terça-feira , 19 de março de 2019
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Peru resgata seus nomes indígenas da marginalização e da exclusão

Nomes indígenas como Etsa, Shumay e Willka estão ressurgindo no Peru depois de séculos de esquecimento, marginalização e exclusão nos quais não foram reconhecidos oficialmente por parecerem “raros”, incompreensíveis ou terem uma grafia desconhecida.

Até muito pouco tempo era quase impossível ter um nome indígena no Peru, um país com 48 línguas faladas por 55 povos indígenas, mas onde no ano passado a maioria dos recém-nascidos receberam nomes anglófonos como Jhon ou Dylan.

Para reverter essa tendência, onde o próprio Estado era o primeiro a negar a identidade aos nativos, o Registro Nacional de Identificação e Estado Civil (Reniec) iniciou a série “Tesouro de nomes”, onde estão sendo compilados os nomes de cada uma das línguas originárias do Peru.

A iniciativa ganha mais importância ainda em 2019, declarado pela Unesco como o Ano das Línguas Indígenas para que sejam tomadas medidas em relação às quase três mil línguas em perigo de extinção no mundo, das quais 21 são do Peru.

Desde 2012 foram recuperados os nomes quíchua, a língua nativa mais falada na América; os aimara, os jaqaru e dos idiomas amazônicos awajún, wampis, matsés e shipibo-konibo.

“É uma ferramenta para que seus membros exerçam seus direitos, principalmente o de nome e o da identidade étnica e individual”, explicou à Agência Efe o subgerente de pesquisa acadêmica do Reniec, Danny Santa María.

O documento também serve como guia para os registradores que percorrem o vasto e diverso território peruano, mas que negavam os nomes indígenas para aceitar outros castelhanos, como Jesús, María, José ou Jorge.

Para a lista de nomes jaqaru, língua em perigo que só é falada por cerca de 600 peruanos na altitude da província andina de Yauyos, na serra de Lima, foi fundamental a linguista Yolanda Payano, que se entregou “de alma e coração” para resgatar nomes como Shumay (bonita), Inti (sol), Wayrq’aja (vento) e Qajsiri (catarata).

A linguista jaqaru lembrou à Efe que sua língua nem sequer era reconhecida pelo Estado peruano até poucos anos atrás, “e quando uma língua não é reconhecida, também não existe a sua cultura. Por isso, o direito linguístico é o primeiro para se chegar a outros direitos”, considerou.

Santa María disse que muitos nomes indígenas fazem referência a elementos naturais e a animais, com termos comuns como “sol” e “lua” (“Inti” e “Killa” em quíchua; “Willka” e “Phaxsi” em aimara; “Etsa” e “Nantu” em awajún).

Para que não se perdessem, os nativos usaram os mais variados artifícios. Os aimara, que habitam em torno do Lago Titicaca, transformaram seus nomes em sobrenomes, que até então não tinham.

Os wampis, que vivem na fronteira do Peru com o Equador, usavam o nome indígena, embora não aparecesse na carteira de identidade, e os matsés, cujo lar é o remoto rio Yavarí, na fronteira com o Brasil, criavam seus nomes ao juntar o do pai e o da mãe.

A artista shipibo-konibo Olinda Silvano nunca conseguiu se registrar como Reshinjabe (Mulher de plumas de cores) até que no mês passado saiu a lista dos nomes desta língua, que é falada por mais de 35 mil peruanos, a maioria na região de Ucayali.

“Quero que na minha identidade o meu nome apareça como Reshinjabe Olinda. O meu nome próprio tem que vir na frente. Espero que todo mundo faça isso porque o nome vem dos nossos avôs e além”, disse à Efe Olinda, que fará a mudança para ela e sua família.

A mulher shipibo destacou a importância que sua cultura dá aos nomes originais como Roninkoshi (anaconda poderosa), Barirrina (rainha do sol) e Metsákoshi (líder formoso), pois são escolhidos pelos avôs em função das suas visões após tomar ayahuasca e falar com os “chaikuni” (espíritos protetores da selva).

O Reniec registrou cerca de oito mil “janekón” (nomes verdadeiros em shipibo), compostos sempre por dois elementos, um que pode ser comum para homens e mulheres como Kaná (raio), Ino (jaguar) ou Rono (serpente); e outro que define o gênero. “Os dois têm que estar presentes para que seja um ‘janekón”, apontou Santa María.

Neste ano o Reniec compilará os nomes em asháninka, a língua indígena mais usada na Amazônia peruana, com 73 mil falantes distribuídos por diferentes regiões.

Entre eles está Cinthya Gonzales, apresentadora de “Ashi Añane” (“A nossa Voz”), o primeiro programa da televisão peruana em asháninka, que comentou com a Efe que mudaria o seu nome para Shamaki Cola.

“Já era hora de trabalharem conosco para recuperar a identidade das nossas raízes. Há tantos nomes lindos que temos e que podem ser recuperados, como Shimashiri (Flor de Maio), Sheyaki (palmeira) e Tonkiri (colibri)”, opinou Cinthya.

O Reniec quer ter em 2021, ano do bicentenário da independência do Peru, uma ampla coleção de “tesouros” de nomes que demonstre a sua diversidade.

“Somos 55 povos, mas todos nós formamos uma comunidade e um Estado”, concluiu Santa María.

Fernando Gimeno.

Agência EFE