segunda-feira , 18 de dezembro de 2017
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E Acácio conheceu o desabafo – Clauder Arcanjo

Triste de quem vive em casa,

Contente com o seu lar,

Sem que um sonho, no erguer de asa,

Faça até mais rubra a brasa

Da lareira a abandonar!

(Fernando Pessoa, em Mensagem)

 

Há semanas que eu não via o Companheiro Acácio. Julgava até que ele se encontrava recluso, entregue, de corpo, alma e teclado, às suas conjecturas filosóficas, ensimesmado em suas digressões sócio-metafísicas. Digo e afirmo isto, caro leitor, porque sempre julguei Acácio um Kant abaixo do Equador. Não faço uso do tinteiro do exagero; não, a hipérbole nunca me atraiu, vocês bem sabem.

Pois bem, estava assim, pensando em Acácio, quando dou por sua presença na esquina do Mercado Público. Como de costume, ele vagava sobraçado com uma dezena de livros e periódicos. Abracei-o, calorosamente, enquanto ele me fazia uma cara de poucos amigos.

— Companheiro Acácio, folgo em revê-lo!

— Bom dia, Clauder Arcanjo. Infelizmente, a recíproca não é verdadeira — fulminou-me Acácio.

— …

Sim, as reticências são um recurso de que me valho para tentar expressar o estado apoplético a que tal assertiva me levou.

— Não o sabia tão mal educado, Companheiro! Por uma questão de elegância e civilidade, não se faz (para mim, pelo menos, não se deve) escambo de um voto de comprovada e demonstrada alegria por um coice de mula manca na altura do tórax. Desculpe-me a franqueza — devolvi, ao ter recobrado o senso de orientação.

Acácio voltou-me aquelas sobrancelhas arqueadas por trás dos seus óculos, e cofiou o canto do bigode. Neste exato momento, um transeunte solfejou: “Tire o seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor…”.

Uma lágrima turvou a vista do Companheiro. Imediatamente, sabia-o vítima de alguma grande dor, ou, quiçá, de uma enorme decepção.

— Algo o aflige? Nunca se esqueça de que somos amigos. Na dor, na alegria e em qualquer abatimento! — cuidei, ao meu modo, de abrir o meu porto firme para o seu barco, a lutar em mar de dantescas procelas.

— …

Sim, as reticências são um recurso de que, de novo, me valho para tentar expressar o estado apoplético a que tal assertiva o levou.

Pedi dois cafés na quitanda do Mercado, e ofereci, ao Companheiro Acácio, um dos tamboretes para sentar ao pé do balcão. Lá fora, a cidade rugia em meio à sua rotina de lixo e utopias. Não sei o porquê, no entanto, placidamente, uns versos me invadiram a mente:

 

E são coisas vivas as palavras

e vibram da alegria do corpo que as gritou

têm mesmo o seu perfume, o gosto

da carne

que nunca se entrega realmente

nem na cama

senão a si mesma

à sua própria vertigem…

 

Poema sujo, de Ferreira Gullar.

Cabisbaixos ficamos, minutos infindos. O verbo inchava-nos por entre os lábios grossos; o cuspo grosso, a mente grossa, o mundo grosso.

— Preciso do amigo para…

— Sim?…

— Para… de-sa-ba-far.

— Sou todo ouvidos.

— A vida não é melhor nem pior. Apenas, bem sei, é a vida. O homem não é melhor nem pior. Após cinquenta e quatro anos, acostumei-me, bem sei, com uma conclusão: o homem é o homem. Bicho eivado de carne, osso e de… palavra. E quando a palavra cheira a mofo de antigas intrigas? Sim, de priscas eras! Intrigas imemoriais travestidas de bom debate, do sangue vivo do bom combate da dialética, quando… em verdade, em verdade, é impura e movida por más intenções. Ah, amigo Clauder Arcanjo!… Antes, confesso, eu fazia vista grossa para tal veneno, professado e inoculado por lábios que eu, um dia, bem saudei. Contudo, cansei! Desculpe-me pelo desabafo.

— Você não tem do que se desculpar, Companheiro! — emendei.

— Eu cansei! Cansei de deixar tal verbo-praga propagar-se no canteiro das rosas e das flores das minhas esperanças, e, aí se instalando, crescer e multiplicar-se feito praga, erva-daninha.

— O homem é assim mesmo, Acácio!

— Não, não… mudemos nossos atos e nosso discurso, Clauder, ajustemos nossas velas. Ano passado, lembrou?, eu contemporizei com um verbo-intriga, e ele quase deu cabo de mim. Este ano, acredite, ele se me anunciou, e eu saudei-o a pontapés. Comigo não! De novo, não!… — enquanto falava, o rosto de Acácio era invadido por uma onda de revolta que lhe fazia rubro.

— Calma, Companheiro Acácio. Isso lhe faz mal.

— Mais mal me fazem a omissão e o silêncio dos homens de bem.

— …

Sim, encerro aqui com essas reticências. São um recurso de que me valho, pela terceira vez aqui nesta página, para tentar traduzir o estado apoplético em que tal encontro me deixou.

 

Clauder Arcanjo. Contato: [email protected]