quinta-feira , 19 de julho de 2018
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Geraldo Maia : Um sonho que não se realizou

Um sonho que não se realizou

Geraldo Maia do Nascimento gemaia1@gmail.com www.blogdogemaia.com
Geraldo Maia do Nascimento
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A Lei nº 742, de 26 de agosto de 1875, autorizava o Presidente da Província do Rio Grande do Norte a contratar com John Ulrich Graff, ou com quem maiores vantagens oferecesse, a construção de uma estrada de ferro, a partir do porto ou Cidade de Mossoró, aos limites da Província, em direção ao município de Apodi e Pau dos Ferro. Entendia Graff que o progresso de Mossoró dependia da velocidade com que conseguisse importar e exportar os seus produtos.

A tropa de burros, que até então transportava as mercadorias, já não era suficiente para atender a um mercado crescente como o de Mossoró, que naquela época era tida como empório comercial. Fazia-se mister a construção de uma ferrovia, que entre outros benefícios, baratearia os fretes e diminuiria o tempo de transporte.

No “Prospecto da Empresa” Estrada de Ferro de Mossoró, de autoria de John Ulrich Graff, que teve a sua primeira edição publicada pela Tipografia e Livraria de Lombaertes & Cia, do Rio de Janeiro, provavelmente em 1876, lê-se o seguinte:

“Esta empresa reúne quase todas as vantagens que uma via férrea pode apresentar; sua utilidade e seu valor serão superiores a todas as outras estradas do Norte do Brasil.

Para conhecer essa superioridade incontestável, bastará ver a carta do Brasil e examinar o seu traçado, e saber que, com uma linha quase reta de cerca de 230 quilômetros unir-se-á, com um dos melhores portos do Norte, o centro mais importante, contendo uma população das mais compactas, com um solo na maior parte dos mais férteis, podendo produzir pela variedade do mesmo e da temperatura entre as serras e as planícies, não somente os produtos do Brasil inteiro, como também cereais e muitos outros gêneros da Europa.

Este centro, já importante por sua produção agrícola, há de ser também a sede da indústria geral, logo que começar a exploração das minas de ferro, carvão, cobre, ouro e outras cuja existência me foi assegurada. Também existe, na beira da estrada, barro e greda própria para louça fina, etc., pedra calcária em abundância que auxiliarão muito a empresa.

A exploração das minas começará indubitavelmente com a construção da estrada e então a imigração dirigirá sua grande atenção sobre o dito centro, rico em vegetação e minerais, vendo que nele pode criar um belo futuro.
O coração do dito centro não poderá ser alcançado por via férrea, partindo de qualquer outro ponto da costa do mar, senão com uma extensão superior àquela de Mossoró, de 100 a 500 quilômetros, visto que todas as outras estradas exigirão grandes voltas, por causa das serras e rios importantes e numerosos que existem em qualquer outra direção. Por exemplo: para chegar ao ponto importante de Cajazeiras, uma estrada partindo do Ceará necessitava uma extensão de 530 quilômetros ao menos.

A estrada terá o trânsito dos produtos vindos das margens do Rio São Francisco, oferecendo a mais curta, rápida e mais econômicas comunicações entre a costa e o alto de São Francisco, será sem contestação a todo respeito a mais importante estrada do Norte do Império.

Previa também a criação de uma escola agrícola:

“ Para tirar os agricultores da sua velha rotina de trabalho sem cálculo, isto é, a toa, incapazes assim de lutar com os países produtores que constantemente procuram fazer progressos para serem capazes de produzir com o mesmo lucro mais barato do que seus competidores favorecidos pela natureza, eu me obriguei a fundar uma escola agrícola, a qual em vez de ser onerosa para a empresa, lhe trará abaixo de uma direção hábil e ativa, muitos lucros diretos e os seus benefícios indiretos serão ainda mais importantes.

A escola formará verdadeiros agricultores, os ensinará a reconhecer e escolher os melhores ramos de agricultura, os mais apropriados as suas residências, a trabalhar com cálculo e economia e os fará capazes de produzir, no mesmo tempo e com as mesmas despesas e braços, ao menos o dobro do que tem produzido para obter assim um resultado favorável do seu trabalho e ocupar uma posição mais independente e social, o que os tornará aptos e ardestes para proteger as boas empresas do país, que o progresso geral exigirá.“

O Projeto foi sancionado em 27 de agosto de 1875 pelo Presidente da Província Dr. José Bernardo Galvão Alcoforado Júnior, e no dia imediato foi assinado o contrato com John Ulrich Graff, testemunhando os senhores Arthur Annes Jácome Pires, Doutor Manoel Dantas e o engenheiro da Província Feliciano Francisco Martins. O Decreto Imperial foi assinado em 4 de março de 1876.

Com o contrato nas mãos, partiu em busca de capital para a realização do seu sonho. Mas logo percebeu a impossibilidade de levantar parte do capital na própria região, como sonhara. Seguiu então para o Sul, procurando organizar a companhia primeiramente com os parcos recursos nacionais, só depois apelando para o capital estrangeiro. De nada lhe valeu. A falta de garantias entravava o seu empreendimento. E por sete anos seguidos se empenhou em torno do seu ideal, embalado pela esperança de um futuro promissor. Mas a sorte lhe foi adversa.

Humilhado, envergonhado pelo fracasso de sua aventura e amargando grandes prejuízos comerciais, agravados pelas disposições do Decreto Imperial nº 8.598, de 17 de junho de 1882 o qual declarava a caducidade da concessão, sentiu o seu mundo desabar. Perdeu Mossoró a estrada de ferro que alavancaria o seu progresso e o empreendedor Ulrich Graff que, arrecadando os parcos recursos que lhe sobraram de sua aventura, rumou para a Amazonas, levando consigo a mágoa e a desilusão e deixando atrás o rastilho de um ideal que levaria anos para se concretizar. Ali a morte cedo o arrebatou, sumindo na floresta, com as flores cobrindo a sua sepultura.

Para conhecer mais sobre a História de Mossoró visite o blog www.blogdogemaia.com.