quinta-feira , 15 de novembro de 2018
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A CASINHA DO VAQUEIRO SALES 

Benedito vasconcelos Mendes

Benedito Vasconcelos Mendes

A primeira casa de taipa  que conheci em detalhes foi a do vaqueiro do meu avô, conhecido por “Sales da Fazenda Aracati”, a qual me causou uma excelente impressão pela sua simplicidade, limpeza e beleza. Tudo muito limpo e em seu devido lugar. O interior da casa transmitia um ar de serenidade e paz. Dona Lourdes, mulher de Sales, era muito trabalhadeira e  caprichosa e tinha muito gosto em manter a casa em ordem. Sua filha mais velha, Ritinha, à época que entrei pela primeira vez em sua casa, tinha cerca de 12 anos de idade, ajudava a mãe na arrumação da casa e nos trabalhos da cozinha. Seu filho Totonho tornou-se meu maior amigo por ocasião das minhas férias escolares, que sempre passava na Fazenda Aracati, de propriedade do meu avô. Ele tinha, quando o conheci, aproximadamente 14 anos. Tínhamos mais ou menos a mesma idade. Dona Lourdes cuidava,  além da casa, das cabras, das galinhas, dos dois cachorros de pegar gado, do gato e do papagaio.

   A  casa era de taipa, alpendrada, de dois quartos, coberta de palha de carnaubeira, de chão batido e não tinha luz elétrica. No terreiro, um frondoso e velho  Juazeiro, onde o vaqueiro Sales amarrava seu garboso cavalo “Relâmpago”.
Em frente à porta, crescia um pé de pinhão roxo, plantado para livrar os habitantes da casa, do “Mau Olhado”. Para proteger a família contra raios, na porta da frente tinha uma cruz feita de palha de carnaubeira,  benta pelo Padre, por ocasião da Santa Missa do Domingo  de Ramos, durante a Semana Santa. Na parede, ao lado da porta, estava uma ferradura, para dar sorte. Pendurado na cumeeira, no meio da sala do oratório, observava-se um rabo de raposa seco, para espantar morcego.                                                             

  O alpendre cobria as duas laterais e a frente da casa. No alpendre da frente (copiá), situava-se um banco de pau roliço (estirpe de carnaubeira sobre duas forquilhas de aroeira), uma rede de malha de fibra de caroá, uma balança de corda (com pratos de madeira pendurados por longas cordas, apropriada para pesar sacos de algodão), duas colmeias de abelha jandaíra e algumas latas penduradas com plantas. O chapéu e o gibão de couro, a cela, os arreios e o chicote de pimba de boi ficavam suspensos em um torno de armar rede, no alpendre lateral. Várias gaiolas de talo de carnaúba, com canário-da-terra, cabeça-de-fita, graúna, sabiá-laranjeira, corrupião, asa branca e outros passarinhos ficavam penduradas nos caibros do alpendre. A frente da casa era de porta e janela, feitas de tábuas de imburana, não pintadas.  A porta da frente era do tipo meia-porta, ou seja, porta partida ao meio. Durante o dia, a banda de cima ficava aberta e a de baixo fechada, com tramela de madeira. No alpendre da frente da casa, ficavam os banquinhos das mulheres fazerem chapéu de palha de carnaúba. Eram bancos de pernas curtas, para evitar que  as mulheres, usando vestido, mostrassem as pernas.

A sala da frente, onde ficava o oratório, exibia na parede as fotografias do Beato Zé Lourenço e do Padre Ibiapina (foto do quadro “óleo sobre tela”, de autoria do pintor paraibano Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo) e, dentro do santuário, as imagens de madeira do Padre Cícero e de São José (o Santo das chuvas). Na parede via-se também um terço e um quadro de vidro, com a oração manuscrita do Responso de Santo Antônio (oração rezada para se reaver objetos perdidos ou roubados).

As duas camarinhas eram interligadas por uma cortina de tecido. Lá dormiam, em redes, o  casal dono da casa e  os  oito filhos (crianças e adolescentes), cinco do sexo masculino e três do sexo feminino. Os dois quartos se comunicavam com o estreito corredor por cortinas de chita colorida, com temas florais. No canto de cada quarto, no chão, havia um penico de barro, que na manhã do dia seguinte eram recolhidos e a urina e fezes despejadas na latrina. Em cada quarto havia também um caritó, para guardar pequenos objetos e utensílios domésticos, como lamparinas, caixas de fósforos, corrimboque, agulhas e carretéis de linha para coser, cachimbo, fumo de rolo, espingarda de caça, etc. Da parede do corredor,  pendiam um uru de palha e uma cesta  de cipó.

Na  cozinha localizavam-se um fogão a lenha, com trempe para três panelas de barro, e uma mesa de pau-branco, não envernizada, com seis bancos, com tampos de couro cru. Ao lado do fogão, sobre um suporte de madeira, tinha uma grande tina de pau-branco com água para lavar as louças. No chão, um pilão deitado de duas bocas, feito de miolo de aroeira. Presos a tornos de madeira, via-se o abano, a urupema, a colher de pau, duas cuias e  uma cuité.  Do caibro sobre o fogão a lenha, descia  uma corda de tucum com um “gancho de 5 pontas”, para espetar os alimentos salgados (linguiça, toucinho, tripa de porco, tripa de boi, coalho de boi  e carne do sol). O coalho era usado para coalhar o leite, na preparação do queijo de coalho. A corda que sustentava o gancho atravessava o centro de uma cuité com a boca para baixo, que impedia a descida de algum rato, que por ventura existisse na cobertura da casa. O gancho ficava alto do solo e sobre o fogão, para evitar que o gato comesse estes alimentos e, ao mesmo tempo possibilitava, que os mesmos fossem defumados  pela fumaça que saía do fogão. Na cozinha, também ficava a cantareira, com dois pequenos potes de água para beber. Os potes tinham as bocas cobertas por tecido de algodãozinho com elástico e por tampas de madeira. Sobre uma forquilha de Angico com três pontas, repousava a quartinha de água para beber, que era levada à noite para o alpendre e depois para o quarto. No quintal, confrontando com a janela da cozinha, situava-se um girau de varas de marmeleiro, para secar as louças de barro (panelas, travessas, alguidares e cuscuzeira).

Ao todo, a casa tinha duas portas, a porta da frente e a porta dos fundos, e quatro janelas, a da frente, a da cozinha e dois quartos.   
                                                                                                           
 A cerca do quintal era de  varas de marmeleiro. No quintal ficavam a latrina a céu aberto, o banheiro, o chiqueiro das galinhas e o girau de secar panelas, tudo feito com varas de marmeleiro. A latrina e o banheiro tinham portas feitas de talos de folhas de carnaubeira e eram revestidos com palhas,  para não se ver quem estava dentro.

A porta da cozinha (porta dos fundos) e as janelas só eram fechadas por dentro, com trancas  e tramelas de madeira, pois somente a  porta da frente tinha fechadura. As portas e janelas da casa não tinham ferrolhos. No banheiro a céu aberto tinha uma grande jarra de boca larga (pote de barro grande) com água para o banho do pessoal da casa. A água era trazida em ancoretas, em lombo de jumento, de uma cacimba feita na areia do leito do Rio dos Patos. As pessoas tomavam banho de cuia, ao ar livre, sobre uma grande laje de pedra calcária. Parte do quintal era sombreada por uma frondosa pitombeira. No quintal, no pé do muro, repousava o caco (grande alguidar de barro, pouco profundo) de torrar café. O sabão (sabão da terra), usado para o asseio da família e para a lavagem de roupa e das louças, era feito na fazenda por Dona Lourdes, que utilizava para a sua fabricação, cinza e óleo de oiticica.