quarta-feira , 22 de novembro de 2017
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O que se sabe sobre produtividade no Brasil?

Simone Bertelli

O que se sabe sobre produtividade no Brasil?

Devemos falar de quem é a culpa

por *Eduardo Banzato

No Brasil, é muito confortável colocar a responsabilidade dos nossos baixos índices de produtividade nas costas dos trabalhadores. Os “Intelectuais”, que geralmente possuem grande espaço de mídia, vivem afirmando que a produtividade do trabalhador brasileiro é baixa. É só observar as manchetes e você verá: “A produtividade por trabalhador no Brasil não cresce desde 1980”; “Brasileiro tem baixa produtividade”; “The Economist diz que brasileiro é improdutivo’’. Mas o que será que se sabe, de fato, sobre a produtividade do trabalhador brasileiro?

Às vezes, me pergunto: “será que todos os “intelectuais”, que muito estudaram, já tiveram a oportunidade de estar ao lado daquele que é denominado “trabalhador brasileiro”?”

Será que eles não poderiam se colocar no lugar destes 2 trabalhadores brasileiros, Antônio e Maria…

o Antônio, um trabalhador brasileiro que atua como ajudante na distribuição de um grande varejista, há mais de 20 anos. Acorda às 4h da manhã e segue para o trabalho. Antes das 6h já iniciou o carregamento do veículo (caminhão). Faz a amarração dos volumes no baú com todo o cuidado para não danificar os produtos, confere toda a documentação e segue para o seu dia de trabalho, onde realiza 95% das entregas para diferentes clientes, retornando ao Centro de Distribuição, ao final do dia, com sentimento de missão cumprida.
E a Maria, uma trabalhadora brasileira que, durante 10 anos, acorda às 5h e segue para a fábrica, diariamente, com o objetivo de realizar o seu trabalho em uma célula de produção. Muitas vezes seu supervisor a incentiva a superar seu desempenho, pois o mesmo estava pouco abaixo da produtividade esperada e com um pouco de esforço ela consegue atingir. Bem, agora, infelizmente, a Ana Maria está desempregada, batalhando duro por uma nova oportunidade.

Agora imagine ao final do dia, o Antônio e a Maria, cansados, chegando em casa e escutando no noticiário um destes “intelectuais” dizendo: “…o fato é que a produtividade do trabalhador brasileiro é uma das mais baixas no mundo”. Imagine como eles se sentem. Será que esses “intelectuais” não poderiam divulgar estes fatos de maneira diferente?

Eu ficaria muito mais à vontade se os “intelectuais” deixassem bem claro que a baixa produtividade operacional é consequência direta da péssima gestão de nosso Estado. Existe uma transferência de responsabilidade do “Estado Improdutivo” para o “Trabalhador Improdutivo”.

Vejam alguns fatores críticos e como o Estado Brasileiro, com sua incompetência, lentidão e gestão fraudulenta é responsável pela baixa produtividade do “trabalhador”:

Tecnologia: acesso a determinadas soluções podem aumentar muito a produtividade operacional de qualquer operador, mas no Brasil, o trabalhador tem que se superar muito mais que em outros países, pois aqui o Estado é lento para decidir, além de organizar esquemas que dificultam a utilização da tecnologia e ainda assegurar legalmente que entidades sindicais trabalhem contra a produtividade.

Legislação e Justiça trabalhista: em relação a outros países, a nossa legislação e nossa justiça são uma piada! Alguns “intelectuais” aqui destacam os direitos conquistados, mas não possuem a mínima capacidade de enxergar o todo. O Estado Brasileiro é um “elefante branco” que não mais consegue reagir à dinâmica mundial.

Infraestrutura e Logística: boa parte da baixa produtividade operacional vem de nossa péssima infraestrutura. Por que motoristas de caminhões perdem tanto tempo em estradas? Por que operadores em linhas de produção ficam parados por falta ou atrasos de fornecimento? Enfim, aqui nosso Estado consegue a façanha de se manter, há muitos anos, sem capacidade de investimento em infraestrutura, pois os desvios e má gestão são tão grandes, que o próprio Estado perdeu o controle da gestão de tantos esquemas.

Burocracia: o que para alguns países é uma vantagem competitiva, no Brasil o Estado cria dificuldades para cobrar pelas facilidades. Isso já é cultural e o Estado assegura uma legislação tão confusa, que nenhuma empresa, mesmo que queira, consegue trabalhar como se deve, pois não está claro o que deve ser feito.

Mobilidade Urbana: O Estado, embora invista em um dos mais caros sistemas de transporte urbano do mundo para facilitar o ir e vir do trabalhador, possui um dos piores sistemas também. Resultado da incompetência e corrupção que acaba limitando todos os investimentos nesta área. E o trabalhador, investe horas para chegar ao trabalho e tem que se superar para competir com operadores de outros países.

Educação e Qualificação: Aqui, o modelo de gestão se repete… o Estado estabelece um orçamento ridículo para a formação educacional e profissional, remunera pessimamente os professores e as empresas acabam recebendo profissionais despreparados. Além disso, o Estado promove crises que aumentam a rotatividade (turnover), o que também dificulta a absorção de conhecimentos pelo trabalhador.

E o Trabalhador?

Esse tem que se superar todos os dias, pois precisa sustentar não só a sua família, mas principalmente o Estado Brasileiro.

É por esse motivo que gostaria que os “intelectuais” deixassem de dizer que o “trabalhador brasileiro é improdutivo” e começassem a destacar que é o Estado Brasileiro que possui uma das piores produtividades no mundo.

Sim, são vocês do Executivo, do Legislativo e do Judiciário os responsáveis diretos pela nossa baixa produtividade e não os trabalhadores.

*Eduardo Banzato é diretor do grupo IMAM, que há 37 anos atua na área editorial, de consultoria e treinamento em logística