sábado , 24 de agosto de 2019
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Clara é uma das Margaridas que viajou do RN até Brasília para Marchar / Arquivo Pessoal Clara Medeiros
Clara é uma das Margaridas que viajou do RN até Brasília para Marchar / Arquivo Pessoal Clara Medeiros

As potiguares marcharam!

Kátia Rodrigues, 38, nunca havia saído do RN. Sua primeira viagem interestadual foi histórica: um enfrentamento direto das mulheres ao governo Bolsonaro. Kátia, percorreu, junto a centenas de mulheres potiguares, mais de dois mil quilômetros para ir a Brasília participar da sexta Marcha das Margaridas.

A Marcha das Margaridas, realizada desde 2000, é considerada a maior ação conjunta de mulheres trabalhadoras da América Latina. A atividade é coordenada pela Confederação Nacional de Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag), suas 27 federações estaduais e mais de quatro mil sindicatos filiados, e construída em parceria com os movimentos feministas, centrais sindicais e organizações internacionais. Nesta edição, mais de 100 mil mulheres de todas as partes do Brasil se reuniram– em sua maioria, mulheres agricultoras, indígenas, marisqueiras, pescadoras, quilombolas. São as mulheres do campo, das águas e das florestas.

Kátia, que é assentada em Santarém, na zona rural do município de Afonso Bezerra, estava animada para a viagem. Com ela, moram mais 23 famílias. As mulheres da comunidade se organizam no Movimento de Mulheres Camponesas, o MMC. Kátia conta que na comunidade é difícil plantar, por falta d’água. O terreno foi assentado pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mas não foi dada a estrutura necessária para o plantio. “No inverno colhemos feijão, melancia e caju”, afirma ela. É a água da chuva que faz as plantas brotarem. Pois a água que a comunidade tem para o uso diário é apenas “meia pipa do exército para um mês, para fazer tudo, cozinhar, lavar”, conta.

Kátia Rodrigues em sua comunidade rural, Santarém. Crédito: Acervo Pessoal.

Apesar da dificuldade para plantar, ela se identifica como agricultora. Kátia nasceu em outro assentamento rural, o Salinas, localizado no município de Ipanguaçu, cidade vizinha a Afonso Bezerra. “Minha infância foi muito boa, cresci em uma comunidade rural. Não comia comida com veneno, tinha liberdade para brincar na terra, tomar banho de lagoa. Na minha infância não chegava energia elétrica, não existia isso de telefone, nem pão eu conhecia. Mas guardo essa época no meu coração”, nos conta. Assim ela também pode criar seu filho mais novo, de 10 anos, com a tranquilidade da zona rural em que vivem.

Feminismo

Com o movimento feminista camponês e popular, Kátia diz ter aprendido a ganhar autonomia emocional e independência financeira. “Antes era ‘marido, me dê isso’, ‘marido, me dê aquilo’, agora eu sei que posso trabalhar, ter meu próprio dinheiro, me organizar para ter as minhas coisas”, afirma.

Junto a ela, viajou a jovem Clara Medeiros, 27, também do MMC, mas com uma história de vida bastante diferente. Clara nasceu na cidade de Açu e passou a primeira infância na comunidade de Pataxó, um distrito rural da cidade vizinha, Ipanguaçu. Aos oito anos ela foi com a mãe e a irmã para a capital, onde viveu até os dezoito. “Até então minha mãe vivia para as filhas e para o marido, quando ela se separou ficou desnorteada e foi buscar a vida em Natal, para se emancipar”, nos conta Clara. Em Natal, Clara viveu toda sua adolescência. Até que uma nova mudança na vida de sua mãe, gerada pela falência da empresa em que trabalhava, a fez retornar para Pataxó.

Na cidade a vida não foi fácil. Sua mãe tinha empregos precários e elas viviam de aluguel, o que fazia com que elas precisassem sempre mudar de endereço. Clara diz que é traumatizada por mudanças. Mas a para Pataxó lhe parece ser a última, de lá ela não quer mais sair. Fincou raízes.“No começo foi muito difícil, eu resisti muito, pois não tinha mais identidade rural, havia passado boa parte da minha vida na cidade” afirma Clara. Foi o MMC que a fez se perceber como mulher do campo e ter orgulho de sua origem.

Morando em Ipanguaçu, ela se formou em História na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), no campus avançado de Açu. Nesse espaço, ela participou do movimento estudantil e começou a se identificar como mulher feminista. Durante a graduação, Clara engravidou, passando pelas dificuldades de ser uma mãe estudante. Na faculdade, foi convidada por uma amiga a conhecer o MMC. No movimento conheceu um feminismo de perspectiva camponesa e popular, um feminismo que tinha a ver com sua história e vivência.

Clara agora estuda Agroecologia e sabe que seus saberes vão ajudar a comunidade de Pataxó, onde vive. Crédito: Acervo Pessoal.

“É um feminismo que está próximo da nossa realidade, um feminismo de mulheres reais, porque o feminismo liberal constrói um ideal de mulher muito vinculado à liberdade individual, a liberdade do corpo. O feminismo camponês pensa de uma forma mais ampla, pensa a liberdade coletiva, em meio a uma sociedade racista, capitalista, patriarcal, que nos oprime”, ela nos explica.

O movimento, segundo ela, cria novas referências do que é ser feminista, possibilitando uma identificação das mulheres do campo, que tem outras vivências do que é ser mulher, que vivem a realidade rural desde crianças e estão fortemente sob o subjugo patriarcal. Com a formação e organização feminista elas podem se emancipar enquanto mulheres e também como cidadãs, dando uma nova perspectiva de vida no campo, destaca Clara.

A partir de outras discussões feitas dentro do movimento: produção de alimentos sem agrotóxicos, respeito ao meio ambiente e soberania alimentar, Clara foi motivada a cursar Agroecologia. Hoje ela faz a segunda graduação no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) no campus de Ipanguaçu, a poucos quilômetros de sua comunidade, onde se sente realizada. Sabe que seu conhecimento pode voltar para sua comunidade, que tem uma forte tradição de produção alimentar com pesca, criação de vacas leiteiras e de pequenos animais e agricultura irrigada, pois no terreno há um açude de mesmo nome.

Clara, que também participou da Marcha das Margaridas pela primeira vez, sabe que o momento é de soma de força e unidade entre as mulheres. “Apesar da conjuntura política e econômica, a marcha é um momento de gás para a luta, um momento de radicalização, para que a gente crie frentes combativas, para que a gente possa estar diretamente dialogando com o povo, mostrando nosso projetos e dando o recado ao governo que não estamos parados, que não estamos de brincadeira, que vamos bater de frente”.

História

A Marcha das Margaridas traz o legado da lutadora Margarida Alves, sindicalista rural paraibana brutalmente assassinada, em agosto de 1983, por sua atividade política. Quebrando as barreiras de gênero, Margarida ocupou por mais de uma década a presidência do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, onde vivia. Líder sindical influente, Margarida Alves incentivava as trabalhadoras rurais a buscarem a garantia de seus direitos. Ela tinha uma frase marcante que até hoje é entoada: “prefiro morrer lutando, do que morrer de fome”. As mulheres que marcharam até Brasília – chamadas popularmente de margaridas e também de “as decididas” – têm uma nova frase para entoar: “eles não sabiam que Margarida era semente, seguiremos nessa marcha por um mundo diferente”.

Edição: Marcos Barbosa

Brasil de Fato