quarta-feira , 11 de dezembro de 2019
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Camus

Clauder Arcanjo: PÍLULAS PARA O SILÊNCIO (PARTE CL)

Colóquio por entre A queda

 

Ser senhor do próprio estado de espírito é privilégio dos grandes animais.

E, pelo jeito, senhor Camus, depois de tanta (in)civilização ao longo dos séculos, o homem perdeu tal privilégio?

Suspeito que a mesura, a educação, os bons modos, a cadência estudada da palavra e dos passos nos distanciaram desse sublime estado. O que o corpo revela não espelha o que a alma carrega.

 

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Encontrei raros homens, verdadeiros detentores da arte do silêncio, nos quais o mutismo deles era “ensurdecedor”.

É o silêncio das florestas primitivas, tão pesado que sufoca.

 

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Já lhe disse, sou juiz-penitente. A única coisa simples no meu caso é que nada tenho.

Somos escravos das nossas posses, Albert. Sei que tal assertiva é lugar-comum, todavia os lugares-comuns devem ser repetidos, à exaustão. O que se nos apresenta mais banal, simples, é, porém, no mais das vezes, difícil de cumprir, de honrar e de permanentemente fazer. Fazê-lo até mesmo quando ninguém caminha por perto. O que se realiza quando nos vigiam não é valor próprio, é mera cria do medo do açoite do julgamento alheio.

Tal certeza, aliás, não tem consequência, pelo fato de ser compartilhada por tantos imbecis.

 

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Quando o leio, Camus, em especial quando mergulho nas tramas de O estrangeiro, d’A peste, e d’A queda, sinto-me como se lhe fosse próximo. Não sei se poderia assim dizê-lo, mas isso beira a amizade entre um provinciano licaniense e um filósofo argelino.

A amizade é menos simples. Sua aquisição é longa e difícil, mas, quando se obtém, já não há meios de nos livrarmos dela; temos de enfrentá-la.

Enfrentarei, ainda este ano, os desafios da releitura de O mito de Sísifo, O primeiro homem

 

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A homenagem vem, então, muito naturalmente, essa mesma homenagem que talvez tivessem esperado de nós durante a vida inteira. Mas sabe por que somos sempre mais justos e mais generosos para com os mortos? A razão é simples! Em relação a eles, já não há obrigações. Deixam-nos livres, podemos dispor de nosso tempo, encaixar a homenagem entre o coquetel e uma doce amante: em resumo, nas horas vagas.

As horas com você, nas quais o imprevisto assoma na porta do inesperado, conduzem-me para o mergulho na moral, na agonia, no trágico, no lírico dos nossos dias… Fugindo da confusão do imediato, da platitude das certezas de superfície. Enfim, dói, mas alumbra. Chicoteia, ao tempo em que nos desvela o sublime. Como se, caso morresse aqui e agora, morresse satisfeito comigo.

 

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Algo mais, caro Albert Camus? O relógio já segue alto, o tempo escorregou por entre nossa prosa. E temos que seguir, e amar.

É assim o homem, caro senhor, com duas faces: não consegue amar sem se amar.

Não é tempo de sumárias definições! A banalidade campeia pelos prados dos falsos doutos, na campina repleta de energúmenos. Campina esta em que se escuta o anúncio, brado vazio e retumbante, dos filósofos de fancaria.

É preciso que algo aconteça, mesmo a servidão sem amor, mesmo a guerra ou a morte.

Lá fora, o riso diminui; eu o ouço como se cada vez mais distante de mim, vindo de lugar nenhum.

 

Nota: trechos em itálico extraídos da obra A queda, de Albert Camus (Rio de Janeiro: BestBolso, 2018).

 

Clauder Arcanjo

 

 

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