segunda-feira , 16 de julho de 2018
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Indícios no RN de políticos “mercenários” e falsos “moralistas”, alegando coerência para encher os bolsos com o fundo eleitoral

Bolso aberto para juntar moedas do fundo eleitoral

No Rio Grande do Norte estão sendo comentados vários casos do chamado “golpe da fidelidade partidária” para extorquir dinheiro público do fundo eleitoral.

Trata-se do seguinte: o candidato (ou preposto) propaga que é ultra ético, honesto, coerente e não pede dinheiro em troca de apoio político.

Por tal razão, esses tipos hipócritas, alardeiam que não deixarão o partido em que estão inscritos há anos.

Para valorizarem-se divulgam convites “falsos” e promessas de ajudas milionárias, tudo recusado em nome da coerencia. .

Repita-se: pura hipocrisia.

O objetivo verdadeiro desse comportamento é “colocar a corda no pescoço” do “dono do partido” e exigir milhões e milhões  em cotas do fundo eleitoral, que no total chegará a quase 2 bi.

Isso acontece desde o MDB, DEM, PSDB, PT – partidos maiores-, até os menores que no rateio ficam com boas fatias.

Sabe-se nos bastidores que no RN existem vários exemplos, desses “mercenários” da política, que enchem os bolsos nas eleições, por mais que se fale em moralidade.

É a hora do MP, PF e justiça agirem com rigor, em busca de indícios que se confirmem nas investigações, para punições exemplares.

Até nas lições cristãs há exemplos da indignação de Jesus, diante da hipocrisia daqueles que frequentavam templos sagrados e somente se preocupavam em amealhar “moedas”.

O fato compara-se aos “falsos honestos” que pousam de éticos nesta eleição de 2018 e frequentam os partidos políticos  – verdadeiros templos da Democracia – unicamente para extorquir dinheiro do fundo eleitoral, que vem dos impostos coletivos.

O evangelho de João  2,13-25 descreve Jesus no Templo, quando   encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados.

Diante do quadro de exploração, Jesus fez um chicote de cordas e expulsou todos do Templo.

Na eleição de 2018, o exemplo de Jesus deve ser seguido pelo eleitor, para afastar dos mandatos eletivos todos aqueles que no RN e no país procedem dessa forma.

Se o eleitor assim não agir, será cúmplice da desonestidade dos hipócritas e falsos moralistas da política.

Nomes existem.

Do Blo Ney Lopes

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o XV Domingo do Tempo Comum

O Evangelho deste décimo quinto domingo do tempo comum é Mc 6,7-13, texto que apresenta o envio missionário dos Doze por Jesus. Esse texto é apresentado pelo evangelista como a resposta de Jesus à rejeição sofrida em sua terra natal, Nazaré (cf. Mc 6,1-6), como refletimos no domingo passado. Ao sentir-se rejeitado enquanto portador da Boa Nova de Deus, e até ridicularizado, como foi, a reação de Jesus não foi de desespero, nem de condenação, mas uma tomada de consciência de que havia muito mais a ser feito, os esforços deveriam ser dobrados daquele momento em diante. Era necessário que a missão fosse ampliada com urgência. Jesus tinha consciência de que aquela lamentável rejeição em Nazaré, marcada pela incredulidade dos seus habitantes na sinagoga, não era um caso isolado, mas um retrato de todo o Israel. Por isso, enviou os Doze para que sua missão se expandisse e os sinais do Reino de Deus frutificassem mais rápido, tendo em vista a necessidade urgente: Israel padecia e não havia mais razão para retardar o advento do Reino.

Ainda a nível de contexto, é importante recordar que Jesus constituiu os Doze com duas finalidades: “E constituiu Doze, para que ficassem com ele, e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3,14). Ora até aqui, no capítulo sexto, os Doze tinham apenas estado com Jesus, acompanhando-o na sua itinerância, escutando sua pregação e observando os sinais operados. O episódio de Nazaré faz Jesus perceber que era chegado o momento de enviá-los, pois a necessidade era grande. Jesus sabia que eles ainda não estavam totalmente prontos, pois no prosseguimento do Evangelho lhes fará diversas correções e advertências pelas incoerências percebidas (cf. Mc 8,33; 10,35). No entanto, era necessário fazer um primeiro teste, tendo em vista as exigências das circunstâncias.

Ao invés de fechar-se diante da rejeição sofrida, Jesus toma consciência da necessidade de ampliar a sua missão, por isso, “chamou os Doze, e começou a enviá-los dois a dois” (v. 7a). Certamente, na Galileia havia muitos outros povoados com gente fechada e incrédula como em Nazaré. O envio dos discípulos visa fazer a Boa Nova do Reino chegar a mais lugares simultaneamente. Jesus os envia dois a dois para enfatizar a dimensão comunitária da fé. Conforme a mentalidade judaica, para um acontecimento importante ser confirmado, era necessário o testemunho de pelo menos duas pessoas. Porém, para Jesus e sua comunidade, o mais importante aqui era a dimensão comunitária da vivência da fé. Não há razão alguma para individualismos na comunidade cristã; a fé deve ser vivida e testemunhada em espírito de partilha, ou seja, comunitariamente. Andando dois a dois, os discípulos tem mais possibilidades de recordarem que os dons do Reino não são propriedade deles, mas pertencem a Deus.

Jesus confere aos discípulos os mesmos dons que recebeu do Pai, e os capacita a tornarem real a sua própria presença durante a missão: “dando-lhes poder sobre os espíritos impuros” (v. 7b). Esses espírito impuros são todas as forças do mal presentes no mundo que geram violência, injustiça, exclusão, morte e preconceito; é tudo o que impede o ser humano de uma relação saudável com o Deus da vida e com o próximo e consigo mesmo; por isso, se constituem como obstáculos à realização do Reino de Deus. Muitas vezes, esses elementos eram criados pela própria religião, como a segregação e condenação por doenças físicas e psíquicas. O poder (em grego: ekzussia) conferido sobre tudo isso é o mesmo que o próprio Jesus já exercia. Não é um poder de domínio sobre as pessoas, mas o contrário: é o poder de combater tudo o que escraviza e priva o ser humano de sua liberdade e dignidade plenas.

O envio compreende algumas recomendações, das quais depende o êxito da missão: “Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas” (vv. 8-9). A austeridade e simplicidade de vida é exigência indispensável para o cumprimento da missão conferida por Jesus. O discípulo não deve ter outra preocupação além da anúncio da Boa Nova, por isso deve deixar de lado tudo o que possa distraí-lo e torna-lo sobrecarregado. A sobriedade ajuda a manter o foco naquilo que é essencial, além de revelar total confiança na providência de Deus. Desprovidos de qualquer segurança e conforto, os discípulos missionários sentem a necessidade de adaptação ao que lhes for oferecido. Ao mandar que os discípulos andassem de sandálias, Jesus reforça o caráter itinerante da sua missão, apresentando-a como um constante caminhar. O lugar do discípulo não é o lar com seu conforto, mas a estrada com seus perigos e adversidades.

Escrito há cerca de três décadas após a morte e ressurreição de Jesus, o Evangelho segundo Marcos já reflete uma tendência preocupante para a comunidade cristã: o distanciamento do estilo de vida de Jesus em seus seguidores. Ao recordar essas recomendações de Jesus aos discípulos, o evangelista quis reforçar o que é essencial e chamar a atenção da comunidade para não se distanciar do modelo de vida Jesus propôs. Além do estilo de vida, o evangelista também se preocupava com outros elementos importantes que corriam o risco de desaparecer da comunidade, como a hospitalidade, por exemplo. Por isso, recordou também as palavras de Jesus sobre esse aspecto: “E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida” (v. 10). Aqui, além de chamar a atenção dos missionários para aceitarem o que lhes for oferecido como hospedagem, também se chama a atenção da comunidade para acolher os peregrinos e missionários em casa. Se estabelece, assim, uma reciprocidade na missão e na edificação do Reino. É necessária uma real inserção nas diversas realidades pelos discípulos, de modo que se sintam família na casa em que forem acolhidos, permanecendo nela enquanto estiverem no mesmo povoado. Permanecer quer dizer criar relações e laços duradouros. Da mesma forma, é necessário que as casas dos membros da comunidade estejam sempre disponíveis para a acolhida dos peregrinos e necessitados.

Tendo sido rejeitado em seu próprio povoado, Jesus via a rejeição como uma possibilidade bem concreta e possível, por isso, preveniu também os seus discípulos: “Se em alguma lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles” (v. 11). Essa recomendação reflete bem o momento vivido por Jesus em Nazaré. Ainda chocado (cf. Mt 6,6) com a rejeição ali recebida, Jesus alerta os discípulos a não insistirem, pois devem respeitar a liberdade das pessoas; o Reino é anunciado e oferecido, mas não pode ser imposto. Mais uma vez, o evangelista aproveita também essas mesmas palavras para combater a tendência na comunidade de afastar-se do princípio da hospitalidade. Todos devem estar disponível a acolher o peregrino, sobretudo, quando esse é portador da Boa Nova. O “testemunho contra”  não é uma forma de condenação, mas a confirmação de que o Evangelho foi proposto, porém foi rejeitado. As consequências para quem rejeita o Evangelho é viver privado do amor e da bondade de Deus, tão essenciais para o sentido da vida.

Dadas as instruções de envio, “Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem” (v. 12). Quanto ao conteúdo específico da pregação, o evangelista não entra em detalhes. Apenas diz que consistia num anúncio de conversão. Ora, conversão (em grego: metanoia) significa mudança de mentalidade e pensamento. A adesão aos valores do Evangelho exige rupturas com a maneira tradicional de pensar e compreender as coisas, inclusive a relação com Deus. Jesus percebeu em Nazaré que era urgente que aquele povo passasse por um processo de conversão, passando a uma jeito de novo de conceber o mundo, a vida e Deus. Por isso, enviando seus discípulos a outros povoados, propõe que todas as pessoas passem por esse processo. Com a mentalidade antiga conservadora, apegada à lei, era impossível acolher a novidade do Reino de Deus.

Imediatamente, o evangelista já antecipa o resultado da missão, por sinal, bastante positivo: “Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo” (v. 13). A principal razão para chegar a tais resultados é a fidelidade ao que foi recomendado. Quando a proposta de conversão proposta pelo Evangelho é aceita, os sinais do Reino de Deus se evidenciam. O evangelista pensa na sua comunidade, sobretudo: perseguições do império e hostilidade dos judeus. Com muita probabilidade, esse Evangelho segundo Marcos foi escrito em Roma, durante a perseguição de Nero. Era uma época em que o mal prevalecia explicitamente, e a ação dos cristãos parecia ter pouco efeito no combate. No entanto, se as palavras de Jesus forem realmente vividas, muitos resultados serão alcançados. O uso do óleo como um elemento medicinal e terapêutico era muito comum na antiguidade, e o cristianismo conservou essa tradição, adotando-o como elemento sacramental. Os doentes são, em Marcos, a síntese do necessitado e, por isso, destinatários privilegiados dos anunciadores da Boa Nova.

Ao ler e meditar hoje esse trecho do Evangelho segundo Marcos, a comunidade cristã é convidada a refletir sobre a sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus e a o seu envio, para recuperar aquilo que é realmente essencial à vida cristã. No mundo de hoje, marcado pelo individualismo e pela competitividade, não faltam questionamentos sobre a eficácia do anúncio cristão. A única resposta adequada a esses questionamentos é a coragem dos cristãos e cristãs para voltarem a viver à maneira de Jesus, como ele mesmo recomendou aos primeiros discípulos enviados.

Se em apenas três décadas após a morte de Jesus, Marcos percebeu que sua comunidade já dava sinais de distanciamento da sua proposta de vida, muito mais pode ser percebido depois de dois mil anos. Por isso, a necessidade de conversão é cada mais urgente. Que possamos, enquanto cristãos e cristãs, identificar os males que nos impedem de viver radicalmente o que Jesus propõe, para o Reino de Deus ser de novo experimento e vivido.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o XIV Domingo do Tempo Comum

Após uma interrupção de dois domingos seguidos, devido às duas solenidades (Natividade de São João Batista e Apóstolos São Pedro e São Paulo), a liturgia dominical do tempo comum retoma hoje o seu percurso normal com a leitura do Evangelho segundo Marcos. Para este décimo quarto domingo, o texto evangélico proposto é Mc 6,1-6, relato da passagem de Jesus por Nazaré, sua terra natal, e a consequente rejeição e descrédito da sua missão junto aos seus conterrâneos. Para uma melhor compreensão, é essencial fazermos uma pequena contextualização, principalmente devido à interrupção da leitura por duas semanas, como acenamos acima.

O texto possui uma localização estratégica: importantes acontecimentos o antecedem e o sucedem, o que lhe garante também um grau de importância fundamental para todo o Evangelho. É precedido por dois sinais extraordinários praticamente simultâneos: a cura da mulher hemorroíssa, cujo padecimento já durava doze anos, e a reanimação de uma menina de doze anos, filha de Jairo, chefe da sinagoga (cf. Mc 5,21-43). Após esses dois sinais, entrelaçados pelo número doze, o evangelista apresenta Jesus em Nazaré, decepcionado com a incredulidade dos seus conterrâneos (Mc 6,1-6), o texto adotado para a liturgia de hoje. Logo na sequência desse, vem o envio e a missão dos Doze (cf. Mc 6,7-13); a eles, Jesus dá algumas instruções e lhes confere autoridade sobre os espíritos impuros.

Podemos concluir, a nível de contexto, com o seguinte dado: após curar uma mulher de uma enfermidade que durava doze anos, e reavivar uma menina de doze anos, Jesus percebe, na incredulidade dos seus conterrâneos na sinagoga de Nazaré, que o verdadeiro enfermo era Israel com suas tradições, seus costumes e suas concepções de mundo; isso se evidencia pela marca de doze anos nos dois casos. Em Nazaré, Jesus faz o diagnóstico dessa enfermidade crônica de Israel, e percebe que somente o Evangelho, ou seja, a sua proposta de vida, poderia sanar Israel dessa enfermidade, por isso, na sequência, ele enviou os Doze em missão.

Feita a contextualização, olhemos para o texto: “Naquele tempo, Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos o acompanharam” (v. 1). De início, já identificamos um equívoco na tradução litúrgica: o evangelista não emprega a palavra Nazaré, mas diz apenas que Jesus foi à sua terra ou pátria (em grego: patrís), embora saibamos que era Nazaré a sua terra. No entanto, a ausência do nome Nazaré é proposital para o evangelista; com isso, ele amplia a dimensão do evento. O triste episódio de Nazaré é o retrato do que acontecia em todo o Israel: apego exagerado à tradição e fechamento aos sinais dos tempos. Da rejeição de uma aldeia, o evangelista prevê a rejeição futura de todo o país, o que levará Jesus à morte.

Jesus foi acompanhado de seus discípulos, a sua nova família, o que deve ter aumentado o choque nos nazarenos. A última cena em que o evangelista tinha feito referências a habitantes de Nazaré foi no conflito de Jesus com os seus familiares, incluindo a mãe, quando esses foram captura-lo em Cafarnaum, imaginando que ele estava louco (cf. Mc 3,20). Ali, diante dos familiares e da multidão, Jesus afirmou que a sua verdadeira família já não era mais determinada pela consanguinidade, mas somente pela prática da vontade de Deus e escuta da Palavra. Acompanhado dos discípulos, portanto, Jesus reafirma a necessidade de tornar-se seu discípulo para fazer parte da sua família.

Como de costume, também em Nazaré “Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga” (v. 2a). Marcos não menciona o conteúdo do ensinamento de Jesus, mas certamente é o mesmo que Lucas detalha (cf. Lc 4,16-27), até pelas reações suscitadas: “Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam: “De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria? E esses grandes milagres que são realizados por suas mãos?” (v. 2bc). Ao invés de “ficavam admirados”, a forma mais correta seria “ficavam chocados ou perturbados” (verbo grego ekplessomai). A tradução litúrgica empregou “ficavam admirados” para suavizar o texto. Ouvindo Jesus, seus conterrâneos questionam a origem da sua sabedoria, autoridade e conhecimento, bem como a sua capacidade de fazer coisas “diferentes”, os milagres. Não poderiam imaginar que alguém com suas características pudesse agir daquele modo. Para os habitantes da pequena Nazaré, era inaceitável que alguém proponha algo diferente do que sempre foi ensinado e feito.

Para fundamentar a crítica, os ouvintes de Jesus recordam sua profissão e sua origem: “Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco? E ficaram escandalizados por causa dele” (v. 3). O termo traduzido por carpinteiro (em grego: tekton) designa o artesão de um modo geral, e não apenas a pessoa que trabalha com madeira; essa era uma profissão comum nos vilarejos. Como era difícil a sobrevivência com apenas uma atividade, geralmente se fazia um pouco de tudo: trabalho com madeira e pedra para construção, principalmente. Citando os parentes conhecidos que moravam no vilarejo, os ouvintes reforçam a incompatibilidade entre a origem de Jesus e a sua atividade messiânica. Ora, o messias, o enviado de Deus para libertar o seu povo, era esperado há séculos em Israel. Mas esperava-se que ele tivesse outras características, como a força e a capacidade para a guerra, jamais que fosse uma pessoa comum e parente de gente simples. Logo, não poderia ser aquele carpinteiro.

A identificação como “filho de Maria”, pejorativa para a época, é mais um indicativo do desprezo recebido por Jesus; as pessoas eram identificadas a partir do nome do pai, autoridade do clã, mesmo que esse já tivesse morrido. O nome da mulher não tinha importância alguma para aquela sociedade. Chama-lo de “filho de Maria” equivalia a chama-lo de filho ilegítimo, o que seria um motivo a mais para não vê-lo como um enviado de Deus. Antes foram os parentes a considera-lo louco ou “fora de si” (cf. Mc 3,20), dessa vez é toda a comunidade a considera-lo assim. Ao invés de repetir o ensinamento da tradição, Jesus procurava apresentar um novo rosto de Deus; um Deus que já não se comunicava pela força, mas pela simplicidade, amor, acolhimento e justiça, por isso, “ficaram escandalizados”, ou seja, sentiam que Jesus estava mais atrapalhando do que ajudando-os a observarem a fé transmitida e ensinada pelos antepassados.

Até então, Jesus tinha recebido oposição severa das autoridades religiosas e da família, apenas. Do povo, em geral, tinha recebido boa aceitação por onde passava. Esse episódio de Nazaré apresenta a primeira oposição coletiva à sua mensagem. Para a mentalidade provinciana dos habitantes de Nazaré, o que deveria ter nas mãos de um carpinteiro seriam calos, e não capacidade de operar sinais extraordinários. Embora ali não tenha feito milagres (cf. v. 5), a sua fama já tinha chegado a Nazaré. Sendo Jesus uma pessoa simples, tendo crescido em um vilarejo simples, não era normal que ele tivesse tamanha sabedoria e, muito menos, que fosse o messias.

Jesus reage à oposição dos seus conterrâneos com um provérbio: “Um profeta só não é estimado em sua pátria, entre seus parentes e familiares” (v. 4). Para ele, não era surpresa um profeta ser rejeitado em sua terra, por parentes e conhecidos. Esse provérbio nasceu e amadureceu a partir da própria vivência dos profetas ao longo da história de Israel. Os principais exemplos dessa experiência de rejeição na própria terra foram Jeremias (cf. Jr 11,18-23; 12,6) e Ezequiel (cf. Ez 2,2-5). Ser rejeitado se torna a sina de quem permanece fiel a Deus e a missão por ele confiada.

A rejeição a Jesus bloqueia a ação salvífica de Deus. Por isso, “ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos”  (v. 5). Os milagres de Jesus não eram meras demonstrações de poder e força, mas comunicação com a humanidade, e isso exigia interação e reciprocidade através da fé. Jesus se sentiu bloqueado, não imune de força, mas impedido de interagir, porque o Deus que ele veio revelar é alguém que se comunica, se relaciona com o ser humano de modo pessoal, e não através de sinais grandiosos. A fé é adesão à sua proposta de vida.

Se a reação dos habitantes de Nazaré foi de perplexidade, também Jesus “admirou-se com a falta de fé deles” (v. 6a). A falta de fé é a incapacidade de adesão à sua mensagem; aqui, significa o fechamento e a dureza de coração, a insensatez. Diante da rejeição recebida, a resposta de Jesus é a missão: “Jesus percorria os povoados da redondeza, ensinando” (v. 6b). Como em Nazaré ele diagnosticou que Israel todo padecia, eis que reagiu a isso indo ao encontro de mais povoados, e enviando também os Doze com a mesma autoridade com que ele mesmo agia, como refletiremos no próximo domingo.

Os habitantes de Nazaré rejeitaram Jesus porque ele lhes apresentou um Deus acolhedor, misericordioso, justo e simples, fora dos esquemas apresentados pelas tradições de Israel. O Deus de Jesus não age pela força, nem pela imposição, mas se revela na simplicidade e na pequenez. O erro dos habitantes de Nazaré é repetido pelos cristãos quando imaginam e desejam uma Igreja triunfante, forte e poderosa. Que o Evangelho de hoje nos ajude a compreender e viver o que é essencial para a nossa fé, e a acolher a grandeza de Deus que se revela na pequenez.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para a Solenidade de São Pedro e São Paulo

Neste domingo em que celebramos a solenidade dos apóstolos Pedro e Paulo, a liturgia nos oferece Mateus 16,13-19 para o Evangelho, texto que contém a famosa confissão de fé de Pedro na região de Cesaréia de Filipe. Esse é um relato comum aos três Evangelhos Sinóticos (cf. Mt 16,13-19; Mc 8,27-30; Lc 9,18-21), embora a versão de Mateus apresente mais elementos próprios, o que lhe rendeu uma maior valorização na reflexão teológica ao longo dos séculos, sobretudo, no cristianismo católico.
A recordação dos apóstolos é sempre importante para a vida da Igreja, porque a ajuda a manter-se alinhada às suas origens, não obstante os desgastes históricos. Pedro e Paulo foram imprescindíveis para o cristianismo das origens conservar os ensinamentos de Jesus e, ao mesmo tempo, para se espalhar e crescer, extrapolando os limites culturais e geográficos do judaísmo e da Palestina. Olhando para o exemplo dos dois, a Igreja de hoje e de sempre é interpelada, cada vez mais, a renovar-se e edificar-se somente pela fé em Jesus Cristo, sem tomar como parâmetro nenhuma instituição terrena.
Antes de entrarmos na reflexão do texto em si, é necessário fazer algumas considerações a respeito do contexto do relato no conjunto do Evangelho. Esse trecho abre uma série de acontecimentos importantes da vida de Jesus e dos seus seguidores, como a transfiguração (cf. 17,1-7) e os dois primeiros anúncios da paixão (cf. 16,21-23; 17,22). Na verdade, podemos dizer que tais acontecimentos são consequência do episódio narrado no Evangelho de hoje, pois tanto a transfiguração quanto os anúncios da paixão são tentativas de Jesus revelar a sua verdadeira identidade, tendo em vista que os discípulos ainda não tinham tanta clareza dessa.
Recordamos o que sucede o nosso texto no conjunto do Evangelho, mas também não podemos deixar de recordar o que o antecede: uma controvérsia com os fariseus, os quais pediam sinais a Jesus (cf. 16,1-4), e uma séria advertência aos discípulos para não se deixarem contaminar pelo fermento dos fariseus e saduceus (cf. 16,5-12). Esse fermento era a mentalidade equivocada sobre Deus e o futuro messias e, principalmente, a hipocrisia em que viviam. Mateus recorda tudo isso porque, certamente, a sua comunidade passava por uma crise de identidade: por falta de clareza da identidade de Jesus e falta de experiência autêntica com o Crucificado-Ressuscitado, o “fermento dos fariseus”, quer dizer a influência da sinagoga, estava atrapalhando a vivência das bem-aventuranças, e impedindo a realização do Reino dos céus naquela comunidade.
Agora podemos, portanto, direcionar nosso olhar para o texto que a liturgia nos oferece: “Jesus foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: ‘Quem dizem os homens ser o Filho do homem?’” (v. 13). O texto começa com um indicativo espacial: Cesaréia de Filipe estava localizada no extremo norte de Israel, portanto, muito longe de Jerusalém. Como o próprio nome indica (homenagem a César), era um centro do poder imperial e, portanto, lugar de culto ao imperador romano. Certamente o evangelista e sua comunidade tinham um propósito muito claro ao narrar esse episódio e recordar a sua localização.
Longe de Jerusalém, os discípulos estariam isentos de qualquer influência da tradição religiosa judaica, ou seja, livres do fermento dos fariseus e, portanto, aptos a confessarem e professarem livremente a fé em Jesus, fora dos esquemas tradicionais da religião. Ao mesmo tempo, estando em uma região de culto ao imperador, a confissão da fé em Jesus seria um sinal de convicção e adesão ao projeto do Reino dos céus e uma demonstração da coragem que deve marcar a vida da comunidade cristã, chamada a testemunhar a Boa Nova e continuar a obra de Jesus, mesmo em meio às hostilidades impostas pelo poder imperial. Podemos dizer que professar a fé em Jesus é distanciar-se dos esquemas religiosos do judaísmo e, ao mesmo tempo, desafiar qualquer sistema que não coloque a vida e o bem do ser humano em primeiro lugar, como o império romano.
A pergunta de Jesus sobre o que dizem a respeito de si, ou seja, do Filho do Homem, não é demonstração de preocupação com sua imagem pessoal, mas com a eficácia do anúncio da comunidade. Até então, Jesus já tinha realizado muitos sinais entre o povo e ensinado bastante, mas pouca gente o conhecia verdadeiramente. Muitos o seguiam pela novidade que Ele trazia, uns pelo seu jeito diferente de acolher os mais necessitados e excluídos, outros para aproveitarem-se dos sinais que Ele realizava. Ele percebia isso, por isso fez essa pergunta: “Que dizem os homens ser o Filho do Homem?” (v. 13b).
A resposta dos discípulos à pergunta de Jesus revela a falta de clareza que se tinha a respeito da sua identidade e, ao mesmo tempo, a boa reputação da qual ele já gozava diante do povo, certamente o povo simples, com quem Ele interagia e por quem lutava. Eis a resposta: “alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias, outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas” (v. 14). Sem dúvidas, Jesus estava bem-conceituado pelo povo, pois era reconhecido como um grande profeta. Mas Jesus é muito mais. Embora continuem sempre atuais, os profetas de Israel são personagens do passado. A comunidade cristã não pode ver Jesus como um personagem do passado que deixou um grande legado a ser lembrado. Isso impede a comunidade de fazer sua experiência com o Ressuscitado, presente e atuante na história.
A pergunta sobre o que as outras pessoas diziam a seu respeito foi apenas um pretexto. Na verdade, Jesus queria saber mesmo era o que seus discípulos pensavam de si. Por isso, lhes perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (v. 15), uma vez que longe do “fermento dos fariseus”, os discípulos poderiam dar uma resposta sincera, isenta e livre. O texto afirma que “Simão Pedro resp0ndeu: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (v. 16). Não resta dúvida que os demais discípulos componentes do grupo dos doze também responderam. O evangelista enfatiza a resposta de Pedro por ser uma síntese do pensamento dos doze. Essa é a resposta do grupo e, portanto, da comunidade.
A resposta é complexa e profunda: Jesus é Messias e Filho e do Deus vivo. É muito significativo que Ele seja reconhecido e acolhido como o Messias esperado, ou seja, o Cristo, o enviado de Deus para libertar o seu povo e a humanidade inteira. Como circulavam muitas imagens de messias entre o povo, principalmente a de um messias guerreiro e glorioso, o segundo elemento da resposta de Pedro é de extrema profundidade e importância: “o Filho do Deus vivo” (em grego: hó hiós tú Theú tú zontos). Além de definir a qualidade e especificidade do messianismo de Jesus, essa expressão serve também para denunciar a falsidade do culto ao imperador romano, o qual exigia ser reverenciado como filho de uma divindade.
Com a resposta de Pedro, a comunidade cristã é chamada a proclamar que Jesus é, de fato, o Cristo (termo mais fiel ao texto grego que Messias), é o Filho do Deus vivo, ou seja, seu Deus é o Deus da vida, enquanto os deuses pagãos cultuados no império romano e até mesmo o Deus oferecido pelo templo de Jerusalém eram privados de vida e agentes de morte, sobretudo para o povo simples e excluído. A convicção de que Jesus é o Filho do Deus vivo compromete a comunidade a denunciar e desafiar todos os sistemas, religiosos e políticos, que não favoreçam a promoção da liberdade e da vida plena e abundante para todos.
Jesus se alegra com a resposta de Pedro e o proclama bem-aventurado: “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu” (v. 17).  Não se trata de um elogio por um mérito particular de Pedro, até porque o conhecimento não é dele, mas do Pai que lhe revelou. O que Jesus faz é uma constatação: as coisas comecem a funcionar na comunidade, pois a voz do Pai está sendo ouvida; como o Pai só revela seus desígnios aos pequeninos (cf. 10,21), e Pedro está falando a partir do que o Pai lhe sugere, ele está demonstrando adesão plena ao projeto do Reino! O Reino de Deus ou dos céus, como Mateus prefere, é um projeto alternativo de mundo que só tem espaço para quem aceita a condição pertencer ao mundo dos pequeninos. A bem-aventurança de Pedro consiste em abrir-se à vontade do Pai e deixar-se conduzir por essa.
Na continuidade, Jesus declara: “Por isso eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (v. 18a). Jesus está declarando que Pedro está apto a participar da construção da sua comunidade, por estar aberto às intuições do Pai. Ao contrário da antiga religião judaica que precisava de um templo de pedras, a comunidade cristã é uma construção sim, mas pela sua coesão e unidade, por isso, na sua construção são necessárias pedras vivas. Pedro é uma destas pedras escolhidas por Jesus, a primeira, sem dúvidas. A pedra fundamental da construção é a fé da comunidade. A força, o equilíbrio e a perseverança da comunidade dependem da solidez da sua fé. Por isso, é necessário que essa fé seja forte como uma rocha, comparável a fé que Pedro tinha acabado de professar.
É importante esclarecer que Mateus usa duas palavras gregas muito parecidas para designar Pedro e pedra: Petros e petra. Embora muito próximas, é possível distingui-las: Petros, transformado no nome próprio Pedro, designa pedra, pedregulho ou tijolo, uma pedra pequena e removível, uma pedra de construção; petra designa a superfície rochosa, base ideal para os fundamentos de uma construção segura. São estas as bases necessárias para a edificação da Igreja enquanto comunidade do Reino. Portanto, Pedro (petros) é pedra de construção ou tijolo, e a pedra (petra) é a fé, a superfície rochosa sobre a qual a Igreja é edificada.
Ao contrário do templo de Jerusalém e dos templos pagãos que haviam na região de Cesaréia de Filipe, construídos com pedras concretas e visíveis e, portanto, passíveis de destruição, a comunidade cristã não correrá esse risco se for edificada conforme Jesus pensou, ou seja, tendo a fé por fundamento. Por isso, Ele declara: “e o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (v. 18b). Aqui Ele se refere às hostilidades que a comunidade irá enfrentar em seu longo percurso até a realização plena do Reino aqui na terra. São as forças de morte manifestadas nos diversos sistemas de dominação, tanto políticos quanto religiosos. A comunidade precisa de uma fé muito consistente para resistir a tudo isso.
No último versículo temos mais uma declaração significativa de Jesus a Pedro e à comunidade dos discípulos: “Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será desligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (v. 19). Mais que delegando poderes, Jesus está responsabilizando a comunidade para fazer o Reino dos céus acontecer já aqui na terra. A comunidade recebe “as chaves do Reino dos céus”  porque é nela que se faz a experiência da fé e da comunhão profunda com Deus, através da prática das bem-aventuranças (cf. 5,1-12), e é isso que torna alguém apto para entrar nos céus. Qualquer um que professa convictamente a fé em Jesus e vive seu programa de vida expresso nas bem-aventuranças tem a chave de acesso ao Reino. “Ligar e desligar” é, portanto, responsabilidade e não poder.
Com essas imagens tão fortes (chaves – ligar – desligar) Jesus convida a sua Igreja, comunidade do Reino, a viver sempre em perfeita sintonia com Ele mesmo e com o Pai, de modo que o que a comunidade experimentar será referendado pelos céus!
Ele dá as chaves para a sua comunidade abrir o todos o Reino que os escribas e fariseus tinham trancado (cf. 23,13). Todo cristão e cristã possui as chaves do Reino, porque o seu testemunho pode abrir ou fechar o Reino para alguém! Que a memória dos apóstolos Pedro e Paulo renove na Igreja a fé autêntica no Crucificado-Ressuscitado, e a sua índole missionária
 
Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Não temos outra morada física senão a Terra – Paiva Netto

Andamos alegremente esquecidos de que somos criaturas dependentes da Mãe Natureza; portanto, devemos cuidar muito bem dela. Quanto às Profecias Bíblicas, a exemplo do Sermão Profético de Jesus (Evangelho, segundo Mateus, capítulo 24) e do Apocalipse, não são para apavorar. Pelo contrário, servem de aviso milenário. Assustador é o que faz o ser humano. As predições são avisos de Deus a respeito deste fato: se prosseguirmos como vamos indo, usando mal o nosso livre-arbítrio, as consequências serão tais, tais e tais.

As admoestações dos Profetas, pois, não são para atemorizar ou mesmo “visões” de quaisquer doidivanas. Na verdade, debiloide é a ação de gente considerada prática, e que de prática não tem nada, mas, sim, de gananciosa e suicida, porquanto não temos outra morada a não ser este sofrido planeta, cuja paciência vai-se flagrantemente esgotando. Razão por que Jesus, o Profeta Divino, no Seu Evangelho, consoante Mateus, 24:21, diz, ao se referir à Grande Tribulação, que esta será como nunca vista, desde a fundação do mundo, nem jamais se repetirá.

Tal fato de tamanha envergadura não se deu na Terra ainda. Pelo menos no período em que nós, seres humanos, passamos a habitar sobre a sua face. E aqui a transcrição do versículo 22: “Se Deus não abreviasse aqueles dias, nem os escolhidos seriam salvos”. Mas haverá sobreviventes, sim, pois o Cristo, o Supremo Governante do planeta Terra não assinou o plano de destruição deste orbe pelos homens enlouquecidos. E mais: Quem Nele confia não perde o seu tempo, porque Jesus é o Grande Amigo que não abandona amigo no meio do caminho.

 

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

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Sinal dos tempos – Wilson Bezerra de Moura

Formalizamos a ideia de que os tempos são outros, não mais aqueles quando dominavam os valores morais. A família convenientemente organizada, os pais ensinavam os filhos comportamentos que eles podiam aplicar na sociedade quando tivessem nessa convivência solidaria, na escola, no trabalho ou em qualquer lugar em que houvesse a participação social.

A sociedade moderna, surgida com o desenvolvimento da indústria e do comércio, trouxe isto sim, novos comportamentos de vida da sociedade, induzindo esta a tomar decisões contrárias aos princípios morais. Prevaleceu ante da desenvoltura comercial a prática de princípios nada mais do que competitivos, estimulando a prática da discriminação social e desigualdade entre os grupos humanos, ao ponto de tangê-los a caminhos antissociais.

A sociedade moderna é hoje mais tendida à prática da desigualdade social, uns com muito, outros sem nada, o que sistematiza por imperiosa necessidade a convivência desigual, constituindo, enfim, uma sociedade marginalizada, formando-se agrupamentos de tais marginalizados em moradias faveladas, ao ponto de tornar-se uma população completamente marginalizada dos grandes centros, culminando em conflitos sociais.

A ideia que se tem hoje é que o capitalismo, que poderia ser uma fonte de produção e desenvolvimento social, tornou-se instrumento de desigualdade e discriminação entre as pessoas, levando-as à luta pela sobrevivência à custa da exploração de uns aos outros, o que, decerto, mais o distancia do relacionamento considerado humano.

O sociólogo Josué de Castro é taxativo em afirmar que no país uma parte de gente não dorme com fome e outra com medo dos que têm fome. E assim caminha a humanidade, envolta no mais cruel disparato.

Desestabilizaram-se os laços familiares, a família praticamente desestruturada, filhos não obedecem aos pais e estes não se sentem adequados ao meio em que vivem, justamente pela discriminação que é clara e evidente existir entre os seres humanos.

O mundo, da forma como está, não é aquele mundo que nos foi ensinado pelos velhos ensinamentos bíblicos, de irmandade e humanidade entre as criaturas, que todos são irmãos. Ao contrário, da forma como existem os fatos, este sim é o verdadeiro inferno, onde os demônios são aqueles que a cada momento praticam atos ilícitos, conduzindo todos à insegurança, desconfiança e desesperança no futuro.

Vítimas inocentes – Paiva Netto

O Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão (4 de junho), instituído pelas Nações Unidas em 19 de agosto de 1982, teve inicialmente o propósito de chamar a atenção para o drama dos milhões de pequeninos que sofrem os efeitos da guerra, muita vez perdendo suas vidas.

Os cidadãos de bem, em toda parte, não podem ficar surdos aos gritos de dor desses inocentes. Trata-se de patrimônio humano, garantia de futuro — que desejamos mais feliz — da civilização.

Mas o despertar da sociedade deve abranger igualmente as crianças que padecem de agressão nos próprios lares, nas escolas, nas ruas, mesmo em países não considerados campos de guerra declarada, e as sacrificadas pelo horrendo tráfico de órgãos, ou, ainda antes de nascerem, pelo procedimento criminoso do aborto.

O psicólogo dr. Pedro Lagatta, à época, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP), em entrevista ao programa Viver é Melhor, da Boa Vontade TV (Oi TV — Canal 212 — e Net Brasil/Claro TV — Canais 196 e 696), expôs aos telespectadores várias faces da violência que acomete as crianças, sejam elas físicas ou emocionais; incluídos aí o execrável abuso sexual e o perverso bullying. Tudo isso com consequências dolorosas e duradouras.

Trago-lhes hoje esclarecimento importante do dr. Lagatta, em que ele procura estabelecer um diferencial em torno da polêmica e famosa palmada, ainda em uso por muitos pais na educação dos filhos.“Palmada é um termo bem ruim; é um eufemismo que tenta de alguma maneira esconder o que acontece realmente nas casas. Quando a gente fala que as crianças apanham de chinelo e objetos duros, o que acontece é um sistemático espancamento. Palmada parece que os pais só vão lá e dão umas palmadinhas para fazer a criança parar de chorar, mas muitas vezes não se trata disso, se trata da autorização para a violência, uma violência séria”.

O tema merece de pais e educadores vigilância constante quanto aos limites que devem ser absolutamente respeitados. Corrigir não significa agredir. É o que defende a Pedagogia do Afeto, que desenvolvemos na rede de ensino da LBV.

A sabedoria popular ilustra bem ao comparar as crianças com a argila, pronta para ser moldada. É aquilo que afirmei em 2/3/1996, ao inaugurar no Rio de Janeiro o Centro Educacional, Cultural e Comunitário da LBV, e que foi destacado pela revista IstoÉ: A criança apenas devolve aquilo que a sociedade lhe dá. Se a sociedade lhe oferecer lixo, geralmente ela vai devolver-lhe lixo, mas, se der Amor — que significa Fraternidade, Solidariedade, Compaixão —, vai devolver à família e à sociedade esses nobres sentimentos de modo exponencialmente sublimado.

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

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Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o XI Domingo do Tempo Comum

A liturgia deste décimo primeiro domingo do tempo comum propõe, para o Evangelho, o texto de Marcos 4,26-34, o qual contém duas pequenas e importantes parábolas sobre a realidade misteriosa do Reino de Deus. A primeira parábola apresenta o Reino sendo comparado a uma semente, não especificada, que cresce sozinha, e a segunda compara o Reino a um grão de mostarda. Por conhecer bem a realidade de seus espectadores, Jesus procurava imagens do cotidiano para ilustrar a sua mensagem. A primeira parábola é exclusiva do Evangelho segundo Marcos, enquanto a segunda consta também em Mateus (cf. 13,31-32) e Lucas (cf. 13,18-19).

O quarto capítulo do Evangelho segundo Marcos é marcado pela presença de uma série de parábolas sobre o Reino de Deus, que visam responder a uma situação de inquietação e crise vivida pela comunidade dos discípulos, inicialmente, e pela comunidade do próprio evangelista, mais tarde. É importante recordar que o capítulo terceiro, como refletimos no domingo passado (cf. Mc 3,20-35), fora concluído com duas situações de desconforto para Jesus e, consequentemente, para os seus discípulos: a calúnia dos mestres da lei, de que Jesus estava endemoniado (cf. 3,22-30), e a incompreensão dos seus familiares, acusando-o de estar louco, ou seja, fora de si (cf. 3,20.31-35). Sem dúvidas, essas situações repercutiram também na vida dos discípulos, gerando uma crise na comunidade.

A credibilidade de Jesus e de sua mensagem fora posta em dúvidas. Ora, os discípulos primeiros tinham deixado família, trabalho e bens, pensando em algo melhor para suas vidas, inclusive esperando sucesso, fama e poder. Aos poucos, perceberam que estavam seguindo a uma pessoa que a religião oficial condenava (os mestres da lei o acusaram de estar endemoniado) e nem os seus familiares o levavam a sério. Paralelo às desconfianças dos discípulos, também Jesus percebia as contradições e incompreensões neles: eles sonhavam com poder e força, queriam construir um sistema de dominação semelhante às grandes potências da terra, algo que nada tinha a ver com o seu projeto de Reino, ou seja o Reino de Deus.

Algumas décadas mais tarde, também na comunidade de Marcos surgiram problemas semelhantes. A comunidade era perseguida por todos os lados: pela dominação romana e pelo judaísmo oficial, a ponto de parecer diminuir a cada dia, ao invés de crescer, como esperavam que acontecesse; isso causava desânimo, impaciência e desconfiança, com fortes tendências à desistência, pois não se viam resultados nem efeitos imediatos gerados pela pregação e a forma de vida cristã. O evangelista respondeu à crise da sua comunidade recordando a resposta de Jesus, outrora, aos primeiros discípulos: é necessário ter paciência, humildade e confiança na força da Palavra. As parábolas do Evangelho de hoje são a síntese dessa resposta.

Mesmo tendo a multidão como auditório, como afirma o texto, o público alvo das parábolas é o grupo dos discípulos, ainda confusos com os últimos acontecimentos, e a comunidade cristã de todos os tempos. Como o Reino de Deus não pode ser comparado com nenhum sistema de organização social até então experimentado, Jesus o comparava com elementos da natureza, privilegiando a imagem da semente: “O Reino de Deus é como quando alguém espalha a semente na terra. Ele vai dormir e acorda, noite e dia, e a semente vai germinando e crescendo, mas ele não sabe como isso acontece” (vv. 26-27). O Reino de Deus (em grego: hé basileia tú Theú) proposto por Jesus não é um consolo para o pós-morte, mas um projeto de vida e de sociedade para ser implantado já nesse mundo, com novas relações conduzidas pelo amor, a justiça, a solidariedade e a igualdade, sem nenhum sinal de grandeza ou poder.

Os discípulos ainda cultivavam a ideologia nacionalista, sonhando com a restauração do reino davídico-salomônico, um projeto de poder que visava a dominação de Israel sobre as outras nações e, por isso, tinham muita dificuldade de aceitar a proposta inovadora de Jesus. Ao comparar com uma semente jogada na terra, Jesus mostra a simplicidade e, ao mesmo tempo, a complexidade do Reino de Deus. Por mais que os discípulos colaborem, afinal são eles que devem lançar a semente, o mérito nunca será deles, mas sempre da força da Palavra, a semente na parábola: “A terra, por si mesma, produz o fruto: primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga; quando as espigas estão maduras, o homem mete logo a foice, porque o tempo da colheita chegou” (vv. 28-29). Na construção do Reino de Deus, competem duas atividades ao ser humano: plantar e colher. O processo de desenvolvimento da semente é próprio e autônomo, não pode ser manipulado por ninguém.

A terra na parábola é a consciência e o coração de cada pessoa que recebe o anúncio da Palavra. Há uma fase da semeadura que não está ao alcance do agricultor: o desenvolvimento da semente embaixo da terra; é algo invisível e misterioso que requer paciência e cuidado. Por mais competente que seja o agricultor, a qualidade dos frutos será sempre mérito da semente. Assim é a Palavra na vida das pessoas: a comunidade não pode cobrar respostas imediatas, nem moldar as pessoas; cada um e cada uma tem seu jeito próprio de fazer a Palavra germinar dentro de si. À comunidade, cabe a paciência e o discernimento para reconhecer o tempo de plantar e o tempo de colher.

Ao continuar sua apresentação do Reino de Deus, Jesus interage com o seu auditório, com uma pergunta retórica para prender a atenção dos ouvintes: “Jesus continuou: “Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus? Que parábola usaremos para representa-lo?” (v. 30). É importante reforçar que o Reino de Deus é indescritível porque ainda não foi completamente experimentado, por isso, só pode ser comparado, jamais descrito. E o gênero literário da parábola (em grego: parabolê) significa exatamente isso: comparação, analogia; é a explicação de uma realidade desconhecida tomando uma imagem conhecida como comparação.

Após a pergunta, eis que Jesus apresentou a parábola conclusiva da série: “O Reino de Deus é como um grão de mostarda que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes da terra”  (v. 31). Com essa parábola, Jesus responde aos projetos de grandeza e poder alimentados pelos seus discípulos de outrora e pela comunidade cristã em todos os tempos. Ora, diante da força e poderio do império romano e da estrutura da religião judaica, com sinagogas espalhadas em todos os lugares, o projeto de Jesus era praticamente invisível e parecia não causar efeito algum no mundo. Para os discípulos, alguns movidos por ambições pessoais (cf. Mc 10,35-45), era difícil compreender e aceitar aquela situação. Por isso, Jesus apresentou essa parábola, e o evangelista recordou à sua comunidade.

O grão de mostarda era o menor grão conhecido até então. Com essa imagem, Jesus afirma que a comunidade precisa aceitar a condição de pequenez em que se encontra, e deve reconhecer essa pequenez como necessidade para compreender a dinâmica do Reino. Esse, o Reino, não pode impor-se por sinais de grandeza, nem de espetáculo. O importante é que esse seja cultivado, mesmo como uma semente pequena, e colocar-se no mundo para servir, como acontece com o grão de mostarda: “Quando é semeado, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e estende ramos tão grandes, que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra (v. 32). Mesmo em seu máximo crescimento, a planta que brota de um grão de mostarda é sempre uma hortaliça, alcançando no máximo três metros de altura, jamais será uma árvore imponente ou atraente pela beleza.

A comunidade cristã não pode almejar triunfos nem apoteoses. Como embrião do Reino de Deus, a comunidade cristã deve ter somente a pretensão de servir: oferecer sombra e abrigo para quem necessitar, como o pé de mostarda abriga os pássaros com seus ninhos. Mesmo em seu máximo desenvolvimento e cumprimento, o Reino de Deus será, aparentemente, sempre tímido, porque não pode ser edificado sob os mesmos alicerces dos pseudo-reinos deste mundo. Nele, o que menos importa é a aparência, como deve ser na comunidade cristã. O que deve preocupar os seguidores e seguidoras de Jesus é se, de fato, estão sendo sombra e abrigo para os mais necessitados, mesmo no anonimato e na simplicidade. Comparada aos decretos imperiais e às leis religiosas impostas pelos escribas, a pregação simples de Jesus parecia insignificante. Passados anos e décadas, a história reconheceu a sua força e eficácia, através do testemunho de tantos cristãos e cristãs que tornaram o mundo diferente, mais humano e convivial.

A sequência de parábolas é concluída com um importante e sintético enunciado: “Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas como estas, conforme eles podiam compreender. E só lhes falava por meio de parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo” (vv. 33-34). A primeira informação relevante do enunciado é que o Evangelho escrito contém apenas algumas das “muitas parábolas” contadas por Jesus. A pregação do Nazareno foi bem mais ampla, indo muito além daquilo que os evangelistas conseguiram resgatar. Como bom mestre, Jesus falava conforme a capacidade de entendimento das pessoas. Sabia ler os sinais dos tempos e adaptar-se às diferentes realidades, como devem fazer as comunidades de hoje.

O evangelista distingue os discípulos das multidões: “quando estava sozinho com os discípulos, explicava tudo”. Com essa distinção, ele não pretende criar uma classe de privilegiados, mas acentua a responsabilidade de ser discípulo e discípula. Não basta ouvir uma vez aleatoriamente; é necessário sentar com Jesus e ruminar a sua palavra para, de fato, ela frutificar na vida de cada um. O evangelista não via a multidão como uma massa excluída, em oposição ao privilégio dos discípulos, mas como uma primeira etapa do discipulado. A Palavra que ecoa no meio da multidão, de modo tímido e anônimo, é capaz de germinar, crescer e frutificar, gerando assim novos discípulos e discípulas para o Reino.

Com essas duas parábolas, de modo brilhante, Jesus respondeu aos questionamentos gerados pela crise entre os discípulos, e Marcos resgatou-as para responder também a uma situação semelhante de crise na sua comunidade. Certamente, essa resposta é válida para todos os momentos da história. O Reino de Deus, como um mundo de justiça, amor, solidariedade, fraternidade e igualdade, não surgirá repentinamente; é uma realidade misteriosa, dinâmica e lenta, que exige paciência e humildade em sua edificação. Além de paciência, humildade e discernimento, a sua construção exige, sobretudo, confiança na força transformadora da Palavra. O Evangelho de hoje é um convite ao resgate dessa confiança.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o IX Domingo do Tempo Comum

Com a retomada do tempo comum, também retomamos a leitura contínua do Evangelho segundo Marcos, como prescreve a liturgia para o ano B. Neste nono domingo, o texto proposto é Mc 2,23 – 3,6, o qual narra duas situações polêmicas de Jesus com os seus tradicionais adversários, os fariseus, e certamente com outros fiéis observantes do judaísmo frequentadores do culto sabático na sinagoga. Se trata de dois episódios envolvendo a interpretação livre e autônoma de Jesus em relação ao sábado com as reações contestadoras dos fariseus.

A observância rigorosa do sábado tinha se tornado o traço mais importante da religiosidade praticada pelos fariseus. Havia, inclusive, uma grande vigilância deles em relação a esse preceito, principalmente nas pequenas cidades e aldeias, distantes de Jerusalém e do templo. A vida rural, totalmente dependente das atividades manuais, oferecia bem mais possibilidades de “transgressão”, conforme a mentalidade farisaica. O contexto do texto é o ministério de Jesus na Galileia, marcado por uma série de polêmicas que lhe renderam diversas acusações pelos fiéis observantes das tradições religiosas.

Marcos apresenta uma série de polêmicas envolvendo Jesus nos capítulos 2 e 3 do seu Evangelho. Ainda no início do seu ministério, Jesus é acusado de: fazer-se igual a Deus, ao perdoar pecados (cf. Mc 2,1-12); comer com publicanos e pecadores (cf. Mc 2,15-17); não ensinar seus discípulos a praticarem o jejum (cf. 2,18-22); transgredir o sábado junto com os discípulos, como relata o evangelho de hoje: Mc 2,23-28 e 3,1-6. Com duas polêmicas seguidas sobre o sábado, o evangelista evidencia o zelo que os fariseus tinham por esse mandamento e a necessidade de Jesus ressignificá-lo, colocando-o a serviço da vida.

O texto de hoje se encontra também nos outros sinóticos, com algumas leves modificações (cf. Mt 12,1-14; Lc 6,1-11). Do primeiro versículo, podemos colher muitas informações importantes para a interpretação de todo o texto: “Jesus estava passando por uns campos de trigo, em dia de sábado. Seus discípulos começaram a arrancar espigas, enquanto caminhavam” (v. 23). Havia um limite de percurso para se caminhar em dia de sábado, o que não deveria ultrapassar os 1.200 metros. O texto faz pensar que esse limite estava sendo desobedecido por Jesus, embora não entre nas acusações posteriores. Enquanto as versões de Mateus e Lucas dizem que os discípulos arrancaram as espigas para comer, Marcos diz que arrancaram para abrir caminho, embora a tradução litúrgica não deixe claro; a tradução mais correta seria: “Seus discípulos começaram a abrir caminho, arrancando as espigas” (v. 23b). Esse diferencial de Marcos acentua ainda mais o grau de transgressão; arrancar espigas para fazer caminho é, literalmente, realizar uma atividade braçal.

A reação dos fariseus revela a prática de uma religião caduca, vigilante e punitiva: “Então os fariseus disseram a Jesus: “Olha! Por que eles fazem em dia de sábado o que não é permitido?” (v. 24). Ao invés de estarem cultuando a Deus ou fazendo o bem ao próximo, os fariseus estavam vigiando se Jesus e seus discípulos estavam observando o mandamento. O rigorismo farisaico era tão forte a ponto de espalharem vigilantes para observar se alguém transgredia a lei. É esse tipo de religião que Jesus denuncia com sua interpretação livre e prática libertadora, e o evangelista Marcos faz questão de recordar para sua comunidade. O Reino a ser construído pelos discípulos e discípulas de Jesus não pode seguir os parâmetros daquela religião.

Antes, Jesus já tinha sido questionado pelo comportamento dos seus discípulos em relação ao jejum (cf. Mc 2,18-22). Naquela ocasião, usou como a argumento a presença do noivo como sinônimo de alegria, tornando o momento impróprio para o jejum. Dessa vez, a resposta se fundamenta diretamente na Escritura, mostrando que também Davi, quando teve necessidade, transgrediu a lei com seus companheiros, comendo do pão que só era permitido aos sacerdotes (cf. vv. 25-26; 1 Sm 21,2-10). Há um pequeno equívoco do evangelista em relação ao nome do sacerdote no episódio de Davi: ao invés de Abiatar, era seu pai Aquimelec. Porém, o importante não são esses detalhes, mas a mensagem em seu complexo: a obsessão dos fariseus pelo sábado fecha-os completamente, a ponto de não compreenderem a Escritura.

Jesus resolve a primeira polêmica com uma afirmação de caráter sapiencial, e exclusiva do Evangelhos de Marcos: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (v. 27); nessa, ele deixa claro o sentido do sábado e de toda a lei: o bem do ser humano. Nenhum aspecto da lei deve ser usado para impedir o bem do ser humano. O sábado e toda a lei foram feitos para o bem da pessoa humana, para sua plena realização e libertação. Com essa interpretação, ao invés de transgredir, Jesus recupera o sentido verdadeiro do sábado como memorial de libertação (cf. Dt 5,12-15), e o faz com plena convicção de que “o Filho do Homem é Senhor também do sábado” * (v. 28). Com o título de *“Filho do Homem”, ele reivindica sua condição divina e sua missão de reordenar a criação, colocando o ser humano em seu lugar primordial.

A segunda parte do texto apresenta a conclusão da série de polêmicas. A cena acontece ainda no sábado, e dentro da sinagoga: “Jesus entrou de novo na sinagoga. Havia ali um homem com a mão seca”. (3,1). Ao mencionar a presença de um homem com a mão seca, o evangelista quis enfatizar que se tratava de uma pessoa impossibilitada de trabalhar para o seu sustento e também para fazer o bem. Em uma sociedade basicamente agrícola como aquela, as mãos eram os membros mais valorizados numa pessoa; portanto, aquele homem estava privado de sua dignidade, do respeito, e da capacidade de colaborar com a criação e a sociedade. Para quem praticava uma falsa religião, ou seja, frequentava o culto mas o separava da vida e da prática do bem ao próximo, aquela situação já não preocupava, era vista como normal. Como para Jesus o culto agradável a Deus é sempre o bem do ser humano, a situação daquele homem não poderia lhe passar despercebida.

Como a fama de Jesus como transgressor da lei e dos bons costumes já tinha se espalhado, onde ele chegava era bastante observado e vigiado, principalmente nos ambientes religiosos: “Alguns o observavam para ver se haveria de curar em dia de sábado, para poderem acusá-lo” (3,2). Os adversários já estavam prontos para acusá-lo, caso ele intervisse na situação daquele homem. O evangelista mostra o quanto os praticantes da religião já estavam perseguindo Jesus: o vigiavam enquanto caminhava e também quando parava e entrava em algum lugar. Já estava claro que a prática libertadora de Jesus era uma ameaça e um perigo àquela religião. Onde quer que Jesus se encontrasse, havia representantes da religião vigiando.

É claro que Jesus não se intimidava com a perseguição e vigilância. O bem do próximo, principalmente dos desvalidos e excluídos, era sempre a sua prioridade maior. Eis, então, a sua atitude: “Jesus disse ao homem da mão seca: levanta-te e fica aqui no meio!” (3,3). O primeiro que Jesus faz é restituir a vida; incapacitado para o trabalho, era como se aquele homem não vivesse. Ao ordenar que se levante, Jesus recupera a vida com o seu sentido de liberdade; para a ordem de levantar, o evangelista emprega, no imperativo, o mesmo verbo que usará para expressar a ressurreição de Jesus (o verbo grego egheiro); ao ordenar que fique no meio, Jesus o torna protagonista e mostra que o centro do verdadeiro culto e da religião, deve ser sempre o bem da pessoa humana. Portanto, Jesus resgatou a vida daquele homem, mandando-o levantar-se, e deslocou o ser humano para o centro do culto, deixando de lado a lei com seus preceitos.

Sabendo que estava sendo observado e até mesmo odiado pelas pessoas devotas presentes na sinagoga, Jesus faz uma pergunta decisiva para a compreensão da sua mensagem: “É permitido no sábado fazer o bem ou o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?” (3,4). A resposta foi o silêncio. A pergunta evidencia a diferença na maneira de compreender o sentido do sábado entre Jesus e seus adversários. Deixar de fazer o bem já é uma forma de fazer o mal. A omissão e a indiferença não podem ser aceitas na comunidade cristã, recorda o evangelista com essa pergunta de Jesus. Não se pode desperdiçar uma única oportunidade de fazer o bem. O espaço e o momento cultual da cena recordam para a comunidade qual a natureza do verdadeiro culto agradável a Deus: fazer sempre o bem ao necessitado.

O agir de Jesus em favor do bem do ser humano não sensibiliza seus adversários que preferem permanecer atacados às tradições e prescrições, preferindo uma religião indiferente à vida: “Jesus, então, olhou ao seu redor, cheio de ira e tristeza, porque eram duros de coração; e disse ao homem: “Estende a mão. Ele a estendeu e a mão ficou curada” (3,5). Antes mesmo de narrar a cura, o evangelista registra a reação de Jesus à dureza de coração dos adversários: “Jesus encheu-se de ira e tristeza”. Marcos é o único evangelista que apresenta Jesus com esses sentimentos de indignação; é a reação de Deus à rejeição do seu amor. A dureza de coração reflete uma religião petrificada, sem a mínima abertura à novidade do Reino de Deus proposto por Jesus. Endurecendo o coração ao ver Jesus fazendo o bem, os seus adversários demonstram a adesão a uma religião excludente, punitiva, legalista e fechada.

Com a cura, mais que mostrar um ato extraordinário de Jesus, o evangelista alerta a comunidade a colocar sempre a prática do bem como prioridade. A mão curada daquele homem significa a restauração da sua vida; com sua saúde restituída, ele voltou a ser protagonista da própria história, ou seja, voltou a viver. Certamente, Jesus poderia ter deixado para fazer a cura em um outro momento. Mas o fez no sábado e na sinagoga para desmascarar aquela religião segregadora e hipócrita. Fazendo em outro momento, estaria sendo conivente com aquele culto ultrapassado indiferente à vida das pessoas com seus problemas. Fazendo em um contexto cultual, ele deixou explícita a sua denúncia e a sua indignação com uma religião fechada ao amor que é a essência mesma de Deus.

A postura libertadora de Jesus incomoda aos duros de coração; e isso os leva a procurarem uma maneira de eliminá-lo, afinal, Jesus estava sendo um perigo para aquele modelo de sociedade e de religião. Por isso, “Ao saírem, os fariseus com os partidários de Herodes, imediatamente tramaram contra Jesus, a maneira como haveriam de mata-lo” (3,6). A colisão dos fariseus com os partidários de Herodes mostra o quanto a mensagem de Jesus era inquietante, tornando-se uma ameaça para o sistema, e denuncia o máximo de hipocrisia: é o conluio dos covardes, dos opressores, de quem percebe que seus sistemas falharam e, por isso, apelam para a violência. Eram grupos adversários que tinham escolhido Jesus como inimigo comum. Os herodianos constituíam o grupo de apoio público à dominação romana, e reconheciam a divindade do imperador. Já os fariseus, como o mais devoto dos grupos religiosos judaicos, viam a dominação romana como um abomínio, por isso esperavam constantemente pelo envio de um Messias glorioso e guerreiro que ressuscitasse o reino davídico-salomônico. Nesse plano de fariseus e herodianos está uma antecipação do plano futuro que levará Jesus à morte: a religião e o império unidos para pôr fim a um personagem incômodo e indesejado: Jesus de Nazaré.

Mesmo não sendo observantes do sábado, as comunidades de hoje devem ser questionadas pelo Evangelho de hoje. São convidadas a refletir sobre quais são suas prioridades cultuais, sobre suas opções preferenciais e, principalmente, sobre a presença de Jesus em seu meio. A presença do Ressuscitado numa comunidade provoca mudanças, abala estruturas, desconstrói paradigmas e concepções. Ao ressignificar o sábado, Jesus mexeu com aquilo que o seu povo considerava mais sagrado. Precisamos aprender com ele a discernir entre o essencial e o periférico, sabendo de antemão que o essencial é sempre a promoção do bem e a libertação do ser humano.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

A lei de Chico de Brito – Wilson Bezerra

Diz a tradição histórica que a voz do povo é a voz de Deus, mesmo não sendo puramente verdadeira, porque o povo até hoje, pelo menos nesse País chamado Brasil, nunca teve vez. O povo daqui é considerado o terceiro estado da França pouco antes da salvadora Revolução Francesa, que derrubou o império de Luiz XV.

Mais tem outra questão que podemos muito bem enquadrar com o dito popular, por sinal pode muito bem ser considerada uma sabedoria do povo. É a história de que se não fizer a coisa como manda a coisa, é aplicada a Lei e Chico de Brito. Quem é esse homem, Chico de Brito? Não sabemos quem seja, mas a coisa gira mais ou menos assim: ele cobre de borrada quem não fizer como manda a ordem.

Essa história se enquadra perfeitamente na nossa história brasileira. Se o trabalhador se considerar prejudicado com as atitudes arbitrárias do Governante, o pau troa.

Diz uma chamada Lei Trabalhista que o único instrumento de defesa dos direitos operários é a greve. Com ela a categoria prejudicada pode se aproximar do PATRÃOZÃO, o Governo, e dizer que a chicotada está demais. As coisas estão aumentando demais, sem ocorrer aumento de salário ou qualquer que seja a imagem do demônio, a gasolina, por exemplo, que é a base de todos os aumentos, e se fizer greve vai para a Lei de Chico de Brito, e ao que parece vai mesmo.

No momento em que uma categoria se manifesta contrário às atitudes arbitrárias praticadas pelo Governo, funciona impiedosamente essa Lei de Chico de Brito. O governo revida com violência, mesmo não estando sendo usada a violência para exigir piedade quanto às atitudes impiedosas do Governo. A força policial é acionada com armas e cassetetes, o exercito nacional também é levado às ruas, como força repressiva para agir e, mais ainda, a Polícia Rodoviária Federal vai também com seu poder absoluto revidar o pleito, ordenando, inclusive, multas, a ação judicial convocada pelo governo para acabar de qualquer forma o movimento reivindicatório.

Enfim, acaba-se aí a chamada e inexistente Democracia, porque tira o direito de reivindicar de qualquer classe trabalhadora. A prática democrática mais uma vez não passa de uma balela. Quem tentar defender seu direito de sobreviver deve ficar ciente que vai passar no pente fino, sofrer as consequências de uma maldita Lei de Chico de Brito, que nada mais é do que mais uma arbitrariedade do poder governamental, que tem a seu favor a lei por ele criada para sua defesa. Que o digam os caminhoneiros.