domingo , 27 de maio de 2018
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Ser humano: uma espécie em extinção – Paiva Netto

Nunca fomos contrários ao progresso; todavia, condenamos a poluição dos mananciais e das praias, a derrubada das florestas, o “emporcalhamento” dos campos, enfim, as agressões ao meio ambiente. Porque entendemos que a destruição da Natureza é a extinção da raça humana, pois, a todo momento, em diferentes países, o homem, na ânsia de enriquecer a qualquer preço, cava a própria sepultura. O Profeta Isaías já fazia no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada uma advertência nos versículos cinco e seis do capítulo 24 do seu Livro:

“(…) 5 Na verdade a terra está contaminada por causa dos seus moradores, porquanto transgridem as leis, violam os estatutos e quebram a aliança eterna”.

“6 Por isso, a maldição consome a terra, e os que habitam nela se tornam culpados; por esse fato, serão queimados os moradores da terra, e poucos homens restarão”.

O sexto versículo, uma antevisão milenar, aponta um conflito atômico, hipótese viável numa sociedade que já deflagrou duas guerras mundiais e pouco respeito dá à terra, da qual o homem, desde o seu nascimento, retira seu sustento. Este planeta é a habitação comum dos povos. O ser humano e seu Espírito Eterno não são criações à parte da Natureza, mas seus expoentes. A riqueza deste orbe é sua Humanidade, visível e invisível, ecologicamente conciliada com a fauna e a flora, com todo o meio ambiente. A propósito, cabe lembrar o soneto do grande poeta e Fundador da Legião da Boa Vontade (LBV), Alziro Zarur (1914-1979):

“A Suprema Vergonha

 Mãe Natureza, eu — Poeta — sou teu filho,

E em teu piedoso seio, calmo, ingresso.

Basta-me olhar-te, e a vislumbrar começo

A miséria sem fim do humano trilho.

Dessa contemplação eis que regresso,

E, ó Mãe Perfeita, vê quanto eu me humilho:

Só o homem maculou esse teu brilho

Com a cínica mentira do progresso!

 Ante a tua bondade intraduzível,

Serenissimamente inconsuntível,

As humanas grandezas todas somem…

 E, ó Mãe Natura, se algo me envergonha

Ao contemplar-te, Mãe, eis a vergonha:

É a suprema vergonha de ser homem!”.

(…) O ser humano tem-se colocado nessa posição, da qual terá obrigatoriamente de sair pelo próprio esforço e merecimento, para não se transformar em uma “espécie em extinção”. Todo dia é dia de renovar nosso destino. A Vida sempre vence.

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para a Solenidade de Pentecostes

No domingo em que celebramos a solenidade de Pentecostes, o texto evangélico oferecido pela liturgia é João 20,19-23, trecho que relata a primeira manifestação do Senhor ressuscitado à comunidade dos discípulos, ao anoitecer do primeiro dia da semana, ou seja, o domingo mesmo da ressurreição. Esse texto já foi usado pela liturgia neste tempo pascal, como trecho do Evangelho do segundo domingo: Jo 20,19-31.

Pentecostes era uma das três festas mais importantes do calendário litúrgico judaico, juntamente com as festas da Páscoa e das Tendas; era celebrada no quinquagésimo dia após a páscoa, por isso recebeu o nome pentecostes. Inicialmente, seu sentido era estritamente agrícola, na qual se celebrava a conclusão da colheita. Na ocasião, os judeus mais devotos iam até Jerusalém para apresentar os melhores frutos da colheita como oferenda, em gratidão a Deus. Com o passar do tempo, a festa foi perdendo sua relação com a agricultura e ganhando um sentido mais religioso, passando a ser a festa do dom da lei. Esse novo sentido já estava consolidado no tempo de Jesus e dos apóstolos: pentecostes era a festa na qual os judeus recordavam a lei dada por Deus a Moisés.

Somente o evangelista Lucas, autor do livro dos Atos dos Apóstolos, faz coincidir o envio do Espírito Santo com a festa judaica de pentecostes. Isso é um mero artifício literário e teológico para levar as comunidades a adotarem os dons do Espírito Santo como única lei a ser seguida. A comunidade cristã, para ser fiel a Jesus e seu Evangelho, já não necessita mais das prescrições da Lei, basta estar sensível e aberta às intuições do Espírito Santo, dom do Ressuscitado.

Ao contrário do que Lucas propõe em Atos dos Apóstolos, a comunidade joanina fez de tudo para que os seus referenciais não coincidissem com os esquemas litúrgicos judaicos. Por isso, de acordo com o evangelista João, o Senhor ressuscitado doa o Espírito, seu dom maior, no dia mesmo da ressurreição. Embora a Igreja tenha adotado o esquema lucano, a proposta da comunidade joanina tem mais sentido e responde melhor às necessidades dos discípulos, como vemos no Evangelho de hoje. Amedrontada e sem poder de ação, essa não teria condições de esperar cinquenta dias para que o Espírito Santo se manifestasse em seu meio.

Embora estejamos, de fato, há cinquenta dias da páscoa, o Evangelho de hoje nos convida a retornarmos para aquele primeiro dia, o da ressurreição. Somente Maria Madalena tivera, até então, o privilégio de ver o Ressuscitado. Entre os discípulos reina o medo e a dúvida, como diz o texto: “Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e pondo-se no meio deles disse: a paz esteja convosco” (v 19).

Certamente, aquele foi um dia de muita tensão entre os discípulos. Isso se evidencia pelas informações do primeiro versículo: “reunidos a portas trancadas, por medo dos judeus”.  Esse dado evidencia insegurança e medo em demasia. Era uma comunidade em crise, em pleno desmoronamento. Embora em crise e amedrontada, parece que a comunidade estava decidida a não voltar mais aos esquemas de sempre: estava reunida “ao anoitecer do primeiro dia da semana”. Segundo o esquema litúrgico judaico, o anoitecer já não fazia mais parte do mesmo dia. Com esse dado, o evangelista apresenta a necessidade de distanciamento das tradições e prescrições da lei. Na embrionária comunidade cristã é necessário que o dia se prolongue, ou seja, as trevas não podem prevalecer sobre a luz. Mesmo que chegue a noite, o dia continua.

A situação de medo em que os discípulos se encontravam deve ser vista em um sentido mais amplo. Embora o evangelista afirme que era por “medo dos judeus” (em grego: fóbon ton iudaion), não podemos generalizar. Nem todos os judeus transmitiam medo aos discípulos. O evangelista se refere às autoridades e fariseus que sempre foram hostis a Jesus e continuavam sendo também aos discípulos (cf. 9,22; 12,42; 16,16). Enquanto não fizer uma experiência de encontro com o Ressuscitado, toda comunidade tende a fechar-se por medo e falta de convicções. Naquele medo estava a angústia, a desilusão e o remorso de alguns; significa a ausência do Senhor. Sem a presença do Ressuscitado toda a comunidade perece e sua mensagem é bloqueada; as portas fechadas impedem a boa nova de ecoar e a acolhida ao novo, ao diferente.

Diante dessa situação, eis que “Jesus entrou e, pôs-se no meio deles”. Aqui aparece a primeira condição para a comunidade superar a crise: ter Jesus como centro. Com isso, o evangelista reforça o modelo de comunidade ideal: uma comunidade livre, igualitária, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado. Trata-se de um claro combate à tendência hierarquizante na comunidade do discípulo amado. É esse o significado do seu colocar-se no meio.

Manifestando-se no meio dos discípulos, o Ressuscitado inicia neles o processo de transformação, oferecendo o primeiro antídoto ao medo: o dom da paz! É o encontro com a paz de Jesus que levanta o ânimo da comunidade fracassada. A paz é sinal da vida em plenitude, o bem-estar do ser humano em todas as suas dimensões, condição indispensável para a felicidade. Jesus comunica a sua paz e, ao mesmo tempo, reforça o modelo de comunidade sonhado e praticado durante toda a sua vida: uma comunidade igualitária e livre, tendo um único centro: o Cristo Ressuscitado. É esse o significado do seu colocar-se no meio deles. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que ao centro do seu existir esteja o Ressuscitado.

Na continuidade da experiência, Jesus “mostrou-lhes as mãos e o lado” (v. 20a), ou seja, as marcas do sofrimento, do flagelo e da cruz, garantindo a continuidade entre o Crucificado e o Ressuscitado. Com isso ele diz que a cruz não foi o fim e, assim, leva os discípulos à restituição da fé, uma vez que o principal motivo da desilusão e decepção deles foi o escândalo de um messias crucificado. É importante recordar sempre: o Ressuscitado tem as marcas do Crucificado. Ora, a cruz não foi um acidente na vida de Jesus, e não pode ser esquecida pela comunidade; pelo contrário, foi consequência de suas opções e do seu jeito de viver, e as opções da comunidade devem ser as mesmas. Portanto, é necessário que os discípulos estejam sempre, em todos os momentos da história, familiarizados com a cruz, não como símbolo ou adorno, mas como disposição de dar a vida por amor, como fez Jesus.

Finalmente, o medo foi vencido: “os discípulos se alegraram por verem o Senhor”. Conforme Ele mesmo tinha garantido, a tristeza dos discípulos foi transformada em alegria (cf. Jo 16,20). De uma situação de medo, a comunidade passa à alegria, como consequência da experiência com o Ressuscitado. A alegria é uma característica marcante da comunidade que vive e celebra a presença do Ressuscitado. A paz é novamente oferecida (v. 21a). Só é possível acolher plenamente os dons pascais com a paz oferecida por Jesus. É a mesma paz transmitida anteriormente como antídoto ao medo. Aqui, nessa segunda vez, a paz precede o envio, como encorajamento para a missão: não basta transformar o medo em alegria, é necessário anunciar e partilhar essa alegria… a alegria do Evangelho!

Ao contrário de Mateus, Marcos e Lucas que determinam as nações e até os confins da terra como destinos da missão (cf. Mt 28,19; Mc 16,15; Lc 24,47; At 1,8), em João isso não é determinado: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. Jesus simplesmente envia. Sem diminuir a importância da missão em sua dimensão universal, o mais importante para o Quarto Evangelho é a comunidade. É essa a primeira destinatária da missão, porque é nessa que estão as situações de medo, desconfiança, angústia, falta de entusiasmo, por isso é a primeira a necessitar da paz do Ressuscitado. Sendo portadores da sua paz, os discípulos são enviados com as mesmas credenciais, pois Ele os envia como o “Pai o enviou” e, portanto, devem fazer as mesmas opções e assumir as respectivas consequências.

O texto mostra, como sempre, a coerência entre a prática e as palavras de Jesus: “E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (v. 22). Jesus tinha prometido o Espírito Santo na última ceia (cf. Jo 14,16.26; 15,26). Ao soprar sobre eles, a promessa é cumprida, o Espírito é comunicado. O evangelista usa o mesmo verbo empregado no relato da criação do ser humano: “O Senhor modelou o ser humano com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o ser humano tornou-se vivente” (Gn 2,7). O verbo soprar aqui (em grego: empsáo) significa transmissão de vida. Assim, podemos dizer que Jesus recria a comunidade e, nessa, a humanidade inteira.

Finalmente, a comunidade foi revivificada e habilitada para a missão. Ao receber o Espírito Santo (em grego: pneuma háguios), a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. É o Espírito quem mantém a comunidade alinhada ao projeto de Jesus, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro. A missão da comunidade portadora do Espírito Santo é prolongar no tempo e no espaço a missão do próprio Jesus.

O Espírito Santo garante responsabilidade à comunidade, jamais poder. Por isso, devemos prestar muita atenção à afirmação de Jesus: “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23). Por muito tempo, esse trecho foi usado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão, equivocadamente. Jesus não está dando um poder aos discípulos, mas uma responsabilidade à comunidade: reconciliar o mundo, levar a paz e o amor do Ressuscitado a todas as pessoas e de todos os lugares. A comunidade cristã tem essa grande missão: fazer-se presente em todas as situações para, assim, tornar presente também o Ressuscitado.

Não se trata, portanto, de poder para determinar se um pecado pode ou não pode ser perdoado. É a responsabilidade da obrigatoriedade da presença cristã para que, de fato, o mundo seja reconciliado com Deus. O Espírito Santo, doado pelo Ressuscitado, recria e renova a humanidade. A comunidade tem a responsabilidade de fazer esse Espírito soprar em todas as realidades, para que toda a humanidade seja recriada e, assim, o pecado seja definitivamente tirado do mundo (cf. Jo 1,29).

Assim como João, o batista, apontou para Jesus como o responsável por fazer o pecado desaparecer do mundo (cf. Jo 1,29), agora, é Jesus quem confia à comunidade essa responsabilidade.  Os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo. O que perdoa mesmo é o amor de Jesus; logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de amar como Ele amou. Em outras palavras, os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade.

É na comunidade que o Ressuscitado se manifesta, fazendo essa perder o medo e insegurança. Somente uma comunidade que tem o Ressuscitado como centro, pode viver plenamente reconciliada, em paz e animada pelo Espírito. São essas as condições para que a alegria do Evangelho seja, de fato, anunciada! Deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, a comunidade atualiza e prolonga, no tempo e no espaço, a missão única do próprio Jesus de revelar o amor de Deus a todas as pessoas.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para a Solenidade da Ascensão do Senhor

No domingo em que celebramos a solenidade da ascensão do Senhor, a liturgia oferece, neste ano B, o texto evangélico de Marcos 16,15-20, para nossa reflexão e meditação. A solenidade da ascensão marca a consumação da ressurreição: o Ressuscitado penetra no mundo do Pai, conferindo à sua comunidade de seguidores e seguidoras a continuidade da sua obra, enviando-a a proclamar o Evangelho, notícia boa e maravilhosa, à toda a criação. O texto confere a responsabilidade da comunidade cristã para que, mesmo na convivência eterna do Pai, o Ressuscitado continue presente no mundo através dos seus seguidores. Embora de grande riqueza teológico-eclesial, o texto carrega em si alguns problemas de caráter redacional.

É praticamente unanimidade entre os estudiosos que o evangelho original de Marcos termina em Mc 16,8, e os versículos seguintes, de 9 a 20, foram acrescentados posteriormente, já após algumas décadas. Dois motivos principais contribuem para essa teoria; o primeiro é a mudança de estilo literário entre esses versículos e o restante do evangelho; o segundo motivo é a ausência desses versículos nos manuscritos mais antigos desse evangelho, os códigos Vaticano e Sinaítico. Como 16,8 termina dizendo que naquele primeiro dia semana “as mulheres fugiram do túmulo com medo”, a comunidade completou o texto, colhendo informações dos outros evangelhos, dando uma conclusão menos angustiante ao evangelho. De fato, nos versículos de 9 a 20, podemos encontrar uma espécie de síntese dos relatos de aparição dos outros três evangelhos: referência aos discípulos de Emaús (cf. v. 12), típico de Lucas; menção à incredulidade (cf. v. 14), típico de João, e o envio missionário universal (v. 15), característico da conclusão de Mateus. O acréscimo desses versículos, portanto, serviu para apagar, em partes, a impressão de incompletude no Evangelho segundo Marcos.

Uma vez contextualizado, olhemos para o texto que nos é oferecido: “Naquele tempo, Jesus se manifestou aos onze discípulos, e disse-lhes: Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura!” (v. 15). Lendo o versículo anterior, sabemos que foi na mesa, durante a refeição, que Jesus se manifestou (cf. v. 14). A comunidade se encontrava fechada, amedrontada e incrédula. A presença do Ressuscitado impulsiona, provoca abertura de perspectiva e compromisso. As palavras são claramente de um envio universal. A novidade é que não são apenas os seres humanos os destinatários do Evangelho, mas a criação inteira: toda criatura. Como boa notícia, o Evangelho, anunciado e vivido fielmente pela comunidade cristã, comporta uma forma de vida totalmente nova em relação à todas as experiências até então praticadas, propondo uma relação harmoniosa com a criação inteira, e não apenas com os seres humanos.

Como obra de Deus, toda a criação precisa ser revestida do amor do Pai revelado em Jesus, a essência do Evangelho, uma vez que o mal presente no mundo atinge a criação inteira. De fato, Paulo já tinha se dado conta dessa realidade: “a criação inteira e sofre como em dores de parto” (Rm 8,22). Somente o amor do Pai revelado em Jesus, vivido e transmitido pela comunidade de seus seguidores e seguidoras, pode restaurar a criação. Por isso, é urgente que todas as criaturas sejam revestidas de amor e conheçam a forma de vida que o Evangelho propõe.

O Evangelho é dom gratuito, não uma doutrina a ser imposta; por isso, pode ser aceito ou não. O anúncio cristão só é autêntico se respeitar a liberdade dos destinatários. Como toda escolha tem consequências, assim também é a adesão ao Evangelho: “Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado” (v. 16). Crer, aqui, é aderir, dar adesão a uma proposta de vida, é aceitar o amor de Jesus e deixar-se envolver por ele, e não simplesmente repetir fórmulas. A aceitação do Evangelho é seguida pelo batismo, sinal dessa adesão e de comunhão com a comunidade. Quem faz essa experiência, será salvo, ou seja, terá sua vida ressignificada, plenificada e cheia de sentido, já não mais vulnerável aos efeitos da morte.

Não crer, ou seja, rejeitar o amor de Jesus também traz consequências. O texto diz que “aquele que não crer será condenado”, mas não diz que é Deus quem condena porque, sendo essencialmente amor, ele não condena ninguém. É o próprio ser humano que se auto condena quando não aceita o amor como regra de vida. É condenado, portanto, quem não consegue dar sentido à sua existência, fechando-se ao amor de Deus, e isso é perder a vida. Fechar-se ao amor de Deus é deixar de viver plenamente.

Quem aceita a proposta de amor contida no Evangelho tem a vida transformada, não como passe de mágica, mas como forma de viver e compreender as coisas. Por isso, Jesus elenca alguns sinais: “Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas, se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados” (vv. 17-18). Antes de tudo, é importante recordar que os sinais elencados não são dons conferidos aos anunciadores, mas aos que crêem, ou seja, Jesus não está dotando os seus discípulos de dons extraordinários, mas comprometendo-os: o anúncio deve ser transformador de vidas. Por expulsar demônios, entende-se a eliminação do mal do mundo; não se trata de ritos de exorcismos, mas de compromisso com o bem. Quem adere ao Evangelho elimina o mal da sua vida e da vida do seu próximo. O antídoto ao mal é o amor. Falar novas línguas significa a abertura ao universalismo da salvação e a convivência fraterna das diversas culturas em torno do Evangelho. O amor quebra barreiras e abre perspectivas sem impor nada.

Na sequência dos sinais que devem acompanhar aqueles que crerem no Evangelho, percebemos uma releitura da descrição profética dos tempos messiânicos em Isaías (cf. Is 11,1-19): um mundo completamente harmônico, com todas as criaturas convivendo entre si sem nenhuma causar dano ao outro. O sonho de um mundo novo inspirava a criatividade dos profetas para descrever a realidade imaginada e desejada. Com imagens tão interpelantes, o texto quer ressaltar a força transformadora do Evangelho e mostrar que, tanto o anúncio quanto a adesão a esse, implicam em compromisso transformador de vidas e situações.

Com uma imagem típica de entronização, o autor narra a ascensão propriamente dita: “Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus” (v. 19). Sentar-se à direita significa uma posição de honra. Essa imagem era muito usada nas cortes do antigo Oriente, influenciando bastante a literatura bíblica. Aqui, significa que Jesus cumpriu fielmente a sua missão de revelar, com palavras e ações, o rosto amoroso do Pai. Ao invés de suscitar sentimentos de triunfalismos nos seus seguidores, essa imagem deve gerar compromisso: tendo retornado ao Pai, cabe agora aos discípulos e discípulas a missão de irradiar o seu amor no mundo. Inclusive, o autor do texto deixa muito claro isso, com o versículo conclusivo: “Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que o acompanhavam” (v. 20a).  A resposta da comunidade ao retorno de Jesus ao Pai não é a contemplação com espera passiva pela sua segunda vinda, mas a missão: Jesus sobe ao céu, e os discípulos saem por toda parte. A missão de Jesus, portanto, não se conclui com a ascensão, mas ganha com ela novos aspectos e dimensões; ela deve continuar através dos discípulos, e o texto atesta como as primeiras gerações de cristãos e cristãs levaram a sério esse mandato.

Quando a comunidade assume a missão, ela nunca está sozinha, o Senhor está presente. O anúncio, se autêntico, deixa marcas, transforma as situações. Os sinais concretos que devem marcar o anúncio não são condições para despertar a fé, mas consequência: “O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam”  (v. 20b). Os sinais apenas confirmavam o anúncio. Esses sinais são os frutos de amor gerados: a justiça, a fraternidade, a aceitação das diferenças, o acolhimento, a solidariedade, a tolerância.

O Ressuscitado está presente onde o Evangelho é anunciado, vivido e produz frutos de amor! Os sinais são consequências da força indescritível do amor; é essa a energia vital de qualquer comunidade cristã; amor que aumenta à medida em que é experimentado.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Heráclito Noé – Segurança Giroflex

Por Heráclito Noé, Delegado de Polícia e professor de Direito Penal 

Contra fatos não há argumentos. Assaltos, assassinatos, arrastões em residências, sítios e casas de praia.  Policiais são assaltados e diariamente mortos. Na capital e no interior, caixas eletrônicos, bancos e agências dos correios são alvo de roubos e explosões. Índices assustadores e sempre crescentes de homicídios…. Estamos todos em pânico.

Diante disso, como resposta efetiva e bem planejada para resolver esse drama que nos aflige, o governo do Rio Grande do Norte publicou no Diário Oficial do Estado da última terça-feira, 08, a determinação de que, a partir de agora, os veículos que pertencem à Secretaria de Segurança Pública, como as viaturas da polícia e carros dos bombeiros, devem manter o giroflex – luzes intermitentes que ficam em cima das viaturas –  aceso o tempo todo. A medida, segundo o governo, “além de aumentar a visibilidade aumenta a percepção e a sensação de segurança pública por parte da sociedade”.

Tal iniciativa, além de ingênua é inócua, ilegal, ineficaz, produzindo um efeito contrário e, consequentemente, aumentando o caos urbano. Vejamos o que diz o Código de Trânsito Brasileiro no art. 29: VIII – os veículos […] de polícia, além de prioridade de trânsito, gozam de livre circulação, estacionamento e parada, quando em serviço de urgência e devidamente identificados por dispositivos regulamentares de alarme sonoro e iluminação vermelha intermitente […]; O CTB estabelece ainda que “quando os dispositivos estiverem acionados todos os condutores deverão deixar livre a passagem e parando, se necessário” (art. 29, inciso VII, alínea a).

As pessoas quando frequentam as aulas de direção defensiva e legislação de trânsito para obter sua CNH, tomam conhecimento de que ao verificar o dispositivo luminoso ligado em um veículo de emergência, como os carros de polícia, devem dar prioridade na passagem no trânsito. Não podemos banalizar o uso desse equipamento, sob pena de, quando estivermos diante de uma real situação de emergência, os motoristas não obedecerem ao procedimento correto, por acharem que se trata de uma absoluta situação de normalidade.

Todas as localidades que conseguiram reduzir os índices de criminalidade, partiram de análises e planejamentos sérios, balizados por metas muito bem definidas e critérios científicos de avaliação. Foi assim em Bogotá e Medelín, na Colômbia; Valparaíso, no Chile; San Pedro Sula, em Honduras; Juárez, no México; Nova York, nos EEUU; Diadema-SP, Minas, Espírito Santo, São Paulo e Pernambuco.

A Segurança Pública é ciência. E ela tem, necessariamente, que se articular com o planejamento urbano, com a educação, a cultura, saúde, lazer e toda a rede de proteção social. Estabelecer parcerias com instituições privadas, buscar socorro nas universidades, investir na tecnologia da informação.

Segurança pública não é para principiantes. Estamos brincando com coisa séria.  Antes de proteger qualquer outro direito é dever do Estado se preocupar com aquele que é o mais importante: o direito à vida humana, que sem este, todos os demais ficam sem fundamento.

Sinceramente, com medidas atabalhoadas desse tipo não tem equipe de comunicação e marketing, por mais competente que seja, que consiga melhorar os índices de aceitação do atual governo. Além do mais, coloca em situação ridícula e vexatória os nossos heroicos e competentíssimos operadores da segurança do nosso estado, com a edição de repetidas medidas estapafúrdias e irresponsáveis.

Passou o tempo que a gente ficava preocupado com o furto de roupas nos varais, botijões de gás e as bombas das casas de praia. Hoje são arrastões muito bem planejados, com bandidos equipados com armas altamente sofisticadas, que não se contentam “só” em subtrair o nosso patrimônio. Eles estupram e matam com requintes de perversidade. Levam os bens, a dignidade da família, a vida…

Foi-se o tempo em que o policial era respeitado. Hoje eles se transformaram em alvo potencial. Até o Bombeiro Mirim Luan Thales não escapou da sanha criminosa, tendo sido baleado na cabeça por meliantes quando se dirigia ao quartel da corporação, que realiza um trabalho eficaz em matéria de prevenção, visando “salvar os jovens de 12 anos ou mais, das drogas, das ruas, da marginalização, e dar novas oportunidades de aprendizagem, transformando esses jovens em cidadãos do bem”.

Marcos do Val, o brasileiro que dá aulas para o esquadrão da Swat norte-americana, se manifesta sobre o assunto: “No Brasil, a gente tem essa sensação de segurança quando vemos policiais fardados na rua. Em outros países a sensação de segurança vem através das estatísticas que o índice permanece estável ou está em ato decrescente. O que prejudica o Brasil é a impunidade. Conversando com os policiais brasileiros há uma sensação muito grande de enxugar gelo, prender, soltar, prender soltar, tem policiais que já prenderam mais de 30 vezes a mesma pessoa. Causa uma desmotivação muito grande”. No século XVIII o jurista italiano Cesare Becaria, já afirmava: “O que inibe o crime não é o tamanho da pena, mas a certeza da punição”.

Nunca vimos tanta incompetência ao mesmo tempo. O governo não consegue fazer o edital para o concurso da PM. Foi feito, refeito, novamente feito e agora anulado. Em relação à Polícia Civil, esperamos esse edital há três anos. Só dispomos de 28,21% do efetivo necessário. Temos 1453 cargos ocupados, quando a previsão é de 5.150 policiais. PM, Polícia Civil, Itep e Corpo de Bombeiros são coirmãos. Todos têm que ser prestigiados. Não podemos fortalecer um em detrimento do outro.

De que adiantaria colocar polícia nas ruas se todas as estruturas estão sucateadas? O Itep só tem 23 peritos. Não se faz investigação sem a prova técnica. E sem a formalização do inquérito não há como colocar o bandido na cadeia. Temos que fortalecer a inteligência, a polícia científica e, consequentemente, a investigação. É responsabilidade do Estado reprimir a criminalidade, identificando o autor, encaminhando-o à Justiça, para que o delito por ele praticado sofra punição adequada, legal e justa. Quando não cumpre esse papel, aí sim, contribui para a impunidade e por consequência aumenta os números de práticas criminosas.

Portanto, a propalada “sensação de segurança” pode funcionar por pouco tempo como peça publicitária ou arroubo demagógico irresponsável, não como resposta à insegurança generalizada que toma conta do nosso estado. Essa pedagogia da imbecilidade, lembra o caso de um amigo que viajou num feriadão e deixou a luz acesa e a rede armada no terraço, indicando que tinha alguém em casa. Levaram a rede, todos os equipamentos eletrônicos e joias da residência.

Por sinal, GIROFLEX rima com DENOREX, antigo shampoo, cuja propaganda dizia: “Parece remédio, mas não é”. Nada tão parecido.

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o VI Domingo da Páscoa

Neste sexto domingo da páscoa continuamos a leitura do capítulo 15 do Evangelho segundo João, iniciada no domingo passado. A liturgia de hoje propõe os versículos de 9 a 17, os quais podem ser considerados como a explicação e aplicação da alegoria da videira, usada por Jesus nos versículos de 1 a 8, como lemos no último domingo.

É sempre oportuno recordar que esse capítulo 15, fazendo parte do chamado “Testamento de Jesus”, assume uma centralidade ímpar para a vida dos cristãos e cristãs de todos os tempos. Se trata de um ensinamento essencial para a comunidade permanecer fiel aos propósitos de Jesus, não obstante as dificuldades e, ao mesmo tempo, para fazer retornar à essência da fé, quando por ventura se distanciar. É uma resposta para situações de crise, principalmente, quando a identidade cristã estiver ameaçada, seja por fatores externos (perseguição), ou internos (autoritarismo, centralização, divisão, falta de unidade e de amor).

Com a imagem da videira e seus ramos, Jesus exortou simbolicamente os discípulos a permanecerem unidos a ele; agora, ele deixa a linguagem simbólica de lado, e fala claramente que a maneira ideal e única para alguém unir-se a ele é permanecendo no seu amor: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor” (v. 9). Esse não é um ensinamento teórico ou abstrato, mas se trata de algo concreto e real, pois ele mesmo deu o exemplo, amando-os primeiro com um amor inconfundível, igual ao do Pai por eleO parâmetro do amor, o exemplo a ser seguido na comunidade não pode ser outro senão o próprio Cristo, e a comunidade só é autenticamente cristã quando nela são vividas relações de amor tão intensas quando as de Jesus com o Pai.

É indiscutível que o discípulo se torna “ramo unido à videira” permanecendo no amor de Jesus. Mas esse amor, para ser verdadeiro, precisa ser manifestado concretamente, como ele mesmo explica: “Se guardardes os meus mandamentos, permaneceis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor” (v. 10). Os mandamentos (em grego: ta.j evntola,j– tás entolás) aos quais Jesus se refere aqui não são normas nem preceitos, mas é todo o conjunto da sua mensagem e da sua práxis, o que pode ser resumido pela prática do amor, como ele mesmo faz (cf. v. 12), mas é sempre oportuno recordar como ele praticou esse amor: lavando os pés, perdoando, acolhendo, defendendo os humildes e excluídos, curando feridas, e não julgando nem condenando. Foi com essas atitudes que ele guardou os mandamentos do Pai, ou seja, fez a sua vontade, e é assim que a comunidade dos seus seguidores e seguidoras também deve fazer.

O amor vivido e praticado reciprocamente na comunidade tem como primeiro fruto a alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”(v. 11). Não se trata de um simples estado de exaltação emotiva, e sim da expressão de quem encontrou o verdadeiro sentido da vida; e o sentido da vida que Jesus experimentou pessoalmente e propõem aos seus seguidores e seguidoras consiste exatamente na capacidade de entregá-la por amor, porque nem a morte é capaz de destruir uma vida assim. Por isso, na comunidade onde se vive realmente o amor de Jesus, a alegria está presente porque essa atesta a convicção de que o amor do Ressuscitado está sendo vivido.

De mandamentos, Jesus passa a falar de um único mandamento: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei” (v. 12). Aqui está a grande síntese de todo o seu ensinamento e, ao mesmo tempo, a responsabilidade da comunidade: essa não tem outro critério para afirmar sua pertença a Jesus a não ser o amor praticado reciprocamente entre os cristãos e cristãs. Por isso, na conclusão ele irá repetir novamente esse imperativo do amor (cf. v. 17). E esse amor deve ser incondicional e ilimitado, pois tem como parâmetro o amor de Jesus, e esse, por sua vez, é igual ao amor do Pai. É importante ainda perceber que Jesus já nem pede que os discípulos lhe amem, até porque o amor do Pai lhe basta, mas pede que se amem entre si, formando, de fato, uma comunidade de amor. Ele insiste em colocar-se como parâmetro: o amor só vale se for como o seu, ou seja, incondicional e intenso, capaz de dar a vida.

Como parâmetro único de amor para a sua comunidade, Jesus diz o porquê: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos”(v. 13), e ele foi capaz disso, por isso fala com autoridade e propriedade. Além de enfatizar o caráter insuperável do seu amor, aqui ele acrescenta uma novidade, mostrando que na sua comunidade, se o amor for realmente levado a sério, as relações serão de amizade: “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando”(v. 14). Amigoé uma pessoa cara, dileta, especial, amada gratuitamente, em uma relação de igualdade. Ser amigo de Jesus é fazer o que ele manda, e o que ele manda é apenas amar como ele amou. Portanto, nenhum fardo é imposto, mas apenas uma condição: amar à sua maneira.

A igualdade, por sinal, deve ser também um traço característico da comunidade, uma vez que seus membros não são súditos, mas amigos: “Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai”(v. 15). Essa é uma das declarações mais revolucionárias de Jesus em todo o Evangelho. Sua comunidade não é um grupo com dominador e dominados, patrão e servos, mas um grupo de amigos, pessoas que estão juntas em pé de igualdade. A amizade é atestada pela gratuidade e transparência nas relações. O gesto do lava-pés (cf. Jo 13,1-15) já tinha antecipado essa declaração na prática; aqui ele explica o gesto com clareza. Mais uma vez, Jesus reproduz entre os discípulos a sua experiência com o Pai, mostrando que, realmente, é o Pai a fonte originária de tudo o que a comunidade deve viver.

Enquanto o Deus da religião oficial era um soberano distante, juiz, vigilante e vingativo, Jesus interage diretamente com a sua comunidade como um dos membros, por vontade própria. O evangelista resgata essa dimensão porque percebia que, aos poucos, o modelo de comunidade proposto por Jesus estava perdendo espaço para uma estrutura parecida com aquilo que Jesus mais tinha combatido: com divisões, rivalidades, ritualismos e centralização. Na comunidade cristã, marcada por amor e igualdade, devem imperar a confiança, a transparência e a solidariedade.

Em se tratando de um discurso de despedida, não podem falta palavras de envio; porém, a missão no Quarto Evangelho tem como destinatária primeira a própria comunidade. Antes de atravessar qualquer fronteira, o amor deve estar bem enraizado na comunidade. Por isso, Jesus envia, reforçando que é sua a iniciativa do chamado: “Não fostes vós que me escolheste, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para produzirdes frutos e o vosso fruto permaneça. O que então pedirdes ao meu Pai em meu nome, ele vo-lo concederá”(v. 16). Como amigos, os discípulos são escolhidos por ele e designados para produzir frutos perenes de amor e justiça. Assim como já tinha deixado claro na alegoria da videira, a comunidade de discípulos e discípulas só produz frutos se permanecer unida a ele, amando como ele amou. Ele envia, mas não confere nenhuma fórmula ou doutrina para ser ensinada. O objetivo da missão é apenas produzir frutos permanentes de amor.

A permanência do discípulo em Jesus, semelhante à do ramo à videira, garante a sintonia entre ambos, a ponto de a vontade de um ser confirmada pelo outro; essa sintonia só pode ser atestada pelos frutos produzidos. De fato, a produção dos frutos é a confirmação da unidade e, portanto, de que o amor está sendo vivenciado. Isso tudo gera confiança no Pai. Porém, não se trata de uma confiança mágica e ingênua, mas de uma afinidade de sentimentos e projetos. O discípulo e discípula que ama, vive com Jesus uma relação de tamanha transparência, semelhante àquela entre Jesus e o Pai: “Eu e o Pai somos um”(Jo 10,30). Assim, o discípulo que vive o amor e o faz frutificar passa a gozar perante o Pai da mesma afinidade de Jesus. Portanto, tudo o que o Pai faz por Jesus, fará também por aqueles que Jesus escolheu: seus discípulos e discípulas de todos os tempos.

Concluindo, Jesus recorda que, para que tudo isso aconteça, há uma condição indispensável: “Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”(v. 17). Esse imperativo “amai-vos uns aos outros” é uma espécie de refrão no Evangelho de hoje, e o deve ser na vida de todos os cristãos e cristãs. Nada pode substituir o amor entre os seguidores e seguidoras de Jesus. De fato, pode faltar tudo numa comunidade cristã, menos o amor entre os seus membros. É esse amor que atesta se a comunidade é realmente cristã, ou seja, se está unida a Jesus.

 

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

 

 

 

 

A TERCEIRIZAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

*Felipe Faiwichow Estefam

Felipe Estefam

Nos últimos anos, a transferência do desempenho de atividades do Poder Público para sujeitos privados ocorre a todo o vapor. Estudos econômicos apontam que a despesa com terceirização cresceu 82% entre 2005 e 2010.

Em que pese o aumento do espectro de atividades que são repassadas para o setor privado e a consequente redução da abrangência de atividades no aparelho administrativo através de vínculos funcionais, a dúvida que ainda aflige o administrador público é sobre os limites da terceirização.

Acerca dessa questão, assinala-se, primeiramente, que “terceirização” é hoje em dia um vocábulo dicionarizado, neologismo construído a partir de “terciário” (forma erudita para referir-se a “terceiro”).

Pela lógica da terceirização, o terceiro assume as atividades-meio da empresa tomadora, ou seja, as atividades que não constituem o objeto principal da empresa, sem a necessidade de constituição de vínculo trabalhista entre a empresa que terceiriza e os empregados da empresa que oferece a mão de obra.

Bem se percebe, assim, que a terceirização é o processo de gestão empresarial, pelo qual se transfere para terceiros serviços que, originalmente, seriam executados dentro da própria empresa, permitindo a concentração de esforços em segmentos considerados mais relevantes (atividades-fim).

Ocorre, porém, que o critério que aparta as atividade-meio das atividade-fim é impreciso. O que se propõe, pois, é dividir as hipóteses da terceirização, sob os seguintes enfoques: (i) terceirização de mão de obra; (ii) terceirização por contratos de prestação de serviços e (iii) terceirização na prestação de serviços públicos.

A terceirização de mão de obra não se coaduna à Constituição de 1988. Isso porque o artigo 37, II do Texto Constitucional prescreve que o acesso aos cargos públicos, às funções públicas e aos empregos públicos precederá de concurso público.

Acrescente-se a isso que a contratação de temporários não se confunde com a terceirização. Nesta, a Administração trava relação com a empresa e esta que entretém vínculo com o trabalhador, enquanto que na contratação de temporários a Administração estabelece um vínculo direto com o contratado que é recrutado por tempo determinado, a fim de atender a necessidade temporária de excepcional interesse público (artigo 37, IX).

Nessa linha, não pode o Governo deixar de criar cargos e optar pela terceirização de mão de obra sob o argumento de que diminuirá os gastos com a folha de pagamento e de que os terceirizados não se aposentam pelos cofres públicos. Tampouco pode o Governo terceirizar a mão de obra sob o argumento de que a lei que cria os cargos pode demorar, pois, nesse caso, a Constituição faculta a contratação temporária, desde que fundada na Lei federal nº 8.745/1993, alterada pela Lei nº 9.849/1999.

Por sua vez, a terceirização por contratos de prestação de serviços do setor privado é permitida pela Lei federal nº 8.666/1993 (artigo 6º, VIII e artigo 10, II), pela Lei federal nº 12.462/2011 (RDC) e pelo Decreto-Lei nº 200/1967 (e.g.: artigo 10, §1º, alínea “c” e §7º).

A Lei nº 8.666/1993 menciona os serviços que podem ser terceirizados em seu artigo 6º, II, o qual define “serviços” como “toda atividade destinada a obter determinada utilidade de interesse para a Administração, tais como: demolição, conserto, instalação, montagem, operação, conservação, reparação, adaptação, manutenção, transporte, locação de bens, publicidade, seguro ou trabalhos técnico-profissionais”.

Note-se que os limites para esses contratos cingem às atividades materiais acessórias do ente administrativo, tais como os serviços de de conservação, limpeza, segurança, vigilância, transportes, informática, copeiragem e recepção.

A esse respeito, o Decreto federal nº 2.271, de 7 de julho de 1997 é esclarecedor ao prescrever que, no âmbito da Administração Pública federal direta, autárquica e fundacional, poderão ser objeto de execução indireta as atividades materiais acessórias, instrumentais ou complementares aos assuntos que constituem área de competência legal do órgão ou entidade.

O mesmo Decreto estatui que não poderão ser objeto de execução indireta “as atividades inerentes às categorias funcionais abrangidas pelo plano de cargos do órgão ou entidade, salvo expressa disposição legal em contrário ou quando se tratar de cargo extinto, total ou parcialmente, no âmbito do quadro geral de pessoal” (art. 1º, § 2º).

Com o mesmo rigor, a Portaria nº 409, de 21 de dezembro de 2016 proíbe a terceirização relativa a: (i) atividades que envolvam a tomada de decisão ou posicionamento institucional nas áreas de planejamento, coordenação, supervisão e controle; (ii) atividades consideradas estratégicas para o órgão ou entidade cuja terceirização possa colocar em risco o controle de processos e de conhecimentos e tecnologias; (iii) funções relacionadas ao poder de polícia, as de regulação, de outorga de serviços públicos e de aplicação de sanção; e (iv) as atividades inerentes às categorias funcionais abrangidas pelo plano de cargos do órgão ou entidade, salvo expressa disposição legal em contrário ou quando se tratar de cargo extinto, total ou parcialmente, no âmbito do quadro geral de pessoal.

Ainda sobre a terceirização por contratos de prestação de serviços, note-se que a concessão administrativa se inclui nesta categoria, pois é espécie contratual pela qual a Administração Pública é a usuária direta ou indireta do serviço, conforme o art. 2º, §2º, da Lei federal nº 11.079/2004. O seu limite é ditado pelo artigo 4º, III, da mesma lei, o qual proíbe a delegação das funções de regulação, jurisdicional, do exercício do poder de polícia e de outras atividades exclusivas do Estado.

Indo avante, no que tange à terceirização na prestação de serviços públicos, o artigo 175 da Constituição de 1988 admite a execução indireta de serviços públicos, sob regime de concessão ou permissão. Para além dessas hipóteses, é possível a contratação de terceiros para a execução de atividades materiais inerentes à prestação do serviço, haja vista que a Lei federal nº 8.987/1995 faculta a concessionária a contratar com terceiros “o desenvolvimento de atividades inerentes, acessórias ou complementares ao serviço concedido, bem como a implementação de projetos associados” (art. 21, §1º).

Tudo considerado, não se pode negar os avanços normativos e doutrinários, a fim de configurar os termos em que a terceirização pode ocorrer. Entretanto, muitas vezes, não há respostas claras sobre os limites da terceirização na esfera da Administração. Nesse particular, cite-se, por exemplo, o polêmico programa “Mais Médicos”, implementado pelo Governo Federal, assim como a terceirização do serviço “190” da Polícia Militar do Estado de São Paulo e a atividade de emissão de passaportes e controle de imigração em aeroportos.

A agravar essa incompletude, para alguns, o escopo de abrangência da Lei nº 13.429/2017, que permite a contratação de temporários para o desenvolvimento de atividades-meio e atividades-fim, atinge a Administração.
Nesse contexto, as terceirizações inconsequentes ou duvidosas devem ser evitadas. A tarefa difícil, mas importante, do administrador público é descortinar as situações em que é legítimo o trespasse de atividades para o setor privado, verificando se a contratação pretendida está atrelada ao atendimento de uma necessidade administrativa e se tal contratação é medida adequada, necessária e proporcional às circunstâncias fáticas.

É preciso, pois, uma valoração dos interesses públicos envolvidos no caso concreto, considerando, sobretudo, o princípio da razoabilidade e da moralidade administrativa, bem como o princípio da eficiência, a fim de otimizar os meios e resultados, e o princípio da (máxima) transparência em relação a tudo o que concerne à prestação do serviço.

Vê-se que, embora o instituto tenha sido procurado no setor privado, numa tentativa de melhorar a economicidade e a eficiência da Administração, não é possível olvidar que estão em jogo, no setor público, pari passu à busca da eficiência dos gastos públicos, diversos outros valores jurídicos que devem ser observados e concretizados pela decisão administrativa.

* Felipe Faiwichow Estefam é advogado, consultor jurídico, professor de Direito Administrativo na pós-graduação da PUC-SP/COGEAE, doutor e mestre em Direito Público, pela PUC-SP, e mestre em arbitragem, pela Universidade de Rotterdam, na Holanda. É conselheiro do Conselho Superior de Assuntos Jurídicos e Legislativos (CONJUR), da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP).

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o V Domingo de Páscoa

Neste quinto domingo da páscoa, iniciamos a leitura do capítulo 15 do Quarto Evangelho, a qual será continuada no próximo domingo, o sexto do tempo pascoal. O trecho proposto para hoje, especificamente, é Jo 15,1-8. Se trata de um texto rico e profundo, de alto valor para a vida das comunidades cristãs, principalmente quando passam por momentos de crise, com tendências ao desânimo na vivência da fé e dos valores do Evangelho, sobretudo do amor.

Embora esteja inserido no longo discurso de despedida de Jesus na última ceia, é muito provável que esse capítulo, juntamente com o seguinte (c. 16), não tivesse a atual localização na primeira redação do Evangelho, mas estivesse inserido em outra seção, uma vez que o capítulo anterior terminou com a seguinte ordem de Jesus: “Levanta-vos, saiamos daqui” (Jo 14,31b). É improvável que, após esse comando, Jesus tenha continuado o discurso.

Considerando a preciosidade do ensinamento, a comunidade julgou que esse deveria fazer parte do “Testamento de Jesus” (Jo 13 – 17) e, por isso o transportou para o contexto da última ceia. Ora, o que chamamos de “Testamento de Jesus”, iniciado com o gesto inconfundível do lava-pés, é o coração do Quarto Evangelho, a sua parte mais preciosa e essencial para a comunidade manter-se fiel no discipulado ao longo da história. É, portanto, nessa perspectiva que devemos ler o Evangelho de hoje: como um ensinamento imprescindível, constituinte do próprio ser da comunidade cristã e, por conseguinte, da sua identidade. Como estar unido a alguém que não se pode ver, como o Ressuscitado? Esse era um questionamento constante nas comunidades cristãs das origens, principalmente nos momentos de perseguição. O evangelista ensina que se permanece unidos produzindo frutos, ou seja, vivendo o amor em plenitude.

O texto de hoje é marcado pela auto apresentação de Jesus a partir da imagem da videira: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor” (v. 1). Com a afirmação “Eu sou” (em grego: egô eimi), Jesus confirma sua identidade divina; no Quarto Evangelho essa afirmação é repetida diversas vezes, o que se explica pelas seguintes razões: dos quatro, é o Evangelho segundo João o que apresenta mais rupturas de Jesus com o judaísmo e suas tradições; a repetição constante da afirmação “Eu sou” funciona como garantia e confirmação de que, não obstante as rupturas, a divindade de Jesus é a do mesmo Deus que outrora se revelou a Moisés como “Eu sou” (cf. Ex 3,1-15). Portanto, a ação libertadora e salvífica de Jesus é a mesma do único Deus que liberta sempre, Iahweh.

A videira, juntamente com a oliveira e a figueira, está entre as plantas clássicas da tradição bíblica para representar a relação de Deus com seu povo, embora leve vantagem em relação às demais, por gerar a matéria prima do vinho, símbolo da alegria, da felicidade e do amor. Tanto os profetas quanto a tradição sapiencial fizeram uso dessa imagem, referindo-se a Israel como destinatário do amor de Deus (cf. Is 5,1-7; Jer 2,21; Ez 15,1-6; 17; 19,10-14; Sl 80), embora no Antigo Testamento prevalecesse mais a figura coletiva da vinha, a plantação de videiras, do que a figura individual da videira, como Jesus aplica a si.

É importante observar que Jesus não se apresenta simplesmente como videira, mas como “a videira verdadeira” (em grego: hé ampelos hé aletinê);* com isso ele afirma que existem outras videiras não verdadeiras e, por isso, a comunidade pode se enganar. É necessário, portanto, que a comunidade de discípulos e discípulas esteja atenta. É importante também perceber o papel do Pai: ele é o agricultor da videira verdadeira. Ora, esse Pai que assume a função de agricultor, é o mesmo que assumiu a de Pastor, como refletimos no domingo passado. Decepcionado porque os pastores tinham apascentado a si mesmos, deixando perecer o rebanho (Ez 34), o Pai enviou Jesus como pastor bom e belo, ao contrário dos mercenários; assim também os agricultores não cuidaram da vinha como deveriam, e o resultado foi “uvas azedas” (cf. Is 5,1-7). Por isso, o Pai assume pessoalmente a função de cuidar da videira verdadeira, o seu Filho Jesus e, nele, fazer frutificar um novo povo. A imagem da videira era usada também para representar a Lei, o que ajuda também a compreender a ênfase do adjetivo “verdadeira”, ou seja, Jesus contrapõe suas palavras e gestos às prescrições da Lei de Moisés.

O Pai, como agricultor, tem um papel inconfundível: “Todo ramo que em mim não dá fruto, ele o corta, e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda” (v. 2). A última palavra é sempre do Pai. A comunidade joanina passava por diversas crises, e uma dessas era a tendência ao puritanismo e à hierarquização. Essas palavras de Jesus são colocadas como respostas a essas tendências: ninguém pode ocupar o lugar do Pai. A comunidade não é lugar de julgamentos e acusações. É o Pai que, como agricultor único, a seu tempo, corta e poda os ramos conforme a capacidade e disponibilidade de produzir frutos em cada um. E todos, frutíferos ou não, necessitam da ação do Pai.

Se a comunidade está atenta às palavras de Jesus, ela está limpa e, portanto, não necessita de nenhum rito de purificação: “Vós estais limpos por causa da palavra que eu vos falei” (v. 3). Muitos na comunidade joanina insistiam em querer conciliar o ensinamento de Jesus com o conjunto de ritos judaicos, principalmente os de purificação. Isso não é mais necessário. O que purifica é a adesão à Palavra, e isso é atestado pelos frutos produzidos, ou seja, a prática do amor.

A necessidade da permanência em Jesus é vital para a os discípulos e a comunidade: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim” (v. 4). Ora, se durante a experiência terrena de convivência com Jesus, vendo seus sinais e ouvindo suas palavras, os discípulos ainda se “separaram” (traição de Judas e negação de Pedro), após a ressurreição essa permanência se tornava ainda mais difícil, por isso o evangelista recorda essas palavras e ressalta sua importância para a comunidade.

A alegoria atinge seu ápice aqui: “Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (v. 5). Destacado da planta, nenhum ramo pode frutificar. Se a característica dos discípulos e discípulas é produzir frutos, isso só se faz estando unidos à planta. E para que os frutos sejam bons é necessário que a planta à qual devem estar unidos seja verdadeira. É por isso que, sem ele, a comunidade nada pode. São os frutos que atestam se uma comunidade está unida ou não a Jesus. Esses frutos, por sinal, são o cumprimento do mandamento do amor: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). Não há outro critério que ateste a união a Jesus que não seja o amor.

É claro que terá consequências para quem não permanecer com ele, ou seja, para quem não produzir frutos ou, em outras palavras, para quem não viver o seu amor: “Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados” (v. 6). Aqui não está a descrição de um castigo, mas o retrato de uma vida sem sentido; de fato, não tem sentido a vida de quem não ama. A falta de amor faz perecer a existência de qualquer pessoa. Quem ama, consciente ou não, está unido a Cristo; da mesma forma, quem não ama está separado, mesmo que tenha vínculos religiosos ou participe de ritos.

A permanência do discípulo em Jesus, semelhante à do ramo à videira, garante a sintonia entre ambos, a ponto de a vontade de um ser confirmada pelo outro: “Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vos será dado” (v. 7). Não se trata de uma confiança mágica, mas de uma afinidade de sentimentos. O discípulo e discípula que ama, vive com Jesus uma relação de tamanha transparência, semelhante àquela entre Jesus e o Pai: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).

A verdadeira glória a Deus não se dá por meio de ritos ou hinos, mas simplesmente pelos frutos de amor: “Nisto meu Pai é glorificado: que deis fruto e vos tornais meus discípulos” (v. 8). Não se torna discípulo para dar frutos, mas é dando frutos que se torna discípulo. Aqui o evangelista recorda à sua comunidade e às nossas, que o discipulado é algo dinâmico, não é um status; ninguém nasce discípulo, mas se torna discípulo à medida em que vai conduzindo a sua existência pelo amor, ou seja, produzindo frutos. Quanto mais pessoas se tornam discípulos ou discípulas, o amor de Jesus se espalha pelo mundo e, nisso, o Pai é glorificado.

Que possamos unirmo-nos cada vez mais a Jesus, videira verdadeira, deixando-nos podar pelo Pai, para que, produzindo frutos de amor, cheguemos realmente à condição de discípulos e discípulas de Jesus Cristo.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN

Artigo: A crescente presença das motocicletas no rural nordestino

Por:

Joacir Rufino de Aquino.

(Economista, professor e pesquisador da UERN).

José Aldemir Freire.

(Economista e Analista Socioeconômico do IBGE/RN).

 

A imagem do vaqueiro montado em seu cavalo rebanhando o gado no meio da caatinga sempre foi representativa da paisagem do rural do Nordeste. O uso dos jumentos como meio de trabalho e transporte também era uma prática comum no sertão. No entanto, a partir do final do século XX, com a popularização das motocicletas, tem-se assistido um crescente processo de “motorização” do campo nordestino. É o que mostra os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que passou a coletar informações sobre o assunto desde 2008.

Segundo a referida pesquisa, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as motos estão cada vez mais presentes no rural do Nordeste. E, o que mais chama atenção, é que o nível de acesso a esse tipo de veículo tem ganhado um impulso inédito recentemente. Em 2008, a PNAD descobriu que existiam 678.028 domicílios no meio rural da região com pelo menos uma moto. Sete anos depois, em 2015, o número havia saltado para 1.632.897, representando um crescimento significativo de 140,8%.

Entre os estados nordestinos, no mesmo período, os três que apresentaram as maiores taxas de crescimento de domicílios rurais com motocicletas foram: o Maranhão (286,9%), Sergipe (242,4%) e o Ceará (209,8%). O Rio Grande do Norte, onde o número de residências rurais com motos passou de 31.540, em 2008, para 86.185, em 2015, ficou em quarto lugar no ranking, com uma taxa de crescimento de 173,3%. Já os demais estados ficaram abaixo da média regional, ainda assim registrando taxas de expansão superiores a 80%.

Outra forma de visualizar a dimensão do fenômeno destacado é fazendo a comparação entre o número de domicílios rurais com motocicletas em relação ao total de domicílios rurais da região. Por meio dessa conta simples, constata-se que de cada 100 residências rurais do Nordeste 36 tinham ao menos uma moto em 2015. Entre os estados, merece destaque o caso do Piauí, onde mais da metade dos domicílios rurais possuía motos nesse mesmo ano. Quanto ao Ceará e ao Maranhão, a relação era de 41 a cada 100 domicílios. No Rio Grande do Norte, por sua vez, 38% das residências do campo tinham motos em 2015, representando um percentual bastante expressivo frente aos 13% registrados em 2008.

Há que se considerar, porém, que esse processo de crescente “motorização” vem registrando uma desaceleração ao longo dos últimos anos. Em 2009, por exemplo, o número de domicílios no Nordeste com posse de motocicleta subiu 23,1% em relação ao ano anterior. Em 2015 essa variação positiva havia caído para apenas 5%, comparado a 2014. Provavelmente em 2016 e 2017, em virtude da crise econômica, esse percentual de crescimento tenha sido ainda menor. A deterioração do mercado de trabalho e as condições de crédito mais difíceis (oferta menor e juros mais elevados), provavelmente estão na raiz dessa desaceleração do crescimento da “motorização”.

Ainda assim, percebe-se que o rural do Nordeste se converteu em um mercado importante para o comércio de motocicletas em escala nacional. Mas não é só isso. A “motorização” tem tornado a vida da população rural nordestina mais rápida e mais dinâmica, com muitas implicações positivas. Com as motos, os moradores do campo podem morar no “sítio” ou em um assentamento de reforma agrária e trabalhar em atividades diversas no perímetro urbano das cidades próximas as suas comunidades de origem. Além disso, o acesso aos centros comerciais e aos serviços de saúde e educação fica mais facilitado, entre outras coisas. Essa melhoria na capacidade de mobilidade das pessoas pode, inclusive, ser uma das explicações para a redução do ritmo do êxodo rural na região, carecendo de uma análise mais aprofundada a respeito.

É bom lembrar, também, que existe um lado negativo nessa história. Isso porque, paralelamente a expansão da quantidade de motocicletas, registra-se um crescimento preocupante do número de acidentes com vítimas fatais nas áreas rurais nordestinas. Uma parte desses acidentes, conforme noticiado pela imprensa, tem sido causada por colisões das motos em alta velocidade com aqueles mesmos jumentos que perderam a sua utilidade como meio de transporte e foram abandonados à própria nas estradas da região. Uma triste ironia desse novo sertão moderno!

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o IV Domingo da Páscoa

Todos os anos, a liturgia do quarto domingo da páscoa se serve do capítulo décimo do Evangelho segundo João, no qual Jesus se auto apresenta como único, verdadeiro e bom pastor. Por isso, esse domingo foi batizado como o “domingo do bom pastor”. Nesse ano, o texto específico é Jo 10,11-18, versículos que contém, de fato, a apresentação de Jesus como pastor, uma vez que nos primeiros versículos ele tinha se apresentado simplesmente como a “porta das ovelhas” (cf. Jo 10,1-9).

A imagem de Jesus como bom pastor caiu na graça do cristianismo desde os seus primórdios. Tornou-se clássico representá-lo como um pastor carregando uma ovelha nos ombros, imagem bonita, mas que não corresponde exatamente ao que Jesus fala de si no Quarto Evangelho. Ora, aquela bela imagem do pastor com a ovelha nos ombros corresponde ao personagem de Lucas na chamada “parábola da ovelha perdida” (cf. Lc 15,1-7). A imagem de pastor presente no Quarto Evangelho é bem diferente: ele não carrega nem conduz ninguém nos ombros, pois isso é sinal de dependência e privação da liberdade. O pastor verdadeiro é aquele que aponta caminhos, é seguido porque o conhece verdadeiramente e se deixa conhecer.

É importante recordar que a figura do pastor sempre foi muito significativa para o povo de Israel. Desde o Antigo Testamento, essa imagem foi associada a Deus e também aos líderes que assumiram funções de guia e comando sobre o povo, como reis e sacerdotes, principalmente. Devido às infidelidades e descaso desses líderes, essa imagem foi se desgastando ao longo do tempo, sendo alvo de denúncias da parte dos profetas. Uma das denúncias mais fortes foi aquela do profeta Ezequiel: lamentando-se dos pastores de Israel que apascentavam a si mesmos, ao invés de apascentar o (povo) rebanho (cf. Ez 34,1-2), Deus toma a iniciativa de destituí-los e cuidar ele mesmo do rebanho (cf. Ez 34,11).

Jesus atualiza a perspectiva do profeta: sendo ele o único e autêntico pastor, estão destituídos os sacerdotes do templo e os mestres da lei. Suas palavras tiveram grande repercussão porque mexiam com os privilégios da classe dirigente de Israel, composta por funcionários do sagrado, ao invés de pastores verdadeiros. A prova do incômodo causado pelas palavras de Jesus está na reação dos líderes judeus após o seu discurso: uns diziam que ele estava endemoniado (cf. Jo 10,20), outros queriam prendê-lo (cf. Jo 10,39). A mensagem de Jesus foi uma ameaça aos dirigentes que apascentavam apenas a si e às suas economias, explorando o povo ao invés de protege-lo.

Ainda a nível de contexto, é oportuno recordar que esse décimo capítulo do Quarto Evangelho é precedido pelo episódio, também polêmico, da cura do cego de nascença (cf. Jo 9,1-41). É clara a relação entre os dois textos: Jesus abre os olhos para que as pessoas não se deixem enganar pelos falsos pastores, e adquiram lucidez e conhecimento para seguirem ao único e verdadeiro pastor. Isso era inadmissível para um sistema religioso que dominava a partir do medo.

Após apresentar-se como porta das ovelhas, eis que ele se apresenta como pastor: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (v. 11). Jesus fala de modo claro, associando o discurso à práxis; diz que é o pastor bom e porque o é: porque dá a vida por suas ovelhas. A tradução mais justa é “Eu sou o pastor belo”; o evangelista emprega aqui um adjetivo que corresponde mais a belo do que a bom; o belo (em grego: hó kalós) tem um sentido mais profundo: não se trata de uma qualidade, mas da sua própria essência. Significa que Jesus é o modelo único de pastor. Só há um critério para verificar a bondade-beleza do pastor: a capacidade de dar a vida por suas ovelhas. A vida, nos escritos joaninos, está intrinsecamente relacionada ao ato de amar. Portanto, dar a vida significa amar sem limites. Essa é a essência do pastor belo.

Após apresentar-se como pastor, Jesus apresenta a sua antítese: “O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa” (v. 12). O termo mercenário (em grego:  mistotós), que se tornou tão pejorativo, equivale simplesmente a empregado, assalariado. Enquanto o pastor cuida das ovelhas por amor, a ponto de dar a vida por elas, o mercenário cumpre suas funções por pagamento e não chega a arriscar a vida por elas. Em situação de perigo, ele deixa o rebanho a mercê, “pois ele é apenas um mercenário que não se importa com as ovelhas” (v. 13). Aqui, Jesus chega ao ponto alto de sua crítica à hierarquia religiosa de Jerusalém. Aos sacerdotes do templo, não importava a situação do povo, eles pensavam apenas nas ofertas que recebiam.

O lobo representa todas as forças de morte, exploração e injustiça que ameaçam a comunidade e a humanidade de um modo geral. Ao invés de combate-lo, a religião comandada por mercenários prefere aliar-se ou fugir dele. No caso da religião praticada no tempo de Jesus na Palestina, havia conivência e conveniência entre as autoridades religiosas e o império romano, de modo que mercenário e lobo conviviam muito bem, espoliando as pobres ovelhas de Israel. É importante lembrar que todas as denúncias feitas por Jesus às estruturas do seu tempo foram, ao mesmo tempo, alerta para que os seus seguidores não repetissem tais erros.

Na sequência, Jesus explicita como se dá sua relação de pastor com as ovelhas: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem” (v. 14). Esse conhecimento recíproco sempre foi desejado por Deus ao longo da história: conheceu a Israel e deixou-se conhecer por ele, mas Israel rejeitou o conhecimento (cf. Os 4,6), por isso perdeu o seu rumo. Conhecer, na linguagem bíblica, não se trata de um ato cognitivo, mas de uma relação íntima e recíproca, motivada pelo amor, semelhante à relação de Jesus com o próprio Pai: “Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas” (vv. 14-15). A intimidade de Jesus com os seus é atestada pela sua capacidade de amar até dar a vida.

Enquanto os sacerdotes do templo pensavam relacionar-se com Deus através do sangue de animais derramado em sacrifício, Jesus se relaciona através do conhecimento recíproco, ou seja, através do amor. E esse modelo de relação, ele quer universalizar: “Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir” (v. 16a). Aqui está a abertura de horizonte. Por necessidade, o seu pastoreio começa por Israel, libertando o povo dos mercenários (dirigentes religiosos) e enfrentando o lobo (império romano). Mas é necessário, através da comunidade cristã, estender essa missão a todo o universo.

Nenhuma religião pode delimitar o alcance do amor de Deus: também aqueles que não estão no redil pertence a Deus e são amados por ele. Como diz Jesus, também “elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor” (v. 16b). A voz inconfundível de Jesus deve ressoar em todo o universo, expressa na linguagem do amor, jamais através de proselitismos ou ritos. Sobre o “sonho da unidade”, fazemos a seguinte observação: ao invés de um “só rebanho e um só pastor”, a tradução correta seria “um só rebanho, um só pastor”, sem a conjunção aditiva, como no texto grego (mía poímne, eis poimén), ressaltando a unidade entre o pastor e o rebanho, a ponto de serem uma coisa só; o pastor é rebanho, o rebanho é pastor, é essa a relação ideal na comunidade cristã, cujo pastor único é Cristo, mas está tão unido aos seus como a videira aos ramos (cf. Jo 15,1-5). A tradução “um só rebanho e um só pastor” foi usada pela primeira vez por São Jerônimo, na Vulgata, e adotada pela Igreja para ajudar a fundamentar a autoridade papal.

Jesus volta a ressaltar sua unidade com o Pai: “É por isso que o Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente” (v. 17). Ora, é esse amor recíproco e incondicional que fundamenta e sustenta a relação entre Jesus e o Pai, e que é oferecido a toda a humanidade. Ao Pai, agrada a generosidade de Jesus: ele dá a sua vida livremente; a recebe novamente porque sabe que dar a vida por amor é, na verdade, estendê-la, torná-la eterna. A vida eternizada pelo amor se torna indestrutível, resiste até mesmo à morte. Por isso, de modo bastante categórico, Jesus declara: “Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo” (v. 18a). Não se trata de um mero entreguismo, nem de destino, nem de acidente; é consequência de suas escolhas, e sua grande escolha foi viver ilimitadamente o amor, e o amor incondicional não mede consequências.

A expressão “tenho o poder de entregá-la e de recebê-la novamente” (v. 18b) significa a plena consciência de estar amando com um amor igual ao do Pai. Inclusive, foi isso que o próprio Pai lhe pediu: “essa é a ordem que recebi do meu Pai” (v. 18c). Jesus recebeu do Pai a ordem de amar até dar a vida, obedeceu porque viviam uma relação de amor recíproco, a ponto de serem um só, como ele mesmo diz na continuação desse discurso: “Eu e o Pai somos um” (v. 30). É isso que ele pede aos seus seguidores de todos os tempos: viver em profundo amor entre si e com ele, de modo que a comunidade cristã seja “um só rebanho, um só pastor”, ou seja, uma comunidade de amor.

Pe. Francisco Cornelio Freire Rodrigues – Diocese de Mossoró- RN

Pe. Fco. Cornélio Rodrigues – Reflexão para o III Domingo de Páscoa

Neste terceiro domingo do tempo pascal, a liturgia oferece um texto de Lucas para o evangelho, interrompendo uma sequência de leitura do Evangelho segundo João. O texto proposto para hoje é Lc 24,35-48, trecho que é a continuação e conclusão do episódio bastante conhecido dos “Discípulos de Emaús”. Esse dado é, por si, suficiente para nos situar já no seu contexto.

Cronologicamente, esse texto situa-se ainda naquele “primeiro dia da semana”, ou seja, o dia mesmo da ressurreição, marcado por tantas dúvidas, tensões e medos na comunidade, desde a visita das mulheres ao sepulcro, ainda de madrugada, até a caminhada triste dos dois discípulos para Emaús, e a manifestação do Senhor aos Onze, como mostra o relato lido hoje.

É importante recordar que a preocupação do evangelista não é apenas narrar fatos mas, através da sua narrativa, responder às perguntas da sua comunidade: se Jesus de Nazaré ressuscitou mesmo, onde e como encontrar-se com ele? Ora, a essência da pregação apostólica pós-pascal consistia nisso: “Jesus de Nazaré, morto crucificado, ressuscitou”; obviamente, muita gente questionava esse anúncio, pedindo provas, muitos queriam conhecê-lo e encontrar-se com ele.

Esses questionamentos continuam sendo feitos e os Evangelhos continuam dando as respostas. Lucas, de um modo particular, responde com mais precisão: o Ressuscitado pode ser encontrado em qualquer situação e espaço: ele está na estrada, caminhando com os peregrinos desiludidos (cf. 24,13-35), está na mesa durante as refeições e no meio da comunidade reunida. Porém, para reconhecê-lo, é necessário compreender as Escrituras e ter abertos os olhos e a mente para a fé.

Olhemos então para o texto: “os dois discípulos contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão” (v. 35). O evangelista se refere aos dois discípulos de Emaús que retornaram a Jerusalém assim que reconheceram o Ressuscitado, após uma longa caminhada marcada pela tristeza e desilusão. Ao afirmar que o Ressuscitado foi reconhecido ao partir o pão, ensina o evangelista que ele está no cotidiano das pessoas, é alguém de casa, faz parte da família e é acessível.

No encontro com os Onze, os dois que tinham retornado de Emaús relataram toda a experiência e “ainda estavam falando quando o próprio Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: “A paz esteja convosco!” (v. 36). Ora, falar de Jesus é um modo de torná-lo presente; partilhar a experiência com ele é expandir a sua presença. Nesse sentido, a comunidade reunida, mesmo insegura, se torna o lugar privilegiado de encontro com o Ressuscitado, e o seu lugar é o centro; por isso, ele apareceu “no meio” deles. Ora, a comunidade não pode ter outro ponto de referência senão o Ressuscitado. A paz é oferecida como primeiro dom; não se trata de uma simples saudação ou um mero tranquilizante, mas de uma força reconciliadora e regeneradora.

Apesar das evidências da presença do Ressuscitado, o medo continuava, e isso impedia que os discípulos o reconhecessem: “imaginavam ver um fantasma” *(cf. v. 37). *O medo faz distorcer a imagem do Ressuscitado no meio da comunidade. De fantasma a juiz, o Ressuscitado pode ser confundido quando a comunidade não absorve a sua paz, nem compreende as Escrituras. Questionando a comunidade pelas dúvidas (cf. v. 38), Jesus ensina que só reconhece o Ressuscitado quem aceitar Jesus de Nazaré, crucificado e morto: “vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!” (v. 39). Obviamente, com “mãos e pés”, ele faz referência às marcas da paixão; aqui, o relato lucano se aproxima do joanino (cf. Jo 20,24-27), refletido no domingo passado, reforçando que as dúvidas de Tomé são, na verdade, de todos os discípulos.

O evangelista alerta que tanto o medo quanto a euforia paralisam a comunidade e impedem sua experiência com o Ressuscitado: “Mas eles ainda não podiam acreditar, porque estavam muito alegres e surpresos” (v. 41a); é preciso buscar um equilíbrio de modo que o Ressuscitado não passe despercebido com sua identidade. É ele mesmo quem quer ser encontrado e reconhecido pela comunidade; por isso, pede algo para comer (cf. v. 41b). Além de evidenciar ainda mais a sua identidade de ser vivente, comendo ele reforça a comunhão com os discípulos.

Tendo ele mesmo pedido, “deram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele o tomou e comeu diante deles” (vv. 42-43). O Ressuscitado come o que lhe dão, e se solidariza com todos os famintos e necessitados de pão; esse é mais um dos significados oferecidos pelo evangelista, além da intenção de evidenciar que o Ressuscitado é uma pessoa viva e concreta. Além de querer provar a fé, Jesus quer também testar a capacidade de solidariedade para com os necessitados na sua comunidade. Mais tarde, quando começaram as perseguições, o cristianismo adotou o peixe também como um símbolo cristológico-eucarístico, pois do nome peixe em grego (ikthís) forma-se o acróstico: “Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador”, uma verdadeira profissão de fé.

No encontro com o Ressuscitado não podem faltar refeição e catequese, partilha do pão e da palavra; esses elementos são imprescindíveis na comunidade cristã. Nesse episódio, há uma inversão na ordem: enquanto na cena dos “Discípulos de Emaús” a catequese precedeu a partilha do pão, aqui acontece o contrário, ou seja, a catequese vem depois da refeição. Assim, podemos concluir que evangelista não preconiza um rito, mas oferece à comunidade quais são os seus elementos essenciais constitutivos: a partilha do pão e da Palavra.

A interpretação e compreensão adequadas das Escrituras são essenciais para a vida da comunidade. Essa é uma das principais preocupações de Lucas, ao longo das suas duas obras (Evangelho e Atos). Jesus é o intérprete e princípio interpretativo de toda a Bíblia. A Lucas, diferente de Mateus, por exemplo, não interessa colher citações avulsas, mas a Escritura em seu conjunto: Lei, Profetas e Salmos (v. 44). Desde o princípio, a Palavra de Deus revelada nas Escrituras aponta para o triunfo da vida e a derrocada de todos os projetos de morte. A ressurreição de Jesus é o ponto culminante dessa trajetória. Sem a Palavra, a comunidade perde o rumo da história.

Dos Discípulos de Emaús o evangelista diz que se abriram os olhos (cf. 24,31); dos Onze ele diz que “Jesus abriu a inteligência dos discípulos para entenderem as Escrituras” (v. 45). A tradução mais correta seria “abriu a mente”. Essa é também uma exigência para as comunidades de todos os tempos: as Escritura, se bem compreendidas, abre mentes, olhos e horizontes, faz parte do processo de conversão contínuo pelo qual deve passar toda comunidade cristã.

Um dos temas mais caros a Lucas, o universalismo da salvação, é evidenciado pelo próprio Ressuscitado: “no seu nome, serão anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém” (v. 46). Não apenas Israel, mas todos os povos são destinatários da paz e do amor do Ressuscitado. A reconciliação da humanidade com Deus é acessível a todas as pessoas, de todos os lugares e em todos os tempos; ninguém pode ser excluído dessa oferta de amor.

Surge, portanto, um novo tempo, uma nova etapa na história que começa por Jerusalém, mas não por privilégio, e sim por necessidade. Quanta reviravolta na história: a terra dos considerados justos é a mais necessitada de perdão! Foi Jerusalém com suas forças de poder que matou Jesus; o mal estava radicado lá e amparado pela religião. São as pessoas religiosas as primeiras necessitadas de conversão.

Dos discípulos e da comunidade cristã de todos os tempos, Jesus pede apenas uma coisa: “Vós sereis testemunhas de tudo isso” (v. 48). Em Lucas, Jesus não confere uma doutrina nem uma regra; não envia os discípulos como pregadores e batizadores, como em Mateus, mas como testemunhas, o que é muito mais comprometedor e exigente. Ser testemunha (em grego: mártis) implica a coragem de dar a vida.

Somos, portanto, hoje e sempre, interpelados pelo evangelista Lucas a fazer um esforço constante para reconhecer o Ressuscitado em nosso meio, com disponibilidade para a partilha e mente aberta para o conhecimento das Escrituras. O critério de reconhecimento de uma comunidade que vive à luz do Ressuscitado é a disponibilidade dos seus membros para o testemunho.

Pe. Francisco Cornelio F. Rodrigues – Diocese de Mossoró-RN