quinta-feira , 18 de janeiro de 2018
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O mar de Sophia – Nathália Oliveira

“Quando eu morrer voltarei para buscar

Os instantes que não vivi junto ao mar”

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Existe entre o povo português e o mar uma inegável ligação. Inicialmente apresentava uma fonte de mitos, histórias e lendas. Mas com a evolução dos conhecimentos humanos, foi transformando-se numa fonte de riqueza graças às viagens ultramarinas. Devido a sua localização geográfica privilegiada, Portugal foi pioneiro nessas navegações. O mar faz parte da identidade do povo português e influenciou em obras de autores como Luís Vaz de Camões e Fernando Pessoa. Além desses, Sophia de Mello BreynerAndresen também se rendeu as belezas dos oceanos. Em suas obras retrata de forma singular e majestosa a praia e outros elementos ligados ao mar.

Sophia foi uma das mais importantes poetisas portuguesas contemporâneas. Autora de catorze livros de poesia, escreveu também contos, histórias infantis, artigos, ensaios e teatro,tendosua obra traduzida para diversos idiomas. Além de escritora e poetisa, Sophia também trabalhou na tradução de obras de Dante Alighieri e Shakespeare.

Foi a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, em 1999, o maior prêmio literário da língua portuguesa. A poetisade origem dinamarquesa por parte do pai, nasceu na cidade do Porto, Portugal, no dia 6 de novembro de 1919. Estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, mas não chegou a concluir o curso. Casou-se com o jornalista, advogado e político Francisco Souza Tavares com quem teve cinco filhos,dos quais alguns não negaram os seus genes literários. Faleceu em Lisboa, no dia 2 de julho de 2004.

Sophia teve seu primeiro contato com a poesia quando ainda era muito nova. Aos três anos de idade, uma empregada da família ensinou-lhe a “Nau Catrineta”, um poema anônimo romanceado ligado a tradição oral portuguesa. Esse poema narra as desventuras dos tripulantes durante uma longa travessia marítima. Um pouco mais tarde, sob influência de seu avô, um grande apreciador de poesia, Sophia aprende de cor os poemas de Camões e de Antero. Com esses poemas, nasce na jovem escritora a paixão pela poesia.

Seus primeiros versos foram escritos aos doze anos. Alguns dos seus poemas matinais, escritos a partir dos catorze anos, foram incluídos em seu primeiro livro publicado em 1944 sob o título Poesia. Sophia tinha vinte e cinco anos quando o publicou com o apoio financeiro do pai. Foram apenas trinta exemplares lançados, porém bastaram para que seu talento fosse reconhecido no mundo da poesia. Essa aceitação fez com que a ela prosseguisse no caminho da escrita. Nessa primeira obra, imagens poéticas como a natureza, o mar, as praias e os jardins são abordados.

Em sua criação artística o mar ocupa uma posição de destaque, quer seja na poesia, quer seja nos seus contos. Sophia passou boa parte de sua infância na Quinta do Campo Alegre, na Praia da Granja. Adorava passar horas na praia brincando sozinha nas piscinas naturais. Esses momentos de sua infância ligados à praia foram o início de sua forte atração pelo mar. Além das praias portuguesas, Sophia também dedicou poemas aos mares e as praias do Mediterrâneo e do Mar Egeu como também as suas ilhas. Sua primeira visita à Grécia, em 1961, serviu de inspiração para sua poesia, principalmente em seu livro Dual.

Sophia não se dedicou muito à poesia durante a infância dos seus filhos. No entanto, a autora sentiu falta de uma literatura infantil decentequando seus filhos tiveram sarampo. Foi então que voltou a escrever e começou a inventar histórias para crianças. “Comecei a inventar histórias para crianças quando os meus filhos tiveram sarampo” — lê-se num depoimento publicado em 1986. “Mandei comprar alguns livros que tentei ler em voz alta. Mas não suportei a pieguice da linguagem nem a sentimentalidade da ‘mensagem’: uma criança é uma criança, não é um pateta. Atirei os livros fora e resolvi inventar. Procurei a memória daquilo que tinha fascinado a minha própria infância. (…) Nas minhas histórias para crianças quase tudo é escrito a partir dos lugares da minha infância.”Seus livros infantis tornaram-se um verdadeiro culto na literatura infantil, foram lançados dezenas de edições dos seus contos de fadas. Os mais famosos são A Menina do Mar e A Fada Oriana, publicados no fim dos anos 1950. Seus livros preencheram a lacuna que existia na literatura portuguesa infantil, marcando várias gerações.

A Menina do Mar foi considerado um dos melhores livros publicados no mercado brasileiro em 2014, segundo a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Foi publicado pela Cosac Naify, com ilustrações da autora brasileira Veridiana Scarpelli. A obra, que em Portugal faz parte do Plano Nacional de Leitura, conta a história de um menino, que vive numa casa branca voltada para o mar, que um dia encontra uma menina, pequenina e de cabelos azuis, que estava a dançar com um polvo, um caranguejo e um peixe.

 

“—Mas o que é a saudade?—perguntou a Menina do Mar.
— A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora…”

 

Sophia não dedicou-se apenas a escrita. Foi uma das fundadoras da Comissão Nacional do Apoio aos Presos Políticos de Portugal e em 1975, fora eleita deputada à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista. No entanto, sua carreira política não teve longa duração. Optou pela literatura à qual se dedicou ao longo dos anos até a sua morte. Apesar do seu afastamento do ambiente político, sempre se preocupou com o mundo a sua volta, não hesitando em expor sua opinião quando considerasse necessário.

Sua linguagem poética soa como uma voz de liberdade. É comum evocar em seus versos os objetos, as coisas, os seres e os dias. Sophia retrata o mar como um espaço de nascimento, de regeneração.

Mar

“De todos os cantos do mundo

Amo com um amor mais forte e profundo

Aquela praia extasiada e nua

Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.”

 

Nesse poema, seu amor pela praia é descrito como “amor mais forte e profundo”. No verso “… Onde me uni ao mar, ao vento e à lua”, observamos Sophia sentir-se completa ao estar nessa “praia extasiada e nua”. Suas palavras transmitem a satisfação em estar ali, como se ela, o mar, a lua e o vento se unissem para formar uma única coisa.

 

As ondas

“As ondas quebravam uma a uma

Eu estava só com a areia e com a espuma

Do mar que cantava só para mim.”

 

Em As ondas, Sophia nos mostra sentir-se confortável com a companhia do mar, da areia e da espuma das ondas. “Do mar que cantava só para mim” com a ideia de um espetáculo só para ela, que deve ser apreciado.

 

Mulheres à beira mar

“Confundido os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.

Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.”

 

Já nessa estrofe de Mulheres à beira mar, em poucas palavras conseguimos sentir a liberdade vivida pelo eu-lírico ao correr pela praia “Confundido os seus cabelos com os cabelos do vento”.

 

Liberdade

“Aqui nesta praia onde

Não há nenhum vestígio de impureza

Aqui onde há somente

Ondas tombando ininterruptamente,

Puro espaço e lucida unidade

Aqui o tempo apaixonadamente

Encontra a própria liberdade.”

 

No poema Liberdade, a praia é retratada como um lugar puro, onde “Não há nenhum vestígio de impureza”.

A cantora brasileira Maria Bethânia, em 2006 gravou o álbum “Mar de Sophia” em homenagem a poetisa. Várias faixas remetem ao oceano, os símbolos e os mitos tão contemplados pela portuguesa, entre elas “Memórias do mar”, “Grão de mar” e “As praias desertas”. A cantora fez um belíssimo trabalho homenageando o legado de Andresen. Vale a pena conferir e apreciar esse álbum de Bethânia.

 

Nathália Oliveira é Graduanda em Letras pela UFRN.