sábado , 20 de janeiro de 2018
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Mulheres fantásticas (VI): A Mulher Abelha - Clauder Arcanjo

Mulheres fantásticas (VI): A Mulher Abelha – Clauder Arcanjo

Uma flor a trouxe ao meu jardim. Sim, ela própria me confessou:

— Passava por perto, quando senti o aroma.

Havia nela uns olhos diferentes, sem falar no seu nariz a catar cheiros novos.

— Hummm…

Entrou, aproximou-se do ramo em que se destacava o botão da flor, e lá ficou.

***

Cheguei à cidade transferido pelo diretor da coletoria estadual. Um melhor salário me caberia, pois, ao posto de chefe da repartição local, eu ascenderia.

— Vai, filho. Não se deve medir esforços em início de carreira. Não se deixa de montar em cavalo selado. Suba nele e sucesso! — foram as palavras do meu velho pai, ao lhe confidenciar a proposta.

Fui bem recebido pela comunidade, e logo cuidei de alugar uma casa ampla, com jardim. Desde criança, gostava de ver o zelo de minha mãe com suas samambaias, bromélias e dálias. Então, para ser exato, com menos de uma semana, assentara-me num casarão com um pequeno ajardinado na entrada. Estava mal cuidado, as salsas invadiam tudo, e os jarros morriam de cinza.

Com pouco, pintei-o, lavei-o e limpei seu mobiliário antigo. O casarão ficou de meu agrado. Os prédios antigos atraíam-me o gosto. Restava-me, então, o jardim.

De início, cuidei de adubar os vasos. Quando, um mês depois, segui para a primeira reunião na Capital, visitei um amigo florista. Ao retornar, enfiei algumas mudas que conseguira com ele.

Cuidado, atenção e persistente aguação. De início, o verde. Forte e dadivoso. Passado mais um tempo, os botões já se destacavam. “Logo, logo, colherei as primeiras flores!”

— Belo jardim, seu Francival! Pelo jeito, o nosso coletor é tão bom com as rosas como com os tributos. Ninguém o imaginava jardineiro! — foram as palavras da velha Dagmar, vizinha do lado, viúva de um tradicional comerciante daquelas ribeiras. Sempre a cultivar novos pretendentes para Gumercinda, sua filha única.

— Grato, minha senhora. E tenha uma boa noite.

***

Um ano depois, eu, Francival, era saudado como um dos bons partidos da província.

— Esta mulherada daqui só vai sossegar, quando enfiarem uma das filhas encalhadas no jardim do coletor Francival! — bradava, entre uma pinga e outra, Salustião das Mercês.

Contudo, apesar de tudo, permaneci solitário. Imerso nas contas da coletoria, e, no resto do tempo, nos cuidados do jardim.

Até que um dia…

— Hummm…

— Você gosta de flores?

— Em especial das mais discretas. Trazem um néctar mais especial — mal falou isto, a dama levou seu pequeno nariz à corola da flor.

Aquilo mexeu comigo. Aquela voz mimosa fez brotar um certo rubor na minha face, enquanto o peito agitava-se. Com a voz embargada pela emoção, reguei uma conversa florida. Entre orquídeas, tulipas, bromélias… as horas se orvalharam.

Na manhã seguinte, Dona Gumercinda, que na noite anterior a tudo observara, estava um zangão. Quis saber a origem da tal dama, preocupada com a invasão daquela “abelhuda”.

A despeito de todo o veneno que a patusca vizinha lançou sobre o terreno, casamo-nos seis meses depois.

Ao receber o convite de casamento, Gumercinda enxertou mais um ramo de veneno na história:

— Hummm… Dizem que Primavera, a tal noivinha, entrou, aproximou-se do ramo em que se destacava o botão da flor, e lá ficou. Falam, longe de mim tais conversas, que ela já chegou aqui polinizada por outros beija-flores.

Ao saber do comentário maldoso, Primavera voou nos cabelos de dona Gumercinda, podando-os furiosamente. Logo depois, zuniu-lhe:

— Abelhuda!

Clauder Arcanjo. Contato: [email protected]