quinta-feira , 27 de julho de 2017
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Gabriel Bocorny Guidotti – O dom de escrever

 

Gabriel Bocorny Guidotti – Jornalista e escritor

A palavra poética é oportunista, pois permite interpretações. Com uma caneta na mão sou um artista e posso, se me utilizar das ideias certas, estimular multidões. Para quem pratica esse ofício, um dia chega aquele momento odioso em que o erro acontece. Você pega a referência errada, usa uma fonte fraca, ou fracassa, acidentalmente ou não, no português. Aí o Diabo entra em cena.

Errar é humano. Notar o erro é desumano, ainda mais quando o erro é compartilhado para milhares de pessoas. Você lê o texto 15 vezes e não repara no que estava bem na frente do seu nariz. Incrédulo, não acredita e se irrita. Às vezes, oscilações emocionais corrigem um trabalho. Em um dia, escrevo de um modo. No outro, olho para aquilo e digo: “onde é que estava a minha cabeça?”.

O texto é sempre passível de erros gramaticais. Erros contextuais, que podem virar acertos no dia seguinte, dependem do ânimo do autor.  O objetivo é sempre o mesmo: a incessante busca pela verdade. Triste, já escrevi belíssimas memórias. Em outros momentos, o predomínio da felicidade não me permitiu produzir mais que duas linhas. Destarte, escrever constitui um campo de batalha. Inúmeros fatores influenciam no resultado.

Concomitantemente, escrever é terapêutico. O dom da palavra move montanhas, muda a história de um povo. Nunca duvide do poder de uma única letra. Ela comanda ideologias e forma novos fiéis. A palavra, mais complexa, é o bastante para a morte e a vida. Uma palavra determina a ascensão e a queda de uma nação. De palavras vive a nossa espécie. Escrever é conquistar corações, para o bem ou para o mal.

Procuro estimular o bem, criticando o que precisa ser criticado e maquiando as deficiências do mundo quando eu mesmo não as suporto. Figurar é uma saída atraente quando tantos fatos ruins acontecem ao nosso próprio arrepio. Mas é a vida, e ela precisa ser vivida. De outro modo, não haveria sobre o quê escrever. Não haveria, igualmente, os heróis da palavra grifada. E isso o mundo jamais poderia suportar.