quarta-feira , 24 de abril de 2019
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Espérance completa 100 anos de futebol, paixão, títulos e política

Filho da rebeldia contra a ocupação colonial francesa na Tunísia e símbolo das aspirações independentistas, o Espérance, atual campeão continental africano, completou 100 anos de fundação nesta terça-feira.

O clube nasceu antes mesmo da fundação do primeiro partido político e do primeiro sindicato do país, e em 1956, ano da independência tunisiana, já fazia jus ao nome havia quase quatro décadas.

Em 1917, dois jovens visionários de apenas 19 anos, Mohammed Zouaoui e Hedi Kallel, decidiram criar um time de futebol muçulmano, uma iniciativa barrada pela autoridade colonial com a desculpa de que não incluía cidadãos franceses no seu comitê constituinte.

Diante da perseverança dos jovens, a França, que dominava o antigo território otomano desde 1881, designou Louis Montassier para liderar o clube. Ele exigiu ser presidente e foi afastado dois anos depois, assim que foi obtida a autorização oficial.

O novo clube, que não contava com recursos econômicos, optou pelas cores verde e branca, vinculadas ao islã, para seu uniforme e o primeiro escudo.

“Nem sequer sabiam como criar o estatuto, e por isso copiaram às escondidas o do Racing de Túnis, à luz de uma vela, para poder devolvê-lo antes de que se dessem conta”, contou à Agência Efe Abdulaziz Belkhodhja, filho de Hassan Belkhodja, presidente do clube na década de 1970.

“O clube era tão pobre que os jogadores eram obrigados a dividir as camisas e as chuteiras e tinham apenas uma bola para jogar”, disse Abdulaziz, jornalista e autor do “livro vermelho e amarelo” do Espérance.

Seis anos depois da fundação, o clube mudaria as cores para as atuais vermelha e amarela, representando o sangue e o ouro, símbolos do clube. Em 1936, subiu para a primeira divisão, e três anos mais tarde foi campeão nacional pela primeira vez.

Para Abdulaziz, o fenômeno do Espérance vai além do esporte em si: destaca-se por seu forte componente político durante a luta pela independência, sobreviveu à repressão policial durante a ditadura de Zine El Abidine Ben Ali e que voltou a ressurgir em 2011 durante a chamada Primavera Árabe.

“Nos anos 50, as atividades esportivas foram paralisadas por dois anos em apoio ao movimento nacional tunisiano. O Espérance disse que não era normal estar combatendo pela independência e ao mesmo tempo continuar jogando futebol”, disse o filho de Hassan Belkhodja.

A identidade nacionalista quase meio século depois foi superada por um sentimento de filiação ao clube que não tem comparação, nem sequer no coração dos torcedores do maior rival, o Club Africain.

Hoje, a marca Espérance não se reduz apenas ao futebol, mas conta com times e representantes em vôlei, handebol, natação, basquete, ciclismo, boxe e judô, e atua, segundo Abdulaziz, como motor de mudança na sociedade.

“Teve um grande papel social na época, já que foi o primeiro clube a integrar as mulheres, a tirá-las de casa para que praticassem esporte. É por isso que tivemos muitas equipes femininas nos anos 60 e 70, embora agora estejam diminuindo cada vez mais”, lamentou.

O clube aos poucos tornou-se novamente uma referência para a política, que entendeu o impacto que ele tem na sociedade e seu potencial para atrair as massas quando as lideranças falham.

“Na última final da Liga dos Campeões da CAF, que o Espérance conquistou, o primeiro-ministro comemorou a vitória quando todo mundo sabia que ele não torce para o time”, contou o jornalista.

O ditador Ben Ali e seu antecessor, Habib Bourguiba, tentaram explorar a visibilidade do clube, mas incluindo ameaças, usando a violência de torcidas organizadas.

“O poder tem um grande problema com o esporte: tenta limitar ao máximo o número de espectadores. Proibiram a entrada dos menores de idade nos estádios e tentaram afastar ao máximo a realização das partidas, como no último clássico (com o Africain), jogado a 140 quilômetros da capital”, afirmou.

Mesmo assim, o jornalista acredita que o futebol é hoje “um bálsamo” em tempos de crise. “As fronteiras estão fechadas, não há trabalho, quase não existe lazer para os jovens, e daí a necessidade de buscar uma saída, de desabafar. É assim que o Estado está preparando a futura explosão da juventude”, criticou.

Agência EFE