domingo , 15 de dezembro de 2019
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Homero Costa: Partidos, eleições e redes digitais

Homero Costa Homero Costa, cientista político e professor da UFRN

Dois artigos publicados recentemente destacam a relevância dos partidos políticos no Brasil. Trata-se de Partidos, movimentos, democracia: riscos e desafios do século XXI, de Marco Aurélio Nogueira, publicado no Journal of Democracy (Volume 8, n.2, 2019) e Burocráticos, partidos vivem à sombra do Estado e dificultam renovação de Jairo Nicolau, publicado no dia 24 de novembro de 2019 no jornal Folha de S.Paulo.

Ambos defendem que os partidos ainda são importantes no jogo político e parlamentar, mas que não tem mais o mesmo protagonismo como agentes de mobilização e educação política. Como diz Nogueira “Deixaram de atuar como fatores de hegemonia – de formação de consensos e da fixação de diretrizes ético-políticas” e uma das conseqüências é que “os eleitores se afastam das urnas, partidos perdem inscritos e militantes, decai a confiança nas instituições. A movimentação associativa parece ignorar a política institucionalizada e esta, por sua vez, tende a se oligarquizar, a aprofundar seus nexos com o sistema econômico-financeiro e a virar as costas para os cidadãos, que passam a se sentir sem representação”.

Outro aspecto diz respeito ao fato de que a constatação da derrocada dos partidos “passou a reforçar a ideia de que a democracia representativa ingressou em crise de igual proporção, com a ampliação da fuga dos eleitores, o aumento do desinteresse político da população e a desvalorização das eleições”.

De fato há muitos estudos que afirmam existir uma crise de da representação política, no qual os eleitos, em geral, não representam os interesses daqueles que o elegeram, mas dos financiadores de suas campanhas e que influenciam ou exercem o controle de seus mandatos.

Este aspecto é relevante e se associa à incapacidade dos partidos, dependentes dos recursos do Estado de articularem e representarem os distintos setores da sociedade, não exercendo as funções de integração, organização e mobilização, de ser o intermediário entre Estado e sociedade.

Nem representam nem tampouco, como consequência, criam mecanismos para estimular a participação dos filiados, mobilizados apenas em vésperas das eleições. Não existem canais institucionais que permitam uma participação efetiva dos representados e sim uma crescente incapacidade para funcionarem como agentes de representação. A participação se limita basicamente a votar periodicamente.

A descrença no regime democrático e suas instituições, em especial os partidos políticos, trouxeram e trazem graves conseqüências para a democracia, como o alheamento dos eleitores, que se expressa em altos índices de abstenções, votos nulos e em brancos, inclusive em países com voto obrigatório, como o Brasil.

O exemplo mais recente nesse sentido foram os dados relativos às eleições presidenciais de 2018: a abstenção eleitoral foi de 21,30%, os votos brancos 2,14%, e os nulos 7,43%. Isso corresponde a mais de 30% do total de eleitores aptos a votar. Segundo os dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foram 31,3 milhões de pessoas que se abstiveram, votaram em branco ou anularam o voto (o maior percentual desde a eleição presidencial de 1989).

Mas há um aspecto relevante nas duas mais recentes eleições presidenciais (2014 e 2018) que foi o uso das mídias digitais, muito mais decisiva do que os partidos políticos para a decisão do voto. Aproveitando o cenário de descontentamento com o funcionamento do sistema político e partidário, o desprezo pelos partidos foi usado de forma eficaz pela direita nas mídias digitais, que culminou no êxito eleitoral de Bolsonaro nas eleições de outubro de 2018.

Esse processo começou na eleição de 2014 com a formação de uma ampla Rede Antipetista, com a importante contribuição da grande mídia hegemônica, atuando principalmente nas redes sociais. Em 2014, foi especialmente no Facebook, como mostra Marcelo Alves dos Santos Junior no livro (resultado de sua dissertação de mestrado) #vaipracuba: a gênese das redes de direita no Facebook (Editora Appris, 2019) em que analisa como foram construídas verdadeiras máquinas de guerrilha contra as candidaturas do PT e prepararam o terreno para o lançamento da candidatura e vitória de Bolsonaro nas eleições de outubro de 2018. Só que nesta, mais importante do que o facebook foi o uso do Whatsapp.

Em relação ao Facebook, o livro Tudo sobre [email protected]: redes digitais, privacidade e vendas de dados pessoas (Edições SESC, 2018) de Sérgio Amadeu da Silveira que “trata das relações sociais realizadas a partir do uso intensivo de tecnologias da informação e comunicação envolvendo empresas, tecnologias, dispositivos e que formam um dos mais importantes mercados da atualidade: o da compra e venda e dados pessoais”, entre outros aspectos, analisa o uso de algoritmos que são fundamentais nesse processo e afirma que eles “contém uma normatividade que delimita nossas ações e define o que teremos acesso” e que é possível considerar que os algoritmos do Facebook são formadores de guetos ideológicos (…) que isolam posições, reduzem a diversidade e as possibilidades de recombinação de opiniões”. O Facebook para ele produz bolhas ou jaulas digitais, seguindo a lógica do mercado de dados.

O mesmo pode ser dito em relação ao Whastapp, que também produz bolhas e jaulas digitais, ou seja, a possibilidade de dirigir mensagens a determinados grupos (guetos/bolhas/jaulas). O seu uso de forma intensiva foi de fundamental importância nas eleições de 2018.

No dia 8 de outubro de 2019, uma matéria publicada no jornal Folha de S. Paulo mostra que o aplicativo admitiu, pela primeira vez, o envio ilegal de mensagens em massa durante as eleições presidenciais de 2018, que favoreceu o então candidato Jair Bolsonaro. Segundo a matéria, Bem Supple, gerente de políticas públicas e eleições globais do Whatsapp, em uma palestra no Festival Gabo, na cidade de Medellín, na Colômbia, afirmou que “Na eleição brasileira do ano passado houve uma atuação de empresas fornecedoras de envios maciços de mensagens, que violaram nossos termos de uso para atingir um grande número de pessoas”.

Um ano antes, em 18 de outubro de 2018 e antes também da realização do segundo turno das eleições presidenciais, uma matéria publicada na Folha de S. Paulo, assinada por Patrícia Campos Mello afirmou que empresários apoiadores do então candidato à presidência Jair Bolsonaro pagaram empresas de marketing para disparar mensagens contra Fernando Haddad (PT). Segundo a matéria: “Empresas estão comprando pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT no Whatsapp e preparam uma grande operação na semana anterior ao segundo turno. A prática é ilegal, pois se trata de doação de campanha por empresas, vedada pela legislação eleitoral, e não declarada” e que “A Folha apurou que cada contrato chega a R$ 12 milhões e, entre as empresas compradoras, está a Havan. Os contratos são para disparos de centenas de milhões de mensagens”.

Qual foi o cenário em que isto foi possível? O de eleitores desencantados com o sistema político, partidos e políticos, e mesmo com a própria democracia, e para esse público é que foram criadas as condições para mobilizações antipartidárias e apartidárias, e especialmente antipetistas, com influenciadores digitais propagando conteúdos direitistas que atraíram milhões de seguidores nas mídias sociais usando fake news, slogans (como “vai para cuba”), discursos contra os partidos e a favor de uma intervenção militar, teorias paranóicas e conspiratórias como a acusação do Foro de São Paulo de ser o centro irradiador do comunismo na América Latina, procurando vincular o PT com o PCC e as Farcs, etc. Enfim, um conjunto diversificado de ações, que pavimentaram a campanha eleitoral da direita e que teve êxito, com a vitória do seu candidato, demonstrando capacidade de articulação, organização e influência, criando “bolhas” entre seus seguidores, imunes à razão, a lógica e a sensatez.

As mídias digitais, portanto teve um papel fundamental nas eleições e nesse sentido um aspecto relevante é saber se ainda há perspectivas da reconstrução social dos partidos. Peter Mair, cientista político holandês, no artigo Há futuro para os partidos? (Revista Política Democrática, 2000) afirmou naquele momento que as perspectivas eram desalentadoras porque os partidos haviam perdido seus vínculos sociais e se tornaram verdadeiras “máquinas eleitorais”, com cada vez mais empobrecida suas funções representativas, preocupados apenas com a conquista e preservação do poder, de gestão burocrática e cada vez mais dependente de recursos estatais.

A questão dos recursos, a dependência do Estado, é fundamental e pode ser exemplificada na briga recente do PSL, que culminou com a saída do presidente Jair Bolsonaro para a formação de outro partido. Além do controle das instâncias decisórias, havia uma disputa também e principalmente pelo controle de recursos dos fundos partidário e eleitoral. Em 2018 o PSL recebeu cerca de R$ 17 bilhões entre recursos do fundo eleitoral e do fundo partidário e mantido a bancada para as eleições municipais de 2020, havia uma expectativa de que recebesse em torno de R$ 360 milhões de financiamento público. Além disso, há de se considerar o fator importante que é o tempo do horário eleitoral em rádio e TV, que são determinados pelo tamanho da bancada eleita. O fato é que embora tenha sido eleito com apenas alguns segundos de tempo de rádio e televisão e com poucos recursos do fundo partidário e eleitoral e das críticas ao chamado establishment político, Bolsonaro sabe da importância dos recursos nas eleições.

Como aponta Jairo Nicolau “é no financiamento que a dimensão paraestatal dos partidos brasileiros fica mais evidente (…) além do fundo eleitoral e da propaganda veiculada em ano de eleição, os partidos passaram a receber generosos recursos para fazer campanha. O valor para a disputa em 2020 ainda não está definido, mas no pleito de 2018 foram gastos R$ 1,7 bilhão em pouco mais de 60 dias de campanha oficial”.

Se a mídia digital tem um papel cada vez mais relevante nas eleições, qual a importância dos partidos? Apenas o de viabilizar candidaturas? É possível prescindir dos partidos? A crítica ao modelo de representação não deve significar rejeição aos partidos e tampouco a democracia. Como disse Marco Aurélio Nogueira no referido artigo se os partidos são pouco eficientes enquanto instâncias de representação ainda têm um papel fundamental para estabilidade do sistema político.  As democracias precisam de partidos para funcionarem, mas não como tem ocorrido no Brasil na maioria dos casos, partidos apenas como meras legendas de aluguel.

A luta para conquista do poder político nas democracias passa pelo fortalecimento dos partidos, portanto não se pode nem se deve prescindir dos partidos nem da participação política. Quando se rejeita os partidos e não participa das eleições, abre-se o caminho para demagogos, populistas que apenas usam os partidos e reforçam o processo de exclusão dos cidadãos de participação e do poder político.

Nada, ainda, a comemorar

Segunda nação do mundo, depois da africana Nigéria, com maior número de negros e negras, o Brasil completa oito anos de celebração oficial do Dia Nacional do Zumbi e da Consciência Negra. O evento, instituído  pela lei nº 12.519/2011, não é feriado e sequer reconhecido na maioria dos estados, capitais e cidades deste país marcado por um passado escravocrata com registros de  mais de quatro milhões de negros retirados à força do continente africano. A travessia, feita nos fúnebres navios tumbeiros, fez do oceano Atlântico, por 300 anos, ser o  palco de um cemitério recolhedor de mais de dois milhões de corpos negros.

Assim é preciso, a cada 20 de Novembro, data com origem no porto-alegrense Grupo Palmares, lembrar e relembrar que o 13 de maio de 1888 –  data da abolição inconclusa – teve o dia seguinte mais cruel da história social e política do país, e que resultou nas condições precárias e desiguais em que se encontra, hoje, a maioria do povo negro brasileiro.

Dados de 2018 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que o país está longe de ser uma democracia racial, fortalecendo a cada dia um imenso quadro de desigualdades sociais. Os indicadores socieconômicos deste mesmo Instituto costumam apontar sérias desvantagens para da população preta e parda, a começar  pelo quesito renda: entre os 10% da população mais pobre do país, 76% são negros.

Em artigo “Violência e racismo:novas faces de uma afinidade reiterada” publicado na Revista Estudos Sociais (abril de 2018), os autores Jacqueline Sinhoretto e Danilo de Souza Morais  chamam atenção para o viés racial na configuração das mortes violentas no Brasil, diariamente apresentadas nos noticiários televisivos.

Segundo os autores, os maiores índices estão concentrados na população jovem, “na qual há maior crescimento de homicídios entre negros e a redução entre brancos, o que significa o aumento da desigualdade na vivência da violência entre os grupos raciais. O monitoramento de letalidade policial por cor/raça aponta, também, maior incidência sobre negros. A população encarcerada cresceu, impulsionada pelo encarceramento de negros”, acentuam.

O artigo também destaca “a vitimização diferencial dos jovens negros que passa a ser o principal e atual tema do movimento de juventude negra, que faz disso a construção da bandeira de luta contra os constantes assassinatos”. Uma vez que “um homem negro tem oito vezes mais chances de ser vítima de homicídio no Brasil  do que um homem branco”, apontam, igualmente, estudos realizados a partir de dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

E cabe, também, destacar a difícil inclusão das mulheres negras no mercado de trabalho e o quanto o racismo institucional e as desigualdades raciais são fatores determinantes no acesso aos serviços preventivos e básicos de saúde.

 

Brasil de Fato

Entre usar e ser usado

Miguel Oliveira Panão (Professor Universitário), Blog & Autor

“O usuário final, no fim da história, foi usado.”

Li esta frase num artigo da revista Wired. A tecnologia por si mesma não é um problema, mas o facto de não termos previsto o impacte que teria na nossa vida é que deveria levar-nos a pensar no papel que representa para nós e para os relacionamentos com os outros.

Num outro dia, no final da missa da tarde, enquanto o sacerdote dava alguns avisos, duas pessoas tiraram do seu smartphone e puseram-se a fazer não sei bem o quê. Aquele era um tempo-morto e cada vez mais somos incapazes de nada fazer durante tempos, supostamente, mortos. Chamo a isto uma dormência intelectual.

 

A insuportável leveza do tédio

”A mente é o seu próprio lugar, e em si mesma pode fazer um Céu de um Inferno, e um Inferno do Céu.” (John Milton, Paradise Lost)

Investigadores do Departamento de Psicologia da Universidade de Virgínia nos EUA fizeram uma experiência; intrigante com estudantes universitários: ficar sozinhos numa sala sem decorações durante 6 a 15 min e enterterem-se com os seus pensamentos.

Todos os seus pertences eram guardados, incluindo smartphones. Podiam pensar aquilo que quisessem. As únicas regras eram permanecer sentados e acordados. Quando questionados sobre a experiências, 49.3% disseram que não gostaram, 57.5% que foi muito difícil concentrarem-se nos seus pensamentos e 89% afirmou que a sua mente vagueou. Numa outra experiência, os investigadores fizeram algo mais radical. Durante 15 min os participantes deveriam enterter-se com os seus pensamentos, ou, se quisessem, poderiam dar um choque eléctrico a si mesmos carregando num botão. O resultado foi inesperado, tendo 67% dos rapazes e 25% das raparigas preferido levar choques eléctricos do que ficar a sós com os seus pensamentos.

A tecnologia tornou-se um portal para o entertenimento fácil. E, enquanto uma bebida alcoólica custa dinheiro e depende das horas em que o bar/café está aberto, a dopamina para combater o tédio, recebida através dos smartphones, é um bar aberto e sem limite de tempo. Gradualmente, estamos a perder a capacidade humana de estar junto com os nossos pensamentos e desfrutar do vaguear da mente por aqueles mais ou menos criativos que nos ocorrem. Corremos o sério risco de entrar numa espécie de dormência intelectual onde os nossos pensamentos deixaram de estimular a criatividade, o engenho e o simples prazer de pensar.

Recentemente estive a colaborar com a parte técnica de um encontro, onde havia algumas apresentações que usavam slides e uma das formas das pessoas poderem controlar a sua apresentação foi a de ter o portátil perto, ligá-lo por HDMI ao projector e por RGB a um monitor que mostrava o mesmo que viam as pessoas na audiência. A ideia parecia genial, e quem apresentou apreciou, mas houve quem na audiência se sentisse perturbado por todo o aparato de cabos. Logo, no dia seguinte, talvez fosse de voltar a uma solução menos ideal das pessoas fazerem-nos um gesto para mudarmos os slides. Não gostava do impasse, mas aceitei a situação. De repente, vindo do nada, num momento em que a mente começou a vaguear, lembrei-me de que o iPad poderia servir de comando da apresentação, permitindo às pessoas passarem os slides e verem qual o próximo. A solução não envolvia qualquer fio e tudo correu muito, muito bem.

O tédio pode ser a porta para deixar que a criatividade, ou a solução para um impasse, se manifeste nos momentos em que menos esperamos. Se tivesse pegado no smartphone, nada disto teria acontecido.

A questão essencial

O problema não está no recurso às novas tecnologias na vida do dia-a-dia, mas na perda de autonomia. Quando alguém é incapaz de estar com os seus pensamentos enquanto o sacerdote dá alguns avisos, não prescindindo de ver se tem algum novo email ou mensagem, sem se dar conta, perdeu a autonomia, deixando de ser o usuário final para ser, afinal, o usuário do conteúdo que tem diante do ecrã. Deixou de ser quem usufrui das Apps, mas de quem as Apps usufruem. E questiono se a perda do valor de estar com os nossos pensamentos não seja um primeiro passo para perder a capacidade de discernimento e de escuta d’Aquela Voz.

Os momentos de tédio podem ser verdadeiras oportunidades de oração se o quisermos. Ou momentos de parar para respirar um pouco quando a vida não tem qualquer folga e tudo aperta, sobretudo os prazos.

A tecnologia é a nossa resposta ao amor de Deus que nos criou, co-criando com Ele. Por isso, os smartphones são co-criações extraordinárias através das quais podemos comunicar de formas impensadas. Recordo-me da experiência de uma amiga cuja sobrinha ficou com paralisia cerebral após a nascença, o que levou a um atrofio das suas mãos. Hoje, em idade jovem, os emojis que banalizados tornam as nossas conversas superficiais, são precisamente o meio que ela consegue comunicar com as pessoas, sobretudo, emojivamente! Acho extraodinário.

Penso é que devemos estar atentos a não perder o valor de pensar. Simplesmente. E aprender cada vez mais e melhor, a reconhecer Aquela Voz que se manifesta nos momentos mais surpreendentes e nos inspira a agir.

Cultura lúdica é a essência da infância – Elidiane Silva

A infância é uma fase da vida que é marcada pelo brincar, pois quando falamos em infância vem logo ao pensamento as brincadeiras que estão inseridas no nosso contexto cultural. A infância da contemporaneidade sofreu algumas mudanças devido os avanços tecnológicos que trouxe uma nova comunicação e entretenimento rápido facilitando a interação entre as pessoas.

Diante da facilidade dos eletrônicos entrarem nas residências foram surgindo as mudanças em relação ao brincar, em seguida veio à internet que foi ganhando espaço no cotidiano das pessoas inclusive das crianças fazendo com que alguns brinquedos fossem menos usados sendo substituindo pelos eletrônicos.

Hoje as crianças estão muito ligadas à tecnologia, pois acabam deixando de fazer suas necessidades para ficar conectados a era digital. Deixam de ir ao banheiro, se alimentar, tomar banho e fazer as tarefas da escola para ficar em frente a um celular ou uma televisão, dando maior prioridade ao mundo virtual do que ao o real. Antes os pais presenteavam os filhos com boneco (a), bicicleta e carrinhos eram presentes certeiros, hoje esses brinquedos são substituídos por tablet, celular e computador.

As brincadeiras são ações praticadas pelas crianças que as levam a usarem o imaginário, desenvolvendo sua criatividade, imaginação, memorização e a oralidade ampliando sua capacidade de argumentação. O brincar se inicia desde o ventre da mãe, quando a criança começa a brincar com o cordão umbilical, assim o brincar faz parte de todas as fases da infância e é essencial no desenvolvimento cognitivo, motor, afetivo e social da criança, pois é através das brincadeiras que elas começam a ter uma relação social associando as brincadeiras com as coisas do mundo.

O brincar é importante no processo de desenvolvimento das crianças, pois é nessa atividade que elas desenvolvem a linguagem oral e começam a tomar suas próprias decisões. O brinquedo representa um papel importante na vida da criança, sendo uma forma de representar a criança na sociedade inserindo a criança no meio social através das brincadeiras buscando desenvolver sua cultura.

A socialização na infância acontece a partir do brincar desenvolvendo a relação social, daí a criança começa a interagir construindo e participando da cultura de forma lúdica. A cultura lúdica é construída através do brincar, resultando das experiências adquiridas pela a sociedade.

É a partir da ludicidade que as crianças conseguem ter uma interação com outras pessoas, é nesse primeiro momento que é dado o alcance dos objetivos das atividades desenvolvidas.

As atividades lúdicas disseminam de maneira simples e informal a nossa cultura, desenvolvendo na criança a capacidade de compreender como vivemos, de se identificar e assimilar comportamentos e regras sociais que os constituem e os fazem pertencer a um grupo.

É importante ressaltar que a infância é um ciclo da vida que é curto, mas que deve ser aproveitado da melhor maneira que uma criança pode encontrar seja brincando ou fazendo amizades na sociedade para a fase adulta.

 

Homero Costa: Decadência democrática e em defesa de uma Frente Única Democrática

Em 2017 Richard Wike, Katie Simmons, Bruce Stokes e Janell Fetterolf publicaram o artigo “Many Unhappy with Current Political Systems” (Pew Reseach Center), resultado de uma pesquisa na qual afirmam que o público, em todo mundo, está, em geral, insatisfeito com o funcionamento dos sistemas políticos das suas nações e que mais de 50% dos norte-americanos estavam insatisfeitos com a sua democracia, “tal como a maioria dos cidadãos no sul da Europa, do Médio Oriente e na América Latina”.

Esses dados são também constatados com outras pesquisas, como as do  Instituto V-Dem(Instituto de pesquisa independente, criado em 2014  e com sede  no Departamento de Ciência Política da Universidade de Gotemburgo, na Suécia) que na pesquisa V-Dem: Padrões Globais, Conhecimento Local, analisa o que chamam de Variedades da democracia (V-Dem),  uma nova abordagem para conceituar e medir a democracia. Fornecendo um conjunto de dados multidimensional e desagregado afirma que a democracia  vai além da realização de eleições periódicas. Na pesquisa, foram definidos cinco tipos  de democracia: eleitoral, liberal, participativa, deliberativa e igualitári e constatou-se o que os autores chamaram de decadência democrática. Ao medir empiricamente a qualidade de democracias no mundo, constata que houve em alguns países, o Brasil incluído,  “preocupantes refluxos democráticos” ( https://www.v-dem.net/en/.).

Segundo a pesquisa, o mundo está enfrentando um processo de autocratização. Os atributos do regime democrático liberal foram se corroendo gradualmente em 24 países nos últimos dez anos. Na maioria desses países os populistas de direita levaram seus países à “direção mais autocrática”. E os atores fazem uma pergunta relevante: as forças pró-democracia serão bem-sucedidas em recuperar forças ou estamos em uma onda de autocratização em longo prazo?

Uma expressiva bibliografia tem sido produzida no momento para tentar compreender a decadência democrática, ou seja, a degradação das estruturas e da substância da democracia constitucional liberal.

Entre outros podemos citar o livro Como as democracias morrem de Steve Levitsky e Daniel Ziblat (Editora Zahar, 2018) o qual, em que pese reduções simplificadoras como colocar na mesma categoria Hugo Chávez e Adolf Hitler (p.15 e 16) fazem uma análise sobre a estrutura das democracias constitucionais atuais e suas “normas implícitas”. Para eles, o desprezo pela tolerância mútua e pelo que chamam de “parcimônia institucional”, provocam sérios danos as democracias, sem que seja necessário apelar para afrontas mais explícitas ao sistema constitucional.

São complexos e amplos os perigos para a democracia no atual cenário mundial. Vão desde manipulações eleitorais, retrocessos autoritários, com o enfraquecimento ou eliminação de instituições que são base de sustentação das democracias.

Larry Diamond no livro O espírito da democracia (Editora Atuação, 2015)  se refere à existência de uma  recessão democrática, um aprofundamento do autoritarismo no mundo, inclusive em democracias mais consolidadas.

No livro O povo contra a democracia; por que nossa liberdade corre risco e como salvá-la de Yascha Mounk (Editora Companhia das Letras, 2019), afirma que a democracia liberal “mistura única de direitos individuais e soberania popular que há muito tempo caracteriza a maioria dos governos da América do norte e da Europa Ocidental” está se desmanchando.

O entendimento do autor é que a democracia liberal como um sistema político ao mesmo tempo liberal e democrático, protege os direitos individuais e traduz a opinião popular em políticas públicas. Mas que pode se desvirtuar de duas formas: podem ser iliberais, onde há uma subordinação das instituições aos caprichos do executivo ou por restringir os direitos das minorias que a desagradam e que a regimes liberais podem ser antidemocráticos, a despeito de contarem com eleições regulares e competitivas e que Isso tende a acontecer sobretudo em lugares onde o sistema político favorece de tal forma a elite que as eleições raramente servem para traduzira opinião popular em políticas púbicas.

Para ele, esta cola está perdendo aderência, e que duas formas de regime estão ganhando projeção: a democracia iliberal – que ele entende como democracia sem direitos (o que é uma contradição) e o liberalismo antidemocrático, ou direito sem democracia.

 Michael Löwy no artigo Neofascismo: um fenômeno planetário. O caso Bolsonaro inicia afirmando que se constata nos últimos anos “uma espetacular ascensão da extrema direita reacionária, autoritária e/ou “neofascista”, que já governa metade dos países em escala planetária: um fenômeno sem precedente desde os anos 1930. Alguns dos exemplos mais conhecidos: Trump (USA), Modi (Índia), Urban (Hungria), Erdogan (Turquia), ISIS (o Estado Islâmico), Duterte (Filipinas), e agora Bolsonaro (Brasil). Mas em vários outros países temos governos próximos desta tendência, mesmo que sem uma definição tão explicita: Rússia (Putin), Israel (Netanyahu), Japão, (Shinzo Abe), Áustria, Polônia, Birmânia, Colômbia, etc.”.

Mas também destaca algumas diferenças importantes.  Como o fato de que “Enquanto boa parte da extrema direita, em particular na Europa, denuncia a globalização neoliberal, em nome do protecionismo, do nacionalismo econômico e do combate à “finança internacional”, no caso do Brasil, se “propõe um programa econômico ultraliberal, com mais globalização, mais mercado, mais privatizações, além de um completo alinhamento com o Império norte-americano”.

No Brasil, não faltam sinais e atos que indicam o caminho em direção à decadência democrática. Um governo que não cessa de levar adiante uma “guerra ideológica” contra seus adversários, considerados como inimigos, com o uso desmedido de decretos, medidas provisórias, ataques aos direitos sociais etc., que não tem sido respondido  com eficiência pelos demais poderes. Foi assim em relação aos decretos sobre posse e porte de armas, reformulados ao sabor de reações legislativas.  O que parece é não haver disposição para se enfrentar o projeto neoliberal e suas consequências.

Em relação à justiça, o que se espera do Poder Judiciário é que impeça qualquer arroubo autoritário em defesa do constitucionalismo de perfil social estruturado pela Constituição de 1988 e na sociedade civil como defende Michel Lowy há a necessidade imperiosa de construir amplas Frentes Únicas Democráticas e/ou Antifascistas para combater o que ele chama de “onda da Peste Marrom”. Mas, salienta “não podemos deixar de levar em conta que o sistema capitalista, sobretudo nos períodos de crise, produz e reproduz constantemente fenômenos como o fascismo, o racismo, os golpes de estado e as ditaduras militares. A raiz desses fenômenos é sistêmica e seu combate só pode ser também sistêmico (radical e antissistêmica). Um grande e inadiável desafio.

Homero Costa Homero Costa, cientista político e professor da UFRN

 

 

Paiva Neto: Vida após a morte e o enfrentamento do luto

A morte é um fenômeno natural da vida e exige adaptações tanto para aqueles que retornam ao Plano Espiritual quanto para os que permanecem na Terra. A saudade manifesta-se neste lado da existência, bem como no de lá, porque o sentimento de Amor Fraterno mantém as Almas interligadas. O luto é um processo que precisa ser respeitado. É humano. Devemos oferecer compreensão e apoio para que ninguém se sinta sozinho nesse instante. Todavia, sempre cordialmente orientamos que não se cultive vibrações de tristeza, pois isso também alcança o Espírito que está em recuperação, estando ela ou ele muito mais sensível àquilo que lhe transmitem. Daí a necessidade de nos recordarmos com muito carinho daqueles que nos antecederam à Grande Pátria da Verdade, resgatando as memórias felizes, fazendo com que recebam de nós somente o melhor de que dispomos no coração. Certamente, isso nos abastecerá e nos tornará fortes para suplantar quaisquer adversidades no caminho. Ter essa certeza de que as pessoas que tanto amamos prosseguem suas jornadas no Além* nos capacita a atravessar esses momentos.

A fim de que sejam amainadas as dores do coração, estas fortalecedoras palavras de Jesus para vencermos com o Amparo Bendito Dele: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, que sou pacífico e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas Almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Evangelho, segundo Mateus, 11:28 a 30).

Especialistas da área da saúde vêm aprimorando seus conhecimentos para eficientemente socorrer aqueles que se defrontam com alguma situação de desafio. O termo utilizado no meio é coping, cuja tradução literal é lutar com sucesso, enfrentar. Um dos aspectos que têm sido investigados diz respeito ao papel da crença na vida após a morte e de que forma ela se expressa diante de um falecimento.

A Super Rede Boa Vontade de Comunicação (rádio, TV, internet e publicações) entrevistou, com exclusividade, um dos mais renomados estudiosos da interação entre Espiritualidade e Psicologia, o qual trouxe consideráveis análises sobre a influência da Religião na saúde mental. Trata-se do dr. Kenneth Pargament, professor emérito de Psicologia da Universidade Estadual de Bowling Green (Ohio, EUA), autor do livro The Psychology of Religion and Coping: Theory, Research, Practice [A Psicologia da Religião e coping: teoria, pesquisa e prática]. Na ocasião, ele explicou: “Pessoas que acreditam na vida após a morte frequentemente se apoiam e se sustentam nessa crença. Um dos elementos mais importantes dela é a sensação ou o saber de que aqueles que morreram antes de nós ainda estão presentes e que podemos nos conectar a eles, podemos sentir seus pensamentos carinhosos e, às vezes, seus conselhos. Algumas pessoas às vezes têm a sensação de que seus entes queridos estão conversando com elas. Isso não é um sinal de psicopatologia ou de loucura. É algo muito natural e normal. De fato, pesquisas apontam que muitas pessoas têm experiências de conexão com aqueles que já morreram. (…) Eu tive uma paciente que estava se sentindo muito isolada e sozinha no hospital. Ela não tinha família nem amigos, e seus pais haviam morrido há alguns anos. Ela estava muito desolada, muito chateada. E em outra ocasião em que a vi no hospital, ela parecia muito melhor. Eu disse: ‘Você está melhor. O que está acontecendo?’ E ela disse que numa noite estava dormindo e, quando acordou, viu seus pais. Estavam ao lado dela e seguravam a sua mão, dizendo que a amavam e que estariam com ela. E essa paciente não apresentava nenhum sinal de psicose ou problemas psicológicos relevantes. Foi uma experiência espiritual muito poderosa e significativa para ela”. (Os destaques são meus.)

Tendo produzido centenas de artigos científicos acerca de Espiritualidade, Religião e Psicologia, e levando em conta sua vivência clínica, o dr. Pargament conclui ser imprescindível considerar a dimensão espiritual dos seres humanos: “Não somos apenas seres físicos, sociais e psicológicos. Somos seres espirituais. E descobrimos isso quando prestamos mais atenção a essa dimensão e quando a integramos na maneira como vemos as pessoas. A Espiritualidade não está separada do restante da vida, mas está entrelaçada nas dimensões dela: está entrelaçada na Biologia, na Psicologia, nos relacionamentos… E quando olhamos para as pessoas como seres completos, humanos, biopsicossociais e espirituais, aumentamos nossas capacidades para ajudá-las a lidarem com essa gama de desafios e problemas da vida”. (Os destaques são meus.)

Minhas Amigas e meus Irmãos, minhas Irmãs e meus Amigos, o Mundo Espiritual, gosto de reiterar, não é algo abstrato, indefinido. Ele realmente existe, pleno de vibração e trabalho. Não o vemos ainda por uma questão de frequência — obstáculo a ser desvendado pela competente atividade científica e suplantado pela evolução dos sentidos físicos, que se abrirão para novos céus e novos mundos.

Quando Jesus afirma “meu Pai não cessa de trabalhar, e Eu com Ele. (…) Na casa de meu Pai há muitas moradas; se assim não fosse, Eu vos teria dito. Vou preparar-vos lugar” (Boa Nova, segundo João, 5:17 e 14:2), estabelecem-se, de forma clara, na palavra do Divino Pedagogo, a existência e a atuação ativa, militante, do Mundo Espiritual sobre o material, por meio, por exemplo, dos Anjos Guardiães. Desse modo, é necessário que todos estejamos conscientes de tal intercâmbio e saibamos lidar com essa realidade ainda invisível, tornando-a aliada na superação de dificuldades, seja de ordem pessoal — no campo espiritual, emocional ou psicológico —, seja de ordem coletiva — na resolução de problemas mundiais.

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

[email protected] — www.boavontade.com

Nota de Paiva Netto

“… prosseguem suas jornadas no Além” — No capítulo “Vozes eletrônicas do Além”, de meu livro Os mortos não morrem, transcrevo impressionante experiência de transcomunicação instrumental (TCI) narrada pelo consagrado escritor Coelho Neto, que nos fala da mudança ocorrida na vida de sua filha Júlia, de sua esposa e dele próprio, ao se depararem com a certeza da sobrevivência da Alma de sua neta, Esther. Ele próprio narra ao final: “o que era esperança tornou-se certeza, absoluta certeza…”.

O Perdão Para Quem Nunca Errou – Jeane Meire

A leitura inicia como um coração que começa a bater naquele momento. Abrem-se os olhos e “Contempla!”. O leitor é inserido em um organismo. E quando Ulisses e Helena se entregam parece que ali geram um filho. O livro.

O ser vivo ganha corpo nas histórias de Marco. Um estilo épico do heroico, sem o herói. Assim como as aventuras de Ulisses, ou de Polo, Marco, um nome italiano, também tem sua história narrada através das maravilhas de Veneza, Solária e Cálida. As duas últimas, cidades fictícias.

Logo que se fez a vida, faz-se a morte. A narrativa não segue a estrutura aristotélica do início meio e fim. A cronologia dos atos é feita pelo interlocutor que começa a montar um quebra-cabeça das lembranças do nosso protagonista. Personagem extraordinário, o cardiologista sonha, ou sonhou, em ser o melhor médico do mundo. Seria esse o obstáculo principal do roteiro a ser enfrentado pelo nosso doutor?!

A escrita muda de ritmo, alternando entre grandes parágrafos, destinados para descrever ambientes e situar o leitor, e pouquíssimas palavras nos diálogos para criar uma atmosfera de mesa cirúrgica. Além de uma atenção peculiar ao descrever cores e texturas. O leitor consegue pintar um quadro na mente ao fechar os olhos. O livro gera uma expectativa dupla, prepara o leitor para o erro, justificando uma das principais características do ser humano. Mas o nosso protagonista é preparado para não errar em uma mesa de cirurgia. Teria ele a mesma aptidão no amor!?

A obra que traz um humor leve não foge do romance, e apesar desses conflitos espirituais, Marco ama. A história segue então descrevendo a relação do cardiologista com a dermatologista Lara, o momento em que se conheceram, na faculdade, longe de Cálida. As férias na cidade praiana de Solária. A criação dos filhos, Pedro e Vitória.

O cotidiano do cardiologista é agitado. A relação paciente e medico é explorada no início do livro e alguns questionamentos são levantados. Conflitos e paradigmas de dentro da medicina, sobre a frieza de/do ser médico, e do amor à profissão e ao servir. A obra levanta questões do ímpeto humano, o íntimo, o ínfimo da alma. Traz valores religiosos, morais, familiares e sociais. Ao mesmo tempo em que critica o momento atual e a frieza das relações, com a distância e as novas tecnologias, apresenta um protagonista em conflito consigo mesmo.

Algo dentro de Marco aparece para ameaçar a família. Algo pequeno, como uma aranha que surge na sala da casa, à noite, enquanto todos dormem. E Marco não soube matar este sentimento tão bem quanto consegue manejar o álcool para subjugar o inseto. Momento na trama em que o fogo aparece pela primeira vez.

O anti-herói pode gerar identificação com médicos ou pessoas que tiveram uma a ascensão parecida, mas pessoas que erram ou erraram na vida dos filhos, dos amores ou consigo mesmas também poderão se identificar. Lara representa uma parcela de mulheres. Vitória, sua filha, representa o julgamento, e Pedro, o filho mais novo, seria a pedra, o perdão, aqueles que perdoam.

Marco se muda para Veneza tentando fugir das memórias. Em um espetáculo da Companhia Escarcéu de teatro, em Mossoró, a cigana Romani grita “o passado só serve para perturbar espírito.” E é em forma de Cigana que o passado de Marco se personifica. E o segue até as ruas da Itália.

Cálida poderia ser Mossoró – significa calor, quentura –  Solária poderia ser uma Tibau, cidade cheia no verão, com festas até amanhecer e marchinhas de carnaval  e arlequins de fevereiro que perturbam o sono de quem dorme na varanda, seja sonho ou não.

Fica a curiosidade do que acontece com os outros amigos de Marco durante a vida. Talvez seja proposital. Por mais que haja uma relação de intimidade com os pacientes, Marco não demonstrou se importar ao deixar de visitar uma senhora que o considerava como filho.  Mas ajuda a uma prostituta com quem nunca teve relação carnal. A história inacabada dos outros ou da relação do personagem com eles desperta um interesse, mas nada que nos impeça de viver por causa dessas questões não elucidadas.

A inquietação do destino de Antônio ou de Ana, amigos de faculdade que desaparecem, sem justificativa, da vida de Marco, vai me acompanhar por menos tempo do que o próprio destino esmiuçado do protagonista. Subentendo que a relação sofreu desgastes, assim como, e talvez pelo mesmo motivo, o relacionamento com os filhos, mais com Vitória.

A frase “somente os bons se vão em dias de chuva” entra em contraste com o fogo, mas ambos os elementos podem purificar uma alma tão perturbada pelos próprios pensamentos e fantasmas. Apoteose, por absolvição dos pecados, ou punição!? No fim, sem spoiler, Marco se encontra com Pedro, na Basílica. Encontro ilustrado na capa do livro Água de Chloé. Resta saber se seus pecados são purificados, seja através das águas da chuva, das lágrimas dele e do filho ou pelo calor de suas lembranças.

Eu li Água de Chloé, de João Paulo de Medeiros, através dos elementos que o livro me dá. Mas assim como Lara e Marco na brincadeira de adivinhar a vida das pessoas a quem observavam, eu não tenho a menor pretensão de saber se acertei. Gosto de imaginar que algumas cenas são lembranças do autor da infância, adolescência, vida vivida. Gosto de imaginar, mas nunca saber de verdade.

Se colocássemos um monitor cárdico enquanto lemos o livro talvez pudéssemos perceber o ritmo dos nossos batimentos acompanhando os momentos de inércia e contemplação com os momentos de angústia e tensão. A música que toca começa lenta, mas os bips aceleram em alguns momentos. A escrita nos proporciona isso. João Paulo de Medeiros, como bom cardiologista que é, consegue controlar bem a pulsão do seu leitor.

O Escritor

 

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João Paulo é formado em medicina Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com residência médica em São Paulo. Especialista em Clínica Médica, Cardiologia e é professor do curso de Medicina da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (FACS/UERN). Atua no Instituto Wilson Rosado. Publicou um livro de ensaios em 2016, Impressão, Índigo, uma coletânea de poemas em 2018, Púrpura e agora lança o romance Água de Chloé.

O Lançamento

Dia 01/11. Às 19h.Na XV Feira do Livro Mossoró – Livraria Arte e Saber – Partage Shopping Mossoró.

ÁGATHA, A MENINA DE 0ITO ANOS

O trágico período absolutista de nossa história deu os primeiros passos da desigualdade, da injustiça, da discriminação social que viria mais tarde prosperar tanto com o que está acontecendo nos dias hoje, com a guerra civil declarada como violência suicida.

A sociedade em geral, apavorada com o que acontece a todo instante, assaltos capitaneados por outras mazelas que azucrinam a sociedade, conduz esta ao desatino de vida, sem saber onde e quando tem sua vida exumada. Se vai para suas obrigações, sai de casa e não sabe se volta, e, se volta, não sabe como vai encontrar sua casa, ou se vai encontrar tudo em desordem, o que mais das vezes encontra em destroços. É um verdadeiro latrocínio humano que invade a consciência e os lares de todos.

Os governos, sem pensar nas razões por que isso acontece, munem-se de armas e munição para combater os males que eles próprios criaram e mantém como instrumento escravizador da consciência humana.

Os poderes públicos jamais querem entender que esses males são obra suas, construídas no arcabouço das velhas gerações do absolutismo e conservadas entre as elites capitalistas até os dias atuais. Os favelados são fruto desse quadro discriminativo e injusto da sociedade que os tornaram marginalizados, sem condições de moradia, saúde, educação, obrigando-os a qualquer situação de vida.

Hoje estas discriminadas almas humanas se constituem num celeiro de mortandade, jovens, velhos e, enfim, as almas inocentes, principalmente crianças, que são vitimas até hoje dessa desigualdade praticada por uma sociedade elitista dominante.

A menina de oito anos lá do Rio de Janeiro, Agatha, foi mais uma vitima dessa terrível sociedade brasileira que, escondida no sinônimo de Democracia, elimina a vida de almas inocentes em nome de um equivocado combate à violência, cuja autora é ela própria.

É apenas um começo de um desgraçado fim.

 

Wilson Bezerra

 

A eternização da votação uninominal e lista tríplice

Alguns assuntos são cíclicos. Surgem e ressurgem ao arbítrio das circunstâncias, ou mesmo de fatos novos também cíclicos do nosso cotidiano. As discussões em torno da lista tríplice voltaram à tona recentemente quando o atual presidente da república resolveu não empossar reitores que tinham sido eleitos em algumas universidades federais, uma atitude tida como antidemocrática, mas amparado inclusive pela legislação. Outra anomalia é a votação uninominal, que permite ao eleitor votar no cabeça de uma chapa e no vice da chapa opositora, algo impensado em quem entende minimamente de gestão, mas que figura na norma jurídica e se eterniza nas universidades.

No ano de 1968, coincidentemente conhecido como o ano que não terminou, foi promulgada a Lei Federal n° 5.540/68 que trata das normas das universidades brasileiras. Uma época conturbada com protestos contra a ditadura militar, opressão à mulher, em favor da liberdade, protestos enfim dos mais diversos na sociedade brasileira. Este ano foi o palco do nascimento de uma deturpação do pluralismo de ideias, que existe e deve existir dentro das universidades. Em nome deste pluralismo nasceram duas anomalias, hoje defendidas por poucos cujos efeitos nocivos são brutais, uma chamada de votação uninominal, e outra de lista tríplice.

Praticamente 99% dos dispositivos desta lei de 68 já foram alterados por outras que se seguiram. Porém, o artigo nº 16, inciso I, da Lei Federal n° 5.540/68 foi modificado para a seguinte redação: “Art. 16. A nomeação de Reitores e Vice-Reitores de universidades, e de Diretores e Vice-Diretores de unidades universitárias e de estabelecimentos isolados de ensino superior obedecerá ao seguinte: I – o Reitor e o Vice-Reitor de universidade federal serão nomeados pelo Presidente da República e escolhidos entre professores dos dois níveis mais elevados da carreira ou que possuam título de doutor, cujos nomes figurem em listas tríplices organizadas pelo respectivo colegiado máximo, ou outro colegiado que o englobe, instituído especificamente para este fim, sendo a votação uninominal” (Redação dada pela Lei nº 9.192, de 1995).

Curiosamente hoje, mais de duas décadas depois, recebemos a notícia da publicação do novo estatuto da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN, aprovado pela Resolução Nº 19/2019 – CONSUNI, de 10 de setembro de 2019, que tão somente reedita e eterniza em seu artigo 19 a votação uninominal e a bendita lista tríplice. Não era pra existir lista tríplice, se foi eleito um reitor e um vice-reitor que figure o nome destes dois para o chefe do executivo os nomear, ponto. Ou seja, no dia em que um governador quiser pensar como o atual presidente da república, simplesmente não nomeia o reitor eleito, empossa quem quiser desde que figure na bendita lista tríplice. Esta prerrogativa torna-se, absurdamente, imexível como diria Antonio Rogério Magri, então ministro do Trabalho da gestão do Presidente Fernando Collor de Melo.

Quem entende minimamente de administração, de gestão, das entranhas e da forma de gerenciamento das instituições públicas sabe o quão danoso, pernicioso, negativo, é a existência de dois chefes maiores com pensamentos diferentes quanto aos rumos dados no tocante ao processo de tomada de decisões, e também da possibilidade de existência de um líder maior nomeado que não tenha sido eleito democraticamente por sua comunidade. Se administrar uma universidade pública com poucos e limitados recursos é complicado, imagine o ilustre leitor com um reitor nomeado sem ter sido eleito pela comunidade, o estrago da institucionalização do autoritarismo e eternização do conflito. Ou mesmo, noutro aspecto, com um vice pensando, atuando, agindo e praticando atos contrários aos do reitor! Não devemos ser como o sacerdote sem vocação que diz “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

No âmbito acadêmico as votações giram, ou deveriam girar em torno de projetos para a universidade. Não se vota, não se deve votar em projetos individuais, que fazem uso de um dispositivo de uma lei de 1968 que ainda está “imexível” por conta do entendimento de nossos legisladores que não modernizam as leis, e porque é interessante para uns poucos esta possibilidade de vermos fracassarem os projetos de universidade, para a perpetuação dos argumentos cansativos e ridículos de que é para privatizar tudo.

Cabe a cada um de nós, por fim, uma reflexão sobre aquilo que pensamos, falamos e agimos em benefício de nós mesmos ou da coletividade. Cabe também pressionar nossos representantes para darem um pouco de atenção contra estas duas anomalias do voto uninominal e da lista tríplice nas universidades públicas. Ninguém em saudável consciência compreenderá que isso é positivo para a gestão universitária, para as instituições que educam nossa juventude. Por que o presidente Jair Bolsonaro  não tem alguém do PSOL ou do PT como vice-presidente? Já imaginaram como seria o Brasil, de dimensões continentais, ser gerenciado desta maneira, com seu presidente agindo de uma forma, e quando viajasse para o exterior o vice-presidente assumisse, demitisse ministro etc; desfazendo tudo o que o titular tinha feito? O que seria do nosso amado Brasil? Impensável, certo? Na universidade pública no Brasil e no RN isto não é só possível acontecer um dia, como está previsto legalmente, e ninguém diz nada sobre o assunto. É esta a reflexão que reeditamos, ainda, em tempo hábil.

 

Auris Martins de Oliveira é Professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN.

Médica de Alma

Médica de Alma

Reze o senhor por essa minha alma. Guimarães Rosa já dizia. Uma alma que sente e chora. Que clama e aclama.

Que sofre junto com aqueles de quem deveria cuidar. E cuida!Que sabe bem onde está, e por quê.

Que recebe e abraça. Faz graça! Que examina e se contamina, de fé. Deus te abençoe, minha filha! Escuto sempre.

Que toca o outro, com a ponta dos dedos ou do bisturi. Que vê por dentro, e quer entrar. Como sair da vida dos que me aparecem?

Que peca, por excesso de preocupação e falta de tempo. Tempo pra si! Que sente saudade, mas sabe que enche de orgulho os olhos dos pais.

Uma alma que tem o peito aberto e as mãos firmes. Que segura uma vida e se despede de outra. Insegura de que é assim que tem que ser. Tão difícil encontrar com a morte!

Que é digna de compaixão e reconhecimento. Que implora por humildade e hombridade política. O sistema carece, em prece!

Que é corajosa, por enfrentar esse mundo doente todos os dias. Que tem medo, mas não perde a esperança. Como viver sem?

Que é nobre, e se sente pequena perto de quem dela precisa. Que leva para casa dores que não são suas. E dói!

Que carrega um jaleco cansado, e com cheiro de dever cumprido.

Que é humana, mas não aprendeu isso com os livros. Que escolhe persistir, sempre e mais um pouco.

Que é abençoada, e demasiado grata. Em cada dedicação, uma oração!

Uma alma que veste apenas ela mesma, quase sempre. Que divide com as palavras o que não cabe dentro de si.

Que escolheu a medicina. Ou será que foi escolhida por ela?

Reze o senhor por essa minha alma.

Por que lá no sertão já diziam que ‘amor é a gente querendo achar o que é da gente’. Eu achei o que é meu, sô! Essa coisa de ser médica de alma.

Por que só de corpo, sei não.