terça-feira , 18 de junho de 2019
Home / Opinião / Lairinho Rosado

Lairinho Rosado

Equilíbrio Sempre

513 deputadas e deputados federais iniciaram seus mandatos na atual legislatura em fevereiro deste ano. De lá pra cá já usaram R$ 10 milhões de suas verbas de gabinete. Metade disso foi usado para contratação de empresas ligadas à comunicação digital. É um cuidado com as redes sociais.

Poucos dias após perder e disputa pela Presidência do Senado, Renan Calheiros concedeu uma entrevista comentando o resultado daquela eleição. Ele chamou a atenção para o que chamou de “turma das redes sociais”. Foi através das redes sociais que os senadores foram pressionados para não votar em Renan.

Na eleição presidencial, Jair Bolsonaro já havia dito que não participaria de debates. Nas redes sociais, seu exército de seguidores fazia coro a tudo que ele escrevia e replicava tudo a favor dele. Com o atentado que sofreu à sua vida, passou a dominar além das redes sociais, tomando conta de todo noticiário.

Esses dias, o experiente senador Tasso Jereissati disse a seguinte frase: “as votações [no senado] eram de acordo com a convicção. Agora, as pessoas votam com medo de apanhar das redes sociais. E a população nem sempre está com a razão, a começar com o julgamento de Jesus Cristo e Barrabás.”

Esses dias, enquanto acontecia a votação que viria a tirar do ex-juiz e agora ministro Sergio Moro o comando do COAF, a bancada do PSL, partido do presidente Bolsonaro, estava toda entretida com seus celulares e as redes sociais. Não conversaram, não articularam. Resultado: governo perdeu a votação.

Nos oitos anos em que estive vereador em Mossoró, sempre usei as redes sociais, na época principalmente Twitter e Facebook, para prestar contas do mandato e informar sobre o que acontecia na Câmara Municipal. Fui criticado por pessoas ligadas ao prefeito por fazer isso. No que pese nunca ter perdido uma votação ou discussão por isso.

A conectividade é uma coisa irreversível. Conheço um ou outro que não possui rede social. Um dos últimos rendeu-se ao Whatsapp recentemente. O que não podemos, e isso ser para política, jornalismo, vida profissional e pessoal, é deixar que ela nos domine. Há gente doente por aí, com problemas de vício em rede social/internet.

Também não se pode achar que internet/rede social é uma terra sem Lei, onde não há limite para acusações, agressões, informações mentirosas, etc. É preciso estar vigilante com as informações. O político, juiz ou promotor, assim como o médico ou comerciante precisa ter discernimento sobre o que deve ser feito, a responsabilidade necessária nas horas das decisões.

Assim como um pai precisa saber a hora de repreender, a hora de punir, elogiar ou recompensar, as pessoas que tomam as decisões também precisam saber que não se pode, a todo tempo e à toda hora, simplesmente por que um grande número de pessoas quer, fazer qualquer coisa.

Não se pode de jeito nenhum, a tempo algum, ignorar a opinião das massas, hoje expressadas fortemente através as redes sociais. O povo precisa ser ouvido. A opinião das pessoas precisa ser levada em consideração, principalmente por todos aqueles pagos com dinheiro público: servidores públicos, políticos, juízes, promotores, etc.

A palavra de ordem deve ser sempre equilíbrio.

 

8 ou 80

Não canso de citar o livro A Era do Radicalismo, de Cass Sunstein. Escrito em 2010, quando ainda não tínhamos tanto engajamento em redes sociais e as fakenews ainda eram incipientes, o livro parecia antever o que estava por vir. Cada vez mais as pessoas se escoram em informações, muitas vezes incorretas, simplesmente para amparar suas opiniões.

“A fé de quem deseja ser enganado é inabalável”. Vi esta frase há alguns dias em um artigo sobre um determinado vídeo de uma empresa de investimentos, que se notabiliza pelo discurso da facilidade de ganhar milhões rapidamente na bolsa de valores. Fato é que a frase serve para o marido ou a esposa vítima de traição, o fiel da igreja, o fã de políticos e por aí vai.

No momento atual em que o mundo, e mais especialmente o Brasil, vive, dá vontade de entregar os pontos e chorar. Muitos preferem enfiar a cabeça no buraco ou usar antolhos, aqueles tampões usados em jumentos das carroças, para não ver a verdade que está ao lado, talvez por medo de se decepcionar com a verdade nua e crua. Esses parecem desejar ser enganados.

Algumas empresas, artistas, políticos ou publicitários já perceberam isso. Alguns mantém o tom elevado nos discursos exatamente para manter a torcida engajada. Oferecem soluções fáceis e vão mantendo o discurso. Alguns produtos terminam se envolvendo em polêmicas e precisam recuar para não perder espaço. Assim acontece com lideranças políticas no mundo inteiro.

Não pensem que o discurso do #LulaLivre ou que as coisas ditas por Jair Bolsonaro e seus filhos tem objetivos diferentes. Se são diferentes no conteúdo, são iguais no objetivo de manter a torcida unida, focada naquilo que muitas vezes não é o mais importante a ser discutido. No caso atual, por exemplo, está se discutindo coisas bem menos importantes do que política econômica, reforma da previdência, brigas políticas no Ministério da Educação e tantos outros pontos.

Vivo lamentando a falta de capacidade para o diálogo. Se você posta uma matéria da Folha de São Paulo, os defensores de um dos lados acusam-na de, pasmem, comunista e lulista. Logo a Folha. Pior, dizem o mesmo com a revista Veja. O conteúdo da reportagem fica esquecido e a guerra gira em torno do que acreditam ser posicionamento político dos veículos. Isso não é privilégio dos defensores do governo atual. No governo passado esses e outros veículos eram tratados como golpistas.

É incrível a falta de capacidade da sociedade para debater assuntos importantes. Tudo se transformou numa briga histérica e estéril de torcidas. Ou é um extremo ou o outro, mas sempre nos extremos. Uma pena.

 

 

O Novo Poder

Há tempos falo sobre o livro A Era do Radicalismo, de Cass Sunstein, onde ele mostra que pessoas que pensam de forma similar tendem a se tornar mais radicais. A internet horizontalizou o noticiário e a comunicação de uma maneira geral, de forma tal que uma pessoa em alguma cidade do sertão pode manter facilmente contato com alguém nos desertos do oriente médio. A língua seria o único obstáculo.

A internet distribuiu poder, pulverizou as notícias (e as fake News) e criou novas estrelas, que vão desde youtubers/instagramers até lideranças políticas que conseguiram chegar ao poder rompendo barreira e paradigmas. Não só jogadores de futebol ou apresentadores de TV se destaca. Gente como o alagoano de Penedo, Carlinhos Maia, que conta com quase doze milhões de seguidores e já foi o segundo mais visto no mundo, perdendo apenas para a americana Kim Kardashian.

Porém a internet não se resume à postagens do dia a dia, dizendo que acordou ou que está ressacado. Te muita coisa sendo influenciada pelas redes sociais. Barack Obama foi a primeira figura política a se destacar a internet como ferramenta de campanha. Depois veio Donald Trump, também nos Estados Unidos. Porém, este segundo se destacou pela influência de outro País, a Rússia, no financiamento de notícias falsas e utilização de algoritmos que ajudou a mudar a opinião de muita gente e fazendo de Trump o presidente da maior economia do mundo.

Esta semana, um candidato com pinta de galã latino e com apenas 37 anos foi eleito presidente de El Salvador, vencendo forças tradicionais. Ex-prefeito da capital San Salvador, não participou de nenhum debate e focou sua campanha nas redes sociais. Findou eleito. Na França, Emmanuel Macron também foi eleito aos 39 anos de idade, vencendo forças tradicionais, utilizando a internet como base.

No Brasil, além do presidente Bolsonaro, há outros casos interessantes ligados às eleições. Por exemplo, o youtuber Luís Miranda (DEM) foi eleito deputado federal pelo Distrito Federal mesmo não morando no Brasil há mais de quatro anos. Fez campanha somente pelas redes sociais. Na recente eleição para presidência do Senado, as redes sociais também serviram de força de pressão sobre senadores para não votarem em candidatos que o público não gosta.

Nessa onda de novo poder, vemos também pessoas criando coisas juntas com o objetivo que não é o financeiro. Movimentos colaborativos surgem por todo o mundo. Não necessariamente por dinheiro, contribuem com empresas na criação de novos produtos ou ainda se engajam em campanhas e lutas para levantar fundos para ações que visem o bem comum.

É indiscutível a força de pressão ou de colaboração proporcionada pelas redes sociais. Onde isso vai parar? Difícil de dizer, mas uma coisa é certa. A internet está cada vez mais presente em nossas vidas e não adianta dizer aos filhos que brincadeira boa era na sua infância que jogava boal na rua ou brincava com carrinhos no quintal de casa. A sociedade mudou e vai continua mudando e em uma velocidade cada vez mais surpreendente.

A propósito, o título deste artigo peguei emprestado do livro de Jeremy Heimans e Henry Timms, que escreverei a respeito em breve.

A quem interessa matar o sal potiguar?

 

Se para os mossoroenses é comum ver montanhas de sal no horizonte, passar por dentro de salinas entre Mossoró, Grossos e Areia Branca, ver armazéns de moagem por todos os lados, para as pessoas que não são daqui, chega a ser uma atração turística, de tão inusitado e bonito que é.

Mas muitos potiguares, incluindo os de nossa região, não têm a noção exata da importância do sal na vida econômica e social de nossa gente. São dezenas de milhares de pessoas empregadas direta e indiretamente em uma atividade que tem seus primeiros registros sobre produção em nossa região que remontam ao século XVI.

Antes de existirem as cidades, o sal já era uma atividade comercial por estes lados. Antes de existir leis ambientais, muitas famílias já tiravam do sal o seu sustento. Nossa região tem características geográficas que favorecem a produção de sal marinho, que ao longo dos anos se tornou um dos pilares de nossa economia.

O caro leitor já parou para pensar em quantos caminhões saem de Mossoró carregados de sal todos os dias? Centenas. Quantas milhões de toneladas são exportadas até para outros países através do Porto Ilha de Areia Branca? Quantos pais de família conseguem colocar comida na mesa graças ao trabalho ligado ao sal?

É comum quando falamos em sal pensarmos primeiro no consumo humano, mas é a indústria química o setor que mais consome o sal. E é justamente desse segmento que parte uma das maiores ameaças ao nosso ouro branco. É um setor poderoso, com muito dinheiro e que não pensa em outra coisa em não sei o lucro.

O Governo Federal revogou uma medida que protegia o sal marinho brasileiro. Suspendeu “medida antidumping definitiva aplicada … sobre as importações brasileiras de sal grosso … do Chile”. É o que diz a resolução da Câmara de Comércio Exterior. O Chile pratica dumping (vender produtos abaixo dos valores de mercado).

O Ministério Público Federal quer que 18 empresas desocupem agora as áreas que são utilizadas para a exploração de sal há muitas décadas. A ação do MPF é um desdobramento de uma ação do IBAMA, que há alguns anos realizou uma operação e multou as empresas em dezenas de milhões de reais.

Há ainda o Conselho de Defesa Econômica (CADE), que acusa empresários do setor por suposta formação de cartel nos preços cobrados. Isso também pode render pesadas multas e sanções, que sem dúvida inviabilizariam o setor salineiro de nosso estado, deixando sem emprego milhares de pessoas.

O poder econômico pode influenciar muita coisa. As grandes empresas que preferem comprar o sal chileno, vendido abaixo do preço de mercado, parecem estar conseguindo o que há muito tempo vêm tentando: matar a indústria salineira potiguar. A  bancada federal potiguar, a governadora e os prefeitos precisam abrir os braços para não sermos engolidos.

Afinal, a quem interessa matar a indústria salineira potiguar?

Ser presidente é mais difícil do que ser candidato

 

Alguns políticos ao redor do mundo seguram-se em bandeiras que muitas vezes são ideias inexequíveis, mas arrasta um bom número de eleitores, garantindo assim a permanência de seus defensores nos cargos, principalmente no Legislativo. Vide o caso do Brexit no Reino Unido, Independência da Catalúnia na Espanha ou mesmo alguns casos aqui no Brasil.

O presidente eleito Jair Messias Bolsonaro tem algumas ideias que podem lhe trazer mais problemas que prazeres. Desde que foi consagrado vitorioso nas urnas no segundo turno das eleições, já encontrou algumas pedras no caminho, mesmo sem ter sequer assumido o poder de fato em Brasília.

Bolsonaro foi eleito em um tsunami que varreu nomes tradicionais e colocou no poder pessoas outrora completamente desconhecidas do grande público. Isso aconteceu por uma série de fatores, mas principalmente pelo empoderamento da população através das redes sociais e do desejo de mudança da classe política, diariamente mostrada na televisão como desonesta.

Até aqui, os dois nomes mais fortes de seu futuro governo enfrentam problemas na Justiça. Paulo Guedes, o “posto Ipiranga” do capitão, é investigado pelo Ministério Público Federal por suspeita de fraude em fundos de pensão de estatais do governo e Onyx Lorenzoni, futuro ministro da Casa Civil, recebeu dinheiro da JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Ele até admitiu ter recebido uma vez, o problema é que documentos mostram que ele recebeu outras vezes.

Outro nome indicado por Bolsonaro que também está enrolada em investigações é Teresa Cristina, indicada para o Ministério da Agricultura. Segundo delação da JBS, quando ela era secretária estadual em Mato Grosso do Sul, concedeu incentivos fiscais em troca de propina para gente do governo estadual.

Bolsonaro também disse que ia mudar a sede da embaixada Brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jesuralém, seguindo os passos do americano Donald Trump, mas voltou atrás após reação de governos do mundo árabe, que ameaçaram não mais comprar produtos brasileiros. Outra ré que o presidente eleito precisou dar foi com relação à extinção do Ministério do Trabalho e a fusão entre Agricultura e Meio Ambiente.

As disputas internas pelo poder também têm levado problemas. Os generais, os deputados, o partido, os próprios filhos (um deles defendeu o fechamento do Supremo Tribunal Federal e que para isso bastaria “um soldado e um cabo”, por exemplo) e os problemas naturais de qualquer governo vão mostrando que os problemas estão apenas começando.

É melhor “Jair” se acostumando. Ter a responsabilidade de estar no comando é mais difícil do que falar nas redes sociais.

Normalizando o extraordinário

 

Adolf Hitler foi um das pessoas com maior capacidade de liderança do século passado. Ora, ele convenceu milhões de indivíduos, por exemplo, que assassinar milhões de pessoas em câmaras de gás simplesmente porque elas eram diferentes seria uma coisa justificável. Liderança não necessariamente é para uma coisa boa.

O líder tem entre suas qualidades, a capacidade de fazer com que as pessoas adotem suas ideias, que passem a achar normal comportamentos ou teses que outrora ninguém sequer ousaria falar em público. E a repetição do discurso consolida cada vez mais na cabeça das pessoas a ideia de que aquilo é comum e aceitável. Em um tempo em que cada um procura sua (fake) news para corroborar sua fala, isso se torna ainda mais perigoso.

No momento atual, esse comportamento intolerante encontra guarida em ambos os extremos do pensamento político. Seja ele de esquerda, seja na direita. E seus principais líderes tem responsabilidade, mesmo não podendo serem culpados diretamente pelos atos de intolerância praticados por.

O aumento do discurso de ódio não é exclusividade do Brasil. Na Inglaterra e País de Gales, a quantidade de crimes de ódio (aquele cometido porque a pessoa pertence a um grupo ou tem opinião divergente) mais que dobrou nos últimos cinco anos, após o acirramento das discussões e votação do Brexit (saída da Grã-Bretanha do Reino Unido). Nos Estados Unidos também houve o aumento após a eleição de Donald Trump.

Enquanto líderes fizerem pouco caso dos episódios de agressão por racismo, misoginia, orientação sexual, ou ainda pior, incitar esse tipo de crime, não esperemos por dias melhores. Se os líderes, sejam eles quem forem, não respeitam as instituições, como a imprensa ou poderes constituídos, por que seus seguidores o fariam?

Enquanto o jornalismo buscar a verdade (sem proteger A ou atacar B por interesses espúrios) e, por exemplo, o judiciário cumprimento das leis (sem abusos e privilégios), teremos um contraponto, um freio nos mais autoritários. As instituições democráticas precisam ser fortalecidas e preservadas. A falta de confiança nas instituições fortalece crimes de ódio, desobediências às regras democráticas e, mais um exemplo, a proliferação de fakenews.

Como disse Kyle Pope, editor-chefe da Columbia Journalism Reviews, da Universidade Columbia, principal publicação sobre mídia dos EUA: não podemos normalizar o comportamento extraordinário dos líderes nem de ninguém. Agressões às instituições democráticas ou crimes de ódio não podem ser tolerados como normais.

Tsunami Eleitoral

Dia 03 de setembro, o então candidato a deputado federal pelo RN, o cearense Eliéser Girão, general da reserva do Exército Brasileiro, foi à uma rede social e escreveu: “em campanha nos deparamos com o Brasil de verdade. O Brasil que hoje tem seus legítimos representantes eleitos. A cada dez pessoas, cinco pedem dinheiro em troca de voto. Não dá pra fazer campanha e ficar dando voz de prisão ao mesmo tempo. Esse País precisa ser refundado.” O general findou eleito com 81.640 votos.

Um tsunami eleitoral varreu muitos nomes pelo Brasil, ao mesmo tempo que colocou tantos outros outrora desconhecidos na crista da onda. Varreu também a credibilidade das pesquisas eleitorais, já que em muitos lugares as pesquisas ficaram longe dos resultados, caso mais gritantes foram em Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, onde os primeiros colocados nas pesquisas sequer foram eleitos ou passaram ao segundo turno.

Esse tsunami tem nome: Jair Bolsonaro. Endeusado pelos seguidores e deputado há 28 anos, ele soube como ninguém capitalizar o sentimento anti-PT já existente no nosso País depois de tantos anos de desgaste por acusações de corrupção e da ampla cobertura dos grandes veículos de comunicação.

Os concorrentes ao Planalto erraram feio no alvo. Todos miraram em Bolsonaro, quando Bolsonaro mirou no PT. Resultado? Bolsonaro cresceu e os outros definharam. O sentimento de aversão ao Partido dos Trabalhadores fez muita gente votar no deputado carioca já no primeiro turno para evitar uma possível vitória de Fernando Haddad no segundo turno.

O general Girão, que foi candidato a cargo eletivo pela primeira vez, foi um dos tantos que se elegeram no rastro de Bolsonaro. Foram muitos nomes pouco conhecidos ou completamente desconhecidos até então que dispararam e ganharam as eleições. A propósito, Mossoró foi uma das poucas cidades de médio porte do Nordeste onde Bolsonaro venceu no primeiro turno. Aqui, Haddad ficou em terceiro, atrás de Ciro Gomes, mas Fátima Bezerra, candidata do PT ao Governo do Estado, levou a melhor, dando a entender que eleitor de Bolsonaro pode ser eleitor de Fátima.

Voltando à declaração do deputado general Girão e observando-se os eleitos, percebe-se que foi eleito gente da Esquerda e da Direita. No Centro, só quem teve mais condições e estrutura para enfrentar o embate conseguiu sagrar-se vitorioso nas urnas.

É um novo momento? As pessoas venderam menos os votos? Venderão menos? Isso não temos como saber ainda. Os novos eleitos vão se comportar nos mandatos de forma diferente? Só o tempo dirá. Estamos em um momento de ruptura com nomes e costumes? Ou apenas fadigados com os nomes que já estão aí? Afinal, mudar nomes não significa mudar práticas.  Se os Sarney foram derrotados no Maranhão, uma nova oligarquia surgiu no Sudeste: Jair Bolsonaro viu eleitos filhos como o deputado mais votado em SP e outro senador pelo RJ, já tendo um filho vereador no RJ.

Pesquisas divulgadas já no segundo turno indicam uma ampla vantagem de Bolsonaro sobre Haddad. Se confirmada a vitória, o eleitor terá dado uma guinada brusca à direita. Se teremos um tsunami nas práticas políticas em todos os níveis e a retomada do crescimento, aí são outros quinhentos.

A Eleição do ANTI

 

Talvez a sociedade tenha mudado mais nos últimos 50 anos que nos outros mil anos para trás. No mundo inteiro há exemplos de movimentos extremistas aparecendo, pegando onda na globalização não só dos negócios, mas também das opiniões. Cada vez mais pessoas se unem em torno de ideias, sejam elas boas ou não.

Em “Sapiens: Uma Breve História da Humanidade”, Yuval Harari mostra porque o homo sapiens prevaleceu sobre as outras espécies de humanos outrora existentes em nosso planeta. Foi através da criação de crenças, do poder de pensar o que não existe e conseguir que várias pessoas sigam aquela ideia, seja ela de um deus, de um modelo social ou mesmo um modelo econômico, como o capitalismo.

Daniel Innerarity, em “A política em Tempos de Indignação”, mostra como os sentimentos podem sobrepor a razão e os problemas que isso pode causar. Há, no mundo inteiro e não só no Brasil, um sentimento de decepção com a classe política e a aparente incapacidade de corresponder aos anseios da população. Em tempos em que a informação chega quase que instantaneamente ao mundo todo, muitas vezes sendo contaminadas pelas opiniões que corrompem os fatos, ou pior, como pura fake News, isso se torna ainda mais perigoso.

É preciso manter sempre à frente o fato de que a política é o único poder capaz de resolver os problemas provocados justamente pela crise política, a forma de quem não tem poder econômico influenciar os destinos de uma nação. A ideia de Estado Mínimo, ficando estritamente com funções de controle e vigilância deixaria milhões de famintos e desamparados sem suporte e abandonados à própria sorte, além de ver espaços geográficos cada vez maiores ocupados pelo crime organizado. No entanto, o maior desafio nos parece ser manter autonomia política diante do poder econômico do “mercado” financeiro, dos interesses de alguns poucos que, mais uma vez digo, no mundo todo e não só no Brasil, dominam a maioria através do poder do dinheiro.

Esta é a primeira eleição que, de fato, está sendo influenciada mais fortemente pelas redes sociais. Os robôs online estão agindo fortemente a serviços de diversas campanhas hora para espalhar notícias falsas, hora para disseminar pontos fortes de quem paga pelo serviço. Os grupos de WhatsApp e Facebook são fontes da (des)informação, onde as pessoas se apoiam naquilo que justamente querem acreditar. Não importa muito se é fato ou fake, o importante é que tenha algo para subsidiar o que acredita.

O que estamos vivendo na eleição deste ano, infelizmente, é uma polarização de extremos e estamos caminhando para um segundo turno onde não se escolhe o melhor candidato, mas vota naquele que disputa com o que você não gosta. Ou seja, em se confirmando o 2º turno entre Fernando Haddad (PT) e Jair Bolsonaro (PSL), como mostram as mais recentes pesquisas, vamos ter a eleição dos ANTI. O ANTI PT vai votar em Bolsonaro e o ANTI Bolsonaro vai votar no PT. Vencerá quem tem menos rejeição, pois os votos dos que realmente acreditam que um ou outro é o melhor não seria suficiente para vencer a eleição.

Já dizia o filósofo alemão Theodor Adorno: “liberdade não é poder escolher entre o preto e o branco, mas sim abominar este tipo de propostas de escolha”.

 

Importância do turismo para Mossoró

 

O turismo é o terceiro segmento mais importante da economia mundial, estando atrás apenas da indústria automobilística e farmacêutica. No Brasil esses números são mais discretos. Por muitas vezes debatemos este tema e de como poderíamos aproveitá-lo melhor no desenvolvimento de Mossoró. Muitos já trabalharam por isso na construção histórica com alguns passos à frente, tantos outros para trás.

Com a retomada dos voos comerciais, nossa cidade entra no tabuleiro do turismo nacional. Por que não dizer no internacional? Antes, sem o acesso aéreo, ficava difícil competir. Agora que temos o voo, precisamos agir em outras frentes para atrair o turista.

Quando falamos em turismo, não podemos pensar apenas em “sol e mar”, mesmo tendo praias belíssimas em nossa região. Temos eventos como Mossoró Cidade Junina, Chuva de Balas no País de Mossoró, Oratório de Santa Luzia, Natalis, Expofruit, Ficro e Festival Aéreo de Mossoró, mas podemos ter mais. Além disso, temos o viajante corporativo, que tem, inclusive, representado boa parte dos passageiros no voo da Azul Linhas Aéreas em nosso aeroporto.

A parceria público-privada é essencial no setor. As ações realizadas para melhorar a cidade e torná-la mais agradável para o turista, que serão também para o morador, é uma das responsabilidades do Poder Público. A iniciativa privada precisa criar produtos turísticos para atrair e segurar os turistas por mais dias.

O que temos na nossa cidade e nossa região que só encontramos aqui? Alguns potenciais, como visitação turística às salinas, o que já tem sido trabalhado discretamente por algumas empresas, turismo rural, com visitas e demonstrações em fazendas de fruticultura e apiários, por exemplo, e o que considero a cereja do bolo: o parque nacional da Furna Feia, um conjunto de centenas de cavernas belíssimas que fica na área da antiga Maísa, entre Mossoró e Baraúna.

Enfrentamos muitas dificuldades. Nos últimos tempos, temos visto um problema sério na Segurança Pública, o que tem sido noticiado de forma ostensiva no noticiário e redes sociais, dificultando o aumento do fluxo de turistas em nosso Estado e impedindo o avanço do turismo para o interior.

Em 2017, 58,5% dos turistas estrangeiros no RN vinham da Argentina, 9,3% do Uruguai, 3,6% do Paraguai, 3,4% de Portugal e 3,3% do Chile. Os pacotes elaborados e vendidos pra esse público envolvem outros Estados, como Pernambuco, Ceará e até mais distantes como São Paulo e Maranhão.

Do Brasil, o grande emissor de turistas para o Rio Grande do Norte é o Estado de São Paulo, mas temos um fluxo razoável de turistas dos nossos vizinhos nordestinos. O turismo regional é um ponto muito importante, sem deixar de pensar na atração os estrangeiros e de outras regiões do País.

Os turistas estrangeiros e de outros estados ficam concentrados na região da Grande Natal e Pipa, o que não significa dizer que não se interessariam pelo interior. E é esse o trabalho que não só Mossoró tem feito, mas alguns outros municípios. A participação em campanhas e feiras, mostrando nossos potenciais e atrativos, é extremamente importante, principalmente àquelas voltadas para agentes de viagem e operadores de turismo.

Geração Fakenews

Mais uma vez recorro ao professor de Harvard Carl Sunstein para escrever sobre o momento de agudamento do radicalismo que vivenciamos no mundo. Em uma época em que as pessoas estão cada vez mais conectadas, cabem reflexões (ignorada pela grande maioria) como “por que nos expomos tanto em redes sociais?” ou “por que o mundo está cada vez mais intolerante?”.

Em A Era do Radicalismo, tentando resumir um livro em uma frase, o professor mostra como pessoas que pensam de forma parecida em determinado viés se tornam mais radicais ao estarem juntas. Com a planificação do mundo através da internet, um morador de Reykjavik na Islândia pode fazer parte de um grupo em uma rede social qualquer com moradores de Punta Arenas no Chile e se tornarem mais radicais ao compartilhares suas ideias.

Sob o prisma da análise do que é verdade e o que é opinião, ou ainda, de que uma verdade de um indivíduo pode ser diferente de outro e nem por isso um esteja certo e o outro errado, é assustador ver a força do que convencionou-se chamar de fakenews, ou “notícia falsa”, que se prolifera pelas redes sociais mais rápido que rastilho de pólvora.

Se temos a geração X, Z, millennials ou qualquer outra definição que a Sociologia queira dar, sempre relacionada ao período de nascimento do indivíduo, temos hoje a geração “fakenews”, que não tem nada a ver com a época de seu nascimento, mas com o comportamento de escolher sua versão de acordo com suas crenças e ideologias.

Muitos hoje se comportam de tal forma a buscar na internet uma versão que se encaixe naquilo que ele acredita para um determinado acontecimento, então ele passa a creditar naquilo como verdade absoluta, quer que os outros acreditem e fica contrariado quando alguém questiona aquela versão. Que fique claro, versão podem existir muitas, fato, não. Seus valores não tem o poder de alterar fatos.

São Tomás de Aquino, falando sobre ter os mesmos valores básicos, podendo divergir em um ponto ou outro, dizia que amigo era aquele que queria as mesmas coisas e rejeitar as mesmas coisas. Levando isso ao pé da letra, isola-se cada vez mais. Não enxergo uma solução única, principalmente porque as partes radicalizadas quase nunca se enxergam assim, não estão dispostas a ceder uma vírgula daquilo que acredita e se o fizerem correm o risco de serem expulsos de seus grupos.

No Brasil atual, é praticamente impossível estabelecer um diálogo, por exemplo, entre um eleitor de Lula e um de Bolsonaro. As partes não se entendem e, geralmente, partem para a agressão ou desqualificação do outro. Um não quer e não aceita acreditar que pode estar equivocado ou exagerando em algum ponto.

É triste, mas estamos cada vez mais perdendo a capacidade do diálogo. Sem diálogo, não há caminho para o distensionamento.