quinta-feira , 19 de outubro de 2017
Home / Opinião / Enfoques Espíritas

Enfoques Espíritas

Com Francinaldo Rafael
[email protected]

Vivemos dias de Procusto – Francinaldo Rafael

Estamos atravessando um delicado período de exacerbação dos comportamentos extremistas. O egoísmo leva pessoas a impor aos outros regras de moral, padrão de beleza, gostos, etc. Faz recordar o mito de Procusto.

Procusto é um personagem da mitologia grega. A cama de ferro que possuía em casa tinha o exato tamanho dele. Todos os hóspedes eram convidados a se deitarem nela. Se fossem  altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama. Quem tivesse baixa estatura era esticado até atingir  a medida do móvel. Nunca alguém se ajustava exatamente ao tamanho da cama, porque Procusto mantinha secretamente, duas camas de tamanhos diferentes.

Procusto é uma representação da intolerância. Boa metáfora para demonstrar as  várias tentativas de imposição do ser humano ao próximo.

O Espírito Joanna de Ângelis (Leis Morais da Vida – psicografia Divaldo Franco) nos adverte que “a toda criatura é concedida a liberdade de pensar, falar e agir, desde que essa concessão subentenda o respeito aos direitos semelhantes do próximo”. Reforça que a liberdade é a grande luta da Humanidade através dos milênios contra a usurpação, a violência, a hegemonia de forças dominadoras.

A Benfeitora nos lembra também que há muitos críticos na Terra que apenas veem o que lhes é adequado. Apontam facilmente erros, amplificam detalhes negativos mesmo que insignificantes. São perfeccionistas em relação às tarefas alheias, combativos contra os companheiros de labuta, nos quais sempre descobrem falhas. “São críticos, porém, incapazes de aceitar as apreciações que os desagradam. Quando advertidos ou convidados ao diálogo franco, de que se dizem partidários, justificam os enganos e justificam-se, não admitindo admoestações ou corrigendas”, diz ela taxativamente.

Como há muitos desses críticos na Terra, Joanna recomenda que não nos detenhamos nas observações deles. Mesmo que nos agridam, oremos  por eles. “Não tens o dever de agradá-los, é verdade, porém não os tenhas como inimigos”. E nos chama a atenção para o exemplo de Jesus, que impiedosamente perseguido,  fiscalizado e combatido por “defensores da verdade” prosseguiu sereno por saber que os doentes mais infelizes são os que se recusam reconhecer a posição de enfermos, quando os ‘piores cegos são aqueles que não querem ver”.

Por fim, para atravessarmos com um pouco de serenidade esses tormentosos dias, se faz necessário que nos desarmemos interiormente. Que nossas atitudes não sejam  de Procustos da atualidade, e sim, aquela para a qual o Mestre nos convidou: fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fosse feito.

Allan Kardec: o homem, a missão – Francinaldo Rafael

A literatura espirita é abundante. Centenas de obras estão ao alcance da população tanto em meio físico, quanto eletrônico. Mas como em toda grande conquista se faz necessário jornada bem alicerçada, nessa feita o grande baluarte foi o professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail.

Rivail recebeu educação primorosa desde a infância. Enriqueceu a bagagem com o célebre professor Pestalozzi, na Suíça. Desde a juventude sentiu-se atraído para a Ciência e a Filosofia. Bacharelado em Letras e Ciências, fundou em Paris uma instituição de ensino, onde ministrava Química, Física, Astronomia e Anatomia Comparada. Não cobrava daqueles que não podiam pagar. Publicou uma série de obras na área de educação e várias delas foram integradas ao currículo de estudos da Universidade de França. Era um homem  cético, sem instinto poético, inclinado ao método, a ordem, a disciplina mental. Praticava na palavra escrita e falada, a precisão, a nitidez, a simplicidade, dentro de um vernáculo perfeito, livre de excessos. O filósofo e escritor Camille Flammarion denominou-o de o bom senso encarnado.

Após cinquenta anos de preparação acadêmica e moral, Rivail foi convocado pela espiritualidade para codificar a Doutrina Espírita. Em virtude de ser nome ser conhecido e respeitado pela comunidade científica, optou por assinar como Allan Kardec a publicação da primeira obra – O Livro dos Espíritos – e as subsequentes.

Era um período em que a filosofia através de Hegel, Marx e Engels estabelecia ser desnecessária a alma para interpretação da vida e compreensão do Universo. Florens e Cuvier declaravam nunca haver encontrado alma nas centenas de cadáveres que dissecaram. Moleschot , Büchner e Karl Vogt afirmaram que o Espírito é uma exsudação cerebral. Em meio a tudo isso surge Kardec com uma filosofia comportamental apoiada na força da lógica e da razão, apresentando a preexistência da alma ao corpo e sua sobrevivência a morte, uma ciência resultada de profundo trabalho de investigação fundamentado na experiência, resistente ao descrédito e a perseguição. Tanto que até hoje permanece irretocável.

Allan Kardec em sua gloriosa e desafiadora missão empreendeu trabalho hercúleo. Além de codificar as obras basilares do espiritismo criou a Revista Espírita, primeiro instrumento de divulgação nessa natureza;  fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, primeiro Centro Espírita do mundo; fez várias e longas viagens pelo interior da França, com objetivo de dar instruções e ao mesmo tempo instruir-se, ver as coisas de perto, sondar opiniões, apertar a mão dos irmãos espíritas.

Na definição do Espírito Vianna de Carvalho (psicografia Divaldo Franco-Reflexões Espíritas) “vanguardeiro do progresso, Kardec é o pensador e cientista que mais penetrou a sonda da indagação no organismo das Leis, e ofereceu as extraordinárias lições morais que se derivam da Lei Natural ou de Amor, que é universal, porque promana de Deus, o Criador”.

 

Kardec, obrigado! – Francinaldo Rafael

Em 3 de outubro é comemorado o nascimento de Allan Kardec, O Codificador do Espiritismo. Homenageando o mestre lionês, o Espírito Humberto de Campos enviou à Terra a seguinte mensagem:

“Kardec, enquanto recebes as homenagens do mundo, pedimos vênia para associar nosso preito singelo de amor aos cânticos de reconhecimento que te exaltam a obra gigantesca nos domínios da libertação espiritual.

Não nos referimos aqui ao professor emérito que foste, mas ao discípulo de Jesus que possibilitou o levantamento das bases do Espiritismo Cristão, cuja estrutura desafia a passagem do tempo.

Falem outros dos títulos de cultura que te exornavam a personalidade, do prestígio que desfrutavas na esfera da inteligência, do brilho de tua presença nos fastos sociais, da glória que te ilustrava o nome, de vez que todas as referências à tua dignidade pessoal nunca dirão integralmente o exato valor de teus créditos humanos.

Reportar-nos-emos ao amigo fiel do Cristo e da Humanidade, em agradecimento pela coragem e abnegação com que te esqueceste para entregar ao mundo a mensagem da Espiritualidade Superior.

E, rememorando o clima de inquietações e dificuldades em que, a fim de reacender a luz do Evangelho, superaste injúria e sarcasmo, perseguição e calúnia, desejamos expressar-te o carinho e a gratidão de quantos edificaste para a fé na imortalidade e na sabedoria da vida.

O Senhor te engrandeça por todos aqueles que emancipaste das trevas e te faça bendito pelos que se renovaram perante o destino à força de teu verbo e de teu exemplo!…

Diante de ti, enfileiram-se, agradecidos e reverentes, os que arrebataste à loucura e ao suicídio com o facho da esperança; os que arrancaste ao labirinto da obsessão com o esclarecimento salvador; os pais desditosos que se viram atormentados por filhos insensíveis e delinquentes, e os filhos agoniados que se encontraram na vala da frustração e do abandono pela irresponsabilidade dos pais em desequilíbrio e que foram reajustados por teus ensinamentos, em torno da reencarnação; os que renasceram em dolorosos conflitos da alma e se reconheceram, por isso, esmagados de angústia nas brenhas da provação, e os quais livraste da demência, apontando-lhes as vidas sucessivas; os que se acharam arrasados de pranto, tateando a lousa na procura dos entes queridos que a morte lhes furtou dos braços ansiosos, e aos quais abriste os horizontes da sobrevivência, insuflando-lhes renovação e paz, na contemplação do futuro; os que soergueste do chão pantanoso do tédio e do desalento, conferindo-lhes, de novo, o anseio de trabalhar e a alegria de viver; os que aprenderam contigo o perdão das ofensas e abençoaram, em prece, aqueles mesmos companheiros da Humanidade que lhes apunhalaram o espírito, a golpes de insulto e de ingratidão; os que te ouviram a palavra fraterna e aceitaram com humildade a injúria e a dor por instrumento de redenção; e os que desencarnaram incompreendidos ou acusados sem crime, abraçando-te as páginas consoladoras que molharam com as próprias lágrimas…

Todos nós, os que levantaste do pó da inutilidade ou do fel do desencanto para as bênçãos da vida, estamos também diante de ti!…

E, identificando-nos na condição dos teus mais apagados admiradores e com os últimos dos teus mais pobres amigos, comovidamente, em tua festa, nós te rogamos permissão para dizer: Kardec, obrigado!… Muito obrigado!”.

 

(Psicografia: Francisco Cândido Xavier – Livro: Histórias e Anotações). 

Pátria armada Brasil – Francinaldo Rafael

Também no nosso Brasil o ensinamento crístico “Amai-vos uns aos outros”, ao longo dos milênios parece ter sofrido a ação da brincadeira popular do telefone sem fio. O armai-vos uns contra os outros tem sido bastante perceptível nos tumultuados dias atuais. E não se trata da aquisição de revólver ou similar. A mais evidente arma é da intolerância em amplo espectro. São pessoas que a todo momento digladiam-se obcecadas em impor suas vontades e suas certezas. Rareia o respeito mútuo.

O Espírito Joanna de Ângelis através da psicografia de Divaldo Franco (Livro: Estudos Espíritas) nos recorda que raramente a História revela presença de tolerância. Sempre dominou a imposição política, filosófica e religiosa, onde privilegiadas minorias exigiram subordinação aos seus postulados.

De modo alternado, a intolerância aliada da covardia foi a grande promotora de mártires e vítimas de suplício, nos mais diversos setores da vida.

O Espírito Vianna de Carvalho (Livro: Reflexões Espíritas) nos alerta que é unânime a necessidade de se viver na Terra o ambiente saudável de uma sociedade justa, na qual direitos e deveres humanos sejam idênticos, ao mesmo tempo em que a miséria socioeconômica, as discriminações de qualquer tipo, ou os prejuízos do egoísmo não tomem vitalidade. Enfatiza ele: “Reconhecemos, os idealistas vinculados ao espiritualismo ou às filosofias materialistas, que o homem é o grande investimento da vida, e que somente mediante a sua valorização e promoção, lograremos tornar o mundo dignamente habitável, realmente um lugar respeitável para a manifestação da vida inteligente e o inter-relacionamento saudável”.

Reforça ainda Vianna que o homem tem como missão inteligente e grande desafio, crescer moralmente enquanto reencarnado, e gravar a justiça social e humana nos atos que pratica e na vivência em relação ao próximo.

Urge que nos desarmemos e conforme recomendou o Mestre, necessário que nos amemos uns aos outros, num convite a sociedade para a aplicação da lei do amor, promovendo-o na educação, no trabalho e em todas as atividades da vida, oportunizando o desabrochar dos valores éticos e morais.

Conquistar e conquistar-se – Francinaldo Rafael

Mais corriqueiro do que gostaríamos, aqui e ali nos deparamos  com  pessoas astutas, que estão sempre dispostas a  semear sua vileza, na busca desenfreada do ter. Não é fácil conviver harmonicamente com esses comportamentos.

Para não entrarmos ‘em rota de colisão’, o esforço diuturno do exercício da paciência necessita ser redobrado.

Atentemos para a mensagem a seguir, de autoria do Espírito Emmanuel, psicografada por Francisco Cândido Xavier.

“Não procures os cimos do mundo ao preço de mentira e astúcia, porque ninguém trai os imperativos da vida.

Conquistar não é conquistar-se. Muitos conquistam o ouro da Terra e adquirem a miséria espiritual. Muitos conquistam a beleza corpórea e acabam no envilecimento da alma. Muitos conquistam o poder humano e perdem a paz de si mesmos. Necessário que o espírito se acrisole na experiência e na luta, valendo-se delas para modelar o caráter, senhoreando a própria vida.

Para possuirmos algo com acerto e segurança, é indispensável não sejamos possuídos pelas forças deprimentes que nos inclinam sentimento e raciocínio aos desequilíbrios da sombra.

Indubitavelmente, todos podemos usufruir os patrimônios terrestres, nesse ou naquele setor do cotidiano, mas é preciso caminhar com sabedoria para que o abuso não nos infelicite a existência.

É por isso que sofrimento e dificuldade, obstáculo e provação constituem para nós preciosos recursos de superação e engrandecimento.

Todos os valores externos concedidos à personalidade, em trânsito no mundo, são posses precárias que a enfermidade e a morte arrancam de improviso, mas todos os valores que entesouramos no próprio ser representam posses eternas que brilharão conosco, aqui e além, hoje e amanhã. . .

Na esfera espiritual, cada criatura é aproveitada na posição em que se coloca e somente aqueles que conquistaram a si mesmos, nos reiterados labores da educação, através do suor ou da lágrima, do trabalho ou da lágrima, são capazes de cooperar na extensão do amor e da luz, cujo crescimento na Terra exige, invariavelmente, o coração e o cérebro, as ações e as atitudes daqueles que aprenderam na lei do próprio sacrifício a conquista da vida imperecível.

Reflete naquilo que te falam, antes de te entregares psicologicamente ao que se te diga…”

Não perdoar – Francinaldo Rafael

Bezerra de Menezes, já devotado à Doutrina Espírita, almoçava, certa feita, em casa de Quintino Bocaiúva, o grande republicano, e o assunto era o Espiritismo, pelo qual o distinto jornalista passara a interessar-se.

Em meio da conversa, aproxima-se um serviçal e comunica ao dono da casa:
– Doutor, o rapaz do acidente está aí com um policial.

Quintino, que fora surpreendido no gabinete de trabalho com um tiro de raspão, que, por pouco, não lhe atingiu a cabeça, estava indignado com o servidor que inadvertidamente fizera o disparo.

– Manda-o entrar – ordenou o político.

– Doutor – roga o moço preso, em lágrimas -, perdoe o meu erro! Sou pai de dois filhos… Compadeça-se! Não tinha qualquer má intenção… Se o senhor me processar, que será de mim? Sua desculpa me livrará! Prometo não mais brincar com armas de fogo! Mudarei de bairro, não incomodarei o senhor…

O notável político, cioso da própria tranquilidade, respondeu:

– De modo algum. Mesmo que o seu ato tenha sido de mera imprudência, não ficará sem punição.
Percebendo que Bezerra se sentia mal, vendo-o assim encolerizado, considerou, à guisa de resposta indireta:

– Bezerra, eu não perdoo, definitivamente não perdoo…

Chamado nominalmente à questão, o amigo Bezerra exclamou desapontado:

– Ah!… você não perdoa!

Sentindo-se intimamente desaprovado, Quintino Bocaiúva falou irritado:

– Não perdoo erro. E você acha que estou fora do meu direito?

O Dr. Bezerra cruzou os braços com humildade e respondeu:

– Meu amigo, você tem plenamente o direito de não perdoar, contanto que você não erre…

A observação penetrou Quintino Bocaiúva como um raio. O grande político tomou um lenço, enxugou o suor que lhe caía em bagas, tornou à cor natural, e, após refletir alguns momentos, disse ao policial:

– Solte o homem. O caso está liquidado.

E para o moço que mostrava profundo agradecimento:

– Volte ao serviço hoje mesmo, e ajude na copa.

Em seguida, lançou inteligente olhar para Bezerra, e continuou a conversação no ponto em que haviam ficado.

(Mensagem do Espírito Hilário Silva, psicografia de Francisco Cândido Xavier. Livro: Almas em Desfile).

A difícil renúncia – Francinaldo Rafael

Eis que um moço rico aproxima-se de Jesus e pergunta-Lhe o que deve fazer para adquirir a vida eterna. Recomendou-lhe o Mestre que seguisse os mandamentos. O jovem respondeu dizendo ser prática habitual. Perguntou então o que mais faltava fazer. Disse-lhe Jesus: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”.

Conforme narra o Espírito Amélia Rodrigues (Primícias do Reino – psicografia Divaldo Franco), as palavras doces e enérgicas de Jesus causaram-lhe inquietação. Vivia na riqueza, mas faltava-lhe algo. Podia segui-Lo, mas… Era jovem vigoroso, competidor nas corridas de bigas, que lhe davam honras, vaidades atendidas, bajulações. Queria primeiramente disputar as vitórias dos jogos. Ante a negativa do Mestre, foi-se embora tristonho.

Assim como o moço rico, diariamente travamos batalhas interiores. Dificilmente queremos abrir mão de situações que, se observadas mais atentamente, não nos acrescentam nada.

Diz o Espírito Joanna de Ângelis (Jesus e o Evangelho à luz da psicologia profunda – psicografia Divaldo Franco)  que a superioridade do ego conduzindo o indivíduo faz com que esse se apegue as paixões primitivas, geradoras de ambições descabidas, interesses mesquinhos, incoerências. A necessidade de impor-se, de destacar-se no grupo social anula a capacidade de análise sensata, abrindo o campo mental e emocional para usufruir de gozos e lucros pessoais sempre. Por outro lado, comportamentos saudáveis conduziriam os indivíduos mais rapidamente a melhores caminhos: renunciar a insensatez, a falta de compreensão, ao pessimismo, nunca perdendo a oportunidade de ser aquele que serve sem cobrar nada em troca, que silencia ao mal, que perdoa sempre, que nunca cansa de confiar em Deus.

Quando Jesus propôs ao moço rico desfazer-se de todos os bens e segui-Lo, certamente não pretendeu estabelecer que fosse princípio único para cada criatura abrir mão do que possui e só assim conquistar a evolução. Quis mostrar que o apego aos bens materiais é obstáculo. O abuso é que torna as riquezas maléficas. Compete ao homem usá-las corretamente, trabalhando para a melhoria material do planeta. Não se pode esquecer que as vitórias de um dia, no outro passam.

Uma semana depois daquele encontro, diz Amélia Rodrigues, Cesaréia era a capital do ócio, do prazer. Ao som alegre das fanfarras, começavam as festas públicas. Aquele jovem impetuoso estava presente na competição de bigas, com seus cavalos magníficos. Ao sinal, competidores e seus carros saem em disparada. Numa manobra menos feliz, um carro vira e um corpo tomba na arena, despedaçado pelas patas velozes. Apesar da respiração agonizante, o corpo ensanguentado, as dores lancinantes, ele consegue fugir mentalmente da cena brutal e entre a névoa que lhe envolve os olhos parece ver Jesus e escuta-Lo: “Renuncia a ti mesmo, vem, segue-me”. Dois braços o envolvem veludosos e transparentes. O corpo já sem vida dá a impressão de sorrir.

O Céu e o Inferno – Francinaldo Rafael

Em 1º de agosto de 1865 foi lançada a quarta obra da Codificação Espírita: O Céu e o Inferno. Também conhecida como a justiça divina segundo o espiritismo, é um exame comparativo das diversas doutrinas, sobre a passagem da vida corporal à vida espiritual, as penalidades e recompensas futuras, sobre os anjos e demônios, etc. Traz numerosos exemplos acerca da situação real da alma durante e após a morte.

Allan Kardec, o Codificador, apresenta a verdadeira face do desejado Céu, do temido Inferno, como também do chamado Purgatório. Põe fim às penas eternas, demonstrando que tudo no universo evolui, conforme narra José Herculano Pires (tradutor) na introdução do livro. Diz ele: “Lendo-se este livro com atenção vê-se que a sua estrutura corresponde a um verdadeiro processo de julgamento. Na primeira parte temos a exposição dos fatos que o motivaram e a apreciação judiciosa, sempre serena, dos seus vários aspectos, com a devida acentuação dos casos de infração da lei. Na segunda parte o depoimento das testemunhas. Cada uma delas caracteriza-se por sua posição no contexto processual. E diante dos confrontos necessários o juiz pronuncia a sua sentença definitiva, ao mesmo tempo enérgica e tocada de misericórdia. Estamos ante um tribunal divino”.

Dois capítulos de O Céu e o Inferno foram antecipadamente publicados na Revista Espírita em 1865. Um, na edição  de janeiro, intitulado “Da apreensão da morte, vigorosa peça de acusação”, e o outro em março com o título “Onde é o Céu”. Pareciam simples artigos, mas esse último trazia uma nota final anunciando que ambos fariam parte de uma “nova obra que o Sr. Allan Kardec publicará proximamente”. No mês de setembro já estava à venda.

A leitura e o estudo atento da obra são importantes tanto para espíritas como para não espíritas, por permitir a compreensão do sentido da vida humana na Terra. Seguindo na introdução, Herculano Pires discorre: “Kardec nos dá nas suas páginas o balanço da evolução moral e espiritual da humanidade terrena até os nossos dias. Mas ao mesmo tempo estabelece as coordenadas da evolução futura. As penas e recompensas de após a morte saem do plano obscuro das superstições e do misticismo dogmático para a luz viva da análise racional e da pesquisa científica. É evidente que essa pesquisa não pode seguir o método das ciências de mensuração, pois o seu objetivo não é material, mas segue rigorosamente as exigências do espírito científico moderno e contemporâneo. O grave problema da continuidade da vida após a morte despe-se dos aparatos mitológicos para mostrar-se com a nudez da verdade à luz da razão esclarecida”.

Vida, sono e sonho – Francinaldo Rafael

O sono é um estado recorrente, cíclico e fase fisiológica normal e necessária do organismo. Nessa etapa há o refazimento orgânico, consolidação da memória, reequilíbrio de funções diversas.

O ser humano passa cerca de um terço da vida dormindo. Esse estado, de certa forma é um treino, mesmo que inconsciente, para o fenômeno da morte.

Semelhante a morte, quando o Espírito se liberta do corpo físico, durante o sono há ocorrência idêntica.

Como não há inatividade nas Leis da Vida, mesmo durante o repouso da matéria, o Espírito se movimenta atraído pelo que o interessa. Desprende-se parcialmente e busca lugares e pessoas com os quais mantém vínculos. Quando retorna ao corpo traz lembranças que imprime no cérebro. Poderão ocorrer os sonhos dos mais diversos tipos. Inclusive alguns se tornaram conhecidos mundo afora como os narrados na Bíblia, os desdobramentos de Santa Teresa de Ávila, Voltaire.

Há  correlação entre os acontecimentos e o estado evolutivo de cada ser.

Nessa parcial liberdade, segue na direção de ambientes que lhe são agradáveis ou onde gostaria de estar, se assim o fosse possível fisicamente. Afirma o Espírito Manoel Philomeno de Miranda através da psicografia do médium espírita Divaldo Franco (no livro Temas da Vida e da Morte): “Em tal circunstancia, pode viajar com os seres amados, que reencontra além da cortina carnal, participando dos seus estudos e realizações, aprendendo lições que lhe ficarão em gérmen, penetrando, inclusive, nos registros do passado como do futuro”. Quando almeja ideais de enobrecimento da Humanidade, recebe inspiração para enriquecimento desses planos do bem.

Nem sempre essas viagens em corpo espiritual durante o sono levam a ambientes de felicidade.

Em razão do hábito dos  maus pensamentos, comportamentos pouco saudáveis, Espíritos afins a esse panorama são conduzidos a redutos de crimes, de perversão, ampliando as percepções negativas. Trazem para o hábito diário as inspirações recebidas.

Diante disso tudo, afirma Philomeno: “Se alguém diz como e o que sonha, é fácil explicar-lhe como vive nas suas horas diárias. Dorme-se, portanto, como se vive, sendo-lhe os sonhos o retrato emocional da sua vida moral e espiritual”.

Na jornada evolutiva – Francinaldo Rafael

Caso houvesse a publicação de uma lei geral para a finitude do ser humano, certamente o artigo  primeiro seria: “Todos são iguais perante a morte, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se a toda a população mundial a inviolabilidade desse direito”.

Diariamente, a todo instante, dos quatro cantos da Terra partem milhares rumo ao país da morte. Saem de grandes centros culturais, de velhos círculos ainda materialmente atrasados, das metrópoles, das tribos, vilas, campos, etc. Em resumo: ninguém escapa, independente de raça, cor, pobreza, riqueza…

Conforme nos lembra o Espírito Emmanuel no prefácio da obra No Mundo Maior, psicografada por Chico Xavier, raros viveram sublimados realizando deveres nobres. A maioria ainda se constitui de pequenos em espíritos, lutando por títulos que lhes exaltem a personalidade. Muitos se acomodaram em vícios diversos, trilharam caminhos insensatos, e quase sempre se diziam “eleitos da Providência”. Nessa ilusão justiçavam o próximo sem olhar as próprias faltas. O paraíso estava reservado a si e o inferno para os outros.

Visto que após a morte do corpo físico o destino de todos é o mundo espiritual, como abrigar na mesma estação Espíritos oriundos de culturas, posições e bagagens tão diferentes?

Perante a Justiça Divina, todos tem o mesmo direito. “Provavelmente, porém, estão distanciados entre si, pela conduta individual, diante da Lei Divina, que distingue, invariavelmente, a virtude e o crime, o trabalho e a ociosidade, a verdade e a simulação, a boa vontade e a indiferença. Da contínua peregrinação do sepulcro, participam, todavia, santos e malfeitores, homens diligentes e homens preguiçosos”, diz Emmanuel.

Visto que o dicionário divino ressalta as palavras “regeneração”, “amor”, “misericórdia”, não há como avaliar por uma única medida cada indivíduo. Por exemplo, o selvagem que eliminou semelhantes a flechadas, teria recebido as mesmas oportunidades de aprendizado que o europeu supercivilizado que mata o próximo à metralhadora? Ambos estariam aptos a ingressar no paraíso apenas por arrependimento ou cultos exteriores? O próprio Emmanuel responde: “A lógica e o bom senso sem sempre se compadecem com argumentos teológicos imutáveis. A vida nunca interrompe atividades naturais por imposição de dogmas estatuídos de artifício”. Enfatiza ainda lembrando que se uma obra de arte humana exposta num museu exigiu anos para ser empreendida e realizada, que dizer da obra sublime de aperfeiçoamento da alma, destinada a glórias inalteráveis?

Para a aquisição de riquezas imperecíveis, jamais será através de felicidade improvisada. Sempre através da sabedoria e do amor. A morte não proporcionará acesso gratuito para a glória celeste. Nem transformará homens em anjos. “Cada criatura transporá essa aduana da eternidade com a exclusiva bagagem do que houver semeado, e aprenderá que a ordem e a hierarquia, a paz do trabalho edificante, são características imutáveis da Lei, em toda parte”.