quinta-feira , 18 de janeiro de 2018
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Pe. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o II Domingo do Advento (Marcos 1,1-8)

Por Pe. Francisco Cornélio Rodrigues.

Neste segundo domingo do advento, a liturgia nos convida a ler e refletir os primeiros versículos do Evangelho segundo Marcos: 1,1-8. Se trata de um texto bastante rico e profundo. Como o advento é, para a liturgia, o tempo por excelência de preparação para o Natal do Senhor, é importante voltarmos o olhar para o princípio do evangelho, reconhecendo o papel dos personagens que estiveram em tal princípio, como hoje recordamos a figura de João, o Batista.
De maneira única em todo o Novo Testamento, assim Marcos inicia seu escrito: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (v. 1). Somente ele intitula sua obra de Evangelho, inaugurando um novo gênero literário. Evangelho (em grego: euanguélion) significa boa notícia, boa nova, notícia agradável. Era uma palavra mais utilizada na esfera política que religiosa. Na verdade, “euanguélion” era a palavra que se usava para anunciar as notícias mais importantes do império, como o nascimento de um filho do imperador e as vitórias em uma guerra ou batalha. Ao utilizá-la para falar dos acontecimentos referentes a Jesus, Marcos se assume como subversivo, afirmando que boa notícia não é o que sai de Roma, através de decretos imperiais, mas o que sai de Nazaré, na vida de um homem simples, corajoso e cheio de amor: Jesus.
Se Marcos se assume subversivo politicamente, aplicando “euanguélion” a Jesus, é nítida também a sua subversão religiosa, ao abrir a “história” de Jesus com a mesma palavra que se abre o Antigo Testamento, com o termo grego “arkhê”, cujo significado mais autêntico é princípio, ao invés de início, como traz o texto litúrgico. O autor quer dizer que a história da salvação tem, em Jesus, um novo princípio, um novo fundamento, desafiando a religião oficial da época, até então, controladora do nome de Deus.
O homem do qual o evangelista irá falar ao longo do evangelho, Jesus, é Cristo, ou seja, messias, e, ao mesmo tempo, Filho de Deus. O termo Cristo (Cristós) é a tradução grega de messias, assim, o evangelista ensina que o tempo da espera acabou: o tão esperado messias libertador de Israel chegou, mas não como tinha ensinado o magistério oficial, ou seja, ele não veio como rei, guerreiro e vencedor, mas simples e pobre, embora não seja preocupação de Marcos narrar o nascimento de Jesus, como fizeram Mateus e Lucas.
Ao afirmar que Jesus é também Filho de Deus, Marcos desafia, ao mesmo tempo, tanto o império quanto a religião da época. Ora, o judaísmo esperava um messias filho de Davi, o qual viria para proteger e libertar somente o povo de Israel; ao denominar Jesus como Filho de Deus, Marcos diz que Jesus veio para a humanidade toda, e não para um povo exclusivo, ao mesmo tempo em que desmascara a religião imperial que cultuava o imperador romano como filho de Deus. Portanto, de modo simples, mas ao mesmo tempo profundo, Marcos enfrenta os dois poderes mais fortes e organizados da época na terra de Jesus: o império romano e a religião oficial judaica.
Até aqui, refletimos apenas sobre o primeiro versículo, o qual funciona como título e introdução geral a todo o Evangelho segundo Marcos. Na continuidade, do segundo versículo em diante, o evangelista apresenta a figura de João, o Batista, e sua missão profética de precursor de Jesus. Para introduzir a missão de João, Marcos recorre à tradição profética: “Está escrito no livro do profeta Isaías: ‘Eis que envio o meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!’ ” (vv. 2-3). Aqui, embora mencione somente Isaías, a citação é, na verdade, uma mescla de Isaías com Malaquias (cf. Ml 3,1; Is 40,3). O objetivo do profeta é assegurar que a missão de João continua e atualiza o profetismo bíblico tradicional, do qual Jesus é o seu verdadeiro cumprimento.
Após a fundamentação bíblico-profética, o evangelista descreve a missão de João e os seus efeitos, dizendo que ele “apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para a remissão dos pecados” (v. 4). Ora, o deserto (em grego: erémos) é o lugar ideal para a relação entre Deus e o seu povo; representa uma etapa no processo de libertação, como aconteceu no primeiro êxodo; por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança (cf. Os 2,14; 9,10; 13,5; Am 2,10; 5,25). Assim, a presença de João no deserto é um convite para Israel romper com as estruturas vigentes e retornar às suas origens. O batismo de conversão serve como chamada de atenção: todos tem um certo grau de culpa na situação de degradação do país. É necessário que cada um tome consciência de sua responsabilidade na construção de um mundo novo, através da conversão.
A pregação de João, como proposta de libertação, atraía “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro” (v. 5a). Certamente, o evangelista exagera aqui, mas faz parte de suas intenções teológicas. Com isso, ele está propondo que um novo êxodo estava para acontecer, iniciando com a pregação do Batista e se completando com a missão de Jesus. A antiga terra prometida, principalmente a cidade de Jerusalém, tinha se transformado em terra de escravidão. Dessa vez, não era um faraó o algoz, mas a própria casta sacerdotal do templo. Foi dessa gente que controlava a vida do povo e explorava em nome de Deus que Jesus veio libertar, em primeiro lugar.
A religião institucionalizada era sinal de exploração, abuso de poder. E, de todas as formas de exploração, a pior é aquela que usa o nome de Deus, ou seja, a exploração religiosa. Mais uma vez, a tradução litúrgica omite um dado importante do texto, ao dizer que “os moradores iam” ao encontro de João. Na língua original, o grego, o autor emprega o verbo “ekporêuomai”, cujo significado é sair, libertar-se; por isso, a tradução correta seria “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém, saíam…”. Saíam porque o julgo da exploração estava pesado demais, e viam na pregação do Batista um sinal de luz e libertação. O evangelista antecipa o projeto do Reino  de Jesus: menos institucional e mais profético.
As pessoas que saíam das antigas estruturas, “confessavam os seus pecados e João as batizava no rio Jordão” (v. 5b). A confissão aqui, não é um rito, mas um reconhecimento do pecado e arrependimento, conforme reza um salmista: “Confessei a ti o meu pecado, e minha iniquidade não te encobri; eu disse: “Vou a Iahweh confessar a minha iniquidade!” (Sl 32,4). Ser batizado no Jordão quer dizer atravessá-lo, passar por ele, como passou o povo do primeiro êxodo; de fato, a travessia do Jordão foi a última etapa da longa caminhada do povo de Deus antes de entrar na terra prometida, já sob a liderança de Josué, após a morte de Moisés (cf. Js 1,2). Assim, a proposta de João é um convite a um novo êxodo, ou seja, uma nova libertação que se aproxima, e só pode participar quem faz a experiência do deserto e da travessia, ou seja, quem passa de uma mentalidade antiga para uma nova.
Além das citações de Isaías e Malaquias, a descrição que o evangelista faz de João também reforça suas credenciais de profeta: “João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo” (v. 7). De fato, Elias, um dos maiores profetas da história de Israel, é apresentado em 2Rs 1,8 com características semelhantes. É mais uma prova de que o verdadeiro profeta é aquele que anuncia com palavras, ações e, principalmente, com o testemunho; a vida simples de João comprova esse testemunho e ainda serve de contraposição à vida opulenta da elite religiosa e política de Jerusalém. Essa descrição funciona como um apelo do evangelista para a comunidade cristã configurar-se como religião profética, combatendo as primeiras tendências de institucionalização do cristianismo.
Até aqui, a pregação de João, como convite à conversão, fora apenas mencionada, mas nenhuma palavra sua fora ainda citada. Eis, então: “Depois de mim, virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. Eu vou batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo” (vv. 7-8). Certamente, muitas pessoas confundiam João com o messias, por isso, ele esclarece. Como verdadeiro profeta, sabe que seu papel, na história da salvação é de instrumento de Deus, Aquele que é maior! A referência ao gesto de desamarrar as sandálias costuma confundir bastante as interpretações; mais que um simples gesto de humildade do Batista, é uma referência a Israel como esposa, fazendo uso da lei judaica do levirato: tirar a sandália significava apropriar-se do direito de tomar a mulher (viúva) como esposa (cf. Rt 3,5-11). Assim, João deixa claro que não é ele o esposo, porque essa missão não lhe compete. O direito de fecundar Israel é exclusivo de Jesus, para tornar novamente fértil aquela esposa explorada e tornada estéril pela elite sacerdotal de Jerusalém.
João administrava apenas um rito: o batismo com água, o qual era somente um sinal do batismo por excelência: com o Espírito Santo. Esse batismo é definitivo, é o cumprimento de profecias e condição para o povo de Israel voltar à condição de povo de Deus (cf. Ez 36,24-28), e ao mesmo tempo sinal de universalização da salvação: o Espírito Santo, como superação e substituição da Lei, dará condições, ao ser acolhido, para que todos os povos sejam contemplados com a libertação inaugurada por Jesus.
Somos, então, neste segundo domingo do advento, convidados a rever nossa prática religiosa, e tomar uma decisão, fazendo um êxodo pessoal: abraçar a religião profética, abandonando todas as práticas das antigas estruturas, renovando a maneira de conceber Deus e abrindo-se ao Espírito Santo, dom de Jesus, o balizador por excelência.
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Xavier Cutajar
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