sábado , 25 de novembro de 2017
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Senhor Alguma Coisa

Aarqueologia filosófica de Michel Foucault, um dos grandes pensadores do século XX, destrói o poder como algo onipotente, onisciente, monolítico, exercido do centro para as extremidades por força soberana implacável, única, o senhor frente aos escravos, o governo que domina cidadãos por meio de seus aparelhos repressores e ideológicos.

Segundo ele, as relações de poder são heterogêneas e se realizam em níveis complexos atravessados por outros níveis coletivos e particulares. A imagem que me vem à mente, lendo Michel Foucault, é a de uma teia de aranha, ou melhor, de uma teia social em que todo fio e cada conexão são pontos instáveis de reflexo e refração de vários poderes.

Há, no entanto, quem se deixe iludir pela interpretação errônea do poder absoluto e tente exercê-lo pela força institucional dos cargos, até perceber – se tiver sorte – a ingenuidade da pretensão. O poder é cachaça envelhecida em barril de sândalo, que domina tanto pelo cheiro quanto pelo álcool, e embriaga até os homens que se declaram sóbrios.

Conheço excelentíssimos camaradas de fino trato, equilibrados nas feições, fiéis à palavra de Deus, que, contrariados, encarnam a besta-fera. Os menos tarimbados lançam mão do relho, e batem, e berram, e berram, e batem, enquanto as raposas fustigam sem perder a serenidade, mas com o mesmo objetivo de humilhar demonstrando quem manda.

A propósito, ouvi de Ariano Suassuna, numa aula espetáculo, como é triste a redução do indivíduo à condição de autoridade. Meu avô materno, passado na casca do alho na lida com seres humanos em “estado de cargo”, prevenia quem arrotava intimidade com figurões, para ter cuidado com as mudanças que a giroflex promove no espírito do sujeito fraco.

Quando me deparo com um tolo inebriado pelo poder que exerce, estilo Luís XIV, incorporando-o como algo intangível, lembro-me na hora de Pateta. Pateta, aquele cachorro Bloodhound do desenho animado de Walt Disney, no episódio inspirado na obra “Strange Case of Dr. Jekyll & Mr. Hyde”, para nós “O Médico e o monstro”, de Robert Louis Stevenson.

Brilhante metáfora das mudanças de comportamento das pessoas, conforme os aparelhos de poder disponíveis, a animação descreve os conflitos morais da personagem central. É a história do Senhor Andante, cidadão honrado, gentil, incapaz de machucar uma mosca, que, ao entrar no carro, vira o Senhor Volante, um monstro infernal, incontrolável.

Igual Pateta na armadura automotiva, muita gente se transforma no Senhor Alguma Coisa no breve e efêmero contato com instrumentos de exercício de poder, até ser consumido e desmoralizado. Aprendi com Foucault que o poder não existe, sendo a figura do plenipotenciário uma falsa percepção da realidade, e aqui digo eu, que embriaga os idiotas.

Diante de criaturas dessa ordem, recomendo a humildade destemida, pois, voltando às lições do meu saudoso avô, por vezes precisamos abrir os braços para não sermos engolidos. Na maior parte do tempo, contudo, basta observá-las piedosamente, enquanto, a exemplo do catoblepas, animal da mitologia etíope, comem os próprios pés. E caem.

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