sábado , 19 de outubro de 2019
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Procurador ainda fez gestões para que o MP contratasse os serviços da Neoway, citada dois anos antes em delação
Procurador ainda fez gestões para que o MP contratasse os serviços da Neoway, citada dois anos antes em delação

Dallagnol recebeu R$ 33 mil de empresa acusada de corrupção na Lava Jato

O procurador Deltan Dallagnol recebeu R$ 33 mil de uma empresa acusada de corrupção num dos processos da Lava Jato. O dinheiro entrou na conta do procurador em março de 2018, a título de remuneração por uma palestra na Neoway, empresa de marketing digital que foi citada dois anos antes em documentos de delação.

A Neoway se apresenta como especialista em Big Data (processamento, armazenamento e análise de grandes conjuntos de dados). Tem sede em Florianópolis (SC) e escritórios em São Paulo e Nova York (EUA). Ela teria sido favorecida em contratos de prestação de serviço para a BR Distribuidora, segundo a delação.

Conversas em grupo do aplicativo Telegram entre Dallagnol e outros membros da Lava Jato, divulgadas nesta sexta-feira (26) pelo site The Intercept Brasil e pelo jornal Folha de S.Paulo, mostram que, além da palestra remunerada, o chefe da Força Tarefa também fez gestões para que a Neoway fosse contratada pelo Ministério Público Federal. Ele chegou a gravar um vídeo enaltecendo o uso de produtos de tecnologia em investigações.

Esse tipo de facilitação para realização de serviços e obtenção de contratos é justamente o ponto central da acusação que pesa contra a Neoway e outros acusados na Lava Jato.

No acordo de delação, Jorge Antônio da Silva Luz, que era “operador” do MDB, afirmou ter participado das estratégias de aproximação entre a empresa e a BR Distribuidora. Os encontros teriam sido intermediados por dois integrantes do PT à época. Um deles, Cândido Vaccarezza, hoje filiado ao Avante, foi preso em 2017. Todos, incluindo Vaccarezza, negam as acusações.

Em 2018, ao fechar o negócio da palestra, Dallagnol comemorou no grupo:

“Olhem que legal. Sexta vou dar palestra para a Neoway, do Jaime de Paula. Vejam a história dele: https://endeavor.org.br/empreendedores-endeavor/jaime-de-paula/. A neoway é empresa de soluções de big data que atende 500 grandes empresas, incluindo grandes bancos etc.

Jaime de Paula, dono da Neoway, também estava entre os citados no acordo de delação.

Na conversa do grupo, outro procurador, Júlio Noronha, sugeriu que Dallagnol aproveitasse o encontro para incorporar a Neoway num projeto da procuradoria chamado Laboratório de Investigação Anticorrupção (LinA);

“Top Delta!!!”, diz Noronha. “De repente, se conseguir um espaço para conversarmos com ele e tentarmos algo para trazer uma solução para agregar ao LInA, seria massa tb!”. Dallagnol não vê problema na proposta e ainda comenta: “Exatamente. Isso em que estava no meu plano. Vou até citar ele na palestra pra ver se sensibilizo kkkk”. Noronha responde: “Kkkkk booooua”.

Após a palestra, Dallagnol entra novamente no grupo para dar a boa nova. “Caros podem receber a Neoway de bigdata na segunda para apresentar os produtos???? Ou quarta?”.

Dallagnol diz ainda que a Neoway teria considerado “fazer de graça”. Como os procuradores não chegavam a um acordo quanto à data da reunião, o chefe advertiu: “Minha única preocupação é perdermos o timing da boa vontade deles rs”. Noronha emendou: “Kkkk a gente ganha eles de novo qdo encontrarmos!”

Pepino

Segundo a Folha e o Intercept, a sequência de diálogos mostra que a reunião se realizou.

Porém, quatro meses depois, antes que a transação fosse concluída, Dallagnol entra no grupo para dar uma má notícia: teria descoberto, só então, que a Neoway era citada em acordo de delação e que isso seria “um pepino” para ele.

“Qto isso é ruim? Legalmente não vejo qualquer problema, mas já estou sofrendo por antecipação com as críticas”, diz Dallagnol. Em seguida, passa a discutir estratégias de que como se defender caso a história venha a público.

Dallganol então cogita declarar-se impedido nas investigações envolvendo a Neoway, mas, segundo o Intercept, somente em junho de 2019 ele envia ofício ao corregedor do Ministério Público Federal relatando o episódio.

Nesse documento, ele alega: “Na data da palestra, a empresa não era investigada no âmbito desta força-tarefa da Lava Jato e eu desconhecia que a empresa seria mencionada no futuro em colaboração premiada a qual seria firmada pela procuradoria-geral da República, em Brasília”.

O Intercept contesta essa linha de argumentação:

“(…) a Neoway já havia aparecido em documentos oficiais em duas ocasiões. A primeira vez foi no rascunho da proposta de delação de Luz, cujo documento foi criado em março de 2016, de acordo com os metadados. A segunda noutro documento, criado em abril de 2017, que continha novos depoimentos do lobista. Ambos foram enviados ao grupo de Telegram do qual Dallagnol fazia parte. Além disso, convenientemente o procurador deixou de mencionar ao corregedor que nos grupos de Telegram, que não eram uma ferramenta oficial do MPF, ela apareceu pela primeira vez em 22 de março de 2016 – ou seja, quase dois anos antes da palestra. Há ainda outro intervalo de tempo que vale a pena notarmos: Deltan enviou sua confissão voluntária à corregedoria apenas cinco dias antes do Intercept começar a publicar as reportagens sobre os chats da Lava Jato no Telegram, em 9 de junho passado. Na declaração editorial publicada naquele mesmo dia, dissemos que trabalhávamos com o material havia diversas semanas”, diz o site.

 

Brasil de Fato