terça-feira , 19 de novembro de 2019
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Homero Costa: A mentira na política

A mentira está presente na vida em sociedade, intimamente ligada àcientistas políticos, historiadores, etc. Atualmente a mentira na política se potencializa com o desenvolvimento tecnológico,com a expansão e influência das redes sociais, uso de Fakenews, etc. e tem ganhado novos ares no se tem chamado de pós-verdade, quando crenças e convicções têm se sobreposto aos fatos. O que e como fazer para combater? O que fazer quando uma avalanche de informações falsas são ou foram de fundamental importância para a vitória de candidatos com base na mentira e enganação?

Em seu ensaio Verdade e política, publicado no livro Entre o passado e o futuro (São Paulo, Editora Perspectiva, 1997, p.282-325) a filósofa alemã Hannah Arendt Trata da política da perspectiva da verdade “podemos chamar de verdade aquilo que não podemos modificar”). O ensaio, como ela diz na introdução, foi ocasionado pela pseudo controvérsia que se seguiu à publicação do livro Eichmann em Jerusalém (1961). No inicio do ensaio, diz “Jamais alguém pôs em dúvida que verdade e política não se dão muito bem uma com a outra, e até hoje ninguém que eu saiba, incluiu entre as virtudes políticas a sinceridade. Sempre se consideraram as mentiras como ferramentas necessárias e justificáveis ao oficio não só do político ou demagogo, como também do estadista” (p.283). Para ela “a verdade factual não é, mas auto-evidente do que a opinião, e essa pode ser uma das razões pelas quais os que sustentam opiniões acham relativamente fáceis desacreditar a verdade factual com simplesmente uma outra opinião (p.301).

Para Hannah Arendt “A marca distintiva da verdade fatual consiste em que seu contrário não é o erro, nem a
ilusão, nem a opinião, nenhum dos quais se reflete sobre a veracidade pessoal, e sim a falsidade deliberada, a
mentira” (p.308). Para ela a veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas, e mentiras sempre foram encaradas como instrumentos justificáveis pelos governantes.

Na política, o uso da mentira é sistemático. Em relação aos Estados Unidos, cujo atual presidente, Donald Trump, tem sido pródigo em mentiras (ver A morte da verdade: notas sobre a mentira na era Trump de Michiko Kakutani – Rio de Janeiro, Editora Intrínseca, 2018) e também no livro Por que os líderes mentem: toda a verdade sobre as mentiras na política internacional (Rio de Janeiro, Zahar, 2012) de John Mearsheimer.

Eles mostram, entre outros aspectos, como os presidentes norte-americanos mentiram (e mentem) tanto política interna como externa, ao longo do tempo. E, claro, não são especificidades apenas dos Estados Unidos. No caso específico, são muitos os exemplos, com as mentiras de George W. Bush e seu governo, para justificar a invasão do Iraque e Afeganistão. No caso do Iraque, entre as muitas mentiras, a de que tinham provas de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa, que tinham evidências seguras de que Saddam Hussein era aliado de Osama Bin Laden, e que ele teve responsabilidade nos ataques do 11 de setembro de 2001 e que estariam
abertos à resolução pacífica de suas controvérsias com Saddam, quando na verdade a decisão de ir à guerra já havia sido tomada. Foi um festival de mentiras.

Outro exemplo: Em junho de 1971, o jornal The New York Times teve acesso a um documento, que ficou conhecido como Os Documentos do Pentágono e publicou uma série de matérias sobre a real participação dos Estados Unidos na guerra. Os documentos mostraram como o governo mentia descaradamente sobre a guerra e suas justificativas. Hannah Arendt, no ensaio A mentira na política: Considerações sobre os Documentos do Pentágono (Crise da república, São Paulo, Editora Perspectiva 1973, p. 9-48) faz uma excelente análise do documento “registro altamente secreto e copiosamente documentado do papel dos Estados Unidos na Indochina desde a Segunda Guerra Mundial até maio de 1968”.

Em relação à Guerra do Vietnã, o pretexto que os Estados Unidos usaram para entrar em guerra só se revelou ser uma farsa em 2005. Trata-se do caso que teria ocorrido no golfo de Tonquim no dia 2 de agosto de 1964,quando o governo foi informado que três navios norte – vietnamitas se dirigiam rumo ao destróier norte-americano (USS maddox que estava em missão de vigilância e espionagem na costa do Vietnã do Norte) carregados com torpedos. Alegando que os navios teriam sido atacados, os EUA declaram guerra ao Vietnã, só 50 anos depois, em 2005, documentos da agência de Segurança Nacional, a NSA, veio a público demonstrando que a presença das lanchas torpedeiras da Marinha norte-vietnamita nunca foram confirmadas, ou seja, agentes da NSA distorceram os fatos e ajudou a precipitar a Guerra do Vietnã, com as consequências conhecidas. Portanto, o ataque ao Golfo de Tonkin foi uma operação destinada a inventar um ataque, com o objetivo de dar aos Estados Unidos o pretexto para justificar a guerra.

Uma das estratégias eficazes da mentira é a difusão do medo, que é quando um líder mente a respeito de uma ameaça de política externa, sabendo que os cidadãos, em geral, desconhecem o que de fato está ocorrendo. O caso da invasão do Iraque e do Afeganistão são apenas dois exemplos dos muitos da história de intervenções militares dos Estados Unidos no mundo. Sempre com base em mentiras. O objetivo é claro: motivar o público a levar essa ameaça a sério e apoiar “os sacrifícios necessários”.

Outra parte da mentira é o seu acobertamento estratégico: são mentiras que procuram a ocultar políticas
fracassadas, mentindo sobre seus erros (nunca reconhecidos) ou suas políticas malsucedidas.

Em relação ao Brasil, algum dos usos de mentiras na política foi analisado no livro “Você foi enganado:
mentiras, exageros e contradições dos últimos presidentes do Brasil” de Chico Otavio e Cristina Tardáguila (Rio de
Janeiro, Editora Intrínseca, 2018). O livro “é composto por algumas das muitas histórias que envolvem mentiras,
exageros e contradições que marcaram a vida política do país no último século”. O período em questão vai do
governo de João Batista Figueiredo a Michel Temer. No caso de Figueiredo, trata mais especificamente sobre o caso
da bomba do Riocentro, de grande repercussão: no dia 30 de abril de 1981 cerca de 20 mil pessoas assistiam a um
show, com entre outros, Chico Buarque, Gal Costa, Gonzaguinha (cujo pai, Luiz Gonzaga seria o grande (homenageado), Alceu Valença, Simone, Elba Ramalho etc., quando uma bomba explodiu no colo de um militar (que se soube depois, era do DOI (Destacamento de Operações de Informações do I Exército) no estacionamento do pátio. O objetivo seria explodir dentro do Riocentro e culpar a esquerda. Logo, foi montada uma farsa para distorcer os fatos e absolver os dois militares que estavam no carro (ver uma análise mais detalhada nas pgs. 27 a 53 do referido livro).

Segundo os autores “Sim. Você foi enganado. Aproveitando-se de sua boa-fé, os políticos do Brasil têm usado a mentira como um instrumento de conquista e manutenção de poder. E a farsa com finalidade política não segue ideologia nem é recurso restrito a determinados partidos – tem sido utilizada por conservadores, moderados,
progressistas, ditadores”.

No artigo Mente que não sente, publicado no jornal Folha de S. Paulo no dia 3 de setembro de 2019, Álvaro Costa e Silva, inicia afirmando que “Todo mundo mente. Mas alguns exageram. Na literatura universal há exemplos notáveis desde Penélope, mulher de Ulisses, que na Odisseia, de Homero, engana seus pretendentes tecendo de dia e desfazendo de noite uma colcha. Para não morrer, Sherazade vira contadora de histórias” etc. Cita outros mentirosos, como o barão de Münchhausen, o explorador Fernão Mendes Pinto (“que ficou conhecido como “Fernão Mendes Minto” ou “Fernão, Mentes? Minto!”) etc.

Em relação ao presidente da República afirma que “Desde que assumiu a Presidência, Bolsonaro já fez quase 300 declarações falsas ou distorcidas. Só em agosto, durante a crise ambiental e diplomática em torno da Amazônia,
foram mais de 30 falas equivocadas –o que está lhe garantindo um lugar de destaque na galeria da mentira. A
imprensa tem lhe dedicado títulos nunca antes lidos (…). Após ofender mulher de Macron, Bolsonaro diz que não a
ofendeu (…) ou (…). Sem provas, Bolsonaro diz que queimadas podem ter sido causadas por ONGs. Do jeito que a
coisa vai, ainda leremos: “Bolsonaro mente que não sente”.

Segundo o site Aos fatos, atualizado em 30 de agosto de 2019, em 241 dias como presidente, Bolsonaro deu 286 declarações falsas ou distorcidas Esta base, como informa o site “agrega todas as declarações de Bolsonaro
feitas a partir do dia de sua posse como presidente”. As checagens são feitas pela equipe do Aos Fatos
semanalmente.

A lista é extensa e citaríamos apenas três: no dia 23 de agosto de 2019, o presidente disse “De todo modo,
mesmo que as queimadas deste ano não estejam fora da média dos últimos 15 anos”. Como informa o site, não é
verdade: “Até julho deste ano, uma área de 18.629 km² foi queimada na Amazônia, segundo dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). Isso é 39% mais do que a média dos quinze anos anteriores (2004 a 2018) para o mesmo período, que foi de 13.372 km². A área também é a segunda maior desde 2006, perdendo apenas para 2016, quando 19.220 km² foram queimados, também segundo o INPE. O ano de 2019 está também acima da média dos últimos 15 anos quando é considerado o número de focos de incêndio, e não a área queimada. Até julho, foram 15.924 episódios na região, 12,6% acima dos 14.133 da média para o período 2004-2018, ainda segundo dados do INPE. Portanto, a afirmação de Bolsonaro é FALSA”.

No dia seguinte, 24 de agosto, ele disse que “A média das queimadas [na Amazônia] tá abaixo dos últimos anos”. Outra declaração falsa: “De acordo com dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), de 1º de janeiro a 22 de agosto de 2019 foram registrados 39.601 focos de incêndio no bioma. O número é o maior para os primeiros oito meses do ano desde 2010, quando foram contabilizados 58.476 focos de incêndio”.

No dia 30 de agosto mais uma: disse que a suspensão da exportação do couro brasileiro para 18 marcas estrangeiras foi uma Fakenews”. Não foi. Como diz o site: “No dia 28 de agosto, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria onde relatava que 18 marcas internacionais avaliavam suspender a importação de couro brasileiro. A informação foi obtida a partir de uma carta da CICB (Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil) enviada ao Ministério do Meio Ambiente no dia 27 de agosto. No dia 29, a VF Corporation, responsável pela administração das 18 marcas em nota enviada à Folha, confirmou que está suspendendo as importações do Brasil. (https://aosfatos.org/todas-as-declara%C3%A7%C3%B5es-de-bolsonaro/).

No artigo “A mentira na política e o ideário fascista”, publicado no jornal o Estado de S. Paulo no dia 11 de abril de 2019, Eugenio Bucci, jornalista e professor da Escola de Comunicação da USP (ECA) escreveu um artigo muito esclarecedor sobre o assunto, sobre o uso da mentira na política brasileira. Uma indústria da mentira, como o nazismo ser de esquerda, que a tomada do poder pelos militares em 1964 não foi um golpe de Estado etc., “mentiras
não são infâmias isoladas, pronunciadas por alguém que aposta na polêmica. Associadas umas às outras, elas cumprem um papel que não é gratuito, nem casual, nem humorístico: servem para desmoralizar os direitos humanos, a cultura da paz e a normalidade institucional numa democracia. Vieram o público para promover um ideário, hoje anacrônico, tosco e iletrado, mas renitente: o ideário do fascismo”.

São sucessivos discursos que não passam de imposturas “Tudo isso é impostura. Tudo isso é fascismo canastrão, requentado, que seria paródico se não fosse letal. A usina de mentiras controlada pelos governistas planta entre nós o desejo de tirania, enquanto encoraja a violência generalizada – da polícia, dos milicianos, dos guardas da esquina e da linguagem. As armas de fogo são os novos amuletos da virilidade que espanca mulheres e homossexuais” e por isso, afirma, nada de virtuoso virá de um governante que ofende a história da humanidade e não guarda respeito pela ordem que lhe conferiu o mandato: ao bajular a ditadura extinta, enxovalha o juramento que fez de “manter, defender e cumprir a Constituição”.

Homero Costa Homero Costa, cientista político e professor da UFRN

Homero Costa, cientista político e professor da UFRN