sábado , 19 de agosto de 2017
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Poesias

Matutina
Rosa Firmo
Natal/RN)

Sendo matutina e imperfeita
Olhas-me, com outro olhar
Porque estou cheia de luar,
Olhas-me na madrugada
Como se olhasse um anjo
E no entrever do amanhecer
Desse as escarpas do meu rio
E deslizando sem tocar
Minhas margens
Tenta escapar do tempo
Entenda que sou água
Posso te molhar.
Repousa
O teu corpo fraterno,
Aproxima-te do meu
Olhas-me de novo, guardião nauta
E mais ponderado, entrega-te ao ócio.

Enquanto espero
Kalliane Amorim
Mossoró/RN

Enquanto espero por ti,
Demoro-me frente ao espelho,
Contemplando precipícios
Revestidos de mistérios.

Entre as curvas das orelhas,
Entre as curvas dos quadris,
Colho o verbo, colho a língua –
Não sou tua por um triz.

Nesse instante, sou só minha
Amada, amiga e mulher:
Valseio com a liberdade
De ser quem eu bem quiser.

Seja rosa flamejante,
Seja pedra fria e nua,
Sou poeta antes de tudo,
Antes mesmo de ser tua.

Assim, quando te demoras,
Pensando que estou vazia,
Sirvo o meu corpo às palavras
E abro os lábios à poesia.

Se me vires semiaberta,
Como flor na madrugada,
Vertendo as seivas maduras,
Em tua ausência gestadas…

Não te turbes, que a saudade
De tudo que não vivi
Deixa minh’alma mais bela
Para se entregar a ti.

Engasgo
Ângela Cláudia Rezende do Nascimento Rebouças
Mossoró/RN

Em versos tortos e desnudos
Proclamo o seu sonho, num sussurro
Entendes pelo avesso
Sem nexo, sem uso

Minha vontade é contraditória
E a medida certa é a sem medida
O caminho certo é o sem marcos nem setas
Onde o paradeiro se improvisa

O alagado do meu silêncio
Encharca minha planície externa
E pelos vincos da boca
Escorrem lágrimas lentas

O que queria dizer-te, não disse
E vindo as palavras à boca
Descompostas sem combinação
Encorpadas em uma voz rouca

E o que queria dizer, eu não disse
Engoli a seco lâminas de verbos
Salivei meu sangue do orgulho
E cativei a ferida do ego soberbo

Minha língua só pronuncia
O que é do seu conhecimento
O intuito de minhas palavras
caíra no esquecimento.

…*
Ângela Rodrigues Gurgel
Mossoró/RN
angelargurgel@gmail.com

Meus pretéritos,
Tão imperfeitos,
Imploram um sujeito,
Não oculto ou indeterminado,
Mas cheio de predicados,
Para fazer uma oração
Subordinada ao tempo futuro –
Único onde sou presente e pretérito…

*Da Série Poesia sem Títulos

Dezembros
Airton Cilon
Mossoró/RN

Quando dezembro chegou
Com seus últimos raios,
Acenos de fim de ano,
Eu refleti de mim
Os dias úteis,
Os dias fúteis
O tempo perdido…
Tencionei dizer-te
Do amor sentido,
Do amor contido.
Calado, sentenciado,
Eu murmurei
Meu fado tropical…
Se deixei de ir,
Se deixei passar a hora,
Foi relapso meu, só meu…
E do amor pretendido,
Ficaram os planos do porvir!

Poética
Manuel Bandeira
(Recife/PE, 1886-1968)

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de cossenos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Alegoria
Jania Souza
Natal/ RN

Talvez
A lágrima seja uma gota de orvalho
Desperdiçada em uma face
Condoída de si.

Anda solitária
Em seu deserto
Obstruído.

Não ver árvores
Falantes
Cantantes
Pensantes
A beira do caminho.

Queda-se na travessia
De seu vazio.

Das vontades
Ariany do Vale
Mossoró/RN

Não sei quanto tempo
Essa dor ainda vai latejar no meu peito cansado.
Não sei com quanto tempo
Essa ferida vai criar casca
E eu poderei sentir-me
Pele nova, curada.
Não sei qual total da conta que estou pagando por ter amado.
Não sei nem mesmo se eu amei ou se foi só acaso…
Eu não sei quanto tempo demora pra renascer.
Eu não sei de muita coisa.
Na verdade, essas respostas nem me importam
Eu só queria paz na alma
Sem memórias tristes
Tranquilidade no coração
Sem lágrimas nos olhos
Olhar pro futuro sem mágoa do passado
Viver a minha vida como se nunca tivesse te conhecido.

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