quinta-feira , 15 de novembro de 2018
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O popular Cocão – Wilson Bezerra de Moura

É a história fonte de todos os acontecimentos, remove montanhas e reaviva lembranças, conhecimentos ao rever o passado.

Passa de pai para filho o trajeto histórico. O historiógrafo tradicional dos fatos ligados à região do RN, em especial de Mossoró, ao referir-se a uma pessoa que conviveu aos primeiros tempos do povoado mossoroense, que começa mais ou menos assim, dizia o cronista Fausto de Souza.

Um sujeito de nome Álvaro Moreira, mais conhecido popularmente por Cocão, na sociedade, certa ocasião teve uma desavença com um amigo de muita estima, deste se desligou, perdeu todo contato, prosseguiu o Cocão com muito ódio do antigo amistoso, com quem tivera fiel amizade.

Passaram-se os dias, quando no ano de 1867 Cocão adoeceu, cujo quadro de saúde cada dia piorava, até se tornar gravíssimo, sem promessa de retroceder sua posição quanto ao velho amigo.

Na época dominava a liderança não só religiosa do padre Antônio Joaquim Rodrigues, que foi solicitado a prestar confissão e consequente comunhão ao Cocão. Antes, porém, pediu a este que perdoasse seu inimigo. Mesmo diante da insistência do padre, Cocão não abriu mão de seu ódio, dispondo a se recusar de qualquer investida do sacerdote para conciliar o pecado grave na condição de cristão.

O Cocão era tão radical em seu modo de ser que, mesmo o padre ameaçando não dar absolvição dos pecados, se ele não perdoasse, ele, o Cocão, mantinha-se firme no seu propósito de não perdoar o inimigo. Estava criado o impasse, nem o padre Antônio Joaquim abria mão de seu propósito nem muito menos o Cocão cedia em seu caráter, ficando consignado que este não receberia o sacramento da extrema unção, mandamento sagrado pela Igreja.

Morto o Cocão, este foi sepultado num terreno baldio, depois da Igreja, fora de seu domínio, por ser infiel aos mandamentos religiosos, disse o escritor Francisco Fausto, enterrado como uma ovelha num terreno fora do domínio da Igreja, desprezado pelos mandamentos religiosos, como um bicho sem alma.

Lá para o ano de 1878 o vigário Antônio Joaquim resolve ampliar a igreja, avançando justamente para o terreno em que Cocão estava enterrado, ficando assim os restos mortais mesmo debaixo da igreja, ainda no local onde era praticado o ato sagrado da santa missa.

Por ironia do destino, que ninguém até hoje fugiu do mesmo, eis o verdadeiro mistério da vida. Aconteceu mais esse do Cocão ficar sepultado em terreno abençoado da Igreja, exatamente como não queria o vigário Antônio Joaquim.

Terminou o Cocão sendo preservado pela história com um testemunho do mistério da vida, eterno mistério, o de não sabermos para onde iremos.