sábado , 25 de novembro de 2017
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Francisco Cornélio Rodrigues – Reflexão para o XXVIII Domingo do Tempo Comum

A liturgia deste vigésimo oitavo domingo do tempo comum nos oferece Mateus 22,1-14 para o Evangelho, texto composto pela última da série de três parábolas consecutivas de Jesus, em seu primeiro conflito direto com as autoridades religiosas no templo de Jerusalém. Trata-se de mais uma parábola de apresentação do Reino dos céus, em resposta ao questionamento dos sumos sacerdotes e anciãos do povo a respeito da autoridade com que Jesus ensinava (cf. Mt 21,23-27).

À medida que Jesus respondia, sempre através de parábolas, a sua rejeição aumentava naqueles que, achando-se os legítimos representantes de Deus, não admitiam que alguém falasse do Reino com tanto conhecimento e liberdade. Além de apresentar o Reino dos céus com características tão diferentes do que a religião oficial pregava, Jesus decretava a falência e inutilidade daquela religião e, consequentemente, dos seus chefes. Por isso, de adversários, seus interlocutores passarão a algozes, uma vez que não aceitavam ser contrariados.

A parábola de hoje se destaca sobre as outras duas da série, lidas na liturgia dos dois últimos domingos: a de “um pai que tinha dois filhos e uma vinha” (cf. Mt 21,28-32) e a dos “vinhateiros homicidas” (cf. Mt 21,33-43). Na de hoje, o Reino dos céus é comparado a uma festa de casamento que um rei preparou para o seu filho. Enquanto a imagem da vinha, predominante nas duas primeiras, possuía um significado mais restrito para o mundo semita oriental, a imagem de um  banquete possui um significado bem mais universalista, podendo ser compreendida com mais facilidade também em outras culturas.

O primeiro versículo nos insere diretamente no contexto, e nos faz perceber que essa parábola é a continuidade de um discurso já iniciado, embora a tradução do texto litúrgico não expresse bem isso: “Jesus voltou a falar em parábolas” (v. 1). Essa expressão dá a entender que houve uma interrupção no discurso. Conforme a língua original do texto, o grego, a tradução mais adequada seria “Jesus continuou falando em parábolas”. O auditório é o mesmo das duas parábolas anteriores: os sumos sacerdotes e anciãos do povo, ou seja, a elite religiosa de Jerusalém.

É surpreendente a imagem com a qual o Reino é comparado: “O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho” (v. 2). Aqui, Jesus dispensa a linguagem litúrgico-religiosa. Não faz menção a sacrifício, nem a culto, nem a peregrinações, nem a um templo, mas a uma festa. E a festa por excelência na antiguidade, era a festa de casamento, sobretudo no mundo oriental. Era uma festa que durava em média sete dias, podendo ser ainda prolongada, a depender das condições dos noivos. Dessa imagem usada por Jesus, evocamos, de imediato, duas das mais importantes características do Reino: a alegria, o amor e a perenidade.

A festa em si, é sinônimo de alegria, ainda mais preparada por um rei. É certa a abundância de comida e bebida, música e muita alegria entre os convivas. O fato de ser uma festa de casamento, lembra o amor, elemento indispensável para a vida da comunidade. Sendo uma festa com duração de sete dias, lembra a perenidade: um tempo completo, perfeito e eterno. Por isso, a festa de casamento  era a mais bela de todas as festas, inclusive sonhada por tanta gente. As pessoas, na antiguidade, aguardavam com ansiedade um convite para uma festa assim. Era o momento de exagerar, inclusive na bebida (cf. Jo 2,1-12), como atesta a própria Bíblia. É surpreendente que seja com esse tipo de festa que Jesus comparou o Reino, ao invés de uma reunião litúrgica ou vigília.

Além de um ensinamento para o presente, com essa parábola Jesus dá uma verdadeira aula sobre a história da salvação aos seus interlocutores. Diz ele que o rei “mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir” (v. 3). Aqui, Jesus recorda aos seus interlocutores que foi Israel o destinatário predileto de Deus, a quem foram enviados os profetas, os quais não foram ouvidos. A recusa ao convite de um rei equivale a uma rebelião. Nesse caso, Jesus enfatiza a rebelião de Israel aos apelos de seu Deus. Um povo fechado, de coração duro, que não escuta o seu Senhor. Como Deus não desiste do seu povo, nem da humanidade, eis que o convite continuou sendo feito até que, aborrecidos pela insistência do rei, os primeiros convidados passaram da indiferença à violência, chegando a matar os emissários do rei (vv. 4-5). Com a insistência do convite e a recusa dos destinatários, Jesus apresenta uma síntese de toda a história da salvação, denunciando Israel e advertindo os seus seguidores de outrora e de sempre.

O versículo sétimo é, certamente, um acréscimo da comunidade de Mateus, uma vez que o mesmo não consta na versão desta parábola no Evangelho de Lucas (cf. Lc 14,15-24). Na época da redação do Evangelho de Mateus, Jerusalém já tinha sido destruída pelas tropas romanas e, no auge do conflito da comunidade de Mateus com a sinagoga, a destruição da cidade e do templo servia como resposta e explicação para a rejeição dos judeus à mensagem cristã. A própria lógica temporal interna da parábola não comporta tal atitude da parte do rei: se todo o reino estava concentrado e voltado para a festa, e a comida já estava à mesa, como parar tudo de repente para guerrear e depois recomeçar a festa?

A parábola continua seu curso normal no versículo oitavo: “Em seguida, o rei disse aos empregados: a festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela”. A conclusão do rei é uma acusação ao fechamento de Israel à conversão. De fato, é notório que, ao longo da história, a mensagem profética foi rechaçada em Israel, sobretudo pelas autoridades religiosas. A falta de dignidade dos convidados fora comprovada pela indiferença e violência com que trataram os enviados do rei. Porém, a rejeição de Israel não inibe os propósitos salvíficos de Deus para com a humanidade inteira.

A nova determinação do rei corresponde à insistência de Deus e à continuidade de sua oferta de vida para toda a humanidade: “Portanto, ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes” (v. 9). Podemos considerar esse o versículo central de toda a parábola. Aqui está o embrião de uma Igreja-comunidade em saída! A expressão “encruzilhadas” significa o encontro com as periferias. A expressão usada na língua original do texto significa a saída da cidade. Era lá onde ficavam todas as pessoas de atividades “vergonhosas”, ou seja, o que era considerado escória da sociedade, como prostitutas, mendigos, assaltantes e doentes considerados impuros. Esse versículo é um convite claro para que os seguidores e seguidoras de Jesus se voltem para as margens. Aqui, de modo definitivo, é apresentada a nova dinâmica do Reino, destacando seu aspecto inclusivo: todos os que forem encontrados devem ser convidados! Acabou o tempo das distinções, dos rótulos, das separações.

Finalmente, o convite tornou-se efetivo: quando foi endereçado a todos, a maus e bons, sem distinção. O resultado foi a sala cheia de convidados (v. 10). Enquanto os enviados dirigiam-se a uma elite privilegiada e indiferente, a sala permaneceu vazia. Somente quando saíram para as margens o convite encontrou adesão. Aqui está um alerta da comunidade de Mateus para as comunidades de todos os tempos. O convite, ou seja, o anúncio, deve ser feito a todos e todas, sem distinção alguma. Porém, aceitar o convite-anúncio requer compromissos da parte do convidado.

Ninguém é excluído do Reino, mas alguém pode se auto excluir, ao não fazer comunhão com os demais. É esse o sentido do convidado que não portou o “traje de festa” (v. 11). Caso se tratasse de uma veste real, nenhum dos convidados estaria apto, afinal, todos foram pegos de surpresa com o convite feito de última hora. A percepção do rei, notada pelo evangelista, é uma investida para a sua comunidade: não basta estar na sala, participar de reuniões e atos litúrgicos, receber sacramentos, sem disposição para a vida comunitária. O traje é, aqui, o sinal de unidade entre os convivas do banquete, e portanto, os membros da comunidade cristã: a prática das bem-aventuranças, o conteúdo programático do discipulado no Evangelho de Mateus.

A reação do rei à falta do traje em um dos convidados não significa castigo, mas auto exclusão do próprio convidado (v. 12). Não aceitar participar do banquete com alegria, amor e justiça é privar-se da vida em plenitude. Ter os pés e as mãos amarrados, chorar e ranger os dentes (v. 13), é a imagem do desespero último do ser humano. Só é desesperado quem não aceita participar do banquete da vida.

O evangelista ensina, com tudo isso, que o simples fato de alguém participar de uma comunidade ou igreja não é sinal de nenhuma garantia de vida. Só vive plenamente quem aceita fazer comunhão e pratica o programa de vida de Jesus. A parábola é concluída com uma nota proverbial explicativa: “Porque muitos são os chamados, e poucos são os escolhidos” (v. 14). Mesmo dentro da comunidade, há risco de alguém ficar privado de vida plena. O evangelista enfatiza exatamente isso: não basta ter sido convidado ou convidada, afinal, todos foram. O importante é, ao sentir o chamado, conduzir a vida segundo o programa daquele que chama.

 

Que ninguém sinta-se seguro por estar na Igreja. Todos são chamados, mas só participa plenamente da festa, ou seja, do Reino, quem porta o traje das bem-aventuranças, sinal único e distintivo dos cristãos e cristãs. O certo mesmo é que Deus quer a sala cheia; para as igrejas e comunidades eclesiais precisam ir às encruzilhadas.