sexta-feira , 24 de janeiro de 2020
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ABUSOS DA FÉ | UM ANO DO CASO JOÃO DE DEUS

“Ele me disse que a energia sexual era uma energia de cura. A energia da vida. Eu estava completamente fragilizada, os médicos não tinham dado nem três meses de vida para o meu pai. Ele era a única pessoa que dizia que o curaria. E eu acreditei.”

A voz de Ana Paula São Tiago oscila entre a indignação e a dor ao falar sobre os abusos que sofreu durante os sete meses em que morou em Abadiânia (GO). Quase 15 anos após ser estuprada e assediada repetidas vezes por João de Deus, ela faz questão de frisar que não sente mais medo em denunciá-lo: agora o suposto médium está preso e os crimes que cometeu contra ela e outras centenas de mulheres são de conhecimento público.

Há exatamente um ano, no dia 7 de dezembro de 2018, uma reportagem baseada em depoimentos de dez mulheres que acusaram João de Deus de praticar diversos tipos de violência sexual foi publicada pelo jornal O Globo e pelo Programa do Bial. Nos dias seguintes, a redoma que protegeu o líder espiritual por décadas foi quebrada por uma avalanche de denúncias nacionais e internacionais.

Hoje, João Teixeira de Faria, nome real do médium, responde por onze denúncias de crimes sexuais feitas pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO).

Famoso pela realização de “cirurgias espirituais”, o líder religioso já atendeu políticos e celebridades do mundo inteiro e está detido desde 16 de dezembro do ano passado no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia, na região metropolitana da capital de Goiás.

Segundo informações do MP, o médium violentou pacientes espirituais ao longo dos últimos 45 anos, e 319 mulheres procuraram a Promotoria para denunciá-lo após veiculação das primeiras reportagens que começaram a expor os crimes cometidos por João de Deus.

Dessas, 194 formalizaram as acusações e ao menos 15 alegam terem sido vítimas antes dos 13 anos. Os relatos são de mulheres de todas as faixas etárias, com uma maioria de denúncias formalizadas de vítimas entre 18 e 30 anos. Teixeira de Faria nega todas as acusações.

Assim como ocorreu com muitas outras mulheres, o medo de retaliação fez com que Ana Paula formalizasse sua acusação apenas em abril deste ano, após ter certeza que João de Deus estava realmente preso. Ela se orgulha de conseguir reunir forças para continuar a expor aquele que define como a pessoa mais perversa e manipuladora que já conheceu em sua vida.

“O João de Deus não é de Deus. Você acha que está lidando com o novo Chico Xavier, mas está lidando com um monstro”, resume.

AVISO: Essa reportagem contém fortes depoimentos relacionados a episódios de abuso sexual.

 

Agência Brasil