizam propositalmente suas moedas para tirar vantagem de um dólar mais forte, o que prejudicaria agricultores locais.

Análise

A sinalização contradiz o discurso do presidente Jair Bolsonaro de que as relações entre os dois países são equilibradas, com concessões e contrapartidas de mesma medida.

Diante da falta de concretude dos dados sobre a taxação, os especialistas consultados pelo Brasil de Fato não comentaram os impactos econômicos, diretamente, mas alertaram para a fragilidade da postura do governo brasileiro em relação aos EUA.

Para o economista Paulo Nogueira Batista Jr., diretor-executivo no Fundo Monetário Internacional (FMI), Trump demostrou estar preocupado apenas com a economia de seu país, tratando o Brasil com senso “protecionista e retaliatório”.

“Essa medida de retaliação protecionista contra o aço e alumínio brasileiro vem na esteira de uma série de concessões que o Brasil fez aos Estados Unidos. O que chama atenção é como é frágil a ideia que o governo Bolsonaro vem alimentando, de que estaria se criando uma relação especial com os Estados Unidos”, ressalta o economista.

Segundo ele, as concessões brasileiras, como benefícios na compra de etanol e o acordo para a utilização da Base de Alcântara (MA), não têm sido correspondidas pela Casa Branca.

“O Brasil tem feito uma série de concessões unilaterais, econômicas e políticas, mas não tem obtido nada em contrapartida, nada de relevante. Agora, tem uma resposta dura, uma medida dura na área de aço e alumínio”, acrescenta.

Mudança de papel

O economista Marcio Pochmann, professor da Unicamp, afirma que a falta de reciprocidade na relação com os Estados Unidos parte de uma postura de “realismo periférico” adotada pelo governo Bolsonaro – ou seja, a ideia de que o Brasil não é capaz de ter protagonismo internacional e, portanto, precisa ser atrativo para países com maior capacidade comercial.

“Desde o golpe, com o [Michel] Temer, e cada vez mais com o Bolsonaro, moldou-se uma reversão do comportamento da política macroeconômica do Brasil”, pontua. “Anteriormente, nós estávamos preocupados com o mercado interno, em tomar medidas que valorizassem os negócios, o consumo, o investimento no mercado interno”, compara o professor.

Atender aos interesses dos Estados Unidos, segundo ele, na tentativa de atrair investimentos ao Brasil, pode ter um custo alto ao mercado interno brasileiro, provocando impactos no Produto Interno Bruto (PIB). “Se de fato ocorrer alguma coisa efetiva, que possa diminuir as exportações brasileiras para os Estados Unidos, isso pode ter impacto no comportamento do PIB, a partir da indústria extrativa. Mas, só no ano que vem”, afirma Pochmann.

Caso seja oficializada, a medida de Trump também pode ter impacto no mercado europeu, de acordo com Paulo Nogueira Batista Jr. “O que pode acontecer é que outros mercados importantes, como o europeu, também tarifem. Porque também existe uma indústria siderúrgica protecionista, preocupada com a competição brasileira”, completa.

Brasil de Fato