quinta-feira , 13 de dezembro de 2018
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eletricidade

Mulheres fantásticas (V): A Mulher Elétrica – Clauder Arcanjo

A pequena vila de Licânia era tocada a luz de vela e de lamparina. Assentada no rincão do sertão nordestino, a muitas léguas da capital, perdida no sopé do Serrote da Rola, à beira das águas do Acaraú. Este, nas invernadas, a correr caudaloso; para alegria da criançada e desespero dos incréus, sempre preocupados com um novo fim do mundo, desta feita pela força das correntezas advindas da cabeceira do Rio das Garças, como também era saudado pelos ribeirinhos.

— Corno não morre afogado, Chico de Tripa! Fica a boiar feito bosta! — achincalhava Bodô, sempre a tripudiar do vendedor de tripa na Pedra do Mercado. Chico casara-se com Fabrícia de Luzia, uma das belas filhas daquele arruado, e motivo de eterna vigilância do esposo.

— Seu filho de uma égua! — gritava, entredentes, o mercador de tripas, vingando-se, em seguida, na clientela, cortando em miúdos os intestinos das criações, enquanto, longe de todos, ainda cuspia na mercadoria, a ralhar impropérios contra aquela “mundiça”. — Se eu fosse mais novo, começaria a minha vida longe dessa laia de malandros. Ora, se não!

Certa tarde, correu a notícia de que o progresso chegaria a Licânia. Num cartaz afixado pela prefeitura, a boa-nova: “Luz para todos, mais uma realização da augusta administração do Coronel Pompílio de Castro”.

Narcílio de Policarpo, um dos raros feirantes que sabiam ler de carreirinha, oposicionista ferrenho, cuidou de ler e reler o cartaz, espalhando, a seu modo, a novidade: “De agora em diante, o Coronel resolveu distribuir lamparina e querosene para todos, a custas da prefeitura. Deve ser arrumação dele com o Seu Batista da Alvanir, pois os dois são sócios no fabrico das lamparinas no Alto da Liberdade, assim como no comércio do querosene nesta terra de administradores mão de gato!”

Foi preciso que o Coronel, que detestava falar em público, ordenasse ao seu assessor que fosse à missa do domingo, pedindo um momento ao Padre Araquento na parte dos avisos, para explicar bem do que se tratava o objeto do cartaz da municipalidade.

— Evite as palavras complicadas, Cléver do Antenor, até eu não entendi o que significa esta tal de ‘augusta administração’. Tire por dentro!, esqueça a verborreia do seu tempo de seminarista. Nada de latinório nem de palavras tiradas do fundo do baú. O povão gosta das coisas diretas e regadas a cachaça e forró! Outra coisa: ao final da sua explicação, anuncie que teremos, na inauguração da luz, muita sanfona e cachaça, a noite toda. Fui claro? — clamou o Coronel.

E, assim, a pequena vila ficou sabendo que, dali a pouco tempo, chegaria uma tal de energia elétrica.

— É o progresso, magote de bestas! — gritava pelas ruas, no dia seguinte, com a cabeça cheia da cachaça misturada do Zezé, o Zé Pretim. Este, sério quando no seu ofício de sapateiro, e um pândego, quando no seu mister de biriteiro bissexto.

***

Para desespero do Narcílio de Policarpo e de todo o partido oposicionista, o tal gerador a diesel foi instalado nos fundos da Prefeitura. “Uma máquina alemã de última geração”, anunciavam os asseclas do Coronel Pompílio de Castro.

Com rara eficiência, as redes elétricas foram esticadas por entre as ruas e becos de Licânia, sobre uma retilínea posteação em madeira de lei. E a eletricidade chegou, seguida de muita farra e foguetório, no final dos anos de 19…

***

Contudo, uma semana depois, deu-se um fenômeno singular. Raro nos compêndios da ciência, e ainda não elucidado pelos físicos daqui e d’além-mar.

Reuni o máximo de detalhes, quando da minha pesquisa pela historiografia do Vale do Acaraú. Confesso, aqui perante todos, que me foi fundamental o testemunho etílico-histórico-étnico-físico-filosófico do senhor João Américo, figura controversa, porém de um senso de observação incomum, raro nos homens do sertão.

Vejamos parte das suas declarações.

— O prefeito coçava o bucho e ria como se tivesse se recém-amancebado com puta nova. Ele metia a mão pelas algibeiras, a distribuir moedas para a meninada, como raramente se via, dado a sua rematada mão de vaca. Coronel Pompílio desfilava pela praça, com seu charutão cubano, baforando satisfação e ironia na cara dos oposicionistas. Estes, reunidos na calçada do Zé Aguiar, a rezarem para o tal gerador falhar. Tudo em vão. Assim que o Padre Araquento abençoou o empreendimento, e o Coronel cortou a simbólica fita, o gerador roncou grosso. E, com pouco, a noite fez-se dia. Pelo menos, onde as lâmpadas estavam instaladas nos postes. Um foguetório, maior do que aqueles de comício de encerramento de campanha, acabou de clarear os céus, espantando tudo que era cachorro para o meio da mataria.

De quando em vez, João Américo parava o seu relato; não para recobrar o fôlego, mas, sim, para melar o bico com uma dose de pinga. Na garrafa, em letras grandes no rótulo, a marca da dita-cuja: “Amansa Corno”.

— Aceita? Não?!… Não posso passar sem ela, é o meu combustível, amigo! — declarava João Américo, para, logo depois, sorver, tal qual um néctar, a dose da maldita.

Como percebia o meu alvoroço de impaciência, João Américo prosseguiu:

— Pois muito bem. Por ora, tudo certo, tudo normal. Você há de concordar. Nada de fantástico ou de sobrenatural. Pois bem. Uma semana depois, a luz elétrica pifou. O técnico, vindo da Alemanha, ganhando os tubos de dinheiro, mexia e remexia na geringonça e… nada. Como a cidade já se acostumara com a tal eletricidade, a pressão foi grande em cima do velho alcaide. A oposição ria às escondidas. Desgraça do governo, graça da oposição.

E ele parou para tomar mais uma dose da Amansa Corno.

— Três dias e três noites, e o desespero só aumentava. O coitado do técnico alemão não dormia, nem tomava banho, tão somente metia-se por entre os manuais e as engrenagens, a conferir e checar tudo. A verificar todas as conexões, a refazer a sequência de montagem. “Ser tudo ok. Ser tudo certo”. O prefeito subia na mesa e gritava com seus assessores: “Ser tudo ok uma pinoia. Só estará certo quando ele der a luz”.

Outra dose, esta dupla. João Américo fez, então, bico e trejeitos de quem caminhava para o desfecho de sua narrativa.

— Muito bem. Até que, no final do quarto dia, o Bodô, sempre com suas tiradas traquinas, postou-se na frente do prédio da prefeitura, a professar, a plenos pulmões: “A única luz desta cidade é a esposa do Chico de Tripa, prefeito. E a luz só vem da luz!”. O Zé Messias, líder do governo na Câmara de Vereadores, soprou, de pronto, aos ouvidos do Coronel: “Sim, Coronel, ninguém fica no escuro quando ela passa!” Consultaram o coitado do técnico, mas ele, por não entender muito bem o português, pensou que “a mulher de Chico de Tripa” seria uma espécie de novo método de diagnose dos trópicos. “Tudo ser-vir. Ser certo”; declarou, com o juízo turvo de tanto cansaço. Um quarto de hora depois, uma delegação pública estava na residência do mercador de tripas. Cléver do Antenor fez um discurso que arrancou lágrimas e aplausos de todos os vizinhos de Chico de Tripa. Fabrícia de Luzia rumou para a prefeitura, seguida de uma legião de fãs. Confidenciaram-me que ela estava bela como a lua; mas, confesso, isso me foi declarado por um poeta, e os poetas, em tudo, envolvem a lua. Pois bem, pois muito bem. Lá chegando, tocaram a coitada em direção ao gerador. O alemão, extenuado e vesgo de fadiga, ao ver aquela bela dama (ele que não via mulher desde que se enfiara na montagem da geração elétrica de Licânia), soltou um esgar, daqueles que sai de garganta de bretão: “Fraulein… Fraulein…”. Os que estavam ao redor nada entenderam, e ela mais se aproximou. Ao chegar bem próximo, ela tropeçou numa alavanca, e a geringonça rugiu, feito uma fera desperta de um sono de séculos. O alemão, caído de desejos, continuou a gritar: “Fraulein… Fraulein…”. A cidade, então, caiu em festa. E, ninguém sabe como, daquele dia em diante, a simples esposa do Chico de Tripa foi alçada à notável posição de “Assessora Extraordinária de Luz e Afins de Licânia”. Dizem até, mas isso são maledicências desse povo linguarudo e falador, que, enquanto Chico de Tripa comercializa tripa, o técnico alemão só confere o mecanismo da máquina a sós com Fabrícia de Luzia. No anedotário popular, ela passou a ser saudada como “Fabrícia de Luzia, a mulher elétrica”.

***

João Américo despediu-se de mim, não sem antes levar uma das suas mãos trêmulas ao meu ombro, a vaticinar, etílico-eletricamente:

— Nunca mais faltará luz em Licânia. O coitado do Chico de Tripa é que me preocupa, sabe, ele parece que anda com a bateria meio arriada.

Clauder Arcanjo

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