quinta-feira , 22 de agosto de 2019
Home / Universo / Clauder Arcanjo / Cláuder Arcanjo: Mulheres Fantásticas

Cláuder Arcanjo: Mulheres Fantásticas

MULHERES FANTÁSTICAS (X)

A MULHER LUA

Clauder Arcanjo

— Sim, ela virava lua! E logo desaparecia por entre as nuvens, no rumo das estrelas.
Recém-chegado à cidade, fui àquela mercearia para comprar café e açúcar. De início, não dei muita atenção àqueles dois. Ao canto, sentados sobre dois tamboretes ensebados, eles bebericavam suas águas-bentas, tendo, como tira-gosto, segredos revelados.
Como o meu troco demorava, pude perceber que a conversa estava tão animada, que eles nem deram por mim.
— E quando que você descobriu isso?
— Não, não foi fácil…
— Imagino. Imagino.
— No período do namoro, amor à primeira vista, eu nada colhi de diferente. Sempre carinhosa, meiga, atenciosa… A minha paixão só aumentava por ela, sabe?
— Sei. Digo, imagino.
— Casamos um ano depois. Na lua-de-mel…
— Calma, amigo. Isso mexe com a gente, eu bem sei. Tome uma para calibrar os nervos.
— Dói, mas é bom falar. Levo isso preso comigo há tempo. Pois muito bem, como eu lhe dizia… Na lua-de-mel, notei que ela estava inquieta. Não parava em nenhum canto. Pensei que era o nervosismo comum a toda noiva. Você entende, não?
— Sim. A primeira vez… Comum nas recém-casadas.
— Tive todo o jeito do mundo. Amava-a e não a queria machucar. Fizemos amor, porém ela permaneceu numa inquietação só. Dormi; quando acordei, já noite alta, percebi que ela não estava no nosso leito.
— Como assim?
— No seu lado… estavam somente o travesseiro e o lençol.
— Não estaria no banheiro?
— Foi o que eu pensei. Qual nada! Nem no banheiro, nem em nenhum canto da casa.
— Fugira?
— Minha cabeça entrou em parafuso. Quando abri o guarda-roupa, notei que estava tudo no seu devido lugar. Nada fora retirado: roupas, perfumes, calçados, sua mala.
— Esquisito.
— Vesti um roupão e fui averiguar no terreno ao fundo de nossa casa. E…
— E!?…
— Sua camisola estava no chão.
— No chão?!… E ela?! Nua? Ôps! Minhas desculpas, não tive a intenção.
— Sem problema. A camisola lá, e nem sinal dela. Peguei a sua veste, para ver se identificava algum sinal, qualquer coisa. A violência, amigo, anda a bater em nossas portas. Bandidos, ladrões… mundo cão.
— Certo. Eu faria o mesmo, desconfio.
— Nenhuma pista. Fiquei feito um doido. Corri depressa até ao portão que dava para a rua de trás. Tudo trancado, normal. Sem nenhum indício de arrombamento.
— Muito esquisito.
— No céu, a lua cheia a colocar um brilho de espelho sobre o meu rosto espantado. E, amigo, quando a situação cai no terreno do obscuro, a cabeça se embaralha. Sem ação, sentei-me na soleira da porta que dava para o interior de nosso lar e, não sei como, lá adormeci.
— Dormiu?!… Mas…
— Se é que se pode chamar aquele meu apagar de dormir! E sabe quem me despertou, mal o sol anunciava a manhã?
— Nem me diga!
— Digo: ela. Belíssima como nunca, com um brilho diferente nos cabelos e na face.
— E ela estava nua?
— Olhe o respeito, meu amigo!…

***

— Seu troco, meu senhor. Algo mais?
Fingi interesse numas quinquilharias dispersas sobre o balcão de madeira. Em verdade, confesso, eu queria ouvir o desfecho daquela narrativa.
— Grato. Preciso de umas coisas a mais. Vou dar uma olhada e logo chamarei o senhor.
— Antes, confira o seu troco — pediu-me o comerciante.
Conferi-o; contudo, com isso, não percebi quando os dois saíram de junto do balcão, ganhando o interior do mercado.
— Para onde aqueles dois foram? — perguntei ao dono da mercearia.
— Eles quem, senhor?!
Sem esperar resposta, meti-me por entre a multidão que se acotovelava na parte interna do Mercado Público. Corri os olhos por todos os lados, todavia não os localizei. Era dia de feira, e muita gente mercadejava.

***

Há um mês, após voltar seguidas vezes àquela mercearia sem os encontrar, dei com os dois conversando na Praça do Poeta, noite alta.
— Tem certeza, amigo?
— Sim, ela virava lua! E logo desaparecia por entre as nuvens, no rumo das estrelas. Para depois retornar. Isso, mês a mês.
— E como ela sumiu de vez?
— Um eclipse lunar. Suspeito que o sol a levou de mim. E eu, hoje, cá estou, viúvo dela. Viúvo da lua.
— Não chore. Essas coisas acontecem. Sim, acontecem.
E a lua, garbosa e faceira, a brilhar no céu estrelado de Licânia.

Clauder Arcanjo
[email protected]