Unit

CAMINHANDO PELAS RUAS DE PARIS

Dia especial para respirar o ar revolucionário da Bastilha, gastar tempo, sem hora para voltar, com os monumentos, as praças, o borburinho das ruas movimentadas, seus museus extraordinários - Paris é a cidade dos muitos museus -, suas inúmeras cafeterias e restaurantes, as lojas que por lá pululam aos cem vezes cem, as mais requintadas boulangeries com seus doces, brioches, croissants especiais, igrejas e ruelas escondidas nos locais mais imprevisíveis.
Fomos de metrô, pois a chuvinha fraca e molhadeira caía constante dum céu parisiense escuro, coberto por nuvens ameaçadoras. Além do mais, o lugar aonde estávamos indo ficava muito distante para ir caminhando, não valia a pena perder tempo e emoções. Descemos exatamente na estação da Bastilha, subimos as escadas em direção ao ar livre e fomos rudemente recepcionados pelo bafo gelado do vento mal educado que se divertia em congelar os passantes. A Place de la Bastille regurgitava de tanta gente, aliás, isso é comum acontecer em todos os lugares de Paris, é como se todos os parisienses acompanhados dos turistas fossem para as ruas para viver essa festa ininterrupta e contagiante em que se envolve sempre a Cidade-Luz.
Não tínhamos nenhuma pressa, urgia principalmente caminhar à toa admirando, fotografando e anotando tudo que nos aguçava a atenção. O trânsito se mostrava uma loucura controlada, com os carros indo para todos os caminhos em grandes aglomerações, buzinando uns mais afoitos, freando abruptamente outros por alguma razão que não percebi, ali dando a impressão de que os automóveis brotavam repentinamente da terra e saíam em disparada com seus motoristas controlando-os à proximidade dos semáforos, à passagem de pedestres desatentos ou que burlavam o sinal vermelho, eles também partes integrantes desse espetáculo da vida cotidiana.
Num determinado sinal vermelho olhei para o lado e fui surpreendido, não quis acreditar, pisquei os olhos, tornei a olhar e a mesma cena se repetia em câmara lenta, parei esquecendo o sinal aberto e chamei minha esposa para ver a jovem muito bem vestida que, sem se importar com quem a enxergava, mexia numa das muitas lixeiras procurando algo que a interessasse. Esperei atônito, ansioso para testemunhar o que viria de sua procura no lixo da praça, certamente era algo que ela muito desejava. E encontrou. Retirou do meio do lixo metade de um sanduíche enrolado num saco de papel, sorriu satisfeita pela garimpagem, mordiscou a "iguaria" e se foi toda feliz pelo achado. Suspirei, voltei-me para a rua que deveria atravessar, agora impedido pelo vermelho forte do semáforo, balancei a cabeça juntamente com minha esposa, sem palavras, mas abalado por uma estranha e forte tempestade de pensamentos. Meus pensamentos lutavam contra a certeza do que os olhos viram e a idéia de que eu poderia estar sonhando e nada daquilo era verdade. Mas era, como era! A jovem parisiense realmente tirara do lixo um resto de sanduíche e saíra a comê-lo como se o houvesse comprado fresquinho numa lanchonete.
Sempre consultando o mapa de Paris, o nome das ruas e das praças, tanto para saber onde estávamos e aonde íamos quanto no intuito de nos orientarmos em caso de nos desnortearmos por entre as ruelas, que são inúmeras e complicam a vida dos visitantes. Um dos pontos principais de nosso passeio era a famosa Place des Voges, que achamos rapidamente, ficava nas proximidades. Cercada de galerias e pela Meson do eclético e profícuo escritor Victor Hugo, local que aproveitamos para conhecer, essa praça é singela, não tem nada demais nela a princípio, porém depois de alguns minutos parece-nos sentir nela uma aura diferente, lúdica talvez, de tranquilidade, de paz, de crianças brincando alegremente, de casais enamorados trocando juras de amor eterno. Igual a nós dois desde que aqui chegamos. Sentamo-nos por instantes, guardamos para a posteridade as lembranças em fotos, abraçados, felizes, sorrindo. Paris tem o dom de nos tornar exuberantes.
O Museu Carnavalet, logo depois da Place des Voges, deu-se-nos à nossa frente de forma inesperada. Nem sabíamos onde estava localizado e nem planejáramos visitá-lo, só por coincidência, e de súbito, nos deparamos com sua imponência. Um presente assim do acaso não pode ser rejeitado, resolvemos entrar, nos decepcionamos no começo, pensamos em sair achando que o museu fosse apenas o pequeno trecho do andar térreo que vimos, mas logo percebemos outras entradas e escadarias conduzindo aos demais aposentos da entidade. A decepção do princípio se transformou em imensidão de perplexidade, algo deveras incomensurável, havia tanto para ver em vários salões e andares que nos foi impossível ver tudo num dia só. As peças do museu, como aliás o são todas dos museus parisienses, são de uma preciosidade indizível, belas, especiais, encantadoras, sendo a parte da pinacoteca e da história da Revolução Francesa as que mais dominaram minha atenção e acuidade. Preferíamos permanecer no museu por mais tempo com os olhos presos em cada detalhe, nas formas, nas informações escritas em francês e em inglês, contudo ainda queríamos ir à Place de La República e ao Canal Saint Martin.
A Place de La Republica estava em obras, portanto não nos foi possível vê-la em sua plenitude. Tapumes de madeira a escondiam em meio ao trânsito tão difícil para os pedestres quanto para os motoristas, o caos controlado pela frieza da população tornava o entardecer ainda mais opaco, mormente pelo fumaceiro dos mortíferos cigarros pendurados nos lábios dos fumantes e pela penumbra do céu carrancudo. Isso nos apressava no rumo do Canal Saint Martin, pois a noite se avizinhava e faltava muito chão para chegarmos lá. Além do mais, a cada momento a consulta ao mapa se fazia necessária e importante, não estava em nossos planos nos perder em Paris.
Até chegarmos ao nosso destino final desse dia, percorremos diversas vielas, avenidas, ruelas escondidas entre os prédios altos com suas lojas, lanchonetes, pequenos supermercados, boulangeries, coifeurs e um sem número de estabelecimentos diversificados abertos ao público. Aliás, admiro e sou fã especial desse tipo de construção em que o andar térreo é para os estabelecimentos comerciais e os andares superiores, para residências. E como tudo isso era chamativo à nossa atenção, somente alcançamos, finalmente, o Canal Saint Martin ao cair da noite. Por essa razão não ficamos muto tempo por lá, achamos por bem curtir um pouco, tirar algumas fotos, subir nas pontes de um lado para o outro e voltar. O local é belíssimo, residencial, abarrotado de comércio como nos demais prédios de Paris, calmo, mas não muito silencioso em virtude do trânsito em seus flancos, propício ao romantismo. Ali em frente a suas águas geladas, sobre uma das pequeninas pontes, sob a gelidez do vento em nossos rostos, namoramos por instantes, vieram novas fotografias e nos prometemos voltar antes de regressarmos ao Brasil. Ressalto, por ser importante, a existência de muitos banheiros públicos às duas margens do canal. Curioso como sou, resolvi conhecer um deles e me vi encantado, é algo de última geração, limpo, tudo eletrônico, a descarga é automática, basta o usuário sair para ela atuar, a porta se fecha, é trancada nesse sistema de automatismo, uma luz vermelha acende e o toillete faz a própria higienização sem a necessidade de mãos humanas. Depois de higienizado, estando pronto para outro usuário, a luzinha verdade acende para deixar claro que o banheiro se encontra à disposição de qualquer que dele necessite naquele moment. Limpo, livre de bactérias, higiênico e automático.

Para comentar diretamente no site do jornal é preciso estar Registrado.

Você está aqui: HomeUniversoGilbamar de Oliveira CAMINHANDO PELAS RUAS DE PARIS