terça-feira , 25 de julho de 2017
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ENSAIO FERNANDO PESSOA I – Das muitas Pessoas que foram Pessoa

Por Violeta Quevedo – Graduanda em Letras pela UFRN

De Fernando Pessoa a Fernando Pessoas

Um homem, um Ser, vários seres;

uma (?) pessoa que ecoa, ressoa

Difícil de falar, complexo de entender!

O poeta? A obra? Como escolher?

Tudo Nele extrapola; desdobra, redobra;

é singular; é plural

Fenômeno sem igual

Entre idas e vindas,

muitas vidas numa só vida

Afinal, o que/quem é real?

Nascido Fernando António Nogueira Pessoa, em Lisboa, a 13 de junho de 1888 e faleceu também em Lisboa, em 30 de novembro de 1935; tornado simplesmente (?) Fernando Pessoa, (ou não seria melhor Fernando Pessoas?). Segundo o próprio, essa seria sua única biografia a ser escrita pelos interessados do futuro.

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,

Não há nada mais simples

Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.

Entre uma e outra todos os dias são meus.

Fernando Pessoa

Considerado um dos maiores poetas do século XX, o mais universal poeta português e ainda ter sido incluído por Harold Bloom, crítico literário, na sua lista dos 26 melhores escritores da civilização ocidental, Fernando Pessoa é um fenômeno enigma célebre. Não apenas pela qualidade de sua vasta produção literária, tanto em português, quanto em francês e inglês, mas também e, para alguns principalmente, pela forma como a produziu. Seja na condição de ortônimo ou de seus heterônimos.

Ao longo de sua vida, para muitos, paradoxalmente, considerada insípida, pacata, insossa, enquanto existência humana, teria criado tantos heterônimos, que ainda hoje não se sabe exatamente quantos. Se é que algum dia se saberá. 72 heterônimos é o número mais aceito como real, mas na biografia “Fernando Pessoa: Uma (quase) Autobiografia”, do brasileiro José Paulo Cavalcanti Filho, lançada em 2011 e resultado de um trabalho de oito anos de pesquisa, é citado a existência de 127 “Pessoas”.

De qualquer forma, independente da quantidade, vale a densidade da obra e sua determinação e dedicação ao processo criativo; seu desapego de si e quase que da vida que corria, ocorria e decorria ao seu redor. Tão intensa e pulsante internamente, que um Pessoa só não dava conta de exteriorizar todo o turbilhão que devia lhe invadir a alma.

Autor precoce, relata numa carta de 13 de janeiro de 1935, ao amigo e crítico literário, Adolfo Casais Monteiro, que seu primeiro heterônimo (Chevalier de Pas) provavelmente teria surgido aos seis anos (aos sete anos Pessoa publicaria seu primeiro poema). É também nessa carta que ele relata a criação dos heterônimos Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos e menciona que uma das possíveis causas da origem de seus heterônimos seria um “fundo traço” de histeria presente em sua personalidade, ou, quem sabe, uma hístero-neurastenia (hipótese que ele mais considerava).

Álvaro de Campos foi “criado” como um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, influenciado pelo simbolismo, mas que logo aderiu ao futurismo. De sua “autoria”, destacam-se as “Odes”, publicadas na revista Orpheu, em 1915, o “Ultimatum”, publicado na revista Portugal Futurista, em 1917 e o poema niilista, “Tabacaria”, escrito em 1928, considerado um dos mais conhecidos e influentes da língua portuguesa.

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,

Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

[…]

Ricardo Reis foi descrito como um médico, latinista, racionalista e monárquico, símbolo da herança clássica na literatura ocidental, expressa na simetria, na harmonia e num certo bucolismo, com elementos epicuristas e estoicos. De acordo com Pessoa, teria se mudado para o Brasil em protesto à proclamação da República em Portugal.

Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.

Mas finge sem fingimento.

Nada esperes que em ti já não exista,

Cada um consigo é triste.

Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,

Sorte se a sorte é dada.

Ricardo Reis

Alberto Caeiro, segundo Fernando Pessoa, que também o considerou como o seu “mestre”, seria órfão, rústico e ingênuo, só tendo recebido a instrução primária. Sua poesia era aparentemente simples, mas, no fundo, denota uma intensa complexidade filosófica. O poema “O guardador de rebanhos” abriu uma sequencia de uns trinta poemas escritos em pé e de uma só vez, num dia (08 de março de 1914) considerado “triunfal” para Pessoa. É um exemplo de sua “simplicidade complexa”.

Eu nunca guardei rebanhos,

Mas é como se os guardasse.

Minha alma é como um pastor,

Conhece o vento e o sol

E anda pela mão das Estações

A seguir e a olhar.

Toda a paz da Natureza sem gente

Vem sentar-se a meu lado.

Mas eu fico triste como um pôr do Sol

Para a nossa imaginação,

Quando esfria no fundo da planície

É se sente a noite entrada

Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego

Porque é natural e justa

E é o que deve estar na alma

Quando já pensa que existe

E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos

Para além da curva da estrada,

Os meus pensamentos são contentes.

Só tenho pena de saber que eles são contentes,

Porque, se o não soubesse,

Em vez de serem contentes e tristes,

Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva

Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos

Ser poeta não é uma ambição minha

É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes

Por imaginar, ser cordeirinho

(Ou ser o rebanho todo

Para andar espalhado por toda a encosta

A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do Sol,

Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.

[…]

Além desses três que o próprio Pessoa parece destacar como seus prováveis preferidos, há ainda o semi-heterônimo Bernardo Soares, um guardador de livros, que para muitos estudiosos seria o mais próximo ou parecido com o Fernando Pessoa “real”. Ele o diferenciava dos demais e o classificava como um semi-heterônimo “porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afetividade” (Fernando Pessoa). Dizia que ele (Bernardo) aparecia sempre que ele (Pessoa) estava cansado ou sonolento. Dele destacamos o “Livro do Desassossego”, considerado uma das obras fundamentais da ficção Portuguesa do século XX.

Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente. Cada sonho meu é imediatamente, logo ao aparecer sonhado encarnado numa outra pessoa, que passa a sonhá-lo, e eu não.

Para criar, destruí-me; tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo senão exteriormente. Sou a cena viva onde passam vários atores representando várias peças.

Do Livro do Desassossego