terça-feira , 22 de outubro de 2019
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Praia pode acabar e prédios caírem com a verticalização da orla de Natal (RN)

Apesar dos diversos estudos mostrando os riscos de realizar novas construções e trazer pessoas para morarem nos entornos da orla de Natal (RN), o prefeito da cidade Álvaro Dias continua a ignorar os alertas de diversos estudos realizados sobre a área e se posicionar pela verticalização do local. Nesta última quinta-feira (19), o gestor participou de uma sessão extraordinária, convocada pela Câmara Municipal, para dar explicações sobre o processo de revisão do Plano Diretor, ao qual classificou novamente como “retrógrado, arcaico e ultrapassado”.

Contudo, segundo o professor de Engenharia Civil e Ambiental da UFRN e coordenador do Laboratório de Geotecnologias Aplicadas Modelagem Costeira e Oceânica (GNOMO), Venerando Eustaquio Amaro, as consequências para o adensamento de pessoas na orla, através da construção de prédios, são graves e eminentes para um futuro próximo.

De acordo com o professor, as constantes alterações do clima no planeta estão proporcionando diversos eventos extremos nas cidades, como chuvas mais intensas e, principalmente no caso de Natal, a intensificação da chegada das ondas sobre a linha da costa. O avanço progressivo das marés mais altas, acrescentado aos efeitos das ondas, acaba criando uma situação de transferência de energia da força marinha para as infraestruturas urbanas, geralmente não preparadas para o impacto da energia do mar.

As principais consequências para isso são inundações, extinção da faixa de areia da praia e destruição das estruturas, como o calçadão ou até os próprios prédios que podem ser instalados na área.

“Quando a gente olha para Natal, vários setores da cidade estão sofrendo um processo erosivo e a gente percebe que, se você adensar mais ainda, próximo à linha de praia, vai auxiliar o processo da dificuldade em se manter a faixa arenosa naquele local. Você não terá praia e colocará os prédios, as pessoas, as instalações e seus negócios extremamente vulneráveis à ação do mar. Não adianta eu querer construir um prédio que depois ele vá desmoronar”, alerta.

Exemplo disso, segundo o professor, foi a destruição parcial do calçadão da Praia de Ponta Negra, em 2012, e da Praia do Meio, em 2016. Mas, apesar das reconstruções após os fenômenos, nenhum dos reparos foram obras de engenharia preparadas para os impactos de processos erosivos futuros, que vão se intensificando com o tempo.

“A gente já percebe que o adensamento vai ser mais um fator complicador desse processo, porque quando há mais pessoas se exige uma reorganização do espaço geográfico. São mais sistemas de drenagem ou mais recobrimento de pavimentação, por exemplo. Então, se exige mais do espaço, o que complica o processo erosivo”, explica.

Soluções

Após os desastres do calçadão de Ponta Negra, em 2012, Amaro afirma que o Ministério Público do Rio Grande do Norte realizou uma ação obrigando que a prefeitura estudasse o problema e procurasse uma solução definitiva. Após algum tempo, a solução foi a construção de um Aterro Hidráulico, se estendendo do Morro do Careca até 4km.

Esse processo funciona substituindo a faixa de areia da praia por outra semelhante, para que os efeitos das ondas encontrem o mesmo patamar físico. Como a areia que compõe a praia fica, naturalmente, se deslocando na faixa costeira rasa, tenta-se, artificialmente, buscar jazidas de areia no mar. Assim, há um processo de “engordamento” da praia, aumentando sua extensão e diminuindo os impactos do avanço da maré.

Entretanto, embora haja essa ação em andamento, esse aterro ainda não foi iniciado pela prefeitura, e nem o líder do executivo apresenta os estudos do Aterro Hidráulico nas discussões do Plano Diretor.

“O fato de você ter esse processo instalado já é um indicador que o Plano Diretor precisa passar por essa discussão, ele não pode se omitir de discutir os fatos relacionados aos padrões instalados de erosão costeira. O que está faltando à cidade é um conjunto de organizações para que a gente conheça melhor esses efeitos. Não adianta você pensar em construir diretrizes para a ocupação de um espaço, que amanhã pode-se colocar em risco as pessoas autorizadas a ir para aquele setor”, afirma Amaro.

Neste sábado (21), ocorrerá a última oficina do Plano Diretor, abrangendo a Região Norte, na faculdade Estácio (Rua Henrique Dias, Igapó), a partir das 8 horas. Durante a tarde, a 6ª edição do Seminário da Engenharia Ambiental realizará uma mesa redonda sobre “Planejamento Urbano e Revisão do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Natal”, com a professora Dra. Gisela Cunha Viana Leonelli (Unicamp), professora Dra. Ruth Maria da Costa Ataíde (UFRN), o engenheiro civil e ex-prefeito de Natal Aldo Tinoco Filho, e com a arquiteta Karitana Maria De Souza Santos (PPGAU/UFRN). A mesa ocorre no auditório do Instituto Ágora (UFRN), a partir das 16h30.

 

Brasil de Fato