sexta-feira , 19 de outubro de 2018
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Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o XV Domingo do Tempo Comum

O Evangelho deste décimo quinto domingo do tempo comum é Mc 6,7-13, texto que apresenta o envio missionário dos Doze por Jesus. Esse texto é apresentado pelo evangelista como a resposta de Jesus à rejeição sofrida em sua terra natal, Nazaré (cf. Mc 6,1-6), como refletimos no domingo passado. Ao sentir-se rejeitado enquanto portador da Boa Nova de Deus, e até ridicularizado, como foi, a reação de Jesus não foi de desespero, nem de condenação, mas uma tomada de consciência de que havia muito mais a ser feito, os esforços deveriam ser dobrados daquele momento em diante. Era necessário que a missão fosse ampliada com urgência. Jesus tinha consciência de que aquela lamentável rejeição em Nazaré, marcada pela incredulidade dos seus habitantes na sinagoga, não era um caso isolado, mas um retrato de todo o Israel. Por isso, enviou os Doze para que sua missão se expandisse e os sinais do Reino de Deus frutificassem mais rápido, tendo em vista a necessidade urgente: Israel padecia e não havia mais razão para retardar o advento do Reino.

Ainda a nível de contexto, é importante recordar que Jesus constituiu os Doze com duas finalidades: “E constituiu Doze, para que ficassem com ele, e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3,14). Ora até aqui, no capítulo sexto, os Doze tinham apenas estado com Jesus, acompanhando-o na sua itinerância, escutando sua pregação e observando os sinais operados. O episódio de Nazaré faz Jesus perceber que era chegado o momento de enviá-los, pois a necessidade era grande. Jesus sabia que eles ainda não estavam totalmente prontos, pois no prosseguimento do Evangelho lhes fará diversas correções e advertências pelas incoerências percebidas (cf. Mc 8,33; 10,35). No entanto, era necessário fazer um primeiro teste, tendo em vista as exigências das circunstâncias.

Ao invés de fechar-se diante da rejeição sofrida, Jesus toma consciência da necessidade de ampliar a sua missão, por isso, “chamou os Doze, e começou a enviá-los dois a dois” (v. 7a). Certamente, na Galileia havia muitos outros povoados com gente fechada e incrédula como em Nazaré. O envio dos discípulos visa fazer a Boa Nova do Reino chegar a mais lugares simultaneamente. Jesus os envia dois a dois para enfatizar a dimensão comunitária da fé. Conforme a mentalidade judaica, para um acontecimento importante ser confirmado, era necessário o testemunho de pelo menos duas pessoas. Porém, para Jesus e sua comunidade, o mais importante aqui era a dimensão comunitária da vivência da fé. Não há razão alguma para individualismos na comunidade cristã; a fé deve ser vivida e testemunhada em espírito de partilha, ou seja, comunitariamente. Andando dois a dois, os discípulos tem mais possibilidades de recordarem que os dons do Reino não são propriedade deles, mas pertencem a Deus.

Jesus confere aos discípulos os mesmos dons que recebeu do Pai, e os capacita a tornarem real a sua própria presença durante a missão: “dando-lhes poder sobre os espíritos impuros” (v. 7b). Esses espírito impuros são todas as forças do mal presentes no mundo que geram violência, injustiça, exclusão, morte e preconceito; é tudo o que impede o ser humano de uma relação saudável com o Deus da vida e com o próximo e consigo mesmo; por isso, se constituem como obstáculos à realização do Reino de Deus. Muitas vezes, esses elementos eram criados pela própria religião, como a segregação e condenação por doenças físicas e psíquicas. O poder (em grego: ekzussia) conferido sobre tudo isso é o mesmo que o próprio Jesus já exercia. Não é um poder de domínio sobre as pessoas, mas o contrário: é o poder de combater tudo o que escraviza e priva o ser humano de sua liberdade e dignidade plenas.

O envio compreende algumas recomendações, das quais depende o êxito da missão: “Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas” (vv. 8-9). A austeridade e simplicidade de vida é exigência indispensável para o cumprimento da missão conferida por Jesus. O discípulo não deve ter outra preocupação além da anúncio da Boa Nova, por isso deve deixar de lado tudo o que possa distraí-lo e torna-lo sobrecarregado. A sobriedade ajuda a manter o foco naquilo que é essencial, além de revelar total confiança na providência de Deus. Desprovidos de qualquer segurança e conforto, os discípulos missionários sentem a necessidade de adaptação ao que lhes for oferecido. Ao mandar que os discípulos andassem de sandálias, Jesus reforça o caráter itinerante da sua missão, apresentando-a como um constante caminhar. O lugar do discípulo não é o lar com seu conforto, mas a estrada com seus perigos e adversidades.

Escrito há cerca de três décadas após a morte e ressurreição de Jesus, o Evangelho segundo Marcos já reflete uma tendência preocupante para a comunidade cristã: o distanciamento do estilo de vida de Jesus em seus seguidores. Ao recordar essas recomendações de Jesus aos discípulos, o evangelista quis reforçar o que é essencial e chamar a atenção da comunidade para não se distanciar do modelo de vida Jesus propôs. Além do estilo de vida, o evangelista também se preocupava com outros elementos importantes que corriam o risco de desaparecer da comunidade, como a hospitalidade, por exemplo. Por isso, recordou também as palavras de Jesus sobre esse aspecto: “E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida” (v. 10). Aqui, além de chamar a atenção dos missionários para aceitarem o que lhes for oferecido como hospedagem, também se chama a atenção da comunidade para acolher os peregrinos e missionários em casa. Se estabelece, assim, uma reciprocidade na missão e na edificação do Reino. É necessária uma real inserção nas diversas realidades pelos discípulos, de modo que se sintam família na casa em que forem acolhidos, permanecendo nela enquanto estiverem no mesmo povoado. Permanecer quer dizer criar relações e laços duradouros. Da mesma forma, é necessário que as casas dos membros da comunidade estejam sempre disponíveis para a acolhida dos peregrinos e necessitados.

Tendo sido rejeitado em seu próprio povoado, Jesus via a rejeição como uma possibilidade bem concreta e possível, por isso, preveniu também os seus discípulos: “Se em alguma lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles” (v. 11). Essa recomendação reflete bem o momento vivido por Jesus em Nazaré. Ainda chocado (cf. Mt 6,6) com a rejeição ali recebida, Jesus alerta os discípulos a não insistirem, pois devem respeitar a liberdade das pessoas; o Reino é anunciado e oferecido, mas não pode ser imposto. Mais uma vez, o evangelista aproveita também essas mesmas palavras para combater a tendência na comunidade de afastar-se do princípio da hospitalidade. Todos devem estar disponível a acolher o peregrino, sobretudo, quando esse é portador da Boa Nova. O “testemunho contra”  não é uma forma de condenação, mas a confirmação de que o Evangelho foi proposto, porém foi rejeitado. As consequências para quem rejeita o Evangelho é viver privado do amor e da bondade de Deus, tão essenciais para o sentido da vida.

Dadas as instruções de envio, “Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem” (v. 12). Quanto ao conteúdo específico da pregação, o evangelista não entra em detalhes. Apenas diz que consistia num anúncio de conversão. Ora, conversão (em grego: metanoia) significa mudança de mentalidade e pensamento. A adesão aos valores do Evangelho exige rupturas com a maneira tradicional de pensar e compreender as coisas, inclusive a relação com Deus. Jesus percebeu em Nazaré que era urgente que aquele povo passasse por um processo de conversão, passando a uma jeito de novo de conceber o mundo, a vida e Deus. Por isso, enviando seus discípulos a outros povoados, propõe que todas as pessoas passem por esse processo. Com a mentalidade antiga conservadora, apegada à lei, era impossível acolher a novidade do Reino de Deus.

Imediatamente, o evangelista já antecipa o resultado da missão, por sinal, bastante positivo: “Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo” (v. 13). A principal razão para chegar a tais resultados é a fidelidade ao que foi recomendado. Quando a proposta de conversão proposta pelo Evangelho é aceita, os sinais do Reino de Deus se evidenciam. O evangelista pensa na sua comunidade, sobretudo: perseguições do império e hostilidade dos judeus. Com muita probabilidade, esse Evangelho segundo Marcos foi escrito em Roma, durante a perseguição de Nero. Era uma época em que o mal prevalecia explicitamente, e a ação dos cristãos parecia ter pouco efeito no combate. No entanto, se as palavras de Jesus forem realmente vividas, muitos resultados serão alcançados. O uso do óleo como um elemento medicinal e terapêutico era muito comum na antiguidade, e o cristianismo conservou essa tradição, adotando-o como elemento sacramental. Os doentes são, em Marcos, a síntese do necessitado e, por isso, destinatários privilegiados dos anunciadores da Boa Nova.

Ao ler e meditar hoje esse trecho do Evangelho segundo Marcos, a comunidade cristã é convidada a refletir sobre a sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus e a o seu envio, para recuperar aquilo que é realmente essencial à vida cristã. No mundo de hoje, marcado pelo individualismo e pela competitividade, não faltam questionamentos sobre a eficácia do anúncio cristão. A única resposta adequada a esses questionamentos é a coragem dos cristãos e cristãs para voltarem a viver à maneira de Jesus, como ele mesmo recomendou aos primeiros discípulos enviados.

Se em apenas três décadas após a morte de Jesus, Marcos percebeu que sua comunidade já dava sinais de distanciamento da sua proposta de vida, muito mais pode ser percebido depois de dois mil anos. Por isso, a necessidade de conversão é cada mais urgente. Que possamos, enquanto cristãos e cristãs, identificar os males que nos impedem de viver radicalmente o que Jesus propõe, para o Reino de Deus ser de novo experimento e vivido.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN