domingo , 17 de dezembro de 2017
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Clauder Arcanjo – Contradigo-me

Clauder Arcanjo – Contradigo-me

Certa manhã, não há muito tempo, acordei com uma sentença por entre os lábios: “Se disserem que eu menti, levanto o pano da contradição e solto a ave canora da dúvida. Se afirmarem que eu fui verdadeiro, então alço o verbo na direção da incógnita da vida. Só me realizo na contradição. Terei o vício do poeta?”

Lavei o rosto, escovei os dentes, sentei-me à mesa para o café, e… a frase continuava a mastigar o meu tutano de homem-pensador.

Levantei-me, abri o jornal (recheado de notícias tétricas e sanguíneas, de corar o mais cruel dos filmes de horror) e… nada. Melhor, tão somente aquela sentença longa, espichada, repleta de idas e vindas, como se escandisse um verso ininteligível. Parecia até que a minha pobre mente estava intoxicada com tal máxima.

Será que eu, nos últimos dias, andara a ler filosofices em demasia? Metera eu o meu nariz abelhudo por entre as páginas dos autores moderninhos; aqueles tipinhos nauseabundos que, sem nada para dizer, nem arte para narrar, forçam a palavra pelo esgoto da apelação metapóetica?

Apelação metapoética?!… De onde foi que eu tirei tão esdrúxula expressão? Vade retro, profetas da incompreensão! Xô, arautos da pseudo sabedoria!

Como bem me conheço, só me restava uma saída: sentar-me à escrivaninha e dar vazão a esse “chamado da contradição”. Caso não o fizesse, ah!, pobre de mim, seria eterno escravo, agrilhoado a tais palavras.

Contudo, cansado, armei uma rede na varanda e.. dormi. Nisto, um sonho tomou-me depressa. Transcrevo-o, a bem da verdade (bem como para me livrar do compromisso, com a editoria do jornal, desta semana).

***

Encontro um amigo no café do Rafael Arcanjo, centro da cidade, e assevero-lhe:

— “Se disserem que eu menti, levanto o pano da contradição e solto a ave canora da dúvida.” Bom, vejamos. Na primeira parte, três coisas a desvendar. De início: quem seria esse cidadão que propagaria que eu menti? Venha aqui, seu safado! Honre suas calças, seu falastrão!

— Calma! Deste jeito, não se estabelece um diálogo profícuo.

— E se pode estabelecer diálogo com quem nos ofende? Serei eu Cristo? Não; comigo, não.

— Siga em frente. Que tal você partir para a análise da segunda parte da expressão que lhe vem perturbando?

— Deixe-me então respirar um pouco. O mentiroso sempre me tira do sério. Pois bem. Na segunda parte… Vamos revisitá-la com vagar e prudência: “Se afirmarem que eu fui verdadeiro, então alço o verbo na direção da incógnita da vida.” Aí, graças a Deus, encontro o homem justo! Quem seria? Traga-me tal homem até aqui. Quero abraçá-lo, trazê-lo junto ao peito. Não é todo dia que se assiste ao mundo reconhecer que somos verdadeiros.

— …

— Com suas reticências, você me pergunta quanto à parte final. Ao que você se refere? Diga-me, não me tenha receios. Sou um homem aberto ao livre trânsito das ideias e das opiniões.

— Cronista, queria que você discorresse acerca do termo: “alço o verbo na direção da incógnita da vida”? Se isto não lhe trouxer constrangimento, que fique bem claro!

— Venha mais para perto, não precisa ficar tão distante. Aproxime-se, dê-me cá o seu ombro amigo. Parece-me trêmulo! Entendo-lhe. O debate angustia alguns, sem mencionar que sacrifica o crescimento do conhecimento, meu caro. Contudo, só se avança com o terreno aberto ao trator da dialética. Não há sementeira sem poeira! Agora, se me permite, vou, depressa, ao ponto: fiz, confesso-lhe, aqui para nós, uso de um jogo de palavras; sem nenhuma pretensão maior de minha parte. Na verdade, sempre desejei cravar em um dos meus textos essas joias: “alço o verbo” e “incógnita da vida”.

— Por quê?

— Ora, por que, seu desalmado?! O homem tem suas vontades indecifráveis, enterradas no pântano da memória, sementes de que não se sabe a origem nem o fruto que há de gerar.

— Calma, cronista! Apenas perguntei a fim de deixar o terreno aberto ao trator da sua dialética.

— Sim, claro! Dê-me outro abraço. Bem apertado, ouviu? Não se encabule comigo; somos dois seres estranhos a esta nossa província, tão inimiga do livre pensar.

— Até mais.

— Já vai se embora!? E quanto ao: “Só me realizo na contradição”? Sim…, você acha que é termo que bem se explica pelo que antes por mim foi demonstrado? Você é um gênio, caríssimo! Um gênio de rara sensibilidade.

— Adeus.

— Outra coisinha; na próxima semana, eu marcarei um outro café para discorrermos sobre o livre-arbítrio e o devir. Mas, venha desarmado; notei-o muito preso ao velho e ao consabido; solte-se mais, não se deve ser fechado ao novo e ao desconhecido. E outra condição, esta inegociável: nada de perder a classe nem os bons modos! A filosofia não é pugilato nem prova de força.

Pago a conta e volto à rua. Ao flanar por entre becos e esquinas, entre trombadas e topadas — “Este prefeito não cuida nem das ruas!” — algo ressurge no meu cocuruto: “Terei o vício do poeta?”.

***

Acordo e dou com um livro de Machado de Assis, “com a sua prosa oblíqua e dissimulada”.

— O que foi, Bruxo do Cosme Velho?

 

Clauder Arcanjo

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