terça-feira , 25 de setembro de 2018
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Pe. Francisco Cornélio Rodrigues – Reflexão para o IV Domingo da Quaresma

A liturgia deste quarto domingo da quaresma nos oferece mais um texto do Evangelho segundo João. Após contemplar o gesto profético de Jesus denunciando o templo transformado em comércio, no domingo passado (cf. Jo 2,13-25), o texto proposto para hoje faz parte dos desdobramentos daquele acontecimento: Jo 3,14-21; é a parte final do episódio conhecido como o “diálogo com Nicodemos” (cf. Jo 3,1-21).
A enérgica denúncia de Jesus contra a corrupção da elite religiosa de Jerusalém deve ter gerado diversos questionamentos a respeito da sua pessoa. Muitos, certamente, o condenaram imediatamente, outros refletiram a respeito do acontecido. Não resta dúvidas de que entre os fariseus e mestres da época, também havia aqueles que sonhavam com uma religião mais autêntica e menos comercial. Certamente, Nicodemos era um destes; ao invés de condenar, preferiu ir ao encontro de Jesus e escutá-lo, motivado por muitos questionamentos.
Embora o episódio seja chamado de “diálogo”, o que se lê está mais para monólogo, pois o evangelista concede totalmente a palavra a Jesus, a ponto de Nicodemos pouco falar. Como o texto escolhido pela liturgia é apenas a parte final do episódio, nele não há palavras de Nicodemos, mas apenas de Jesus; por isso, é necessário recordar alguns aspectos importantes do que o antecede.
Nicodemos era um homem notável entre os judeus, um fariseu (cf. 3,1), estudioso e bom conhecedor da doutrina judaica, sobretudo da lei. Procurou Jesus na “calada da noite” (cf. 3,2). Sua curiosidade ao falar com Jesus revela sinceridade, respeito e desejo de conhecê-lo melhor. Era alguém que desejava uma boa reforma naquela estéril religião. Mesmo assim não estava pronto para aderir ao projeto de Jesus, pelo menos de imediato. Porém, se distinguia da maioria dos fariseus com quem Jesus se confrontou ao longo do evangelho.
Por precaução e medo de ser repreendido pelos seus colegas de doutrina, Nicodemos não quis ser visto com Jesus, por isso o procurou à noite. Afinal, Jesus tinha, há pouco tempo, desmascarado a religião judaica, ao denunciar o comércio e a hipocrisia praticados na casa que deveria ser do seu Pai (cf. 2,13-22). As primeiras palavras de Nicodemos a Jesus foram de reconhecimento: “Rabi, sabemos que vens da parte de Deus como mestre, pois ninguém pode fazer os sinais que fazes, se Deus não estiver com ele” (3,2).
As poucas palavras de Nicodemos abriram caminho para uma longa catequese de Jesus a respeito da sua identidade, sua relação com o Pai e sobre como participar da vida em plenitude que Ele veio comunicar. O texto escolhido pela liturgia começa com um dado escriturístico: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado” (v. 14).
Sabendo que Nicodemos conhecia bem a Escritura, o evangelista faz Jesus citar explicitamente uma passagem do livro dos Números (cf. Nm 21,4-9), para ilustrar o movimento de descida e subida ao céu praticado por Ele mesmo (cf. Jo 3,13) e, ao mesmo tempo, para ajudar seu interlocutor a compreender a forma contraditória como Jesus será elevado: através da cruz, cujo mistério é aqui antecipado. A citação do livro dos Números é, portanto, apenas ilustrativa. Na verdade, é o próprio evangelista insistindo com sua comunidade para que aceite a cruz com suas consequências, pois ela é necessária para a vivência plena do amor de Deus em seu meio.
Ser levantado se torna necessidade para Jesus, pois o seu projeto de comunicar vida em plenitude à humanidade é irrenunciável. Ele não escolheu a cruz; escolheu ser fiel ao Pai, por amor, até as últimas consequências, e isso implicou passar pela cruz. Por isso, “ser levantado” se tornou necessário “Para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna” (v. 15). O importante é a doação do dom da vida em plenitude, por isso, eterna. Essa é a primeira vez que é mencionada a “vida eterna” (em grego: zoé aionios) no Quarto Evangelho. Crer nele não significa expressar uma fórmula, mas deixar-se guiar pelo seu ensinamento e assumir a sua forma de vida.
Jesus apresenta Deus como aquele que ama incondicionalmente e, ao mesmo tempo, se auto apresenta como a prova desse amor incondicional de Deus, já que é, Ele mesmo, o Filho doado: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (v. 16). O mundo é o destinatário do amor de Deus. Esse mundo é a humanidade inteira. Ao apresentar essa novidade, Jesus estava destruindo um dos principais pilares de sustentação da ortodoxa religião judaica: o privilégio da eleição exclusiva de Israel como povo de Deus e destinatário único de suas promessas.
Com Jesus, a pertença a Deus deixa de ser privilégio de um povo e passa a ser um direito da humanidade. Jesus praticamente inverte o primeiro mandamento: foi Deus quem amou a humanidade sobre todas as coisas! A afirmação “Deus amou o mundo” é única em toda a Bíblia. É uma exclusividade do Quarto Evangelho. A prova maior desse amor da parte de Deus é o seu dom: o Filho unigênito doado ao mundo para que, ao ser acolhido, se estabeleça na humanidade a vida eterna.
É importante recordar e jamais esquecer que “Deus deu o seu Filho” para a humanidade. O mundo inteiro é convidado a receber esse dom do Pai. Quem o acolhe ou crê, recebe a vida eterna. Essa, a vida eterna, não significa uma vida no além. “Eterna” aqui não é a duração, mas é a qualidade da vida de quem acolhe Jesus e seu evangelho. A “vida eterna”  não é um prêmio que os bons receberão no futuro, como pensavam os fariseus e ainda pensam muitos cristãos. A vida se torna eterna quando se faz opção por Jesus e seu projeto. Essa vida é eterna porque é tão plena, a ponto de nem a morte poder destruí-la. Ela começa aqui na terra. À medida que o ser humano encontra sentido para a sua existência, ele eterniza a sua vida. E o sentido pleno da vida só pode ser encontrado quando se consegue viver bem como imagem e semelhança do Criador.
O versículo seguinte reforça o anterior: “De fato, Deus não enviou o seu Filho para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (v. 17). Se o anterior (v. 16) declarava o que o Filho de Deus veio fazer entre nós, esse segundo diz o que não veio fazer: não veio julgar (condenar)! Aqui é necessário fazer uma pequena observação a respeito da tradução do texto litúrgico: ao invés do verbo “condenar”, é mais apropriado usar a expressão “dar sentença” ou o verbo “julgar”, conforme a língua original do texto, uma vez que a condenação seria o efeito do julgamento. Portanto, Deus não enviou seu Filho nem mesmo para julgar. Só condena quem antes julga. Como Deus só sabe amar, não julga e, portanto, não condena ninguém.
Mais uma vez Jesus contradiz a ortodoxia judaica, ao excluir a ideia de Deus como um juiz. Obviamente, quem esperava um messias juiz que viesse ao mundo para separar os bons dos maus, os puros dos impuros e, assim, salvar os primeiros e condenar os segundos, não poderia acreditar no Deus que Jesus veio revelar: um Pai louco de amor, apaixonado pela humanidade, a ponto de dar o próprio Filho. Quem julga e condena são os próprios seres humanos com suas convicções e crenças falsamente fundadas em nome de Deus. O Deus de Jesus nem a juízo leva. Enquanto os homens julgam, Deus apenas justifica, ou seja, apenas salva, porque de quem é amor só pode sair amor.
O mesmo Deus que doou livremente o seu Filho, deu também liberdade à humanidade, de modo que essa pode acolher ou não o seu Filho, Jesus. A acolhida se dá pela fé, uma adesão profunda capaz de deixar-se conduzir pelo seu amor.  Por isso, Jesus disse: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito” (v. 18). O ser humano que rejeita a oferta de vida em plenitude que é Jesus, fica privado da qualidade de eternidade em sua vida e, portanto, estará condenado. Isso não depende de um juízo divino, é escolha do ser humano. Deixar de acreditar no nome do Filho unigênito é se recusar a fazer comunhão com ele.
A parte mais importante do texto e talvez até de todo o Evangelho segundo João está nos versículos 16-18. Os versículo seguintes (vv. 19-21) apenas ilustram e constatam uma triste realidade: a tendência da humanidade em preferir as trevas à luz, retomando o que o evangelista já tinha anunciado no prólogo (cf. Jo 1,9-10). Quem rejeitou a luz foi a própria religião; foram as pessoas religiosas que mais se sentiram sufocadas pela luz verdadeira que é Jesus. A elite religiosa preferiu as trevas, odiou a luz por ter ódio da verdade.
Não obstante a rejeição, a luz como sinônimo de vida em plenitude não deixa de ser ofertada. Aceitar o dom do Pai, Jesus, não significa abraçar uma doutrina, repeti-la e até impô-la, como muito se fez ao longo da história, e ainda se faz até hoje. A oferta que Deus fez e faz é livre, como livre deve ser a resposta. A imposição é falta de segurança e de consistência no anúncio. O Pai simplesmente enviou, doou…. Sua proposta é sempre positiva. Ele não julga, nem condena.
O Evangelho não diz se Jesus conseguiu convencer Nicodemos. Provavelmente sim, pois ele aparecerá em mais dois episódios, sempre tomando partido por Jesus: defendendo-o da ira dos fariseus quando tinha se apresentado como fonte de água viva (cf. 7,50) e ajudando no seu sepultamento (cf. 19,39). Certamente, o diálogo com Jesus lhe comoveu. Mesmo que não tenda aderido completamente a Jesus, passou a ver com outros olhos aquela rígida doutrina judaica.
Assim como serviu para Nicodemos, que a face do Pai louco de amor que Jesus apresenta hoje sirva para, pelo menos, compararmos se o Deus em quem acreditamos parece com o Deus de Jesus ou se é apenas aquele das religiões: juiz e soberano, aplicador de castigos ou prêmios. Aceitar que o Deus de Jesus é somente amor pode ser o maior fruto de conversão de uma quaresma!
Roma, 10/03/2018, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

A política não pode se transformar na arte de tirar vantagem da coisa pública – Júlio César Cardoso

A farra incontrolável dos gastos públicos, ou seja, com  o dinheiro dos contribuintes, tem que acabar. O governo não pode transferir  responsabilidade na má condução da saúde financeira do país ao suposto déficit da Previdência Social, não comprovado até hoje por laudo de auditoria. O governo tem que dar exemplo, reduzindo os gastos da máquina pública.

Pagamos um preço muito alto por não participar da vigilância política e dos gastos públicos. Por isso temos governos e Parlamento não zelosos com o Erário e mais interessados  em tirar proveito da coisa pública.

Diante da pouca-seriedade de nossos governantes e  políticos, temos que ser sim reacionários e não podemos nos calar, pois o nosso silêncio tem colaborado para continuidade de políticos mequetrefes e oportunistas, que só visam aos seus interesses e de grupos que representam.

Pois bem, conforme o MPF (ISTOÉ/07.02.2017), o Brasil perde  cerca de R$ 200 bilhões por ano com corrupção. E o que dizer da “corrupção oficial”, ou seja, aquela que  desfalca a arrecadação de  impostos dos brasileiros e vai bancar o auxílio-moradia de parlamentares e magistrados;  pensão vitalícia de ex-governadores; aposentadoria de parlamentares; serviços médicos e hospitalares gratuitos e vitalícios de  senadores, ex-senadores e seus familiares; verbas de gabinetes e de mordomias do inchado Parlamento nacional, bem como os benefícios vitalícios aos ex-presidentes da República de que trata o Decreto 6.381/2008?

Trata-se aqui de cultura política viciada de tirar proveito da coisa pública e de desrespeito ao contribuinte nacional. E o Judiciário, que deveria exigir decência legal, na forma do disposto no Art. 37 da Constituição Federal, também  dá o mau exemplo.

Enquanto isso, a maior parte da população brasileira descamisada, pobre, sem eira nem beira não tem direito a serviço público de saúde de dignidade humana,  porque o dinheiro da nação, isto é,  dos contribuintes, vai sustentar os gastos pessoais de indecorosos cidadãos nos três poderes da República.

Alegam os golpistas do Erário, por exemplo, que a pensão vitalícia de ex-governador representa um direito legal.  Mas, na verdade, trata-se de privilégio constitucional estadual leonino, viciado, arranjado entre os parlamentares no Legislativo, sem respaldo da sociedade e que não encontra  amparo na Constituição Federal.

Por outro lado, configura-se flagrante imoralidade alguém, por ter apenas exercido um mandato de governador ou desempenhado a função por alguns meses, ter direito a receber do Tesouro Estadual robusta pensão vitalícia.  A política não pode se transformar na arte de tirar vantagem da coisa pública.

Mas o que nos deixa perplexo é ver o descaramento de políticos beneficiários de pensões de ex-governadores ainda em plena atividade política e acumulando vultosas bonomias salariais públicas. Não podem ter decência pública aqueles que não se preocupam com os gastos  do Erário.

Assim, é dever da sociedade fiscalizar os   três poderes da República e denunciar a farra do dinheiro público, que alimenta os gastos ou os benefícios pessoais de presidentes, ex-presidentes, governadores, ex-governadores, políticos, ex-políticos e familiares, magistrados e demais servidores.

Júlio César Cardoso – Bacharel em Direito e servidor federal aposentado,

Balneário Camboriú-SC.

Jesus derrotou a Dor – Paiva Netto

Em meu livro Jesus, a Dor e a origem de Sua Autoridade – O Poder do Cristo em nós, apresento-lhes extensa dissertação sobre a Dor e a partir do extraordinário exemplo do Cristo, a capacidade de vencê-la; portanto, não para a derrota nossa no desânimo, mas visando à vitória, visto que os tenho capacitado para pegar até do tormento e, com ele, alavancar a coragem.

Por oportuno, destaco hoje aqui o seguinte trecho:

Por meio dela, a Dor, o Cristo alcançou também Sua Divina Autoridade. E não se esquivou de Seu infortúnio nem foi derrotado por ele no Supremo Sacrifício da tortura e da crucificação:

– Pai, todas as coisas Vos são possíveis. Afasta de mim este cálice. Contudo, se for da Vossa Vontade, que se faça de acordo com ela, e não com a minha (Evangelho, segundo Marcos, 14:36).

Sobre o desprendimento do Cristo e a entrega Dele à Vontade do Pai Celeste, assim declarou, em entrevista à Super Rede Boa Vontade de Comunicação (rádio, TV e internet), o professor dr. Ricardo Mário Gonçalves, livre-docente em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e missionário budista da Verdadeira Escola Terra Pura, ordem japonesa fundada no século 13, pelo mestre Shinran (1173-1263):

– Para o Budismo, a principal experiência do ser humano a ser vivenciada seria uma experiência de esvaziamento do ego, de despojamento. Temos aqui um texto básico do Apóstolo Paulo com esse conceito. É a Epístola aos Filipenses, 2:6 a 8. Falando de Jesus, o Apóstolo Paulo diz o seguinte: “Ele tinha condição divina e não considerou que o ser igual a Deus era algo a que se devia apegar ciosamente, mas esvaziou-se a si mesmo e assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana. E, achado em forma humana, humilhou-se ainda mais e foi obediente até à morte, e morte de cruz!” O termo central dessa passagem é o esvaziamento. No texto grego, encontramos a forma ekenosen, que vem do verbo kenou, que significa esvaziar, esvaziamento, despojamento. Então, em torno dessa noção, estamos num terreno que é comum ao Cristianismo e ao Budismo. Eu diria que nesse texto o Apóstolo Paulo apresenta Jesus como um modelo de despojamento a ser seguido por nós. (O destaque é meu.)

É do Educador Celeste o ensinamento basilar que exemplificou Sua condição una com Deus:

– (…) antes, o maior entre vós seja como o menor; e quem governa, como quem serve (Evangelho, segundo Lucas, 22:26).

Esta é a Política de Deus, exercida pela Autoridade do Mestre Jesus: o verdadeiro político é aquele que serve e que não se serve. Quantos exemplos existirão hoje no mundo?

Como vimos, Jesus privou-se da própria vontade em benefício do semelhante, mas não deixou de pregar a Doutrina que trouxe do Pai Celestial:

– Mas, em qualquer cidade em que entrardes e não vos receberem, saindo por suas ruas, dizei: “Até o pó que da vossa cidade se nos pegou aos pés sacudimos sobre vós. Sabei, contudo, isto: já vos é chegado o Reino de Deus”.

Jesus (Lucas, 10:10 e 11)

Entenderam?

Em minha obra A Missão dos Setenta e o Lobo Invisível, ressalto que – mesmo não tendo sido aceita pela “cidade” a Palavra de Jesus – de forma alguma podemos deixar de proclamar o que viemos fazer por Vontade do Criador.

Jesus persistiu além do “fim”, pois ressuscitou e garantiu:

– Na vossa perseverança, salvareis as vossas Almas (Boa Nova, consoante Lucas, 21:19).

Em face desse pujante exemplo de dedicação ao próximo, o missionário de Deus precisa compreender a Dor como instrumento de vitória ante o Céu, para possuir o Poder de reformar a Terra. Afinal, o bom trabalhador, ao integrar-se em Deus, recebe, por merecimento pessoal, a iluminação da Autoridade do Cristo, a fim de transformar seres terrestres e Seres Espirituais.

– (…) Porque vós sois o Templo do Deus Vivo, como Deus disse: Neles habitarei e entre eles andarei; e Eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo (Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios, 6:16).

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor. [email protected] 

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o III Domingo da Quaresma

Iniciamos hoje uma série de três domingos seguidos em que a liturgia quaresmal adota como texto evangélico um trecho do Quarto Evangelho, ou seja, do Evangelho segundo João. O texto proposto para hoje, o primeiro domingo da série e terceiro da quaresma, é Jo 2,13-25, o relato de um episódio célebre, narrado pelos quatro evangelhos, e equivocadamente intitulado de “purificação do templo”. Esse título não se sustenta mais, uma vez que o texto deixa muito claro que a intenção de Jesus não era purificar, mas destruir, abolir completamente aquele templo de pedras, tendo em vista a edificação de uma morada permanente para Deus na terra: o próprio ser humano em sua integridade e dignidade recuperadas. Isso é garantido pelo próprio Jesus com a sua doação plena, passando pela cruz e ressurreição, tornando a vida em abundância acessível a todo o gênero humano.
Alguns elementos do contexto são essenciais para uma boa compreensão do texto. Antes de tudo, chama a atenção o fato de João colocar esse episódio logo no início do seu evangelho, enquanto os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) o colocam já na parte final de seus respectivos relatos (cf. Mt 21,12-16; Mc 11,15-19; Lc 19,45-46). Ora, João apresenta Jesus participando de três festas de páscoa em Jerusalém, enquanto nos sinóticos registra-se apenas uma participação, na qual ele fora condenado e morto. A nível de contexto, o mais importante, porém, é associar o nosso texto ao episódio que lhe precede no evangelho: as bodas de Caná (cf. 2,1-12). A transformação da água em vinho representou a passagem da lei para o amor, da letra para o Espírito; foi a substituição da antiga pela nova aliança.
Assim como não combina “vinho novo em odres velhos” (cf. Mt 9,14-17; Mc 2,18-22; Lc 5,33-39), também não combina aliança nova e culto antigo. Por isso, após inaugurar a nova aliança, Jesus parte para instaurar um novo culto, e isso exigia a destruição do antigo em sua máxima expressão visível: o famoso templo de Jerusalém. O episódio narrado pelo evangelho de hoje é, portanto, o complemento das bodas de Caná. Aquele culto mercantilizado e separado da vida não permitia que se sentisse o sabor do novo vinho: o amor do Pai manifestado no Filho. É muito importante perceber isto: logo no início do seu ministério, Jesus propõe duas grandes mudanças estruturantes: a substituição da lei e do culto.
Como diz o texto: “Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém” (v. 13).  Com a expressão “páscoa dos judeus” o evangelista já faz uma grande denúncia: aquela páscoa já não pertencia mais a Deus, tinha perdido a sua sacralidade. Ao longo do seu evangelho, João usa o termo “judeus” para designar a hierarquia religiosa, e não o povo todo. Com isso ele diz que a classe dirigente da religião sediada no templo tinha se apoderado do que é de Deus e, portanto, a comunidade cristã deve manter distância daquela prática religiosa. A páscoa do Senhor tinha sido desvirtuada, transformada em páscoa dos sacerdotes, dos vendedores e não era mais de Deus.
Jesus se enfurece porque no espaço mais sagrado de Israel não encontrou o que deveria encontrar: “No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados” (v. 14). O que deveria ser encontrado no templo era pessoas de coração sincero, adoradores e adoradoras de Deus. Nesse versículo está o retrato de uma religião degenerada, transformada em mercado. Os animais mencionados, bois, ovelhas e pombas, eram comercializados no recinto sagrado para serem oferecidos em sacrifícios pelos pecados que a própria religião determinava; a variedade de animais, de bois a pombas, quer dizer que nenhuma classe social escapava, ou seja, ricos e pobres, aproximando-se do templo, eram praticamente obrigados a compactuar com o sistema. A presença dos cambistas evidencia o completo desvirtuamento do templo: o sistema econômico funcionava sob as bênçãos da religião; banco e altar conviviam em harmonia no mesmo lugar.
A situação encontrada por Jesus no templo era inaceitável. Por isso, sua atitude foi bastante drástica: “Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas” (v. 15). Mais que a descrição de um gesto, o evangelista quer evidenciar a postura e o sentimento de Jesus diante de uma religião exploradora. A comercialização do sagrado, independente da época, deixa Jesus enfurecido, inconformado. Com esse gesto ele propõe que toda estrutura de exploração deve ser desestabilizada, destruída, ainda mais quando essa se apoia no nome de Deus. Esse gesto se configura também como uma ação simbólica típica dos profetas do Antigo Testamento. Porém, em relação ao culto, os profetas ousaram denunciar com palavras (cf. Is 1,10-20; Am 5,21-23), enquanto Jesus com foi muito além, passando das palavras à ação.
Das categorias de vendedores, o evangelista faz questão de destacar uma delas: “E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”  (v. 16). Ora, as pombas eram a matéria do sacrifício que os pobres ofereciam; por isso, a ordem é severa “tirai isso daqui!”; como em qualquer sistema injusto, eram os pobres os mais afetados pela exploração. Pesava ver a casa do Pai transformada em comércio e, consequentemente, Deus transformado em mercadoria e, mais ainda, os pobres sendo as verdadeiras vítimas sacrificadas. Por isso, a solução ali não seria purificar o templo, mas destruí-lo.
A motivação para Jesus agir dessa forma é muito clara: o zelo pela casa do Pai (cf. v. 17), como diz o evangelista, e que seus discípulos se recordaram. De fato, toda a ação de Jesus em seu ministério será motivada pelo incansável zelo pelas coisas do Pai, sobretudo pelo ser humano que tinha sua dignidade roubada por um sistema injusto e explorador. O “zelo pela casa” significa muito mais que uma preocupação cultual; expressa seu amor pelo ser humano, morada privilegiada de Deus. Ele foi tão “consumido” por esse zelo, a ponto de sido condenado por isso. De fato, o processo que será movido contra ele pelas autoridades políticas e religiosas da época, será consequência de suas opções radicais em favor daquilo que o Pai deseja: amor, justiça, fraternidade, dignidade, misericórdia e paz para todo o gênero humano.
Diante do que viam, e inconformados, “os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?” (v.18). Aqui novamente a expressão “os judeus” significa os dirigentes, os quais não aceitavam ser questionados. Pedem sinais, ou seja, credenciais que autorizem Jesus a agir daquela maneira. Jesus poderia reivindicar a seu favor o pensamento de tantos profetas que ao longo da história já tinham identificado aquele culto como obstáculo para o encontro com o Pai (cf. Is 1,10-20, etc); mas, prefere falar do futuro, das realidades novas que estava para inaugurar: a supressão definitiva daquele falso culto, o qual estava com os dias contados, e sua ressurreição como instauração definitivo do novo culto verdadeiro e sincero: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei” (v. 19).
O culto autêntico, compatível com a nova aliança celebrada no amor, já não necessita de templo de pedras, mas apenas de corações sinceros que busquem e adorem a Deus em espírito e em verdade (cf. 4,23). Aquele templo de pedras, imponente e faraônico, ao invés de aproximar, distanciava as pessoas de Deus; por isso, deveria ser destruído. Enquanto isso, um templo novo e definitivo estava para ser inaugurado, graças à ressurreição (vv. 21-22), como vitória definitiva da vida sobre a morte. A vida em plenitude, o culto por excelência agradável a Deus, se tornaria acessível a todos, sem mais a necessidade de sangue de animais e ofertas, mas a partir do coração de cada um.
Os sinais e gestos proféticos de Jesus chamavam a atenção, obviamente, afinal muitos em Israel esperavam por um messias corajoso para reformar a religião e a vida social do país. Por isso, muitos “creram nele” (v. 23); porém, não basta crer, é necessário viver à sua maneira, e como Jesus conhecia o ser humano por dentro, percebia quando havia conversão verdadeira ou não (vv. 24-25). Pelas exigências radicais para o seguimento de Jesus, o cristianismo não comporta uma adesão superficial. Por isso, a comunidade não deve se entusiasmar com multidões: “muitos creram no seu nome, mas Jesus nãos lhes dava crédito, pois ele conhecia a todos” (vv. 23-24). A religião da superficialidade era aquela que Jesus quis abolir.
A comunidade joanina compreendeu a novidade de Jesus porque soube associar as palavras aos fatos, os sinais às Escrituras, lendo os acontecimentos do dia-a-dia à luz do que Jesus disse (vv. 21-22), tornando-se modelo para as comunidades de todos os tempos. Como cristãos de hoje, somos chamados a olhar o exemplo daquela comunidade em busca do devido equilíbrio entre a liturgia e a vida, de modo que reine o amor e, no amor entre os irmãos, seja revelado o corpo do Ressuscitado e o rosto do Pai.
Roma, 04/03/2018, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

Padre Cornélio Rodrigues – Reflexão para o II Domingo da Quaresma

Todos os anos, no segundo domingo da quaresma, a liturgia nos oferece como texto evangélico, um dos relatos do episódio tradicionalmente chamado de “Transfiguração do Senhor”. Neste ano, o texto oferecido é o relato do Evangelho segundo Marcos: 9,2-10. Inclusive, esse é o último trecho de Marcos utilizado pela liturgia nesta quaresma. Recordemos que a transfiguração é um episódio narrado pelos três evangelhos sinóticos (cf. Mt 17,1-9; Mc 9,2-13; Lc 9,28-36) e, portanto, de grande relevância para a vida das comunidades cristãs de todos os tempos. Podemos dizer que é uma das páginas mais ricas de teologia dos evangelhos.

 

Para uma boa compreensão do nosso texto, é indispensável recordar alguns elementos do seu contexto, mesmo que brevemente. Trata-se do episódio que sucede à profissão de fé de Pedro na região de Cesareia de Felipe (cf. Mc 8,27-30), e imediatamente ao primeiro anúncio da paixão (cf. Mc 8,31ss). Daí, podemos concluir que se trata de uma resposta de Jesus à incompreensão dos discípulos em relação ao seu caminho de doação da vida por fidelidade aos propósitos do Pai.

 

Mais uma vez, a versão litúrgica do texto nos priva de uma expressão muito importante para uma compreensão mais adequada: o indicativo cronológico “Seis dias depois”, presente no texto original, substituído no texto litúrgico pela genérica e desnecessária expressão “Naquele tempo”. Assim diz o texto: “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão” (v. 2a). O indicativo “seis dias depois” (em grego: metá hémeras ex) faz referência ao último acontecimento narrado: o primeiro anúncio da paixão e a contestação de Pedro. Ora, Pedro professou sua fé em Jesus como Messias, mas ao mesmo tempo não aceitou o caminho doloroso da cruz, fazendo Jesus repreendê-lo duramente, chamando-o de satanás, por tornar-se um empecilho à realização do projeto de Deus. “Seis dias depois” de ter anunciado a sua morte, Jesus mostra aos discípulos a vida em plenitude; o homem e a mulher foram criados no sexto dia (cf. Gn 1,26-31) e agora Jesus manifesta o ser humano em sua máxima dignidade e realização.

 

Diz o texto que Jesus tomou consigo três discípulos: Pedro, Tiago e João. À primeira vista, parece tratar-se de um privilégio: Jesus escolhe os mais próximos e íntimos, hierarquizando o grupo dos Doze. Porém, se fizermos uma leitura mais atenta, concluímos exatamente o contrário: esses três são os discípulos que mais tem dificuldade de assimilar os ensinamentos de Jesus, são os mais trabalhosos e, portanto, necessitados. Pedro é sinônimo de dureza e fechamento, a ponto de ser o único dos Doze a quem Jesus chamou explicitamente de satanás, por colocar-se como pedra de tropeço em seu caminho (cf. Mc 8,33); Tiago e João, além de ambiciosos, ambos queriam lugares de honra ao lado de Jesus (cf. Mc 10,35-40), tinham temperamento bastante explosivo, a ponto de serem chamados de “filhos do trovão” (cf. Mc 2,17). Portanto, esses três são os discípulos que tinham mais dificuldade em aceitar um messias sofredor e, por isso, os mais necessitados de catequese.

 

O indicativo espacial também é de grande importância para a compreensão teológica do texto: “e os levou sozinhos, a um lugar à parte, sobre uma alta montanha” (v. 2b). Na tradição hebraica, a montanha é, por excelência, o lugar do encontro do ser humano com Deus. Nas culturas circunvizinhas a Israel, imaginava-se que para comunicar-se com a divindade, o ser humano precisava escalar um monte. Assim, a montanha funcionava como um espaço intermediário e necessário: o ser humano era incapaz de subir aos céus, e Deus grande demais para descer até a terra; daí a necessidade de um lugar intermediário para os dois se comunicarem. A montanha passou a ser o lugar de intercâmbio entre o mundo humano e o divino. Essa mentalidade acabou sendo adotada também pelo povo de Israel.

 

No alto da montanha, Jesus “transfigurou-se diante deles” (v. 2c). O verbo grego usado aqui é “metamorfóomai”, cujo significado é ser transformado ou mudado; portanto, Jesus passou por uma metamorfose. Assim, o evangelista está dizendo que Jesus transformou-se, sua forma mudou diante dos discípulos. Ora, diante da incredulidade e resistência em aceitar a morte, Jesus antecipa para eles o resultado da paixão: a manifestação gloriosa do Filho do Homem e, portanto, de Deus nele. Não apenas o rosto brilhou, mas todo o seu ser, inclusive suas vestes: “Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas, como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar” (v. 3). As mesmas imagens e cores da glória de Deus ao longo da história são reveladas em Jesus; a luz é também sinal do que é novo: à medida em que o Reino de Deus vai sendo implantado, o universo todo se renova. Somente Marcos faz referência ao fato de nenhuma lavadeira ser capaz de deixar uma veste tão alva como ficaram as vestes de Jesus. Duas intenções estão por trás desse detalhe: apresentar uma atividade do lar, reforçando a ideia e a importância da comunidade como casa, e mostrar que a vida em plenitude (condição gloriosa) almejada pelo ser humano não pode ser conquistada por esforço próprio, mas somente por graça de Deus, ou seja, tem coisas que só Deus pode fazer.

 

Os personagens do Antigo Testamento mais venerados na tradição judaica entram em cena: “Apareceram-lhe Elias e Moisés e estavam conversando com Jesus” (v. 4). Obviamente, estes personagens representam a Lei e os profetas, respectivamente. É mais uma iniciativa divina para conscientizar os discípulos de que o ensinamento de Jesus está em consonância com tudo o que a Lei e os profetas tinham afirmado a respeito do Messias. Embora o programa de Jesus seja repleto de novidades, não contradiz as Escrituras; é o seu pleno cumprimento. Os discípulos contemplam, mas somente Jesus conversa com Moisés e Elias. Esse é mais um dado de grande importância revelado pelo texto. Ora, a comunidade cristã, representada no episódio pelos três discípulos, não depende mais do Antigo Testamento; em Jesus, a Lei e os profetas encerram-se, chegam ao fim. Jesus é o critério de interpretação da Escritura: o Antigo Testamento só tem sentido se passar por Ele. Por isso, Moisés e Elias nada tem a dizer para a comunidade cristã; essa deve escutar somente a Jesus (v. 7).

 

Pedro, teimoso como sempre, tomou a palavra e, mais uma vez, disse coisas desprezíveis: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 5). Duas coisas são reprováveis na fala de Pedro: a primeira, é a nova tentação sugerida a Jesus através do comodismo; permanecer na montanha é ignorar o mundo real com seus problemas e contradições, é mostrar-se indiferente às situações desafiadoras e fechar os olhos às injustiças que assolam o mundo. Mais uma vez, Pedro procura uma maneira de tirar a cruz do caminho de Jesus; na primeira vez, foi Jesus quem o repreendeu, agora será o próprio Pai, ao interrompê-lo. A segunda coisa reprovável na fala de Pedro é o seu apego à tradição: “uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias”; infelizmente, Jesus ainda não ocupava o centro na vida de Pedro, mas sim Moisés. Para a tradição hebraica, o personagem mais importante é aquele que é citado em posição central; Pedro insiste com a antiga tradição: está seguindo Jesus, mas ainda coloca Moisés e a Lei no centro da vida; resiste em aceitar Jesus e o seu Evangelho como centro.

 

A falta de sentido nas palavras de Pedro tem uma explicação: “Pedro não sabia o que dizer, pois todos estavam com muito medo” (v. 6). O medo é o grande obstáculo para a comunidade, sobretudo, o medo do que é novo e inesperado. O medo gera incompreensão e insegurança. A comunidade marcada pelo medo não sabe o que diz, diz o que não sabe, diz coisas erradas. O medo bloqueia a sobriedade do anúncio. Onde o medo reside, o anúncio sai distorcido.

 

As palavras de Pedro são tão absurdas que o próprio Deus o interrompe: “Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: Este é o meu filho amado. Escutai o que ele diz” (v. 7). Diante da incompreensão de Pedro, o Pai se manifesta, chamando a sua atenção. Mais uma vez a imagem da luz e da nuvem são evidenciadas como sinais da presença e manifestação de Deus, sendo que o mais importante aqui são as palavras que saem da nuvem: “Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz”; é praticamente a mesma frase proferida por Deus no momento do Batismo (cf. Mc 1,11), sendo que ali somente Jesus ouviu, enquanto aqui na transfiguração também os discípulos ouvem e ainda são exortados a escutá-lo. O imperativo “escutai-o” (em grego: akúete autú), é dirigido principalmente a Pedro, ainda propenso a escutar mais a Moisés que a Jesus. Escutar Jesus é um imperativo para a comunidade cristã. Quem não o escuta, não pode segui-lo nem testemunhá-lo.

 

Moisés e Elias, ou seja, a Lei e os profetas, já disseram o que tinham a dizer. De agora em diante, só o Evangelho deve falar à comunidade cristã. Ouvir Jesus é compreender sua Palavra e viver as consequências de uma adesão radical a ela, o que Pedro tentava constantemente evitar, por medo da cruz. “E, de repente, olhando em volta, não viram mais ninguém, a não ser somente Jesus com eles” (v. 8); ora, Moisés e Elias foram embora, pois cumpriram as suas respectivas missões; a comunidade cristã já não precisa mais deles, mas somente de Jesus. Já não sai mais nenhuma voz de Deus pela nuvem, porque quem vê Jesus, vê o Pai (cf. Jo 14,9) e, portanto, quem o escuta, escuta também ao Pai! A comunidade precisa sempre olhar em volta de si mesma e perceber que seu único referencial é Jesus Cristo com seu evangelho.

 

Não vendo mais ninguém como referencial além de Jesus, a comunidade renovada é convidada a descer da montanha e novamente encarar a realidade, continuar o caminho com seus percalços e desafios até enfrentar o maior deles: a cruz! A ideia do comodismo não combina com a comunidade cristã, como soou absurda para Deus a sugestão das tendas por Pedro. Jesus pede que não contem nada a ninguém daquilo que experimentaram (v. 9), por respeito aos propósitos do Pai, pois deveriam esperar a Ressurreição, e também porque se a notícia daquela experiência se espalhasse, novamente grandes multidões emotivas e curiosas se aproximariam dele em busca de sinais e milagres, quando na verdade o verdadeiro sinal estava se aproximando: a cruz e a ressurreição.

 

A ressurreição não pode ser compreendida sem antes ser experimentada e celebrada. De fato, compreender o significado de “ressuscitar dos mortos” para quem tem dificuldade de conviver com a morte e a dor é um grande desafio. De todo modo, mesmo ainda marcados pela incompreensão, é salutar a discussão sobre a ressurreição: “comentavam entre si o que queria dizer “ressuscitar dos mortos” (v. 10). Aqui está um direcionamento para as comunidades cristãs de todos os tempos: as discussões e reflexões só são válidas quanto têm em vista a vida, a ressurreição.

 

Roma-Itália, 24/02/2018, Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues

 

 

Transformar dor em vitória – Paiva Netto

Não duvidemos de nossa capacidade, como seres espirituais e humanos, de alcançar o hoje considerado insuperável. Temos muito mais aptidão para sobrepujar problemas, por maiores que os julguemos, segundo avalia o médico, psicólogo, filósofo e escritor norte-americano William James (1842-1910): “A maioria das pessoas vive física, intelectual ou moralmente num círculo muito restrito do seu potencial. Faz uso de uma parte muito pequena da sua possível consciência e dos recursos da sua alma em geral, assim como um homem… que se habitua a usar e a mover somente o seu dedo mínimo. Grandes emergências e crises nos mostram como os nossos recursos vitais são muito maiores do que supúnhamos”.

Se as dificuldades são maiores, superiores serão os nossos talentos para suplantá-las. Se desse modo não fosse, onde estaríamos hoje caso os que nos antecederam, pelos séculos, se acovardassem? A pior tragédia é desistir por causa das adversidades do mundo. É falhar, portanto, com aqueles que confiam em nós. Os que vieram antes — com o combustível da Fé — sublimaram dor em vitória.

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

Contato: [email protected]www.boavontade.com

Decreto presidencial a favor do Rio de Janeiro – Júlio César Cardoso

Senador Humberto Costa (PT-PE), somente um parvajola de sua espécie tem o desplante e a insensibilidade de dizer que a intervenção na segurança pública do RJ pode comprometer a democracia.

Ridícula, parva e recheada de animosidade contra o governo federal, a sua manifestação só encontra amparo entre os bandidos, travestidos de políticos, que, diante de uma situação gravíssima, ainda usam a politicagem rasteira para alfinetar medida positiva a favor de todo o povo do RJ.

Gostaria de vê-lo morando com a sua família nas regiões periféricas cariocas, tendo de se deslocar todos os dias pela Linha Vermelha e outras vias conflagradas pelos narcotraficantes, sob intenso tiroteio diário, para agora vir fazer considerações despropositadas relativas à integridade de nossa democracia.

O corrupto governo do PT passou mais de 13 anos no poder e foi incapaz de trazer uma solução compartilhada com a administração carioca, e isso que Lula e Dilma eram amigos do outro corrupto, preso, Sérgio Cabral.

Agora, no maior descaramento, ouve-se desse senador que o PT votará contra a aprovação do decreto presidencial em prol da segurança pública carioca, com estapafúrdias justificativas.

Senador, deixe dessa cretinice extremada, desse ranço perverso e dessa picuinha pueril contra o governo federal, o qual apenas está tomando medida constitucional para salvaguardar a integridade física de ir e vir do povo carioca.

Não confunda alhos por bugalhos. Não confunda politicagem com política. Não traga para o problema carioca resquícios do atavismo medieval, da truculência, do desatino petista, diante de um problema tão grave.

Júlio César Cardoso – Bacharel em Direito e servidor federal aposentado.

Balneário Camboriú-SC

Notas sobre ações em prol da revitalização do rio Apodi-Mossoró

José Romero

José Romero Araújo Cardoso

Com percursos inteiramente dentro do Estado do Rio Grande do Norte, o rio Apodi-Mossoró nasce na Serra da Queimada, em Luiz Gomes, divisa com o Estado da Paraíba, sendo o segundo curso d’água potiguar. Em seu percurso de duzentos e dez quilômetros, percorre territórios de importantes municípios norte-riograndenses, a exemplo de Luiz Gomes, Pau dos Ferros, Itaú, Apodi, Felipe Guerra, Governador Dix-sept Rosado, Mossoró, desaguando no Oceano Atlântico, passando por áreas de grandes salinas, entre Areia Branca e Grossos.

Vale salientar que: A bacia do rio Mossoró/Apodi é a segunda maior bacia hidrográfica do estado, ocupando uma área de 14.271 km², o que corresponde a 27% do território estadual. (http://tudodeapodi.blogspot.com.br/2010/11/rio-apodimossoro.html).

A intermitência sempre foi imemorialmente uma das características do rio Apodi-Mossoró, sendo parcialmente beneficiado graças à construção da barragem de Santa Cruz, em Apodi, pois boa parte do trajeto passou por processo de semiperenização, tendo em vista a ação implacável da seca que compromete significativa o volume d’ água disponível para desempenho da agropecuária local e consumo humano.

A poluição e a destruição da mata ciliar tornam-se problemas enfáticos principalmente quando da passagem desse importante elemento natural de escoamento superficial pelo município de Mossoró, tendo em vista como se apresentam indicadores socioeconômicos, sobretudo no que diz respeito aos dados referentes à população total, ultrapassando mais de duzentos e cinqüenta mil habitantes, indústrias e comércio.

Antes dotado de fossas em residências, Mossoró teve dejetos canalizados para o rio Apodi-Mossoró, resultando em graves problemas ambientais. Os setores secundário e terciário contribuem significativamente para a exponencialização de impactos ambientais, pois destinam toda ordem poluitiva para o curso d’ água.

Medidas profiláticas vem sendo incentivadas, a fim de contornar a situação dramática que atinge o rio Apodi-Mossoró. O programa Petrobras Ambiental exemplifica tentativa de implementar estudo e ações de educação ambiental, visando despoluir o rio.
A preocupação com o grau de poluição que atinge o rio Apodi-Mossoró, sobretudo em seu percurso no mais importante município localizado em seu trajeto, vem despertando a atenção da sociedade, envolvendo diversos setores, como Universidades, Câmara de Vereadores, Promotorias de Justiça, Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça do Meio Ambiente Assembléia Legislativa e Ministério Público.

Exemplo de preocupação ambiental referente à revitalização do rio Apodi-Mossoró teve destaque em discussão organizada no dia 18 de setembro de 2017, na sede da Procuradoria-Geral de Justiça (PGJ), em Natal, tendo em vista que:

A reunião, organizada pela 3ª Promotoria de Justiça da comarca de Mossoró e pelo Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça do Meio Ambiente (Caop-Meio Ambiente), está marcada para começar às 9h30.
O propósito da reunião é discutir sobre a situação ambiental atual do rio, as medidas tomadas pelos órgãos gestores estadual e municipal, os estudos desenvolvidos pelas universidades e quais ações podem ser tomadas para a recuperação do Apodi-Mossoró.

Foram convidados para participar representantes das universidades federais Rural do Semiárido (Ufersa) e do Rio Grande do Norte (UFRN) e do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) – de departamentos como Geografia, Química, Ciências Biológicas, Sociais e Animais; do Comitê da Bacia do Rio Apodi/Mossoró; das Secretarias de Estado de Recursos Hídricos (SERHID) e do Meio Ambiente (Semarh); da Secretaria Municipal de Infraestrutura, Meio Ambiente, Urbanismo e Serviços Urbanos de Mossoró (Seimurb); de órgãos ambientais como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama), Instituto e Gestão de Águas do Estado (Igarn) e Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema); da Coordenadoria de Vigilância Sanitária (Covisa), e de outras instituições e representantes da sociedade civil organizada. (http://professormarciomelo.blogspot.com.br/2017/09/reuniao-debatera-revitalizacao-do-rio.html)

O declínio quali-quantitativo da vida aquática ao longo do rio Apodi-Mossoró traduz-se através da mortandade de peixes e do assoreamento do leito do rio Apodi-Mossoró, comparando-se há algumas décadas, quando esse importante patrimônio natural potiguar era sinônimo de sobrevivência para inúmeras famílias de baixa renda que buscavam no rio recursos que garantiam qualidade de vida mais proeminente que na atualidade.
Marco natural do povoamento de grande parte do semiárido potiguar, o rio Apodi-Mossoró vem sendo agredido de forma inexorável, em razão que a falta de compromisso histórico do processo de antropização surge como desafio do milênio em uma região notavelmente marcada pela fragilidade dos seus aspectos naturais.

FONTES CITADAS/CONSULTADAS:

Reunião debaterá revitalização do rio Apodi-Mossoró, Disponível em . Acesso em 29 de novembro de 2017.

Rio Apodi/Mossoró. Disponível em .. Acesso em 29 de novembro de 2017.

Rio Moçoró. Disponível em .. Acesso em 29 de novembro de 2017.

José Romero Araújo Cardoso – Geógrafo (UFPB). Escritor. Professor-adjunto do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Especialista em Geografia e Gestão Territorial (UFPB) e em Organização de Arquivos (UFPB). Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente (UERN). Membro do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC) e da Associação dos Escritores Mossoroenses (ASCRIM)

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Reflexão do I Domingo da Quaresma

Após uma sequência de seis domingos, a liturgia dá uma pausa no tempo comum e nos convida a vivenciar um dos seus períodos mais fortes, o tempo da quaresma, iniciado na quarta-feira de cinzas. Hoje, celebramos o primeiro domingo desse tempo especial de preparação para a Páscoa do Senhor. O texto evangélico proposto, Marcos 1,12-15, embora curto, é bastante rico e complexo, cujo conteúdo consiste na narrativa da ida de Jesus ao deserto, onde foi tentado por satanás (vv. 12-13), e do início do anúncio do Evangelho na Galileia (vv. 14-15).

Chega a ser surpreendente a capacidade de síntese do evangelista Marcos: em apenas quatro versículos, ele consegue transmitir muita coisa da vida de Jesus. Antes de nos determos diretamente no texto, é necessário fazer algumas considerações a respeito do contexto em que está inserido. O episódio que precede o nosso texto é o batismo de Jesus por João no Jordão (v. 9-11). Enquanto realizava sua missão de batizador, João havia anunciado que viria alguém “mais forte” do que ele, o qual batizaria no Espírito Santo. De fato, veio esse alguém, foi batizado (v. 9), e nele o Espírito se manifestou em forma de pomba (v. 10), e ainda recebeu o testemunho do Pai como o “Filho Amado” (v. 11).

O texto de hoje é a sequência desta série de eventos e sinais introdutórios da missão de Jesus. Vejamos: “E logo o Espírito levou Jesus para o deserto” (v. 12). De início, fazemos uma pequena e importante observação: a versão litúrgica, infelizmente, omite a primeira parte do versículo: “E logo”; a ausência desse advérbio compromete o sentido do texto, porque omite o caráter de urgência e imediatez da ação do Espírito em impelir Jesus para o deserto. O verbo empregado pelo evangelista é muito mais intenso que “levar”, utilizado pela versão litúrgica; o verbo grego empregado no texto original (ekbalo) significa empurrar, atirar, impelir, lançar fora com força.

Jesus não é proclamado “Filho Amado” pelo Pai para isolar-se das provações e dificuldades, mas para experimentar a vida com suas contradições e perigos. A referência ao deserto, obviamente, não é geográfica, mas teológica. O deserto é um elemento de rico significado para a tradição bíblica. Aqui indica, antes de tudo, que Jesus está inserido na história do povo de Israel, fazendo parte desse e, portanto, estará sujeito aos mesmos riscos e perigos pelos quais esse povo passou, desde a saída do Egito à conquista da terra e, principalmente aos tempos obscuros de dominação e exploração romana de seu próprio tempo. Assim, também o caminho de Jesus até a cruz e ressurreição será marcado por perigos e provas, uma vez que, embora seja verdadeiro Deus, ele é verdadeiro homem.

Embora o deserto evoque provação, é também o lugar ideal para o bom relacionamento com Deus; por isso, quando o povo demonstrava infidelidade, os profetas apresentavam a necessidade de retornar ao deserto para voltar a viver o ideal da aliança. A experiência do deserto na vida de Jesus representa a confirmação da sua vocação de “Filho Amado” do Pai: E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás” (v. 13a). Associando deserto a provação, o evangelista chama a atenção da sua comunidade para um aspecto muito importante da vida cristã: deixar-se conduzir pelo Espírito não torna a pessoa imune às tentações e dificuldades que a vida apresenta. O tempo de permanência no deserto, “quarenta dias, também possui um rico simbolismo na Bíblia. É antes de tudo, uma alusão à experiência do êxodo, marcada por quarenta anos de caminhada pelo deserto (cf. Nm 32,13; Dt 8,2), mas também a outros acontecimentos do Antigo Testamento: a duração do dilúvio de quarenta dias e quarenta noites (cf. Gn 7,4.12.17); a caminhada de Elias rumo ao monte Horeb (cf. 1 Rs 19,8).

Além de evocar acontecimentos e personagens importantes da história de Israel, esse número quer dizer uma etapa completa, ou seja, uma vida inteira, uma geração. Portanto, significa que toda a vida de Jesus foi marcada pela prova e, assim é também a vida da comunidade cristã. Isso deve levar os cristãos a uma vida vigilante sem jamais cair em comodismos. Quer dizer que a Igreja não pode, em momento algum da história, aceitar qualquer sinal de conforto, principalmente quando ofertado pelos detentores de poder. O tentador, segundo Marcos, é Satanás, e significa o adversário. Mais do que um ser específico, satanás é toda e qualquer realidade adversa ao Reino de Deus. A vida cristã é um confronto constante com essa realidade. No decorrer do Evangelho, o adversário de Jesus assumirá diversos rostos: a hierarquia religiosa, o poder político romano e até mesmo os seus discípulos (cf. 8,33), quando Pedro será explicitamente chamado de satanás e pedra de tropeço por opor-se aos propósitos do Reino de Deus.

É importante também perceber que, ao contrário de Mateus e Lucas, Marcos não faz a mínima referência ao conteúdo das tentações, nem ao jejum praticado por Jesus. Ao invés de empobrecer, esse dado só enriquece o evangelho marcano. Ora, ao não descrever em pormenores essa realidade simbólica, o evangelista ajuda sua comunidade a não idealizar nem fantasiar uma cena, mas enfatiza que as tentações são imprevisíveis e indescritíveis porque são muitas e, portanto, não podem ser catalogadas ou delimitadas; a qualquer momento podem surgir, e isso durante toda a vida.

A segunda parte do versículo evoca a conquista da paz messiânica: Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (v. 13b). O antigo sonho profético de harmonia entre todos os elementos da criação é recuperado por Jesus, o profeta do Reino por excelência. Aquilo que fora sonhado durante muitos séculos por tantas gerações, tem em Jesus a oportunidade de ser realizado. É claro que é uma imagem simbólica. Significa a missão de Jesus de reconciliar o mundo consigo mesmo e com Deus. Jesus é habilitado pelo Pai, como “Filho Amado”, para combater as forças do mal e vencê-las pelo amor, fazendo acontecer a nova humanidade, instaurando, de fato, os “novos céus e nova terra” (cf. Is 11,1-9). O serviço dos anjos quer dizer a adesão ao Reino da parte daqueles que compreendem a centralidade do evangelho: servir por amor, o triunfo do bem. Animais selvagens e anjos juntos, tendo Jesus ao centro, significa a convivência pacífica entre todos os seres, não obstante as características de cada um. As forças do mal já não tem o que fazer, se tornam impotentes, quando o bem é abraçado e se faz serviço.

A passagem de Jesus pelo deserto é uma antecipação e síntese de toda a sua vida. Quer dizer que o seu programa consiste no combate ao mal e instauração definitiva do bem. Como tudo isso será realizado? Com o anúncio do Evangelho e a construção do Reino de Deus. Esse anúncio é urgente: Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus”  (v. 14). Temos aqui um divisor de águas na vida de Jesus: sendo comandada por Herodes (cf. Mc 6,17), a prisão de João se torna um apelo urgente para a instauração do Reino de Deus; é um triunfo de satanás, o adversário, personificado no algoz do Batista, que precisa urgentemente ser combatido. A ação de satanás se torna evidente quando o sistema dominante oprime e mata. Quem se deixa conduzir pelo Espírito, não pode assistir passivamente a essa realidade. Por isso, Jesus entra em cena com seu anúncio do Evangelho de Deus. A luta contra o mal empreendida por Jesus não se dará pela força nem pelo poder, mas pelo anúncio do “Evangelho de Deus”, cujo núcleo central é o amor.

A pregação de Jesus consistia no anúncio do Reino de Deus como algo urgente: “o tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho” (v. 15). A compreensão do cumprimento do tempo é essencial na pregação de Jesus. O evangelista se refere ao tempo com o termo grego “kairós”, que não significa o tempo cronológico, mas o tempo oportuno e favorável, uma oportunidade única que não pode ser desperdiçada. De fato, em um mundo insuportável, marcado pelas injustiças e opressão, com lideranças religiosas e políticas totalmente corrompidas, a oportunidade de criação de um mundo novo não poderia passar desperdiçada. A condenação injusta do Batista é uma prova disso.

O Reino de Deus, conteúdo da pregação de Jesus, consiste exatamente na alternativa de mundo e sociedade ao sistema vigente na época; é claro que essa proposta continua válida ainda hoje, e até com mais urgência.

O Reino de Deus não é uma resposta de esperança em um bem-estar futuro, mas a proposta de Deus para o hoje da história. Essa proposta consiste em uma sociedade com novas relações, baseadas na justiça, no amor, no perdão e no serviço; um mundo marcada pela igualdade e fraternidade. Podemos resumir o Reino de Deus como a realização plena da sua vontade neste mundo. Esse Reino “está próximo”, diz Jesus, porque é Ele o Reino em pessoa. Mais que a temporalidade do Reino, a forma verbal “está próximo” exprime a sua materialidade. Essa proximidade do Reino será evidenciada pelo modelo de vida de Jesus e pelos sinais realizados por Ele, os quais dirão que o Reino, de fato, chegou.

Para participar do Reino não são necessários rituais de purificação, mas apenas conversão e adesão ao Evangelho: “Convertei-vos e crede no Evangelho” (v. ). A necessidade de conversão é uma constante na vida do seguidor de Jesus. O convite à conversão, expresso pela forma verbal grega “metanoeite”, não significa intensificar as práticas penitenciais e devocionais, nem melhorar um pouco, nem rezar mais… significa mudar radicalmente o jeito de ser, de pensar e de agir. Essa mudança de mentalidade se torna verificável na vida da pessoa pela adesão ao Evangelho.

Crer no Evangelho significa aceitar o anúncio de Deus por meio de Jesus Cristo, tomando suas palavras como verdadeiras e portadoras de libertação. É acreditar que um anúncio só pode ser bom e edificante se tiver como base a mensagem libertadora de Jesus de Nazaré.

Mossoró-RN, 18/02/2017

A CASINHA DO VAQUEIRO SALES 

Benedito vasconcelos Mendes

Benedito Vasconcelos Mendes

A primeira casa de taipa  que conheci em detalhes foi a do vaqueiro do meu avô, conhecido por “Sales da Fazenda Aracati”, a qual me causou uma excelente impressão pela sua simplicidade, limpeza e beleza. Tudo muito limpo e em seu devido lugar. O interior da casa transmitia um ar de serenidade e paz. Dona Lourdes, mulher de Sales, era muito trabalhadeira e  caprichosa e tinha muito gosto em manter a casa em ordem. Sua filha mais velha, Ritinha, à época que entrei pela primeira vez em sua casa, tinha cerca de 12 anos de idade, ajudava a mãe na arrumação da casa e nos trabalhos da cozinha. Seu filho Totonho tornou-se meu maior amigo por ocasião das minhas férias escolares, que sempre passava na Fazenda Aracati, de propriedade do meu avô. Ele tinha, quando o conheci, aproximadamente 14 anos. Tínhamos mais ou menos a mesma idade. Dona Lourdes cuidava,  além da casa, das cabras, das galinhas, dos dois cachorros de pegar gado, do gato e do papagaio.

   A  casa era de taipa, alpendrada, de dois quartos, coberta de palha de carnaubeira, de chão batido e não tinha luz elétrica. No terreiro, um frondoso e velho  Juazeiro, onde o vaqueiro Sales amarrava seu garboso cavalo “Relâmpago”.
Em frente à porta, crescia um pé de pinhão roxo, plantado para livrar os habitantes da casa, do “Mau Olhado”. Para proteger a família contra raios, na porta da frente tinha uma cruz feita de palha de carnaubeira,  benta pelo Padre, por ocasião da Santa Missa do Domingo  de Ramos, durante a Semana Santa. Na parede, ao lado da porta, estava uma ferradura, para dar sorte. Pendurado na cumeeira, no meio da sala do oratório, observava-se um rabo de raposa seco, para espantar morcego.                                                             

  O alpendre cobria as duas laterais e a frente da casa. No alpendre da frente (copiá), situava-se um banco de pau roliço (estirpe de carnaubeira sobre duas forquilhas de aroeira), uma rede de malha de fibra de caroá, uma balança de corda (com pratos de madeira pendurados por longas cordas, apropriada para pesar sacos de algodão), duas colmeias de abelha jandaíra e algumas latas penduradas com plantas. O chapéu e o gibão de couro, a cela, os arreios e o chicote de pimba de boi ficavam suspensos em um torno de armar rede, no alpendre lateral. Várias gaiolas de talo de carnaúba, com canário-da-terra, cabeça-de-fita, graúna, sabiá-laranjeira, corrupião, asa branca e outros passarinhos ficavam penduradas nos caibros do alpendre. A frente da casa era de porta e janela, feitas de tábuas de imburana, não pintadas.  A porta da frente era do tipo meia-porta, ou seja, porta partida ao meio. Durante o dia, a banda de cima ficava aberta e a de baixo fechada, com tramela de madeira. No alpendre da frente da casa, ficavam os banquinhos das mulheres fazerem chapéu de palha de carnaúba. Eram bancos de pernas curtas, para evitar que  as mulheres, usando vestido, mostrassem as pernas.

A sala da frente, onde ficava o oratório, exibia na parede as fotografias do Beato Zé Lourenço e do Padre Ibiapina (foto do quadro “óleo sobre tela”, de autoria do pintor paraibano Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo) e, dentro do santuário, as imagens de madeira do Padre Cícero e de São José (o Santo das chuvas). Na parede via-se também um terço e um quadro de vidro, com a oração manuscrita do Responso de Santo Antônio (oração rezada para se reaver objetos perdidos ou roubados).

As duas camarinhas eram interligadas por uma cortina de tecido. Lá dormiam, em redes, o  casal dono da casa e  os  oito filhos (crianças e adolescentes), cinco do sexo masculino e três do sexo feminino. Os dois quartos se comunicavam com o estreito corredor por cortinas de chita colorida, com temas florais. No canto de cada quarto, no chão, havia um penico de barro, que na manhã do dia seguinte eram recolhidos e a urina e fezes despejadas na latrina. Em cada quarto havia também um caritó, para guardar pequenos objetos e utensílios domésticos, como lamparinas, caixas de fósforos, corrimboque, agulhas e carretéis de linha para coser, cachimbo, fumo de rolo, espingarda de caça, etc. Da parede do corredor,  pendiam um uru de palha e uma cesta  de cipó.

Na  cozinha localizavam-se um fogão a lenha, com trempe para três panelas de barro, e uma mesa de pau-branco, não envernizada, com seis bancos, com tampos de couro cru. Ao lado do fogão, sobre um suporte de madeira, tinha uma grande tina de pau-branco com água para lavar as louças. No chão, um pilão deitado de duas bocas, feito de miolo de aroeira. Presos a tornos de madeira, via-se o abano, a urupema, a colher de pau, duas cuias e  uma cuité.  Do caibro sobre o fogão a lenha, descia  uma corda de tucum com um “gancho de 5 pontas”, para espetar os alimentos salgados (linguiça, toucinho, tripa de porco, tripa de boi, coalho de boi  e carne do sol). O coalho era usado para coalhar o leite, na preparação do queijo de coalho. A corda que sustentava o gancho atravessava o centro de uma cuité com a boca para baixo, que impedia a descida de algum rato, que por ventura existisse na cobertura da casa. O gancho ficava alto do solo e sobre o fogão, para evitar que o gato comesse estes alimentos e, ao mesmo tempo possibilitava, que os mesmos fossem defumados  pela fumaça que saía do fogão. Na cozinha, também ficava a cantareira, com dois pequenos potes de água para beber. Os potes tinham as bocas cobertas por tecido de algodãozinho com elástico e por tampas de madeira. Sobre uma forquilha de Angico com três pontas, repousava a quartinha de água para beber, que era levada à noite para o alpendre e depois para o quarto. No quintal, confrontando com a janela da cozinha, situava-se um girau de varas de marmeleiro, para secar as louças de barro (panelas, travessas, alguidares e cuscuzeira).

Ao todo, a casa tinha duas portas, a porta da frente e a porta dos fundos, e quatro janelas, a da frente, a da cozinha e dois quartos.   
                                                                                                           
 A cerca do quintal era de  varas de marmeleiro. No quintal ficavam a latrina a céu aberto, o banheiro, o chiqueiro das galinhas e o girau de secar panelas, tudo feito com varas de marmeleiro. A latrina e o banheiro tinham portas feitas de talos de folhas de carnaubeira e eram revestidos com palhas,  para não se ver quem estava dentro.

A porta da cozinha (porta dos fundos) e as janelas só eram fechadas por dentro, com trancas  e tramelas de madeira, pois somente a  porta da frente tinha fechadura. As portas e janelas da casa não tinham ferrolhos. No banheiro a céu aberto tinha uma grande jarra de boca larga (pote de barro grande) com água para o banho do pessoal da casa. A água era trazida em ancoretas, em lombo de jumento, de uma cacimba feita na areia do leito do Rio dos Patos. As pessoas tomavam banho de cuia, ao ar livre, sobre uma grande laje de pedra calcária. Parte do quintal era sombreada por uma frondosa pitombeira. No quintal, no pé do muro, repousava o caco (grande alguidar de barro, pouco profundo) de torrar café. O sabão (sabão da terra), usado para o asseio da família e para a lavagem de roupa e das louças, era feito na fazenda por Dona Lourdes, que utilizava para a sua fabricação, cinza e óleo de oiticica.