terça-feira , 25 de abril de 2017
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Lairinho Rosado

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Combata o bom combate

 

Creio que somos espíritos em um corpo e não um corpo com espírito. Diante disto, fica a pergunta de onde viemos e pra onde vamos. A idéia de eternidade, de uma coisa que não tem início ou fim determinado, é discutido desde as mais antigas civilizações.

Todas as religiões acreditam em vida após a morte, acreditam no mundo espiritual. Algumas divergem sobre como se dá a pós-morte física, em como se dá o contato com o que chamamos Deus. Alguns perguntam “quem” é Deus, outros “o que é” Deus. Muitas são cristãs e têm no exemplo de Jesus Cristo sua base.

Apesar de todos o que professam alguma fé acreditarem na vida após a morte, há muita dificuldade em se lidar com a partida dos entes queridos desta vida. Mesmo sendo a única certeza universal a de que morreremos um dia, sofremos bastante com a despedida.

O que é uma vida diante da eternidade? Não adianta dizer que é como um grão de areia no deserto, pois a areia, um dia, poderá ter fim. O que sabemos? Não podemos ter certeza, só a fé. A fé nos mostra verdades que podem diferir de uma pessoa para outra, de uma religião para outra. Muitos cometem o equívoco de achar que sua verdade é a correta e a do outro é errada.

Tenho a convicção que dessa vida a gente só vai levar o que vivemos e fazemos. Como disse um amigo esses dias, a hora de fazer o bem é agora, pois ontem já passou e o amanhã pode não existir. Todos nós seremos imortais nas lembranças daqueles que nos amam e no bem que fazemos.

Uma prima querida, que lutava contra o câncer havia quatro anos, partiu para o plano espiritual esses dias. Penso que teve uma sobrevida, apesar da violência da doença, porque nunca baixou a cabeça, nunca perdeu a autoestima, nunca deixou de amar e agradecer pela vida.

Juju tornou-se eterna no coração de todos nós pelo ensinamento que deixou. “Seja feliz”, repetia aos amigos e amigas. Muitos chegavam a pensar que ela não estava doente, já que sempre respondia que estava bem. Uma guerreira. Buscou cuidar da família e amigos até o último momento, quando era ela quem precisava de apoio.

Na minha fé, acredito que ela está sendo amparada por espíritos amigos, livrou-se do invólucro carnal tão machucado pela doença. Precisará de nossas orações para se adequar à esta condição. Logo estará trabalhando pelo bem daqueles que amou e continuará amando, cuidando de todos como fazia quando habitava o plano material.

Seja como for, Juliana nos deixou uma grande lição, a de nunca baixar a cabeça diante das dificuldades. Independente do tamanho do problema, ele nunca será maior do que sua vontade de vencer. Independente do resultado, combata o bom combate. Deixe a lição de que viver vale muito à pena.

Tchau, 2016

O ano que termina dificilmente deixará saudades a um grande número de brasileiros. A maioria esmagadora vai desejar que este ano nunca tivesse acontecido. As crises política e econômica afundaram um o País num recessão inimaginável há poucos anos e levou de volta à pobreza um número enorme de pessoas e o desemprego atingiu patamares altíssimos ainda em 2015.

Alguns defendem que Fernando Henrique Cardoso arrumou a casa e Lula fez a festa. O problema foi a ressaca no Governo Dilma Rousseff, que nunca administrara nem tinha qualquer experiência em pleitos eleitorais, que assumidamente odiava o relacionamento político. Gostava de mandar e ser obedecida. Seus carões nos ministros eram públicos e de conhecimento de todos.

Com os erros estratégicos na economia e o agravamento da crise política, o Brasil foi rumo ao fundo do poço em uma velocidade impressionante, levando embora milhões de empregos, aumentando a violência, dificultando ainda mais a vida daqueles mais necessitados da atenção dos serviços públicos. Um dos efeitos colaterais foi a explosão da violência em quase todo o País.

O Rio Grande do Norte, que já vivia no aperto, viu a situação se deteriorar ainda mais. Mesmo com quase R$ 1 bilhão raspado do Fundo Previdenciário, o Governo Robinson não conseguiu pagar os salários continuam atrasados dos servidores efetivos, fornecedores sem ver seus pagamentos, terceirizados sem salários. A Saúde, Segurança e Educação agonizam como nunca visto por aqui.

Em Mossoró vimos a pior gestão da história da cidade. Não caberia em um artigo se enumerasse cada um dos tropeços, dos absurdos cometidos pelo Governo Silveira. A ascensão política do então vereador, catapultado para a cadeira de prefeito pelas forças do Judiciário, foi tão rápida quanto a concretização do desastre administrativo que fez Mossoró regredir pelo menos uma década.

Foi um ano em que nomes e ideias perigosas ganharam força perante a opinião pública, a ponto de alguns defenderem a volta do regime militar e aplaudir decisões monocráticas e quase ditatoriais de ministros do nosso Supremo Tribunal Federal. Como disse escreveu Kim Kataguiri, do Movimento Brasil Livre: “aplaudir decisões do Supremo que desrespeitam a Constituição é flertar com a ditadura”.

Que em 2017 possamos ver o fortalecimento das instituições, a criatividade dos gestores, o crescimento da economia e a volta do emprego. Creio que com esses avanços, todo o resto tende a voltar a evoluir. Que a boa utopia nos mantenha em um caminho de buscas por melhorias.

 

O abismo da Câmara Municipal

 

Estamos prestes a concluir o ano legislativo da Câmara Municipal e continuamos a assistir um espetáculo de mau gosto, um show de horrores patrocinado por alguns que querem pelo fim da força brindar aquele que é considerado o pior prefeito da história de Mossoró com um naco de poder por mais alguns anos.

O que vemos no Legislativo sob a presidência do mesmo partido que governa o Rio Grande do Norte através do presidente estadual do partido, governador Robinson Faria, e a prefeitura de Mossoró, através de Francisco José Jr, parece ser característica comum aos três homens que receberam essa responsabilidade.

Na Câmara Municipal, sem dar explicações de como o que deveria ser um saldo superior a R$ 3 milhões se transformou num débito superior a R$ 1 milhão (R$ 4 milhões de diferença), o presidente exonerou 90% dos cargos dos gabinetes dos vereadores, pagou os direitos trabalhistas de apenas alguns mais ligados a ele.

Além dessa pérola administrativa-financeira, querem criar, com o apoio do presidente e do líder da bancada governista, que se esforçam de forma hercúlea, uma agência reguladora que cria trina cargos comissionados, um cargo de semideus que não pode ser exonerado e despesas que podem passar de R$ 2 milhões ano.

O prefeito cerca vereadores na tentativa de aprovar o projeto que lhe permitirá indicar um pupilo que terá salário de R$ 11.700 sem a menor possibilidade de ser exonerado do cargo, que, sem necessidade de prestar contas, terá um orçamento milionário. É uma mini prefeitura dentro da PMM.

Alguns vereadores se comportam como se em desenho animado estivessem. Nos cartoons, quando o chão se abre, o personagem continua andando até olhar para baixo e percebem não há nada sob seus pés. Se não olhassem, atravessariam o abismo. Esse abismo é a distância entre o que eles estão fazendo e o que a sociedade espera.

Triste fim de legislatura esse da Câmara Municipal de Mossoró. A população assiste, decepcionada, a arena em que se transformou o plenário da Casa. Ao invés de uma arena onde se debatem grandes temas importantes para a cidade, ela assiste um presidente que grita colegas e não contribui em nada para o engrandecimento das discussões.

Não fui candidato à reeleição por considerar que dei minha contribuição ao Legislativo, mas continuarei, como cidadão e comunicador, observando os trabalhos da Casa, na torcida de que a próxima legislatura possa eliminar o abismo, exercer um bom trabalho e levar os grandes debates à Câmara Municipal de Mossoró.

O que acontecerá até 2018?

As manifestações vistas no último domingo em várias cidades do Brasil mostram que uma parcela da população não está satisfeita com os rumos do País, ao mesmo tempo em que mostrou o apoio de uma massa à Operação Lava-Jato e ao Ministério Público Federal e o repúdio ao Congresso Nacional e seus líderes.

A presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, afirmou que a descrença estimula a “justiça com as próprias mãos”. Alguns chegam ao ponto de defender um regime autoritário, outros apoiam atos como inclusão de provas ilícitas em processos, abolir o habeas corpus ou defender o abuso de autoridade por parte de juízes e promotores.

A guerra de informação é enorme. O que a Câmara dos Deputados aprovou sobre as “10 medidas”, projeto feito pelo MPF, não inibe a Lava-Jato, mas sim, quando existir, o abuso de autoridade. Também não anistiou nenhum crime, pelo contrário, tornou crime o “caixa 2”, aumentou a pena para corrupção, que virou crime hediondo. Retirou ainda a possibilidade de utilização de prova ilícita e incluiu a possibilidade de responsabilizar juízes e promotores por abuso de autoridade.

O advogado Erick Pereira, doutor em Direito Constitucional, escreveu um artigo, que encerra dizendo que “Erram os deputados quando, oportunisticamente, intimidam o Judiciário; erram os procuradores quando ameaçam a sociedade com “renúncia coletiva”. Resta-nos manter a esperança na luta pela introdução de mudanças, ainda que praticadas por um sistema imaturo.”

Como escreveu o promotor Fuad Faraj, de Curitiba, “o título do projeto de lei vendia combate à corrupção, mas o conteúdo dava ao cidadão também opressão e violação de direitos fundamentais. […] O Projeto aprovado, e talvez deva ser essa a razão do ódio profundo que suas Excelências devotam ao parlamento integrado por deputados eleitos pelo voto popular, inclui responsabilização criminal para promotores e juízes, entre outros atos, por atos ilícitos por eles praticados, antes “punidos” apenas na seara disciplinar.”

Parte da sociedade brasileira quer o fim da corrupção. Isso é fato. Alguns, porém, desconsideram que furar fila em banco, tentar subornar policial na blitz, oferecer atestado médico falso pro trabalhador faltar ao serviço, sonegar imposto de renda e tantas outras posturas adotadas por muitos, também são atos de corrupção.

O brasileiro encontrou em junho de 2013 uma forma de mostrar aos governantes que não está satisfeito. Não resta dúvidas de que as manifestações enfraqueceram Dilma Rousseff e contribuíram para sua queda. Desde a campanha pelas Diretas Já não se via tanta gente nas ruas.

Enquanto a economia não melhorar, os nervos continuarão à flor da pele. Temos um sério problema aí, uma vez que a agenda política dos governos antecede qualquer outra. Para implantar reformas que o governo considera importante, precisa de apoio.

A instabilidade provocada por outra mudança de governo neste momento seria muito ruim para o País. A partir do próximo ano, se Temer for afastado, teríamos eleição indireta onde o presidente seria escolhido pelo Congresso. O mesmo tão criticado por tantos. Quantas manifestações o atual governo aguenta? Resiste até 2018?

A Vitória do Incerto

Dia desses li um artigo escrito por Glenn Greenwald no portal The Intercept Brasil que abordava a derrota do candidato Marcelo Freixo para Marcelo Crivella na disputa pela Prefeitura do Rio de Janeiro. O principal tema do artigo é a dificuldade da esquerda em se comunicar com aqueles que ela diz defender.

A recém encerrada eleição americana trouxe um alerta para o mundo com o seu resultado: a vitória do candidato Donald Trump, empresário multibilionário que já pediu falência quatro vezes, acusou imigrantes de serem estupradores, fez terríveis declarações contra islâmicos, negros, mulheres e hispânicos. Foi a vitória do politicamente errado.

No Brasil há um movimento que, mesmo ainda minoritário, precisa ser observado com atenção. A extrema direita, tendo no daputado Jair Bolsonaro o principal representante, tem despertado cada vez mais interesse. Bolsonaro já homenageou torturadores e chegou ao ponto de dizer que a deputada Maria do Rosário não merecia ser estuprada porque era muito feia.

A humanidade vive ciclos, a sociedade é mutante de acordo com o tempo. Por causa da velocidade da informação, os pensamentos extremistas estão sendo potencializados. É isso que mostra o trabalho de Cass Sunstein, que resultou no livro “A Era do Radicalismo”, onde demonstra com exemplos como pensamentos parecidos se potencializam nesse novo contexto.

A crise iniciada no mercado norte americano em 2008 fortaleceu o discurso de extrema esquerda daqueles que  consideram o capitalismo o demônio em forma de organização social. Com isso, vieram também os que não são tão contra o capitalismo assim. Junto com esse debate, que se tornou estéril, veio o ódio de gênero, religião, cultural, orientação sexual e assim por diante.

Desde que Marx falou na exploração do homem pelo homem, criticando o capitalismo (as relações de trabalho existentes à época que, de fato, eram quase de escravidão), o mundo viu surgir regimes comunistas (em sua maioria terminaram se tornando ditatoriais) e uma parte da sociedade que se achava no direito de qualquer coisa para defender “o povo” contra os capitalistas.

O extremismo não é solução. A verdade de um pode não ser a verdade do outro. E a verdade de A não significa que a verdade de B está errada. O mundo precisa de mais diálogo, de mais respeito, de mais tolerância. As verdades de cada um não dão o direito de agredir ou diminuir a outra parte. O crescimento da extrema direita é preocupante, como também o seria o da extrema esquerda.

Marcelo Freixo diz que quer defender o povo pobre das garras da elite, mas venceu apenas na Zona Sul carioca, onde estão os mais abastados da capital fluminense. O discurso misógeno, racista e xenófobo de Donald Trump não impediu que imigrantes e negros votassem nele nem impede que Jair Bolsonaro tenha considerável apoio de pobres e ricos brasileiros com discurso parecido.

Não se pode ignorar a complexidade do pensamento humano. A esquerda e a direita precisam compreender que suas ideias não são necessariamente as certas ou as erradas, mas, principalmente, que são pontos de vista que precisam ser debatidos com todas as alas. Respeitar os divergentes e seus direitos, para talvez respeitar e conquistar mais apoiadores.

Westworld é aqui

O canal por assinatura HBO lançou há pouco tempo a série Westworld, escrito originalmente por Michael Crichton, autor de clássicos como Plantão Médico e Jurassic Park, e com elenco estrelado com atores do nível de Anthony Hopkins, James Paul Marsden, Jeffrey Wright, Thandie Newton, Evan Rachel Wood e também do brasileiro Rodrigo Santoro.

O filme mostra um parque temático ambientado no Velho Oeste americano chamado Westworld e temanfitriões – androides construídos com tecnologia avançada, que atendem os desejos, dos mais simples aos mais sórdidos, dos ricos visitantes, que podem fazer o que bem entenderem sem medo de retaliação, sem a necessidade de seguir qualquer Lei.

A trama do seriado vai se desenvolver a partir da capacidade de consciência dos anfitriões, que passam a perceber que suas vidas são controladas e que tudo aquilo não passa de uma mentira bem elaborada por mentes poderosas que fazem de tudo para controlá-los. Afinal, os robôs não são mais do que marionetes para eles.

Como estudante de psicologia, leitor neófito de filosofia, comunicador e político, gosto muito de fazer paralelos entre o real e a ficção. O que cada um de nós seríamos capazes de fazer se tivéssemos a oportunidade dos visitantes de Westworld? Se pudéssemos passar por cima das Leis, realizar os mais profundos desejos, dos mais violentos aos mais puros?

As vezes penso que pessoas com esta mentalidade estão mais perto de nós do que imaginamos. Pessoas que conquistam algum poder, sejam juízes de direito ou promotores de justiça, políticos, empresários bem-sucedidos, jogadores de futebol, policiais etc. Quantos indivíduos que ocupam estes postos não agem como se fossem os deuses encarnados? Quantos passam por cima das Leis que regem nossa democracia?

Desde um prefeito que faz tudo que lhe vem na telha (até mesmo ir surfar em dia de expediente e postar o fato em redes sociais quando os funcionários públicos do município administrado por ele estão com salários atrasados), até um empresário milionário, como o candidato a presidente dos EUA Donal Trump, que foi gravado afirmando que por ser rico poderia penetrar a mulher que ele quisesse. Em todo lugar tem gente que pensa assim.

Carl Jung nos trouxe o termo inconsciente coletivo, que seria uma herança herdada ao longo do desenvolvimento do homem que nem sempre podem ser expressas, e Erich Fromm usou inconsciente social para descrever a experiência inconsciente coletiva dos seres humanos que a sociedade repressiva não permite que chegue à consciência dos indivíduos.

Quando os indivíduos começam a ter a consciência do que acontece, os que estão no controle passam a enfrentar resistência e há o possível início de uma revolução. Ora mais tensa, ora mais discreta, seja através de manifestações ou do voto, no caso das democracias.

Lá em Westworld os androides podem ser consertados, o programa “resetado”, os problemas amenizados. Na vida real as cicatrizes são mais difíceis de curar. A palavra dita não pode ser apagada, a injustiça cometida vai sempre ser lembrada. Na ficção apresentada pela HBO é instigante, quando na vida real é preocupante e revoltante.

“Francisco” não resistiu e recuou

O prefeito Silveira gosta muito de retórica, mas por fazer tão pouco do que diz, terminou ganhando o posto de pior prefeito do Rio Grande do Norte de acordo com as pesquisas divulgadas desde o ano passado. Geralmente, políticos de palavras fáceis são desmascarados pelos fatos. O tempo é sempre senhor da razão.

Assumiu o comando da cidade com as treze cassações de Cláudia Regina. Durante o período da interinidade, foi extremamente populista e prometeu tudo a todo mundo. Foi beneficiado pela postura de parte do judiciário, que passava a informação de que qualquer outra candidatura que recebesse votos dos mossoroenses teriam seus votos anulados, o que o TSE depois mostrou não ser verdade, mas já era tarde.

Apesar de dizer que enfrenta “a maior oposição do Brasil”, contou com o apoio de 16 dos 21 vereadores de Mossoró. Disse que não fez autopromoção com dinheiro da prefeitura, mas torrou R$ 16 milhões em comunicação e teve apoio de boa parte da mídia e de um exército de blogs, aplicando calote em veículos que o desafiaram mostrando os problemas da cidade.

Nesta eleição, a figura central da campanha do “Canarinho” foi a primeira dama. Assim como foi desde que Silveira era presidente da Câmara Municipal, na gestão do prefeito, onde ela ocupou uma secretaria, uma irmã dela foi também secretária e a mãe indicada para cargo no governo estadual, e na eleição, Amélia sempre exerceu forte influência.

Nesta eleição, publicou um vídeo anunciando o rompimento com o Governador Robinson Faria acusando-o de não corresponder ao que Mossoró fez por ele. Depois, em uma gravação feita sem que ela soubesse, afirmou que tinha um acordo político e jurídico com o candidato Tião Couto; que no acordo estava previsto de que quem estivesse atrás nas pesquisas apoiaria o outro; que Tião estava comprando votos com dinheiro “nas bases”; que precisava fazer o mesmo ou o marido não conseguiria vencer a eleição.

No anúncio da desistência, o agora “Francisco”, disse que retirava a candidatura para não dividir os votos daqueles que não votam em Rosalba. Não disse textualmente, mas nem precisou, que iria trabalhar para que Tião vencesse o grupo ao qual ele chama de oligarquia, grupo que, aliás, ele já se aliou e apoiou em diversas oportunidades. Se mostrou odiento ao atacar os que estão apoiando Rosalba e confirmou o que sua esposa revelara em áudio, de que há um acordo político entre Silveira e Tião.

Francisco José Silveira Junior entra para a história política de Mossoró como o pior prefeito da história e o único a desistir de uma campanha no meio dela. Não por culpa de Robinson Faria, como insinuou a primeira dama. Ele é vítima dele mesmo. Da vaidade exacerbada, da incapacidade de reconhecer seus erros, defeitos e da completa falta de humildade. O prefeito não resistiu, mas recuou.

Os desdobramentos serão muitos. Pra onde irão os candidatos a vereador que o apoiam? Os partidos? Sem dúvida, a campanha vai ficar ainda mais polarizada entre Tião e Rosalba, mas até que ponto o apoio de Silveira a Tião é positivo ou negativo? Como serão os últimos meses dessa legislatura na Câmara Municipal? Qual o futuro de Silveira? Será candidato a deputado? Com quem Robinson Faria vai contar em Mossoró? São muitas perguntas que só o tempo vai mostrar.

A culpa é de quem?

Permitam-me chamar-lhe de Silveira, a forma que o conheci na adolescência e nome pelo qual foi chamado até ser candidato pela primeira vez, em 2000, quando mudou o nome para Francisco José Júnior e usava o slogan de campanha “em nome do pai”. Hoje mudou de nome mais uma vez e se chama apenas Francisco, talvez na tentativa de ser comparado ao Papa. Sempre gostou muito de promoção pessoal, as vezes tendo comportamento de quem se considerava acima dos demais. Foi assim ao longo dos mandatos de vereador, aumentando a dose quando presidiu a Câmara Municipal e extrapolando todos os limites como prefeito.
Em minha opinião, três coisas marcaram seu mandato como prefeito: falta de transparência, as inverdades e as decisões de rompante, sem planejamento. Os exemplos não faltam. Vide o exemplo dos camelôs, dos táxis de cidades vizinhas, as casas da favela do Wilson Rosado, o lixo, o adiantamento milionário dos royalties, terceirizadas e a novela do pagamento dos salários atrasados.
Ao romper com o prefeito Silveira, o vice-prefeito Luis Carlos disse que o prefeito era muito “centralizador”, “autoritário” e “pouco afeito à transparência”. Concordo com Luis. Por exemplo, desde 2015 tento ter acesso aos gastos da PMM com publicidade. O gasto detalhado. Quem recebeu quanto e por qual serviço. O Executivo entrou na Justiça para não mostrar os dados. Quer outro exemplo? O Portal da Transparência, hoje, 09 de setembro, não tem dados do ano de 2016. Quanto foi repassado às agências de publicidade? quanto foi repassado para construtoras? Para terceirizadas? Para a empresa do lixo? Quanto foi gasto com aluguel de carros? O prefeito passa por cima da Lei e nada acontece.
Como não há dados de 2016, vamos falar de 2015, ano em que o Executivo torrou R$ 5,5 milhões em propaganda, mesmo tendo deixado uma dívida milionária junto aos veículos de comunicação, existindo inclusive ameaça de que só receberiam os pagamentos se elogiassem o prefeito. Um abuso de autoridade e de vaidade sem precedentes. Pra onde foi essa dinheirama? Por que uns receberam muito e outros levaram calote?
Recentemente, a 1ª Dama do município fez um pronunciamento nas redes sociais do marido onde acusa o governador Robinson de tê-lo abandonado e de virar as costas para Mossoró. A 1ª Dama do Estado respondeu e disse que o eles deveriam entregar todos os cargos comissionados do Governo indicados pelo prefeito.
E por que não lembrar do Santuário de Santa Luzia, prometido pelo prefeito em 13 de dezembro de 2013, há três anos, no átrio da Catedral de Santa Luzia? Por último, trouxe um senhor pernambucano que doaria nada menos que R$ 15 milhões para a construção da santa. Até hoje, ninguém sabe, ninguém viu. Só mais uma enganação que rola há alguns ano.
Silveira é vítima dele mesmo. Não pode culpar ninguém. Recebeu uma espécie de MegaSena, ganhou de presente de amigos e do destino o cargo de prefeito da cidade de Mossoró. Logo se achou um enviado por Deus, uma liderança estadual e posou para muitas fotos como a nova força, maior do que fora Aluísio Alves, Dinarte Mariz ou, quem sabe, o novo Rodolfo Fernandes.

Sua campanha à reeleição começa a enfrentar baixas. Partidos e candidatos abandonam o prefeito e ele muito provavelmente vai terminar o mandato isolado, sozinho.
Jogou tudo fora pela incompetência e vaidade exagerada.

O Isolamento de Robinson Faria

Em 1986 Robinson Faria tinha apenas 27 anos de idade. Foi eleito deputado estadual pela primeira vez, cargo para o qual foi reeleito seis vezes e foi presidente da Assembléia Legislativa por oito anos, quando deixou o Legislativo para ser eleito vice-governador na chapa encabeçada por Rosalba Ciarlini, com quem rompeu ainda no primeiro ano de governo.

Lançou-se candidato como candidato ao Governo do Estado e passou três anos conversando com um e com outro. Em 2014 foi candidato com o apoio do PT e do PC do B, tendo a maioria das lideranças políticas estaduais e municipais ao lado de outro candidato. Falou exaustivamente em acordão para dizer que era o candidato contra os caciques. Graças à votação surpreendente do candidato Robério Paulino do PSOL, a disputa foi para o segundo turno, quando Robinson saiu vitorioso.

Houve o fator Robério, mas é inegável o mérito do governador e sua equipe de marketing ao convencer a população de que ele era como Davi contra Golias, que o principal opositor era bancado por um acordão baseado em interesses próprios contra o interesse comum da população.

A campanha passou, o governador passou por um período de trégua por parte da população. O discurso mostrou que o clima de campanha não saiu da cabeça do governador. No primeiro ano de governo não teve nenhum grande projeto, nenhuma grande obra. O principal feito foi ter pago o salário dos servidores em dia, mas o fez secando a fonte do fundo previdenciário dos próprios servidores.

Politicamente, o governador tem como um dos principais aliados o desgastado prefeito de Mossoró Francisco José Silveira Jr. Das principais lideranças estaduais, Robinson não procurou se alinhar a nenhum. Em Brasília, geralmente sequer convida a bancada federal para acompanhá-lo às audiências nos ministérios, sendo acompanhado geralmente exclusivamente pelo filho deputado Fábio Faria. Perdeu o apoio do PT por ter apoiado o impeachment da presidente Dilma e ficou mais isolado ainda.

Os problemas enfrentados pela população são enormes. Nunca houve tanto homicídio em nosso Estado, nunca houve tanta fuga nos presídios, assim como a saúde nunca passou por situação tão grave. As estradas estão esburacadas e os salários estão sendo pagos com atraso. As notícias não são nada boas para o governo.

O que se percebe é que o governador segue isolado politicamente e não se esforça para ter apoios aos pleitos do Governo em Brasília, apoio ao governo nos municípios nem na própria Assembléia Legislativa. Em alguns casos, como o de Mossoró, o governador afunda no quesito popularidade puxado pelo prefeito recordista em desaprovação na cidade. Antes de 2018, tem 2016. Findar 2016 isolado como começou pode não ser tão interessante.

Fanfarrão!

O personagem Capitão Nascimento do filme Tropa de Elite teve algumas falas popularizadas por aqueles que assistiram o filme. “Você é um fanfarrão” é uma delas. Fanfarrão é um adjetivo substantivo masculino que significa “o que ou aquele que conta bravatas, que alardeia coragem sem ser corajoso”, ou seja, que fala muito e faz pouco.

O prefeito de Mossoró pode ser enquadrado na definição de fanfarrão não por ser sem coragem. Isso, reconheça-se, ele tem até demais. O problema é a mania de falar demais, prometer demais e muitas vezes não cumprir. Isso já virou rotina.

O caso mais emblemático é o da “maior imagem católica do mundo”, a de Santa Luzia, que seria construída pela Prefeitura na Serra Mossoró e prometida pela primeira vez no dia 13 de dezembro de 2013. Dois anos e meio depois, a promessa é de que um bilionário suíço é quem seria o responsável pelo financiamento da obra. À ver.

Em março de 2015, o prefeito prometeu que em abril daquele ano o probelam do transporte coletivo de Mossoró estaria solucionado com ônibus novos e com ar-condicionado. Nem eram novos nem funcionaram com ar-condicionado. Mais de um ano depois ainda não tivemos a solução para o problema. Na mesma oportunidade em março de 2015, o prefeito prometeu solucionar o problema de estacionamento no centro de Mossoró. Hoje, 14 meses depois, nada de solução.

Outra falácia foi quando, ao sancionar um lei que proibe o uso de logomarcas e slogans na gestão municipal, de iniciativa da Câmara Municipal, o prefeito disse que economizaria recursos em Comunicação. Em 2012 foram gastos R$ 4,5 milhões; em 2013, foram 5,9 milhões; em 2014, primeiro ano de gestão de Silveira, os gastos foram para R$ 6,8 milhões; em 2015 foi de 5,9 milhões.

Ano passado, a cidade assistiu a um Mossoró Cidade Junina muito mal organizado e até hoje muita gente reclama que não recebeu premiações, não recebeu pelos serviços prestados ou produtos fornecidos. Este ano, o prefeito disse que não ia fazer licitação coisa nenhuma. Ele mesmo iria contratar as empresas, as bandas, pois assim economizaria. Outra falácia. As bandas saíram mais caras que ano passado.

Em levantamento feito pelo jornalista Magnos Alves, percebe-se que a empresa contratada sem licitação para captar recursos, a Padrão, aqui de Mossoró, receberá 20% de todo patrocínio que entrar, mas ela foi contratada com o evento já em andamento. Quem conseguiu patrocínio, a empresa ou a Prefeitura? Ano passado a comissão à empresa Viva Entretenimento era 9%.

Os cachês das bandas também deram um salto considerável. Ano passado a banda Chicabana custou R$ 40.000, esse ano ficou por R$ 80.000; a Bonde do Brasil custou R$ 40.000 ano passado, R$ 70.000 este ano; Solteirões do Forró custou 55.000, este ano foi para R$ 65.000; Dorgival Dantas cobrou R$ 70.000 ano passado, e este ano, mesmo tocando numa segunda-feira, dia em que os shows custam mais barato, levou R$ 75.000.

Esses são apenas alguns exemplos do que foi dito e não foi feito. Há muitos outros.